Folha de S. Paulo
Candidato do PL foi à Globo e disse que não
vai fazer o que o mercado está pedindo
Além de contas equilibradas, Flávio não
conseguiu defender democracia nem soberania
Ô direitista, não precisa pular a coluna.
Hoje o tema te interessa.
Não vou falar dos 145 mil mortos por falta de vacina durante a pandemia. Não vou falar sobre a tentativa de golpe que quase deu certo e que, se tivesse dado certo, teria matado milhares de opositores de Bolsonaro usando as armas da República. Não vou falar do fato evidente de que os R$ 134 milhões negociados por Flávio com Vorcaro seriam recompensa pela licença que os bolsonaristas deram para Vorcaro se tornar banqueiro, bem como pelos bilhões que os governadores bolsonaristas deram de dinheiro de aposentados do Rio de Janeiro e do BRB para o Banco Master. Não vou falar da conspiração bolsonarista pelos tarifaços nem da tentativa de melar a eleição presidencial usando uma superpotência estrangeira.
Pode ficar tranquilo, vou falar do único tema
que a direita discute utilizando o conceito adequado de risco: ajuste fiscal.
Ninguém no mercado acha que o risco de crise
fiscal é zero até o dia em que o país quebra. Mas é assim que os ricos
brasileiros medem o risco que o bolsonarismo representa para a democracia: só
admitirão que a democracia corre risco quando os adversários da ditadura de
direita já estiverem no pau-de-arara por pelo menos seis meses. E olhe lá.
Enfim, Flávio
Bolsonaro foi ao Jornal Nacional e disse que não vai fazer os ajustes
que o mercado está pedindo. Disse
que vai dar aumento real para o salário mínimo, que não vai desindexar os
programas sociais do salário mínimo, que não vai mexer na Previdência. Disse
inclusive que vai cortar impostos, o que agravaria o desequilíbrio fiscal.
Também disse que não acredita no aquecimento
global. Mas calma, já falei que só vou falar de coisas que você, direitista,
acha importantes.
O fato de Flávio no JN ter contrariado sua
equipe econômica, em si, não é grave: sua equipe econômica é uma porcaria.
Se alguém na Faria Lima declarar apoio
a Flávio
Bolsonaro, tenha certeza: é gente da série D do mercado querendo outra
boquinha como a que o bolsonarismo ofereceu a Daniel Vorcaro. São
patrocinadores em potencial da continuação de "Dark Horse",
"The Revenge of Little Banana".
O problema, para Flávio, é que no JN ele
aumentou o preço de fazer o ajuste que já prometeu à Faria Lima que fará. Os
dois presidentes impichados em nossa história começaram o governo fazendo o que
tinham prometido que não fariam.
A única medida de ajuste que Flávio anunciou
no JN foi combate à corrupção. Pois é. O Flávio. Combatendo a corrupção. Enfim.
Mesmo se a proposta fosse séria, seria
insuficiente. Pergunte para qualquer economista: não é a corrupção que explica
nossa taxa de juros, a estagnação de nossa produtividade, o déficit da
Previdência ou a trajetória da dívida pública.
E sim, esses assuntos deveriam ocupar uma
parte maior de nosso debate público. Eu topo um ajuste fiscal equânime na
distribuição de sacrifícios. Mas não contem comigo para discutir economia
enquanto anistia aos golpistas, golpe no STF e
submissão aos Estados
Unidos estiverem sendo discutidos na sala ao lado.
Gosto de contas públicas equilibradas, mas
gosto mais de democracia e de soberania nacional. No Jornal
Nacional, Flávio não soube defender nenhum dos três. Quem sabe agora você,
leitor direitista, comece a se preocupar com os outros dois.

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