O Estado de S. Paulo
Os Estados Unidos elaboraram um plano para
tornar a Venezuela sua fornecedora estratégica de petróleo. A iniciativa cria,
na prática, monopólio para empresas americanas sobre as maiores reservas de
petróleo do mundo, e busca lhes proporcionar segurança política, regulatória,
jurídica e financeira.
A Venezuela tem 303 bilhões de barris, mas produz só 1,25 milhão por dia, menos da metade do que antes de duas décadas e meia de destruição de valor e sucateamento sob o regime chavista. O risco de confiscos de pagamentos por credores e desapropriação de ativos por um futuro governo venezuelano tem afugentado as petroleiras americanas. É o que o governo Trump tenta endereçar.
O programa protege as receitas das vendas de
petróleo venezuelano nos EUA contra credores. O novo governo apoiado por
Washington alterou a legislação para dar mais autonomia às empresas privadas,
reduzindo o controle da estatal PDVSA.
Os EUA negociam direitos de longo prazo sobre
campos para companhias americanas. Donald Trump diz que o arranjo assegura
“controle majoritário” dos EUA sobre mais de 65 bilhões de barris. É uma
definição política, não jurídica: o petróleo continua venezuelano.
A Chevron já se prepara para ampliar suas
operações. A SLB, maior empresa de serviços e tecnologia para a indústria de
petróleo do mundo, moderniza os precários bancos de dados geológicos da PDVSA.
LEGITIMIDADE. Mas Exxon e ConocoPhillips,
expropriadas por Hugo Chávez, continuam ressabiadas. A Venezuela ainda precisa
provar que contratos assinados hoje sobreviverão ao próximo governo e que
tribunais, câmbio e regras de propriedade serão previsíveis.
A guerra com o Irã deu nova relevância à
estratégia. O petróleo venezuelano é pesado, justamente o tipo para o qual
muitas refinarias da Costa do Golfo americano foram projetadas. Durante
décadas, elas receberam grandes volumes da Venezuela e, depois das sanções,
passaram a buscar alternativas, como petróleo pesado do Oriente Médio. A
retirada do mercado desse óleo iraniano eleva a competição por outros óleos do
mesmo tipo no Golfo Pérsico.
O plano tem boas chances de produzir aumento
inicial da oferta para 1,5 milhão ou 1,7 milhão de barris por dia. Chegar
novamente perto de 3 milhões é mais difícil. Exigiria dezenas de bilhões de dólares,
infraestrutura e anos de estabilidade jurídica.
Trump tenta exercer poder com política energética: retirar petróleo da órbita da China e trazê-lo para a matriz energética americana. O maior risco está na abordagem. Quanto mais o acordo parecer uma nova forma de colonialismo, maior a contestação futura de sua legitimidade na Venezuela.

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