Folha de S. Paulo
A opção pela mentira e a dissimulação expõe
seus autores a se verem despidos da virtude fabricada
Lula e Flávio não respondem honestamente ao
público nem afastam os fantasmas que os rodeiam
É direito
de todo cidadão, eleitor ou não, cobrar franqueza e objetividade de
governantes ou de qualquer um que postule o ofício da representação e, assim,
pretenda ter poder de decisão sobre a vida da coletividade —em variados graus.
A escolha pela vida pública é livre; já seu
exercício implica obrigações entre as quais está no topo da lista a permanente
prestação de contas à sociedade dona dos votos e do dinheiro que sustenta a
atividade.
A opção pela mentira, a meia-verdade e a dissimulação é caminho de risco; expõe seus autores ao constrangimento de se verem despidos da virtude fabricada.
O enunciado, de tão óbvio, soa a platitude.
Anormal é a desfaçatez com que candidatos à Presidência da República fazem da
transgressão ao princípio básico uma banalidade. Não só escolhem ao que (não)
responder como se dão ao desfrute de se indignar, mentir, enrolar, tratar
perguntas como impertinência ou incompetência de entrevistadores.
Reações que tanto revelam o autoritarismo dos
espíritos como podem evidenciar a ausência de explicações plausíveis ou conter
a combinação das duas hipóteses: culpa aliada à prepotência. Invertem aí o
preceito da submissão de suas conveniências ao direito da população ao
conhecimento de tudo o que lhes diz respeito. Direta ou indiretamente.
Luiz Inácio da Silva (PT) e Flávio
Bolsonaro (PL)
escolheram explorar os escândalos que rondam o adversário e reivindicam atenção
aos planos de governo. É do jogo, mas se refugiam em evasivas quando
confrontados com as respectivas vergonhas, contradições, imprecisões e vazios
de ideias.
O presidente recorre ao velho truque de se
pôr no lugar daquele que nada vê e nada sabe sobre o que se passa no seu
entorno. O senador insiste em dar por superada uma questão que ficará em aberto
enquanto ele não explicar para onde foi o dinheiro recebido do
"irmão" Daniel
Vorcaro.
Ambos embromam, não respondem honestamente ao
interesse do público nem afastam os fantasmas que os rodeiam.

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