terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O retorno da política :: Vladimir Safatle

Em abril, a Europa será palco de duas importantes eleições: o primeiro turno da eleição presidencial francesa e a eleição legislativa na Grécia. Ambas ocorrerão sob o signo do agravamento da crise socioeconômica na zona do euro e do esgotamento de modelos liberais de governo.

A França, sob Nicolas Sar-kozy, iniciou um dos mais impressionantes processos, na sua história recente, de desmonte do serviço público, de restrição orçamentária e de redução de impostos para ricos.

Sarkozy havia prometido "aumentar o poder de compra das famílias", diminuir o desemprego por meio da flexibilização do trabalho e colocar a economia francesa em rota de crescimento. Nada disso foi feito. Em seu lugar, o governo francês divertia-se em expulsar ciganos e criar o Ministério da Imigração e Identidade Nacional, enquanto inúmeros estudos da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) demonstravam a importância da imigração como motor de sustentação da economia europeia.

A situação política francesa parecia o pior dos mundos. Enquanto Sarkozy e François Hollande, candidato do PS (Partido Socialista), digladiam-se na conquista do primeiro lugar, cresce o inacreditável. O FN (Front National), um partido xenófobo, racista, representante da pior tradição da extrema-direita europeia, chegou à casa dos 20%. Não é difícil compreender que, quando o medo torna-se o afeto político central, a extrema-direita sempre capitaliza.

Mas não deixa de ser interessante um movimento político que muitos julgavam impossível. Uma coalizão de agrupamentos de esquerda conseguiu lançar um candidato com densidade eleitoral,

Jean-Luc Mélénchon, que chega a 10% das intenções de voto. Um partido à esquerda do PS com dois dígitos de intenção de voto é algo que não ocorre na França desde 1981.

Sem medo de chamar de gato a um gato e de estigmatizar as derivas racistas e isolacionistas da extrema-direita, Mélénchon conseguiu empurrar para a defensiva um partido que cresceu moldando impunemente a pauta do debate político e se colocando como defensor das classes baixas contra o "cosmopolitismo" dos burocratas de Bruxelas.

Em um impressionante debate na TV entre os dois representantes do extremo político, a candidata do FN, Marine Le Pen, preferiu ler ostensivamente jornais diante das câmeras a responder às acusações do candidato da esquerda.

Isso demonstra como vale a pena relembrar uma frase visionária de Jean Baudrillard: "Melhor morrer pelos extremos do que pelas extremidades". Em momentos de grave crise, deixar que o discurso da ruptura seja monopolizado pela extrema-direita é fazer prova de suicídio político.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Construindo o avião em pleno vôo:: Cláudio Gonçalves Couto

Tive a oportunidade, na semana que passou, de participar no Cairo de um seminário sobre a nova Constituição egípcia, promovido pelo Arab Forum for Alternatives e pela Arab Reform Initiative. Foram discutidos desafios e experiências constitucionais locais e de outros países (inclusive do Brasil). Especial atenção tiveram temas como a constitucionalização de direitos socioeconômicos, a convivência com a diversidade e o combate à discriminação, a questão da transparência e do direito à informação (com problemas similares aos da nossa recente discussão sobre a lei de acesso à informação), os direitos das mulheres, as relações civil-militares, a questão da descentralização e das formas participativas de democracia, assim como questões gerais de organização do sistema de governo.

Se, por um lado, a diversidade dos participantes e o arrojo de certas propostas indicam haver no Egito atual um debate plural e franco sobre os rumos a serem seguidos pelo país, por outro nota-se claramente que algumas questões correm o risco de conduzir a um diálogo de surdos. Exemplo disto foi a discussão travada em torno da condição feminina. Enquanto duas expositoras feministas (nenhuma das quais usando o véu islâmico) defendiam a necessidade de normas igualitárias para as relações de gênero e quotas para mulheres em diversos âmbitos, duas reações vindas de homens da audiência foram bastante eloquentes. Um deles, que também manifestaria posições de defesa do status quo em outros assuntos delicados (como as relações civil-militares), questionou virulentamente a pertinência das queixas das feministas, já que, segundo seu entendimento, tudo o que era reclamado por elas já se encontrava na legislação vigente.

O outro contendor, evidentemente um religioso ortodoxo (em vestes tradicionais, longas barbas e a testa marcada por uma cicatriz causada pelas repetidas preces junto ao chão), replicou-lhes calmamente com um típico e pragmático contra-argumento conservador: de que maneira convencer populações tradicionais, como os beduínos, a acatarem normas tão arrojadas para as relações de gênero? Afinal, segundo sua mansa ponderação, querer impor-lhes coercitivamente tal violação de seus costumes acabaria por gerar uma reação armada. As expositoras não tinham uma boa resposta para isto.

Embora tenha particularidades, a questão feminina e inseparável do problema religioso, outro que foi alvo dos debates. Questionou-se até que ponto deverá a Constituição refletir o caráter predominantemente islâmico da sociedade egípcia. A Constituição atual, a ser substituída, já indica que a sharia, a lei islâmica, é a principal fonte da legislação. É praticamente certo que isto não será revisto (pode até mesmo ser aprofundado), mas cabe então discutir como lidar com a liberdade religiosa. No Egito atual, embora haja liberdade religiosa individual, existem muitas restrições à construção de igrejas cristãs (uma condição indispensável à prática coletiva da fé) e não há indicações de que isto possa mudar facilmente.

Debates deste tipo irão continuar, não só em eventos acadêmicos e por meio da imprensa, mas - de forma decisiva - numa assembleia constituinte formada a partir da Assembleia do Povo e da Shura (correspondente ao Senado). Na primeira casa do parlamento, em eleições recentes, os partidos islâmicos obtiveram uma grande maioria de 70% das cadeiras, sendo 47% controladas pela Fraternidade Islâmica (mediante seu Partido da Liberdade e Justiça) e outros 23% pelo bem mais conservador Partido Salafita Al-Nour. Nas bem menos animadas eleições para a Shura, ocorridas na semana que passou, é bem provável que os resultados sejam parecidos - mas, um terço dos seus membros serão "biônicos", indicados pelo presidente.

O Egito se prepara para este processo (tão importante para a continuação da transição democrática iniciada com a Revolução de 25 de Janeiro) imerso num cenário de considerável instabilidade. Depois da queda do regime de Hosni Mubarak a desorganização da vida pública egípcia aumentou sensivelmente, reduzindo-se a efetividade da lei e decaindo o funcionamento da polícia. No cotidiano isto se evidencia em fatos como o aumento da violência urbana e a piora do caótico trânsito do Cairo - diante do que se experimenta em suas ruas, o tráfego de cidades como São Paulo, Rio ou Recife pode ser considerado um espetáculo de urbanidade.

Contudo, a situação é ainda mais complicada na esfera da competição política. Embora a data de 10 de março tenha sido definida para a apresentação das candidaturas presidenciais, não se sabe ainda quando as eleições propriamente ditas ocorrerão. Há também um imbróglio jurídico em torno das regras para as eleições parlamentares, pois a Suprema Corte considerou inconstitucionais as normas sob as quais foram escolhidos os membros das duas casas do legislativo. Como não se sabe se tal posicionamento da corte pode levar à invalidação judicial das eleições, cria-se um cenário de grande incerteza.

E há, ainda, o risco de uma deterioração do clima político, algo evidenciado por dois atos de violência cometidos na semana passada contra lideranças políticas proeminentes. Num deles, o pré-candidato presidencial Abdul Monein Abul Futuh (dissidente da Irmandade Islâmica) foi espancado junto com seu motorista por homens armados com rifles, num ataque preliminarmente apontado pela polícia como tentativa de roubo de carro - algo rechaçado por seus partidários. No outro episódio, um deputado da irmandade islâmica, Hassan el-Brins, teve o carro atingido numa rodovia por outro veículo, que o jogou contra um caminhão. El-Brins integra uma comissão do parlamento que recomendaria a transferência de Hosni Mubarak para um hospital penitenciário (hoje ele está num sofisticado centro médico do exército).

Só pelos controversos temas em disputa, o processo de reconstrução democrática do Egito já não seria nada simples. Considerando-se também a grande instabilidade política, será como construir um avião em pleno voo.

Cláudio Gonçalves Couto é cientista político, professor da FGV-SP

FONTE: VALOR ECONÔMICO

Beth Carvalho - As rosas não falam (Cartola)

Depósito milionário para ex-vice do BB é investigado

O ex-vice-presidente do Banco do Brasil Allan Toledo, que até dezembro dirigia uma das áreas mais importantes da instituição, é investigado por ter recebido quase R$ 1 milhão em sua conta bancária em 2011.

Toledo abriu a conta em janeiro do ano passado e recebeu cinco depósitos mensais no total de R$ 953 mil, informa Andreza Matais

Depósito de R$ 1 mi para ex-vice do BB é investigado

PF e Banco do Brasil examinam transferência de R$ 953 mil para Allan Toledo

Afastado em meio a crise na cúpula da instituição, ex-diretor afirma ter negociado imóvel com empresário

Andreza Matais

BRASÍLIA - O ex-vice-presidente do Banco do Brasil Allan Toledo, que até dezembro dirigia uma das áreas mais importantes da instituição, está sendo investigado por ter recebido quase R$ 1 milhão numa conta bancária em 2011.

Toledo foi exonerado do banco depois de ser identificado pelo governo como participante de um movimento cujo objetivo seria desestabilizar o presidente do banco, Aldemir Bendine, e ficar com seu cargo, como revelou a coluna "Painel" da Folha.

O BB abriu sindicância para apurar o caso por suspeita de lavagem de dinheiro, notificou a Polícia Federal e trocou informações sobre o caso com ela. Toledo era vice-presidente da área de Atacado, Negócios Internacionais e Private Banking do banco.

A investigação só teve início depois da demissão de Toledo pela instituição e teve como origem relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), do Ministério da Fazenda, sobre a movimentação bancária de Toledo no ano passado.

O executivo abriu uma conta no Banco do Brasil em janeiro de 2011 e recebeu cinco depósitos mensais no valor total de R$ 953 mil. O dinheiro foi transferido para a conta dele pela aposentada Liu Mara Fosca Zerey, de 70 anos.

Antes de fazer as transferências para a conta de Toledo, Zerey recebeu um depósito de R$ 1 milhão numa conta que até então havia movimentado apenas para receber o dinheiro da aposentadoria.

Quem depositou o dinheiro na conta da aposentada foi o empresário Wanderley Mantovani, que atua em vários segmentos e é sócio do dono do frigorífico Marfrig, Marcos Molina, numa usina de biodiesel, a Biocamp.

Mantovani afirma que comprou uma casa da aposentada, mas não existe registro oficial da transação em cartório. Toledo diz que atuou no negócio como procurador da aposentada e por isso movimentou o dinheiro em sua conta bancária pessoal.

O Marfrig recebeu nos últimos anos vários empréstimos do BB. O irmão do ex-vice-presidente do BB, Alex Toledo, é gerente de comunicação e marketing do Marfrig.

Disputa política

A exoneração de Toledo ocorreu em meio a uma disputa política que envolve a cúpula do BB e a Previ, o poderoso fundo de pensão dos funcionários da instituição.

Como a Folha informou na semana passada, o presidente do Banco do Brasil, Bendine, homem de confiança do ministro da Fazenda, Guido Mantega, acusa o presidente da Previ, Ricardo Flores, de conspirar para derrubá-lo.

O grupo de Flores diz que o presidente do BB quer um aliado na sua cadeira para ter influência no destino dos recursos do fundo de pensão.

Um dos indícios detectados pela cúpula do banco de que havia um movimento para derrubar Bendine no ano passado foi o vazamento para a imprensa de informações sobre a compra do Banco Postal pelo BB, um negócio bilionário concluído em 2011.

Uma reportagem da revista "Época" sugeriu que o negócio teria sido mal conduzido por Bendine e seus amigos enxergaram o dedo de Toledo no material publicado.

Poucos executivos do Banco do Brasil tinham informações sobre a transação. Toledo, que se aproximou de Flores nos últimos meses, era o vice-presidente mais bem informado sobre o assunto e por isso as suspeitas recaíram sobre ele. Toledo nega ter participado do vazamento.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Dilma abre cofre para reconstruir estação

A presidente Dilma Rousseff determinou a abertura de crédito extra no orçamento para que haja toda a verba necessária à reconstrução da base brasileira na Antártica, destruída no úlitmo sábado por um incêndio, no qual morreram dois militares. Estima-se que isso custará ao menos R$20 milhões. Ontem, em meio a cansaço e dor pela morte dos colegas, voltaram ao país as 45 pessoas que estavam na base.

Dilma determina reconstrução

Investimento mínimo para limpeza e início da recuperação da estação é de R$ 20 milhões

TRAGÉGIA NO GELO

A presidente Dilma Rousseff determinou a abertura de crédito extraordinário no Orçamento de 2012 para reconstruir a Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF), destruída após o incêndio da madrugada do último sábado. A contabilidade dos danos e a investigação das causas do acidente já começaram. A frente parlamentar do Programa Antártico (Proantar) calcula que, este ano, será necessário um investimento mínimo de R$ 20 milhões para limpar o local do acidente e começar o trabalho de reconstrução. Em 2012, o orçamento autorizado pelo Congresso para pesquisa e manutenção soma, porém, apenas R$ 11,8 milhões.

Ontem, a Marinha fez em Brasília a primeira reunião sobre avaliação de danos e de planejamento da estratégia de reconstrução, de acordo com a deputada Jô Moraes (PCdoB-MG), vice-presidente da frente parlamentar do Proantar. A presidente Dilma determinou ao Ministério do Planejamento que, nos próximos dias, as pastas da Defesa e de Ciência e Tecnologia apresentem a conta do prejuízo, que deverá ser integralmente atendida. No domingo, o ministro da Ciência e Tecnologia, Marco Antônio Raupp, afirmou ao GLOBO que há urgência para fazer o inventário do que não foi destruído e contabilizar o montante necessário para a recuperar o estrago.

Esclarecimentos no Senado

A frente parlamentar do Proantar marcou reunião para amanhã, quando também deverá discutir os rumos do programa. Hoje, o Senado deve aprovar convite para que os ministros Celso Amorim (Defesa) e Raupp prestem esclarecimentos em audiência conjunta das comissões de Meio Ambiente, Defesa do Consumidor e Fiscalização e Controle, de Ciência, Tecnologia, Inovação e de Relações Exteriores e Defesa Nacional. Representantes dos pesquisadores que trabalham na Antártica também serão convidados.

- Sem dúvida, o governo, o Congresso e a sociedade deverão dar uma resposta à tragédia. Creio que, este ano, é preciso, no mínimo, de R$ 20 milhões para limpar o local, começar a reconstrução e resgatar a embarcação de combustível que afundou em dezembro de 2011. Sem isso, será uma vergonha nacional - afirmou Jô Moares.

Falha na praça de máquinas

A possibilidade de uma falha elétrica na praça de máquinas da base continua sendo a principal linha de investigação da Defesa sobre as causas do acidente. Ontem, a Marinha, em nota, afirmou que os gastos na Antártica cresceram substancialmente a partir de 2005, quando a média anual de investimento saiu de R$ 3 milhões até atingir R$ 15 milhões, em 2010. No ano seguinte, entretanto, o valor executado caiu para R$ 8,72 milhões. A Marinha rejeitou qualquer relação entre o acidente e a restrição orçamentária.

"É importante sublinhar que o incidente ocorrido na EACF não teve relação direta com os investimentos realizados no Proantar. As causas do incidente estão sendo apuradas por meio de inquérito policial militar", informou a Marinha, em nota ao GLOBO.

A Marinha não se pronunciou sobre os motivos da queda do orçamento. Porém, informou que, em anos anteriores, ocorreu uma série de investimentos, como ampliação do número de camarotes e dos laboratórios; e modernização dos sistemas de informática e de comunicações.

"A Marinha teve um aumento de recursos para atender às necessidades do programa que permitiram, entre outras ações, a revitalização, a ampliação da Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF) e a implementação, que ainda estava em curso, de um sistema de gestão ambiental (SGA), coordenada pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA)", explicou Marinha, em nota.

O ex-ministro da Ciência e Tecnologia Aloizio Mercadante, hoje no comando do Ministério da Educação, não quis se pronunciar sobre a queda dos gastos em 2011.

O senador Rodrigo Rollemberg (PSB-DF), que integra a frente parlamentar, salientou que, além dos recursos destinados ao programa antártico, as pesquisas são subsidiadas com recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Tecnológico (FNDT). O senador explicou que o espaço brasileiro no continente tem um aspecto estratégico, pois foi assegurado na sequência do Protocolo de Madri, mecanismo diplomático que levou ao fim da disputa territorial sobre a Antártica.

- Temos um compromisso muito grande e precisamos, agora, olhar para o futuro - disse o parlamentar.

FONTE: O GLOBO

Ciência congelada

O incêndio que destruiu a estação Comandante Ferraz na Antártida serviu para jogar luz sobre os programas de pesquisa desenvolvidos pelo Brasil no continente gelado. Nossos cientistas têm tido de conviver não só com a inospitalidade do clima polar, mas principalmente com a falta de apoio do governo petista.

O fogo destruiu 70% da estação, matou duas pessoas - o suboficial Carlos Alberto Vieira Figueiredo e o sargento Roberto Lopes dos Santos - e comprometeu 40% do programa antártico brasileiro. O acidente aconteceu no sábado, quando 60 pessoas estavam no local. Um ferido ainda está hospitalizado: o primeiro-sargento Luciano Gomes Medeiros.

O Programa Antártico Brasileiro (Proantar) tem convivido com dificuldades nos últimos anos. As verbas orçamentárias vêm sendo cortadas, os pesquisadores enfrentam atrasos nos repasses e a estrutura instalada na região polar é inadequada: a concepção da Comandante Ferraz é antiga e os sistemas de energia e de hidráulica são ruins, atestam pesquisadores.

Tudo isso dá margem para acidentes - e não apenas para o que ocorreu neste fim de semana. Em dezembro, uma embarcação rebocada pela Marinha brasileira afundou no mar antártico. Carregava 10 mil litros de óleo combustível. Estacionada a 40 metros de profundidade e a 900 metros da praia onde fica a estação incendiada no sábado, até hoje não foi resgatada. O governo brasileiro tentou manter tudo em sigilo, mas o caso acabou vindo à tona justamente no dia do incêndio, revelado por O Estado de S.Paulo.

Mas não é só: outra embarcação brasileira, o navio de apoio oceanográfico Ary Rongel, está parada desde dezembro num estaleiro em Punta Arenas, no Chile, refazendo seu motor principal. O incêndio, o naufrágio e o estrago no navio dão ideia da penúria que assola o Proantar.

Os recursos destinados para as pesquisas na Antártida vêm caindo ano a ano. A previsão para este ano é a menor desde 2006, mostra a Folha de S.Paulo. "O valor para 2012 é 42% abaixo do orçamento do ano passado, caindo de R$ 18,3 milhões para R$ 10,7 milhões. O valor desse ano é praticamente o mesmo de 2005 corrigido."

A União não vinha investindo nem mesmo na manutenção da base de pesquisa. Segundo O Globo, apenas metade do orçamento da Comandante Ferraz foi efetivamente gasto na consecução de pesquisas e no funcionamento da estação polar em 2011. Dos R$ 18,3 milhões, apenas R$ 9,2 milhões foram pagos no ano passado, "o menor montante desde 2005".

Parece haver um problema estrutural mais agudo no programa antártico. O Proantar é mantido, principalmente, pelos ministérios da Defesa e da Ciência e Tecnologia. Este tem de administrar um corte de R$ 1,5 bilhão em seu orçamento para este ano. Aquele convive com o sobrepeso de gastos com pessoal, em detrimento de investimentos em pesquisa.

Segundo o Valor Econômico, cerca de 80% dos recursos do orçamento da Defesa destinam-se ao pagamento da folha de pessoal, e 63% desse total vão para funcionários aposentados. Apenas 13,7% da verba é usada em custeio, e menos ainda - 6,7% de R$ 60 bilhões - é transformado em investimentos.

Os problemas na estação Comandante Ferraz estão longe de ser os únicos enfrentados pela comunidade científica brasileira. Hoje a Folha também revela que bolsistas da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), vinculada ao Ministério da Educação, estão com seus pagamentos atrasados desde janeiro. O problema tem sido recorrente.

É lamentável observar como a produção de saber e conhecimento tem sido maltratada no país. A tragédia na Antártida pode ajudar a mudar o rumo desta situação. Infelizmente, algumas vidas e muito trabalho terão sido perdidos.

Fonte: Instituto Teotônio Vilela

Farc, paz ou mudança de ramo?:: Clóvis Rossi

Leitura predominante na Colômbia é de que a guerrilha está apenas trocando as fontes de renda

Na Colômbia, são duas as leituras a respeito do anúncio das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) de que vão abandonar os sequestros como fonte de financiamento.

A visão aparentemente minoritária acredita, ainda que cautelosamente, que se trata de um passo para a paz tão desejada em um país que vive praticamente meio século de guerra interna. É a leitura, por exemplo, de Iván Cepeda, histórico militante dos direitos humanos, hoje deputado pelo grupo esquerdista Polo Democrático e integrante da Comissão de Paz do Parlamento.

Cepeda qualifica de "gesto histórico" o anúncio das Farc, toma-o como um dos movimentos que o presidente Juan Manuel Santos vinha pedindo à narcoguerrilha para iniciar um diálogo de paz e cobra: "O governo agora deve registrar esses gestos e começar a abrir os cenários para usar a chave da paz".

Vale lembrar que o fim dos sequestros e a libertação dos reféns, iniciativas anunciadas pelas Farc, são apenas duas das condições que o presidente Juan Manuel Santos exige para iniciar negociações. Ele quer também o fim do tráfico de drogas, do recrutamento de menores e dos ataques terroristas.

Para reforçar a desconfiança com que foi recebido no governo o anúncio da narcoguerrilha, as Farc lançaram violenta ofensiva

nas montanhas do Departamento de Cauca, no Sudoeste, menos de 24 horas depois de prometer o fim dos sequestros.

Entra então a segunda leitura sobre o anúncio, a pessimista, de que se trata apenas de uma mudança de ramo nos negócios do grupo. Markus Schultze-Kraft, pesquisador do Instituto de Estudos do Desenvolvimento da Universidade de Sussex, lembra, por exemplo, que "o número de sequestros na Colômbia declinou firmemente nos últimos anos devido à crescente capacidade do governo de proteger seus cidadãos".

Ou seja, as Farc estariam apenas prometendo não fazer o que já não conseguem fazer com a mesma intensidade.

Reforça editorial de ontem do jornal "El Tiempo": "Não faltará o cético que afirme que o sequestro havia deixado de ser uma fonte importante de dinheiro para esse grupo há algum tempo, pois não somente as ações das autoridades tiveram êxito na hora de reduzir o flagelo como o narcotráfico resultou ser uma opção criminosa mais atraente".

Antes mesmo do anúncio de domingo, Eduardo Pizarro, em livro de 2011 sobre as Farc, já dizia que o grupo estava procurando alternativas às suas duas fontes principais de recursos, o sequestro extorsivo e o tráfico de drogas, que Pizarro qualificava de "presentes envenenados". O sequestro porque podia colocar seus autores na mira da Corte Penal Internacional e, o tráfico, porque expõe quem o pratica à extradição para os EUA.

Pizarro diz que o grupo estava entrando na mineração clandestina, na apropriação de recursos públicos e aumentando o esquema de extorsões.

Esta segunda leitura parece mais pertinente: quem se acostumou a movimentar grandes somas de dinheiro não consegue adaptar-se a uma vida mais simples, inevitável se houver uma desmobilização.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

A força das classes médias:: Celso Ming

Todos os dias autoridades políticas e econômicas do mundo advertem que a geografia econômica global passa por radical processo de metamorfose e que os emergentes de hoje estarão entre as potências hegemônicas dentro de mais alguns anos.

O fenômeno subjacente é a enorme redivisão do trabalho no mundo. Bilhões de pessoas, antes marginalizadas do mercado de consumo, obtêm emprego e renda, à proporção de mais de 40 milhões por ano, apenas na Ásia.

Mas esse não é fenômeno circunscrito só ao continente asiático, depois que a China e os tigres que a cercam (Índia, Coreia do Sul, Vietnã, Indonésia, Taiwan, etc.) assumiram a corrida para o desenvolvimento econômico. O governo brasileiro se vangloria de que, em pouco mais de dez anos, nada menos que 30 milhões de brasileiros ascenderam de estrato social.

Definir o que é classe média é tarefa tão complicada quanto definir nível de pobreza. Mas, do mero ponto de vista do mercado de consumo, entende-se que fazem parte das camadas médias pessoas que gastam entre US$ 10 e US$ 100 por dia.

Sob esse critério, o Instituto Brookings, de Washington, avalia que nada menos que 2 bilhões de pessoas (29% da população mundial) constituem hoje as classes médias. E a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) prevê que, por volta de 2030, as camadas da classe média atingirão 4,9 bilhões ou entre 65% e 80% da população global. A maior parte dessa gente viverá em países hoje considerados emergentes.

Já não dá para dizer, como ainda se repetia nos anos 90, que o atual sistema econômico e político global seja excludente. Ao contrário, para o bem e para o mal, mostra-se essencialmente includente.

Pessoas mais bem nutridas, com mais saúde, mais informadas e politicamente mais integradas constituem grande avanço histórico que, no entanto, cobrará seu preço. O primeiro deles é a transferência dos empregos dos países ricos para os emergentes. Independentemente dessa realocação, é preciso perguntar se haverá, onde quer que seja, postos de trabalho para tanta gente.

Em segundo lugar, é necessário prever o impacto do brutal aumento de consumo mundial sobre suprimentos de alimentos, água doce, matérias-primas e energia. A referência para essa população são os atuais padrões de consumo das classes médias americanas, cujo símbolo é a existência de um carro em cada garagem. São crescentes as dúvidas sobre se o Planeta aguenta essa sobrecarga.

As classes médias não vivem somente da mão para a boca. Demandam cada vez mais serviços públicos de qualidade: educação, saúde, segurança, previdência, comunicações e transporte. E, com esses serviços, aumenta também a demanda por proteção social, como seguro-desemprego e auxílio-doença. A carga tributária, assim, crescerá em todo o mundo.

Do ponto de vista político, o fortalecimento das classes médias tende a favorecer a consolidação dos regimes democráticos – mas desde que suas aspirações não sejam frustradas. A História está farta de exemplos de como as classes médias descontentes podem também ser manipuladas por ditadores e regimes populistas. E esse é o maior risco. Se os Estados não derem conta da nova demanda, os regimes políticos abertos podem dançar.

Enfim, a geografia humana está mudando e essas mudanças impõem desafios às gerações que estão vindo aí.

CONFIRA

O gráfico mostra a evolução, em 12 meses, do IGP-M – um dos principais critérios de reajuste dos aluguéis e dos contratos financeiros.

Vai pra ata ou não vai? Agora é a própria presidente recém-empossada da Petrobrás, Graça Foster, que defende o reajuste imediato dos preços dos combustíveis. O Banco Central vem repetindo nas atas do Copom e nos relatórios trimestrais que, para efeito de avaliar o comportamento da inflação futura, conta com reajuste zero da gasolina, do óleo diesel e do gás de botijão. E, agora, dá para repetir essa aposta?

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Pobre menina rica:: Míriam Leitão

A chanceler Angela Merkel foi ontem ao Parlamento pedir a aprovação do pacote de ajuda à Grécia. Seu governo é criticado por estar fazendo pouco para evitar o pior na crise, sua coalizão política acha que ela está fazendo mais do que deveria com o dinheiro do contribuinte, e uma pesquisa mostra que 62% dos alemães são contra a aprovação do novo pacote. Ontem, Merkel recebeu o apoio da oposição social-democrata.

A má sorte é tal que até o garçom errou o alvo e derrubou cerveja gelada sobre a governante alemã, em pleno inverno europeu. A situação de Merkel é um exemplo da dificuldade enfrentada pela própria Alemanha, que consegue desagradar a todos ao mesmo tempo. O mundo cobra dos países mais fortes da Zona do Euro que façam mais pelos países em dificuldade. O problema é que o único país que está realmente forte é a Alemanha.

A coalizão conservadora está dividida, e o ministro do interior pediu publicamente a saída da Grécia da Zona do Euro, um dia antes de a chanceler ir ao Parlamento pedir que aprovasse o pacote. Parece contraditório e é. No pronunciamento diante do Congresso ela fez um apelo, mas teve que admitir que não há 100% de chance de que o pacote funcione para tirar a Grécia da crise. O que ganhou mais destaque não foi seu veemente apoio do pacote, mas sim a frase de que não era garantido o sucesso do remédio.

Em Atenas, as manifestações acusam a Alemanha de intervir na economia doméstica e impor ao país o sofrimento de redução de salários, renda, economia. Nas reuniões como a deste fim de semana, no México, a dos ministros do G-20, a cobrança vem de todos os lados, como se ela tivesse a responsabilidade única e a varinha de condão. Merkel com sua hesitação crônica não ajuda a melhorar o ambiente para o país e para si própria.

A cada reunião internacional, a Alemanha fica na desagradável situação de ser cobrada por todos. A cobrança é injustamente concentrada nela, a incapacidade de decidir, mas a dificuldade é que Angela Merkel rejeita todas as ideias e apresenta poucas. Sua atitude é apenas de negação. E já está marcada a próxima temporada de saia-justa: no fim de março haverá uma reunião de cúpula da União Europeia e, certamente, todos os olhares de cobrança serão dirigidos a Angela Merkel. É um espanto que com tanta reunião, negociação, viagem, ainda reste tempo para ela governar a Alemanha, que no final das contas é a principal função do cargo que ocupa.

A proposta da reunião de fim de semana impressiona pelo volume de dinheiro envolvido. Os ministros de finanças do G-20 falaram em US$ 2 trilhões de recursos multilaterais para socorro de países em dificuldade. Isso envolveria uma coleta geral de recursos entre os países, mas aí sempre se esbarra no mesmo ponto: quanto a Alemanha está disposta a dar para o socorro dos aflitos?

Ninguém acredita que seja possível arrecadar tanto dinheiro. O economista Raphael Martello, da Tendências consultoria, lembra que a França está em época de aperto de cinto, em pleno ajuste fiscal. A Itália já esteve no ano passado no meio do furacão e continua com sua dívida acima de 100% do PIB. Aí, acaba sobrando para a Alemanha. O Japão está tentando se recuperar ainda do tombo do ano passado, após o terremoto. Os Estados Unidos lutam contra a dívida, cujo crescimento tentará conter com cortes em todo o orçamento nos próximos anos. Sobra para países emergentes, leia-se China. Mas a China espera que a Alemanha mostre mais empenho e disposição de abrir o cofre antes de dizer em quanto poderá capitalizar os fundos multilaterais de resgate.

O Reino Unido cobra da Alemanha como se não fizesse parte da mesma Europa. O fato de ela não ter entrado na Zona do Euro não a isenta de participar do esforço coletivo de evitar o desmonte da união monetária, por três motivos: a Inglaterra tem também uma frágil situação fiscal, ela também está exposta aos ricos cruzados dos bancos do continente, e a crise da região a afeta diretamente.

Se, de fora, Angela Merkel é acusada de só dizer não; dentro do país é criticada por estar dizendo sim demais e comprometendo dinheiro do contribuinte em socorro a países que recebem a ajuda como atos hostis e não como ajuda.

A ideia de que haja um fortalecimento dos fundos multilaterais, para sair deles e não de um cofre específico os recursos para o resgate, é boa. Protege os países que recebem o dinheiro, e os que concedem, das hostilidades que costumam cercar essas operações de resgate.

O mais importante nesta semana não será o resultado da reunião dos ministros das finanças do G-20. O que houve na Cidade do México foi mais do mesmo: uma nova reunião em que todos os países decidem que é preciso haver mais recursos disponíveis nos mecanismos de estabilização ou no Fundo Monetário Internacional (FMI) para momentos de instabilidade monetária. O que vai dar o tom do mercado esta semana será o novo leilão de injeção de liquidez do Banco Central Europeu (BCE). A autoridade monetária vai oferecer recursos por três anos a juros baixos para os bancos. A ideia é que com isso os bancos possam ter mais disposição de financiar os governos, principalmente os que enfrentam problemas. A primeira operação desse tipo foi feita em fim de dezembro e injetou 500 bilhões no sistema financeiro europeu. Isso reduziu a tensão. Nova injeção será feita esta semana. Isso ajuda a melhorar o humor dos investidores, mas, para a solução definitiva, o mundo continuará esperando que a Alemanha faça alguma mágica.

FONTE: O GLOBO

Recife entre as grandes preocupações do PT

João Paulo, que integra comissão de acompanhamento eleitoral do partido, diz que sigla analisa com atenção a situação de Recife, Fortaleza e Belo Horizonte

Paulo Augusto

O Recife, juntamente com Fortaleza (ver matéria nesta página) e Belo Horizonte são as três capitais que mais preocupam ao PT nacional em relação às eleições de outubro e, por conta disto, estão sendo monitoradas com cuidado pela cúpula da legenda. Tal fato foi observado e discutido ontem, durante reunião da comissão de acompanhamento eleitoral do Diretório Nacional petista, realizada em São Paulo, que teve como objetivo discutir a situação eleitoral do Partido dos Trabalhadores nas capitais e grandes centros urbanos.

Integrante da comissão, o deputado federal e ex-prefeito do Recife João Paulo não confirmou se pode haver uma intervenção da direção nacional do PT nesses municípios, mas disse que existe uma preocupação do partido em relação aos rumos que estão sendo tomados pela legenda. “Há uma situação delicada no Recife, Fortaleza e Belo Horizonte que vem sendo monitorada”, afirmou, saindo pela tangente quando questionado especificamente a respeito da capital pernambucana – cujo prefeito João da Costa, eleito com o apoio de João Paulo, hoje seu desafeto, não conta com a simpatia de boa parcela do partido. Com isso, enfrenta resistências ao seu nome para a disputa da reeleição.

Se em Pernambuco, Minas Gerais e no Ceará existem preocupação, no Rio Grande do Sul a expectativa de bons resultados é grande. Através de seu Twitter, João Paulo disse que é nesse Estado que o PT espera colher os melhores resultados nas eleições. “Expectativa de melhor desempenho do PT em 2012 é nos municípios gaúchos, devido ao gov (ernador) Tarso Genro e a pres. Dilma”, tuitou. O Rio Grande do Sul, aliás, será sede de uma grande reunião do PT, em maio, envolvendo candidatos a prefeito em todos os municípios com mais de 150 mil habitantes.


FONTE: JORNAL DO COMMERCIO (PE)

Ex-adversários, Garotinho e Maia anunciam aliança contra o PMDB

RIO - O deputado federal Anthony Garotinho (PR) e o ex-prefeito do Rio Cesar Maia (DEM) anunciaram ontem uma aliança para as eleições municipais em todo o Estado e se esforçaram em relevar as críticas trocadas no passado.

A união, dizem, visa a enfraquecer o governador Sérgio Cabral (PMDB). No início do encontro dos dois partidos, Maia e seu filho, Rodrigo Maia, chegaram a ser vaiados por integrantes do PR num centro de convenções no centro do Rio.

"Tratamos da eleição municipal e da oposição ao PMDB. É mais importante do que as divergências do passado", disse Maia. Garotinho citou exemplo do prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), para explicar a união dos antigos desafetos.

"Nossas diferenças nunca chegaram ao nível das do próprio prefeito Eduardo Paes com o Lula. Dona Marisa não queria nem vir ao Rio por causa das ofensas que Paes fez ao filho do Lula. Isso foi superado, faz parte do jogo da política."

No passado, o líder do PR disse que Maia tinha "imaginação descontrolada" e estava acostumado a "criar mentiras". O ex-prefeito, por sua vez, já ameaçou pedir a prisão de seu atual aliado do PR.

Os dois ontem se concentraram em criticar Cabral e Paes. Garotinho chamou o governador de "sanguinário, covarde e cruel", e o prefeito do Rio, de "subserviente" e "submisso".

O deputado federal Rodrigo Maia (DEM) e a deputada estadual Clarissa Garotinho (PR), que devem formar a chapa para a capital, foram coadjuvantes na cerimônia que criou a Aliança Republicana, Democrática e Popular. Ela não confirmou se será vice na chapa.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Oposição a Dilma comemora decisão

Avaliação é que a candidatura de Serra nacionaliza a disputa em São Paulo

Isabel Braga

BRASÍLIA e BELO HORIZONTE. Tanto a oposição quanto integrantes da base aliada avaliaram ontem que a entrada de José Serra nacionaliza a disputa pela prefeitura da capital de São Paulo. Os líderes de oposição ao governo Dilma Rousseff comemoraram o fato de ter, com Serra, um candidato com chance real de vencer a briga e evitar o que chamam de tentativa de hegemonização petista no cenário político.

- A decisão de Serra nacionaliza a eleição de São Paulo, polariza a eleição entre governo e oposição. A tradição paulista sempre leva à vitória um candidato com as características de Serra. O DEM apoia a candidatura de oposição, mas temos um pré-candidato. No momento oportuno, DEM e PSDB conversarão e irão avaliar a melhor estratégia para a candidatura de oposição - afirmou o presidente nacional do DEM, José Agripino Maia (RN), deixando claro que o partido ainda não decidiu se encampa uma aliança com o PSDB já no primeiro turno.

Indagado sobre o fato de a candidatura de Serra ser apoiada pelo prefeito Gilberto Kassab, ex-DEM e hoje presidente do PSD, ele disse que isso não é um impeditivo para uma aliança do DEM:

- Qualquer reforço à candidatura de oposição é bem-vindo. Nosso objetivo é somar forças contra a candidatura do governo e no embate contra o PT.

Líder do DEM no Senado, Demóstenes Torres (GO) também vibrou com a decisão de Serra.

- Serra tem história e trabalho a ser mostrado. É o candidato ideal e tem tudo para vencer a eleição. A oposição passa a ter um candidato favorito.

Demóstenes também não descartou uma aliança com o PSD. Pragmático, ele afirmou que a briga com o partido se dá no campo judicial, pelo fundo partidário e tempo de TV, e que a briga ideológica é com o PT.

O ex-presidente da Câmara Arlindo Chinaglia (PT-SP) admitiu que a entrada de Serra altera o cenário nacional. Para Chinaglia, houve um movimento claro do PSDB diante da sinalização de que Kassab poderia apoiar Haddad:

- Mesmo com as divisões internas no PSDB, os que não gostam do Serra não terão coragem de se colocar contra. A entrada de Serra na disputa tende a elevar o nível do debate na disputa paulista, que foi nacionalizada. A eleição em SP terá o peso da máquina a favor de Serra, é bobagem negar. Haddad terá a força do Lula, do PT, que é grande em São Paulo, e, em terceiro lugar, das alianças que forem feitas.

Em Minas, tucanos ligados ao senador Aécio Neves comemoraram a entrada de Serra na disputa em São Paulo. Para os holofotes, eles enaltecem o fortalecimento do partido em seu reduto mais tradicional, a resposta ao risco de avanço do PT em praça estratégica e o alinhamento de forças políticas em torno do projeto do PSDB. Mas, nos bastidores, a decisão é interpretada como um importante passo para a candidatura de Aécio à Presidência em 2014.

- A decisão dele é muito importante para o futuro do PSDB - resumiu o presidente do diretório regional do PSDB, Marcus Pestana.

FONTE O GLOBO

Meninos, eu vi...:: Arnaldo Jabor

Acabou o Carnaval e tenho de recomeçar a pensar sobre o País. Dizer o quê? O Brasil está difícil de entender nesta mistura de atraso e modernização que o mundo demanda. Nada do que já vi se compara à indefinição angustiante de hoje. Nossas crises eram mais nítidas e nos chocavam pela obviedade. Já vi tantas mudanças políticas... Eu vi as empregadas gritando, a cozinheira chorando, o rádio dando a noticia: "Getúlio deu um tiro no peito!". Anos depois, ouvi, no estribo de um bonde: "O Jânio renunciou!" Como? Tomou um porre e foi embora depois de proibir o biquíni e brigas de galo. Ali no bonde, entendi que os "bons tempos" da utopia de JK tinham acabado, que alguma coisa suja estava a caminho. Depois, meninos, eu vi o fogo queimar a UNE, onde chegaria o sonhado "socialismo tropical", em abril de 64, quando fugi pela janela dos fundos, enquanto o general Mourão Filho tomava a cidade, dizendo: "Não sei nada. Sou apenas uma vaca fardada!" Eu vi, como num pesadelo, a população festejando a vitória da ditadura, com velas na janela e rosários na mão , vi a capa de O Cruzeiro com o Castelo Branco, o novo presidente da República de boné verde, feio como um ET.

Senti que surgia um outro Brasil desconhecido e parecia que estava vendo pela primeira vez as pedras da rua, os anúncios, os ônibus, os pneus dos carros, como um trem fantasma andando pra trás. Eu, que só vivera até então de palavras utópicas, era humilhado pela invasão do mundo real. Depois, vi a tristeza dos dias militares, Brasil ame-o ou deixe-o, a Transamazônica arrombando a floresta, vi o rosto embotado de Costa e Silva, a gargalhada da primeira perua Yolanda, mandando o marido fechar o Congresso, vi na TV, numa noite imunda e ventosa de dezembro, o decreto do AI-5, o fim de todas as liberdades, a gente enlouquecendo e fugindo pela rua em câmera lenta, criminosos na própria terra, depois, vi a cara do Médici, frio como um vampiro, com sua mulher do lado, magra, infeliz, torcendo pela Copa do mundo de 70, Pelé, Tostão, Rivelino e porrada, tortura, sangue dos amigos guerrilheiros heroicos e loucos, sentindo por eles respeito e desprezo, pela coragem e pela burrice de querer vencer o Exército com estilingues, não vi, mas muitos viram, meu amigo Stuart Angel morrendo com a boca no cano de descarga de um jipe, dentro de um quartel, enquanto, em São Paulo, Herzog era pendurado numa corda e os publicitários enchiam o rabo de dinheiro com as migalhas do "milagre" brasileiro", enquanto as cachoeiras de Sete Quedas desapareciam de repente.

Depois, eu vi os órgãos genitais do general Figueiredo, sobressaindo de sua sunguinha preta, ele fazendo ginástica, seminu para a nação contemplar,, era nauseante ver o presidente pulando a cavalo, truculento, devolvendo o país falido aos paisanos, para nós pagarmos a conta da dívida externa, vi as grandes marchas pelas "diretas" que não rolaram e, estarrecido, vi um micróbio chegando para mudar nossa história, um micróbio, vírus, sei lá, andando pela rua, de galochas e chapéu, entrando na barriga do Tancredo Neves na hora da posse e matando o homem diante de nosso desespero, e vi então a democracia restaurada pelo bigodão do Sarney, o homem da ditadura, de jaquetão, posando de oligarca esclarecido, vi o fracasso do Plano Cruzado, depois eu vi a volta de todos os vícios nacionais, o clientelismo, a corrupção, o país ingovernável, a inflação chegando a 80 por cento ao mês, com as maquininhas do supermercado fazendo "tlec tlec tlec" como matracas fúnebres de nossa tragédia, eu vi tanta coisa...

Vi o massacre de miseráveis pela fome, ou melhor, eu não vi os milhões de mortos pela correção monetária ? não vi porque eles morriam silenciosamente, longe da burguesia e da mídia, mas vi os bancos ganhando bilhões no "over" e no "spread", vi os dólares no colchão, a sensação de perda diária de valor da vida, vi a decepção com a democracia, pois tudo tinha piorado. Vi de repente o Collor vindo de longe, fazendo um cooper em direção a nosso destino, bonito, jovem, fascinando os otários da nação, que entraram numa onda política de veados esperançosos: "Ele é macho, bonito e vai nos salvar!" e vi logo depois o Collor confiscar a grana do país todo, vi a sinistra careca de PC juntando o bilhão do butim, vi Zelia dançando o bolero Besame mucho com Bernardo Cabral na cara do país quebrado, vi depois a guerra dos irmãos Collor, Fernando contra Pedro culminando com a campanha pelo impeachment, vi tanta coisa, meninos, e depois eu vi, por mero acaso, por uma súbita cisma de Itamar Franco, vi o FHC chegar ao poder, com a única tentativa de racionalidade política de nossa história nesse antro de fisiológicos e ignorantes e vi a maior campanha de oposição de nossa época, implacável, sabotadora, movida pela inveja repulsiva da Academia contra ele e vi a traição de seus aliados, unidos contra as reformas, agarrados na corrupção ou na doença infantil de suas ideologias mortas, depois, eu vi a tomada do poder pelo PT e tive a esperança de que haveria uma continuação das portas abertas pelo Plano Real e pelas medidas modernizantes do governo de FHC e tive a maior decepção de minha vida, ao ver que jogaram o país numa rota regressista, criando um novo patrimonialismo de Estado: a aliança entre velha esquerda e velha direita, senhores feudais e pelegos, vi depois o governo se transformar num showmício permanente para o bem do Lula, na obsessão de desqualificar os avanços do mundo moderno.

Depois, recentemente, vejo a sucessora Dilma tentando governar, mais lúcida e mais honesta que seus aliados, ocupada o tempo todo em desfazer as armadilhas que seu chefe deixou. Os tempos anteriores eram mais nítidos até em sua sordidez. É difícil analisar nosso momento. É duro para um comentarista político. A economia vai bem, por sorte apenas. Dilma é legal, séria. Mas é muito grande a ambivalência entre Estado e sociedade, entre pelegos e democratas, entre boas intenções e dependência de alianças sujas. E vejo que não sei o que vejo.

FONTE: O GLOBO

Orquestra de Solistas do Rio de Janeiro - As Rosas não falam (Cartola)

Retrato do poeta quando jovem:: José Saramago

Há na memória um rio onde navegam
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.

Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Ondas brancas se afastam para o lado
Com o rumor da seda amarrotada.

Há um nascer do sol no sítio exacto,
À hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Um ansiar de sede inextinguida.

Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu desta memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que conta do retrato a velha história.

(In OS POEMAS POSSÍVEIS, Editorial CAMINHO, Lisboa, 1981. 3ª edição)

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

OPINIÃO DO DIA - Andrea Matarazzo::domínio

Os nossos adversários querem fazer da conquista de São Paulo o passo final do processo hegemônico do Brasil. Os nossos adversários, em especial o PT, querem repetir a gestão nefasta e destruidora que fizeram em São Paulo. Nesse contexto, José Serra decidiu que gostaria de participar do processo eletivo de São Paulo. Nós não podemos desprezar o currículo de José Serra

Não podemos deixar que importem de Brasília os métodos nefastos do PT, que tem a cada mês que substituir um ministro

Andrea Matarazzo, secretário de cultura do estado de S. Paulo, O Globo, 27/2/2012.

Manchetes de alguns dos principais jornais do Brasil

O GLOBO
Após reduzir verba, governo promete nova base em 2 anos
Farc dizem que não vão mais sequestrar
Equador: 140 intelectuais contra Correa
Matarazzo e Covas desistem para apoiar Serra

FOLHA DE S. PAULO
Após reduzir verba, governo promete nova base em 2 anos
Farc dizem que não vão mais sequestrar
Equador: 140 intelectuais contra Correa
Matarazzo e Covas desistem para apoiar Serra

O ESTADO DE S. PAULO
Reconstrução da base na Antártida vai levar um ano
18 quilômetros 'sumiram' em obra de estrada privatizada
G-20 aumenta pressão sobre a Alemanha
Serra disputará pressão em SP com 2 tucanos

VALOR ECONÔMICO
Mercado mantém cautela mesmo com alta da Bolsa
Empresas no país elevam gastos com TI
G-20 reafirma regulação de bancos
Apostas para a Rio+20
Cruzamento de dados eleva arrecadação
Restrição a vinhos será analisada

CORREIO BRAZILIENSE
Fisco vigia cartão para flagrar gasto superior à renda
Base deve ser reerguida em dois anos
Faxina de Dilma deixa o segundo escalão de fora

ESTADO DE MINAS
O leão à espreita a partir de quinta-feira
Projetos importantes e campanha nas ruas
Antártida

ZERO HORA (RS)
Fogo consome história do Brasil na Antártica

JORNAL DO COMMERCIO (PE)
Dilma volta ao Estado com agenda política
Brasil manterá pesquisas na Antártida

O que pensa a mídia - editoriais dos principais jornais do Brasil

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

Matarazzo e Covas desistem para apoiar Serra

Andrea Matarazzo e Bruno Covas, secretários estaduais em SP, desistiram de suas pré-candidaturas a prefeito pelo PSDB para deixar o caminho livre para o ex-governador José Serra. Mas José Aníbal e Ricardo Trípoli disseram que continuam na disputa e não aceitam adiar a data das prévias

Matarazzo e Covas desistem em favor de Serra

Ricardo Trípoli e José Aníbal não chegam a um acordo com Alckmin, e prévia tucana está mantida para o próximo domingo

Sérgio Roxo, João Sorima Neto,  Silvia Amorim e Marcos Alves

SÃO PAULO. Dos quatro postulantes a disputar o cargo de prefeito de São Paulo pelo PSDB, dois - José Aníbal e Ricardo Trípoli - disseram ontem, em conversa com o governador Geraldo Alckmin, que vão manter suas pré-candidaturas e que não aceitam adiar a data das prévias, marcadas para o próximo domingo. Serra deve enviar hoje ao partido uma carta para formalizar a sua intenção de disputar as prévias tucanas e a prefeitura.

Se a posição de Trípoli e Aníbal não for revertida, Serra terá de enfrentar as prévias, mas ele não se opõe. Ontem, o secretário estadual de Cultura, Andrea Matarazzo, anunciou a sua desistência da disputa. O quarto postulante, o secretário estadual do Meio Ambiente, Bruno Covas, deve fazer anúncio semelhante hoje de manhã. Na noite de sábado, porém, ele já avisara ao governador Geraldo Alckmin que aceita abrir mão da pré-candidatura. Ontem à noite, ele se reuniu com seus apoiadores para justificar a sua desistência. Disse ser um homem de partido e que não poderia dizer não a um pedido de Alckmin.

´Pré-candidatos mantém agenda com militância

Os dois pré-candidatos que resistem a desistir das prévias foram recebidos juntos por Alckmin, no Palácio dos Bandeirantes, ontem pela manhã. O governador formalizou a Aníbal e Trípoli a intenção de Serra de concorrer, mesmo com o prazo de inscrição para as prévias já encerrado.

- Foi uma conversa tranquila. O governador quis saber se tínhamos alguma oposição à entrada de Serra, apesar de o prazo de inscrição das prévias ter se encerrado. Tanto eu como o Aníbal, dissemos que não abrimos mão da disputa das prévias e também queremos que elas sejam realizadas na data marcada. Toda militância está na rua e já temos compromissos agendados. Adiar as prévias não tem sentido - afirmou o deputado federal Ricardo Trípoli.

- Seria um anticlímax adiar. Péssimo. Já pedimos para as pessoas se programarem, não viajarem no final de semana - disse o secretário estadual de Energia, José Aníbal.

Diante da resistência da dupla ao primeiro pedido, Alckmin nem teve clima para abordar com eles uma possibilidade de desistência. Ontem, os dois pré-candidatos mantiveram a agenda de encontro com militantes em bairros da capital.

Aníbal avalia que Serra não precisa de tempo para divulgar a sua candidatura entre os militantes tucanos.

- A candidatura do Serra já está sendo amplamente divulgada - afirmou.

Matarazzo reuniu parte de seus apoiadores e a imprensa, na tarde de ontem, para anunciar que desistiu da pré-candidatura à prefeitura. Em um discurso recheado de críticas ao PT, justificou ser amigo de Serra e que, por isso, seria impossível entrar em uma disputa contra o ex-governador.

- Nunca vocês vão me ver disputando uma eleição com o Serra. Nós somos do mesmo grupo político e somos amigos. Não faria sentido.

Contou ainda que o ex-governador falou com ele, na quinta-feira, sobre a possibilidade de disputar a prefeitura. No mesmo dia, Serra se encontrou com Alckmin.

- O Serra sempre terá mais credenciais do que eu para disputar alguns cargos.

Também afirmou acreditar que Serra reviu a sua decisão de não disputar a prefeitura porque enxergou que a "ameaça da volta do PT a São Paulo poderia ser uma realidade".

- Os nossos adversários querem fazer da conquista de São Paulo o passo final do processo hegemônico do Brasil. Os nossos adversários, em especial o PT, querem repetir a gestão nefasta e destruidora que fizeram em São Paulo (na gestão da ex-prefeita Marta Suplicy). Nesse contexto, José Serra decidiu que gostaria de participar do processo eletivo de São Paulo. Nós não podemos desprezar o currículo de José Serra - afirmou.

Matarazzo diz que seus votos vão para Serra

Matarazzo disse ainda contar com cerca de 2.600 votos dos cerca de 6.000 militantes que devem participar das prévias e afirmou que esse apoio será transferido para Serra.

- Não podemos deixar que importem de Brasília os métodos nefastos do PT, que tem a cada mês que substituir um ministro - disse.

O secretário garantiu que Serra abriu mão de seu projeto nacional e não renunciará novamente à prefeitura, como fez em 2006, quando deixou o cargo um ano e três meses depois de tomar posse para disputar o governo do estado. Um discurso semelhante havia sido adotado pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, aliado do ex-governador tucano, no sábado, numa pista de como os tucanos vão rebater as dúvidas que devem ser levantadas pelos adversários em relação à permanência de Serra na prefeitura até o final do mandato.

- Tenho certeza que ele voltará e ficará provavelmente quatro anos ou, quem sabe, oito anos na prefeitura - afirmou Matarazzo.

Numa forma de pressão aos dois pré-candidatos que seguem na disputa, apoiou o adiamento das prévias.

- Defenderia, sim, o adiamento. Não acharia um problema, se eu estivesse disputando. Vai adiar no máximo dez dias.

Hoje, os pré-candidatos à prefeitura de São Paulo têm um debate agendado numa universidade. A dúvida entre os tucanos é se Serra participará do encontro.

FONTE: O GLOBO

Serra disputará pressão em SP com 2 tucanos

Com a entrada de Jossé Serra na disputa pela Prefeitura de São Paulo, os secretários estaduais Andrea Matarazzo (Cultura) e Bruno Covas (Meio Ambiente) decidiram retirar a inscrição na prévia que vai definir o candidato do PSDB. Outros dois tucanos prometeram ir até o fim na disputa contra Serra: José Aníbal e Ricardo Trípoli

Dois pré-candidatos desistem em favor de Serra, mas prévia do PSDB é mantida

Julia Duailibi, Fausto Macedo

A decisão de José Serra de entrar na disputa pela Prefeitura de São Paulo forçou a intervenção do governador Geraldo Alckmin (PSDB) que, ontem, reuniu-se com nomes da sigla inscritos para a prévia, marcada e mantida para o próximo 4 de março, para informá-los sobre a entrada tardia do ex-governador no páreo e negociar desistências das pré-candidaturas. A primeira baixa foi do secretário estadual da Cultura, Andrea Matarazzo, que renunciou ontem à pré-candidatura. Bruno Covas, secretário do Meio Ambiente, repete o script hoje. Mas o secretário José Aníbal (Energia) e o deputado estadual Ricardo Tripoli disseram a Alckmin que não desistem e não aceitaram mudar a data da consulta interna.

Alckmin chamou Aníbal e Tripoli para uma conversa no Palácio dos Bandeirantes ontem, ainda pela manhã. Sondou-os sobre a possibilidade de postergar a eleição interna - o grupo serrista quer mais tempo para aglutinar apoios em torno do nome do ex-governador. Serra disse a Alckmin que entraria na disputa na sexta-feira e deve fazer o anúncio oficialmente hoje. A aproximação do PSD, criado pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, ao PT foi fundamental para aumentar a pressão sobre o tucano. A única hipótese de Kassab desistir da aliança com os petistas seria a candidatura de Serra.

Aníbal e Tripoli disseram a Alckmin que aceitavam a entrada de Serra na corrida, mesmo fora da data de inscrição da prévia - o prazo terminou no dia 14 de fevereiro. Os dois não recuaram e argumentaram a Alckmin que o ex-governador tem de se submeter ao pleito interno no próximo domingo e também comparecer hoje à noite ao debate do partido, o último programado. A cúpula tucana tentava ontem adiar o debate, o que provocou a reação dos pré-candidatos.

"As prévias estão garantidas no dia 4 de março, conforme combinado em novembro", declarou Aníbal. "Lamento a saída dos outros dois. Mas acho muito bom que o Serra vá se inscrever. O processo segue." Tripoli, por seu lado, deixou claro que não abre mão da disputa. "A militância continua proprietária do processo. Portanto continuo candidato."

Coube a Alckmin dizer aos dois pré-candidatos que Covas e Matarazzo desistiriam das pré-candidaturas. Na conversa, o governador disse também que, diferentemente de 2004, quando entrou em campo para desmarcar a pré-convenção então agendada para que Serra disputasse a Prefeitura, desta vez não pediria aos postulantes que não concorram.

Ritual da renúncia. Às 17h35 de ontem, em uma sala acanhada no centro da cidade, depois de sete meses de campanha, "sempre de paletó, gravata e abotoaduras" - paramentos que ontem não exibia -, Matarazzo anunciou sua renúncia a um reduzido grupo de correligionários, a quem citou quase todos pelo nome e deles recebeu aplausos.

O secretário da Cultura revelou-se um dedicado cabo eleitoral de Serra. "Aqui abro mão da minha candidatura e peço ao meu grupo que substitua meu nome pelo nome de José Serra nessas prévias. O processo eleitoral das prévias continua, o que muda é apenas o nome. Abro mão do meu lugar e faço isso com orgulho, por alguém que é exemplo de homem público."

Matarazzo afirmou que Alckmin não lhe pediu "nem que entrasse (na prévia) nem que saísse". E que "não vai postular" nada, ante a indagação se almeja a vaga de vice do ex-governador caso o PSDB opte por uma chapa "puro-sangue". Ele foi categórico ao comentar seu gesto, a uma semana das prévias. "Tem uma coisa que é da minha formação: a questão da precedência e da hierarquia. Vocês não verão nunca eu disputando uma eleição com o Serra. Somos do mesmo grupo político. O Serra sempre estará mais credenciado do que eu."

Ontem à noite, Covas comunicou a decisão à militância, mas evitou a imprensa. Hoje ele anuncia a desistência.

Colaborou Luiz Guilherme Gerbelli

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Dois tucanos desistem de prévias para apoiar Serra

Os secretários do governo paulista Andrea Matarazzo (Cultura) e Bruno Covas (Meio Ambiente) desistiram ontem de desputar as prévias do PSDB que definirão o candidato do partido à Prefeitura de São Paulo.

Os dois já declararam apoio a José Serra, que decidiu pela candidatura na semana passada. José Aníbal e Ricardo Tripoli seguem na disputa da vaga.

Dois desistem para apoiar Serra no PSDB e esvaziam prévias

Andrea Matarazzo e Bruno Covas abandonam disputa e defendem candidatura do ex-governador à prefeitura

Alckmin mobiliza aliados para adiar votação, mas outros dois pré-candidatos resistem à articulação

Catia Seabra, Daniela Lima e Mariana Carneiro

BRASÍLIA, SÃO PAULO - Dois pré-candidatos tucanos decidiram ontem abandonar a corrida à Prefeitura de São Paulo para apoiar o ex-governador José Serra, esvaziando as prévias convocadas pelo PSDB para definir seu candidato a prefeito.

O secretário estadual de Cultura, Andrea Matarazzo, anunciou ontem sua desistência e o apoio a Serra. O secretário do Meio Ambiente, Bruno Covas, anunciará hoje a retirada de seu nome.

Aliados de Geraldo Alckmin passaram o dia tentando convencer os dirigentes do partido a adiar as prévias, para dar a Serra mais tempo para entrar no processo. Em uma reunião ontem à noite, o governador fixou o dia 11 de março como o ideal para realizar a consulta, marcada antes para o dia 4.

O grupo de Alckmin diz ter reunido número de votos necessários para mudar a data. No entanto, a reunião da executiva municipal do partido que estava marcada para hoje foi adiada para amanhã.

O ex-governador, que no início do ano dizia não ter interesse na eleição municipal e mudou de ideia nas últimas semanas, deve formalizar hoje a decisão de concorrer à Prefeitura por meio de uma carta endereçada ao partido.

As prévias foram convocadas quando Serra se dizia fora do páreo. Como o prazo para inscrições acabou em fevereiro, o partido terá que encontrar agora uma maneira de incluir Serra no processo.

Alckmin conversou ontem com os outros dois pré-candidatos inscritos nas prévias, o secretário de Energia, José Aníbal, e o deputado federal Ricardo Tripoli, mas não conseguiu convencê-los a aceitar o adiamento da consulta. Ambos disseram que não se opõem à entrada tardia de Serra nas prévias, mas resistem ao adiamento.

"Já mandei carta para eleitor e assumi compromissos", disse Tripoli, ao justificar sua posição contrária ao adiamento. Para Aníbal, mudar a data da consulta agora só serviria para "tensionar" o partido. "Serra é conhecido por todo mundo", afirmou. "De que mais tempo ele precisa?"

"Um soldado"

Ao anunciar sua desistência em entrevista coletiva ontem à tarde, Matarazzo lembrou sua ligação antiga com Serra, de quem é amigo. Ele defendeu o adiamento da consulta. "Não vejo problema, não vai adiar mais do que dez dias", disse o secretário.

Covas comunicou sua decisão ontem para Serra e ofereceu uma saída jurídica para sua entrada na disputa, sugerindo que poderia pedir formalmente à executiva do partido a substituição do seu nome pelo do ex-governador.

Segundo Covas, o procedimento está previsto na legislação eleitoral brasileira e poderia ser adotado pelo PSDB no caso de Serra, na ausência de norma que trate do assunto no estatuto do partido.

Na conversa que teve ontem com o ex-governador, Covas apresentou-se como "um soldado" de sua candidatura. Ele deverá assumir um posto na coordenação da campanha se o PSDB confirmar a indicação de Serra.

Segundo o Datafolha, Serra é o tucano com melhores chances na corrida à Prefeitura. Ele tem 21% das intenções de voto na sondagem mais recente, de janeiro. Mas o ex-governador também enfrenta alto índice de rejeição. Um de cada três eleitores diz que jamais votaria nele.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Monólogo :: Aécio Neves

O governo da presidente Dilma encena um monólogo a dois no qual uma das partes -o governo- fala e determina, e a outra -o Congresso- cala e obedece.

O corte no Orçamento, de R$ 55 bilhões, que extirpou todas as emendas parlamentares, reforçou o traço autoritário existente na relação entre os dois Poderes, sinalizando a manutenção de uma política baseada na barganha.

Conhecemos esse filme: cortam-se todas as emendas para que possam ser liberadas em conta-gotas a alguns escolhidos ou em épocas de votações de interesse do governo.

Se há que condenar os casos em que as emendas servem a interesses escusos e em que existem as que são destinadas a investimentos supérfluos, não tem como desconsiderar que, quando corretas, são instrumentos importantes. Representam, muitas vezes, a única chance de centenas de municípios brasileiros terem necessidades atendidas, pois nem sempre os investimentos do Executivo pautam-se por critérios republicanos.

O ano passado já havia sido marcado por demonstrações de autoritarismo do Executivo sobre o Legislativo. A decisão do governo de retirar do Legislativo a prerrogativa de fixar o valor do salário mínimo -sem entrar no mérito ou na legalidade da iniciativa, mas me atendo ao seu sentido político- foi um marco triste na história do Congresso.

É possível imaginar qual teria sido a posição do PT se a mesma iniciativa tivesse partido de um governo do PSDB.

O mesmo aconteceu com a PEC 11, que cria novo rito de tramitação para as MPs editadas pelo Executivo e reconstitui parte do papel constitucional do Legislativo no exame das medidas. Aprovada no Senado por meio de acordo, a base governista acabou repreendida pelo Palácio do Planalto em função do apoio dado ao que é consenso na Casa. Não por acaso, a PEC adormece, desde agosto, no esquecimento da Câmara dos Deputados.

Blindada pela muralha das alianças de conveniência, o governo ignora o Congresso como instituição e apequena a relação entre os Poderes. Sou um dos que se perguntam até quando os próprios aliados resistirão em silêncio ao desrespeito continuado.

Nesse momento, em que o Legislativo prepara-se para discutir temas importantes como o pré-sal, os royalties sobre minérios e o Código Florestal, não interessa à sociedade que tal debate ocorra em um Congresso fragilizado. São temas que pertencem à agenda do futuro dos brasileiros e não podem estar submetidos aos interesses imediatos ou à conveniência de um governo, qualquer que seja ele.

Só um Congresso em pleno exercício das suas prerrogativas pode garantir ao país as salvaguardas necessárias para que prevaleça o interesse nacional.

Aécio Neves, senador (PSDB-MG).

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Odeio-te, meu amor:: Ricardo Noblat

"A questão da Presidência da República está encerrada na vida de Serra" (Gilberto Kassab, prefeito de São Paulo)

Dá-se como certo que José Serra disputará este ano a prefeitura de São Paulo, embora somente hoje ele deva formalizar seu desejo. Desde já, quer-se dar também como certo que ele renunciou em definitivo à ideia de ser candidato a presidente da República pela terceira vez. Rendeu-se — e por que não? — à tese do "candidato óbvio", Aécio Neves.

Até outro dia, Serra dizia acreditar em suas chances de enfrentar Dilma em 2014, derrotando-a talvez. E dizia não acreditar que Aécio pudesse fazê-lo.

Considerava- o um candidato fraco, sem disposição para travar combates, e vulnerável a dossiês que costumam circular durante campanhas eleitorais. De repente, um anjo desceu do céu, cochichou no ouvido de Serra e ele mudou de opinião — quanto ao seu e ao futuro de Aécio.

Acredite quem quiser... Há muitas pedras no meio do caminho de Serra em direção à prefeitura. Uma delas: sua renúncia ao cargo de prefeito em 2006 para concorrer ao governo de São Paulo.

Os desafetos de Serra haviam avisado com antecedência: não votem nele. Se votarem e ele for eleito, largará o mandato no meio para tentar se eleger governador. Serra respondeu que jamais procederia assim.

E para mostrar que falava sério, provocado por um jornal, pôs por escrito a promessa de cumprir até o fim o mandato de prefeito. Vexame! Que será relembrado à exaustão na próxima campanha.

O antídoto ao vexame começou a ser aplicado no último sábado por Gilberto Kassab (PSD), o vice que completou o mandato de Serra e se elegeu prefeito depois. Kassab falou: "Ele quer ser prefeito de São Paulo. E abandonou essa opção (a de concorrer à Presidência)".

Quem já viu algum político abdicar da opção de reunir mais poder? Assim como Aécio não suou a camisa para eleger Serra presidente em 2002 e em 2010, Serra também não vai suar a sua se, por acaso, Aécio for candidato a presidente daqui a dois anos.

Mas o tempo costuma aprontar surpresas. E se Aécio não for candidato? Anastasia, ex-vice de Aécio, eleito por ele governador de Minas Gerais, não poderá ser candidato a novo mandato em 2014.

Abre-se espaço para o atual vice, Alberto Pinto Coelho (PP), quatro vezes deputado estadual. Só que a eventual eleição dele não será um passeio. É possível então que Aécio se veja compelido a voltar ao governo. Aí...

Aí chega de tanta especulação! De concreto: entre se limitar a fazer política nas redes sociais (blog, Twitter, Facebook) ou passar a fazê-la a partir da prefeitura de São Paulo, Serra escolheu o certo.

Caso se eleja provará do gosto saboroso de ter batido Lula, que impôs ao PT a candidatura de Fernando Haddad, ex-ministro da Educação. Caso perca...

Bem, dirá que nunca faltou ao partido nas horas mais difíceis e sempre que o partido precisou dele. É verdade! Nem por isso será uma verdade menos amarga.

Desejará mais tarde ser candidato a deputado federal como foi em 1986 ao dar início à sua carreira política? Ou viverá o resto da vida como professor e economista? Serra tem a ganhar e a perder ao ambicionar a prefeitura de São Paulo pela quarta vez.

Geraldo Alckmin (PSDB), governador de São Paulo, só tem a ganhar com a ambição de Serra. O mundo gira e a Lusitana roda. Há quatro anos foi Alckmin que dependeu de Serra para se eleger prefeito da capital.
Agora é o contrário.

Se Alckmin não jogar pesado para eleger Serra, ele não se elegerá — como Alckmin não se elegeu quando Serra, governador, preferiu a companhia de Kassab. Ali, Serra e Alckmin se tornaram mais do que desafetos. O que um dizia do outro era impublicável.

Não fizeram as pazes. Estão juntos por conveniência. Se Serra recusasse a candidatura a prefeito, Alckmin ganharia debitando na conta dele a derrota de qualquer outro nome do PSDB. Se Serra se eleger, Alckmin ganhará. Candidato à reeleição, será ajudado pelas máquinas do governo e da prefeitura.

Se Serra perder...Bem, Alckmin celebrará em silêncio.

FONTE: O GLOBO