segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Lula sai em defesa do PT em comício


Em Santo André, ex-presidente diz que País não seria "alegre" e "orgulhoso" sem o partido e lembra a morte de Celso Daniel

José Maria Tomazela

Numa clara defesa do PT, cujos membros estão sendo julgados no processo do mensalão - o tema virou arma eleitoral da oposição -, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem que o Brasil não seria o mesmo sem o partido. "Quando fazem críticas ao PT, a gente tem de fechar os olhos e imaginar o País sem o PT. Sem o PT, o Brasil não seria esse país alegre nem esse país orgulhoso", afirmou em comício em Santo André, no ABC paulista, em apoio ao candidato petista Carlos Grana, que está em segundo lugar nas pesquisas.

Após lembrar as greves que liderou na região em 1978, Lula disse que a criação do partido, em 1980, "foi praticamente o começo da conquista da democracia no País". Dirigindo-se à plateia de 1.200 pessoas que ocupavam a Avenida Firestone, fez um apelo. "Quero pedir a vocês para não dar trégua e não ter raiva de ninguém, nem aceitar provocação. Quem tem o partido e os candidatos que temos não precisa ter raiva de ninguém."

A defesa de Lula ocorre em um momento que o partido é atacado em diversos Estados. Segundo mostrou reportagem do Estado ontem, o tema mensalão já está presente em pelo menos metade das disputas das capitais e tende a se alastrar com o julgamento do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu às vésperas do 1.º turno. O embate que opõe petistas e aliados de Lula aos partidos de oposição capitaneados pelo PSDB já apareceu, na TV ou em discursos públicos de campanha, em 13 capitais.

O comício teve a participação da ministra Miriam Belchior (Planejamento), que foi secretária na cidade na gestão do ex-prefeito Celso Daniel (PT). "Os conservadores chegaram a dizer que o PT tinha alguma coisa com a morte do Celso Daniel. Possivelmente para apagar a memória daquele que foi o melhor prefeito que esta cidade já teve", afirmou Lula.

À noite, em comício em Diadema, Lula falou de sua luta contra o câncer para motivar a militância. "Estou feliz porque o câncer está derrotado, como estarão derrotados nossos adversários no dia 7 de outubro." Em seu terceiro comício na região do ABC nesta campanha, ele voltou a defender seu governo. Depois de elogiar a administração do petista Mário Reali, candidato à reeleição em Diadema, comparou a mudança na cidade ao seu governo. "Fizemos em oito anos no Brasil o que aqueles que vieram antes de nós não fizeram e 30, 40, 50 anos."

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Hoje só amanhã - Melchiades Filho


Ninguém contribuiu mais para politizar o julgamento do mensalão do que Lula e o PT.

A oposição não tinha abraçado essa causa, seja por ter apanhado nas urnas, seja por saber que o holofote logo se voltará para o PSDB mineiro, primeiro cliente do valerioduto.

Foi Lula quem definiu como prioridade "desmontar a farsa" do mensalão ao se despedir do Planalto, quando recordes de popularidade lhe permitiriam fazer o que bem desejasse -lançar carreira internacional, sugerir novos projetos de inclusão, torcer pelo Timão etc.

Lula pressionou pessoalmente ministros do STF e, quando ficou evidente que Ricardo Lewandowski teria de entregar sua revisão e nada mais retardaria o julgamento, mandou o PT atiçar a militância e usar a CPI do Cachoeira para desviar a atenção e fustigar os adversários.

Tão logo saíram as primeiras condenações pelo esquema de desvio de recursos públicos, a direção do partido não hesitou em qualificar o STF de "instrumento golpista".

Não hesitou, também, em insultar o ministro relator, acusando-o de produzir uma "falácia" justo quando ele se preparava para tratar da participação ativa de petistas na compra de apoio parlamentar.

Cabe especular por que Lula e PT agem com o fígado. Uns dizem que eles perderam a mão. Outros, que tentam estancar prejuízos eleitorais. Mas é difícil acreditar que Lula, Zé Dirceu, Rui Falcão & Co vivam todos a mesma má fase. E nenhuma pesquisa vinculou o mau desempenho do PT nas capitais ao mensalão. Em São Paulo, por exemplo, o problema é o candidato: tem a metade do apoio do eleitor ao PT.

Resta uma hipótese. Esculacha-se o STF, o procurador-geral e a imprensa porque o mensalão é, como já disseram o delegado responsável da PF e Marcos Valério, uma teia criminosa bem maior do que a que está sob julgamento. Grita-se hoje para abafar o som do amanhã.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Direito no centro da atenção - Míriam Leitão


O rapaz chamado para consertar uma televisão na redação conseguiu normalizar o aparelho. A TV mostrava o julgamento do mensalão. Ele grudou a atenção na tela e mal respondia o que lhe perguntavam. Ficou de olho no ministro Joaquim Barbosa, que lia seu voto naquela linguagem difícil dos juristas. O técnico deu seu veredito apontando para o ministro: "Esse é o cara."

Um motorista que me leva ao trabalho de manhã também acompanha o que pode das sessões que julgam o mensalão no Supremo. Sempre foi eleitor de Lula, vibrou com a vitória da presidente Dilma e costuma comemorar com entusiasmo as vitórias do governo. Perguntei o que ele acha do julgamento, e ele explicou. Continua gostando dos governos Lula-Dilma, quer ver corruptos na cadeia e acha que o ministro Joaquim, quando brigou no começo dos trabalhos, tinha razão. Estava, segundo ele, evitando tentativas de "melar" o julgamento.

Vai demorar até que se avalie todo o efeito do que está acontecendo no STF sobre a política, o desempenho eleitoral do PT, e a ordem jurídica nacional. É acontecimento grande e impactante.

A compreensão do Direito avança no julgamento para teorias que fecham as brechas pelas quais os acusados de corrupção têm conseguido escapar da punição. Mas não estão descartados retrocessos.

Joaquim Barbosa foi criticado por faltar às sessões nos seus sucessivos e conhecidos problemas de saúde ou por desentendimentos com colegas. Nunca buscou a popularidade e tem reações vistas como ásperas. Entretanto, é chamado de "o cara" por um técnico de eletrônica e apoiado em suas brigas pelo motorista eleitor do PT. Tem sido parado na rua para fotos e autógrafos e em alguns restaurantes que vai é aplaudido.

Do ponto de vista da substância, seu voto tem sido considerado robusto por colegas e especialistas. Não por condenar, mas pela estratégia da montagem e da construção do lógica jurídica. Seu caminho do fatiamento e sua escolha da ordem do voto torna tudo mais compreensível. Foi por isso que, quando brigou para manter sua estrutura de voto, ele disse que se fosse de outra forma haveria o caos.

Não exagerava. O caso é espantosamente complexo, as teias do esquema são intrincadas, os acusados são muitos. O STF precisava julgar explicando o funcionamento do mensalão. Até jornalistas que têm por dever acompanhar o noticiário estavam confusos sete anos depois do estouro do escândalo sobre o papel de cada um dos réus. Ainda que a defesa discorde dos votos, métodos e condenações, esse caminho tem evitado a generalização da culpa. Não são todos igualmente culpados e já há absolvidos.

O projeto do PT, ao chegar ao poder em 2003, era ficar no mínimo 20 anos. Isso foi dito publicamente. Tem conseguido. Ao final deste governo já serão 12 anos, com grande chance de virarem 16. Esse tempo de poder não foi conseguido nas transações com as quais os arquitetos políticos do partido pensavam estar construindo as base da longa permanência.

A aprovação ao governo se alimentou dos acertos na administração do país. Primeiro, ao manter o arcabouço que garantiu a estabilidade monetária, e, depois, ao promover avanços nas políticas sociais. A lista de erros é significativa. Mas o que agrada ao eleitor é a estabilidade econômica com avanços sociais.

O eleitor não militante que vota no PT aprova o julgamento do mensalão e apoia o governo. Não vê nisso contradição. O que está sendo julgado é uma prática política e não um partido político. Resta ao partido - a todos eles - entender os sinais eloquentes da sociedade brasileira.

FONTE: O GLOBO

A esquerda venceu? - Renato Janine Ribeiro


A esquerda venceu? A esquerda perdeu? Um balanço das últimas décadas permite argumentar numa direção e noutra. Vou propor uma distinção, para sugerir que a esquerda política perdeu, enquanto a esquerda que chamarei de comportamental venceu.

As mudanças na vida pessoal - o que hoje é denominado "comportamento", termo que uso aqui por simples comodidade - foram enormes no último meio século. Na década de 1960, homossexuais eram mal vistos em quase todo o Ocidente, mulheres eram cidadãs de segunda classe, negros muitas vezes não eram sequer respeitados como cidadãos e, para resumir, quem adotasse uma postura não convencional em face da vida enfrentava dificuldades que podiam ser grandes. Os 50 anos transcorridos desde então conheceram uma mudança nas atitudes das pessoas sem precedentes na história do mundo.

Boa parte dessas bandeiras foi desfraldada pela esquerda. Ela foi radical contra o racismo. É verdade que não foi unânime em favor das mulheres nem dos homossexuais, mas seguramente a maior parte da esquerda apoiou as causas delas e deles; e certamente a proporção de direitistas que defenderam a emancipação feminina e o respeito à orientação homossexual foi bem inferior à proporção de esquerdistas assumindo tais valores. Sem dúvida, havia pessoas à esquerda que achavam que homossexualismo era vadiagem, mas eram menos numerosas do que os direitistas que o condenavam como pecado. Sem dúvida havia gente à esquerda que considerava a defesa dos direitos das mulheres como um desvio em relação ao conflito principal, que seria a luta entre capital e trabalho - mas isso porque esperava que a vitória do socialismo traria, automaticamente, a solução dos problemas das mulheres. Isso, claro que em linhas gerais.

Ela mudou mais o comportamento do que a política

Hoje, essas causas venceram, não totalmente mas em larga medida. Continua havendo crimes de ódio contra homossexuais. O machismo está presente em nossa sociedade e em outras. Fora do Ocidente expandido, a situação é sem dúvida pior, mas pelo menos nesta parte do mundo a esquerda que chamei de comportamental conseguiu emplacar várias de suas causas. Mas ela venceu justamente porque essas questões deixaram de ser de esquerda e se tornaram universais.

Talvez seja por isso que no Brasil, enquanto a sociedade politizada se cindiu de maneira talvez irremediável entre PT e PSDB, esses dois agrupamentos coincidem o mais das vezes na defesa dos direitos humanos. Alguns colunistas de jornal que atacam com veemência o governo petista estão mais perto dele na defesa do meio ambiente, dos direitos das mulheres e dos homossexuais. Essas causas nasceram na esquerda, mas se expandiram. É verdade que os agrupamentos políticos de base religiosa não seguem esse caminho, e que - sobretudo nos Estados Unidos - eles obtêm uma votação preocupante. Também é verdade que em nosso país o segundo turno de 2010 foi sequestrado por uma discussão arcaica sobre o aborto, o que o converteu na disputa de ideias mais rasa de nossa história recente. Mas na postura política mais civilizada temos a vitória de ideais que, aliás, foram de esquerda mais no sentido de uma sensibilidade ampla do que no de pertencerem a um partido ou outro. Porque os temas que enumerei nunca foram propriamente partidários. O único partido minimamente importante que já se organizou em torno de uma dessas causas foi o Verde, que só chefiou um governo nacional uma vez - dez meses na Letônia.

Quantos lembram como começou Maio de 1968, na França? O ministro da Juventude do general De Gaulle foi inaugurar uma piscina em Nanterre, em 8 de janeiro daquele ano. Um estudante alemão, Daniel Cohn-Bendit, interpelou-o. Disse que fazer piscinas era uma aposta nazista para reprimir sexualmente os estudantes. Tudo começou aí. Cohn-Bendit não estava errado, mas o próprio fato de que essa frase chocará ou fará rir nove em dez leitores mostra que hoje as aulas de educação física já não são cogitadas para esgotar a energia de natureza sexual dos jovens. Hoje, ter uma vida sexual ativa não é mais uma causa rebelde ou revolucionária.

Para a esquerda política, porém, as coisas são bem diferentes. É verdade que em toda a América Latina é mais fácil ser de esquerda hoje do que nunca no passado. Os governos importantes da América do Sul, salvo Chile e Colômbia, são de esquerda. Políticas de conteúdo social se tornaram irrenunciáveis. Sindicatos e movimentos sociais não são mais reprimidos a bala, pelo menos não como praxe. Todos esses são avanços da esquerda, mas por outro lado ninguém hoje disputa seriamente o poder propondo o fim da propriedade privada dos meios de produção.

O projeto de uma sociedade socialista sumiu ou pelo menos recuou. Em 2008, quando o mundo da utopia neoliberal faliu, acarretando um desastre econômico e social, não havia proposta alternativa pela esquerda. Não tinha havido uma crítica em regra da teoria marxista, que levasse a um novo projeto passível de empolgar as massas. Não tinha havido uma atualização das propostas radicais, que, com frequência, são apenas as mais antigas. Para os pobres traz resultados mais imediatos a política de cooptação de seus movimentos pelo capitalismo, iniciada por Lula, do que os ideais puros e duros de um PSOL. Quando os grandes partidos do centro para a esquerda, como o socialista francês ou o PT, aceitam princípios do neoliberalismo, então a esquerda política vive um momento de eclipse. Para sair dele, precisará propor uma nova sociedade, em escala macro, mas como fazer isso? Ela avançou no microssocial, mas hoje não se sabe como retomar seus sonhos para a sociedade como um todo.

Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo.

FONTE: VALOR ECONÔMICO

Esquerda e direita – onde estão? - Zander Navarro


Examinados os fatos da vida social depois de 1989, sabemos que o significado da antinomia acima foi perdendo seu significado. A esquerda tem sido pressionada a revelar o imperscrutável sentido de sua ação política que, renovado, transformaria a ordem. Já a direita, saboreando os rumos da História, dedica-se a tertúlias, pois nunca almejou mudar nada.

Não obstante ser uma discussão fascinante, não é meu propósito adentrar o debate e suas nuances infindáveis. Mas ilustro a profunda confusão reinante, sugerindo, com o fato relatado, que aquela antítese, provavelmente, esteja mesmo perdendo a sua relevância.

Em agosto foi realizado em Brasília o Encontro Nacional Unitário dos Trabalhadores e Povos do Campo, das Águas e das Florestas, reunindo organizações supostamente representativas dos segmentos sociais que habitam tais ambientes. A declaração final do evento é uma das mais vivas evidências do abastardamento de muitos setores da esquerda. Aferida por qualquer ângulo mínimo de sensatez é um texto lunático e produto de primária ideologização, desconhecendo por completo a natureza e as tendências do desenvolvimento agrário brasileiro. Causa perplexidade que, ao lado de muitas organizações signatárias quase fantasmas, a CUT e a Contag tenham endossado tal despautério verborrágico. Temos assim um segmento autointitulado de esquerda que deseja o progresso social do campo, mas é incapaz de submeter proposições, ainda que minimalistas, com alguma chance de concretização.

Por outro lado, pesquisas da Embrapa comandadas pelo lendário economista Eliseu Alves, usando os dados empíricos apurados pelo Censo Agropecuário, vêm alertando para a dramática velocidade de concentração da produção agropecuária, sugerindo que tal modelo produz níveis alarmantes de seletividade social, embora ao lado de volumes de produção total inéditos. Como sua equipe é formada de cientistas e não demagogos, refratários ao discurso fácil de cartilhas partidárias, demandam uma ação governamental rápida e urgente, a qual possa disseminar o melhor da tecnologia agrícola existente, como a derradeira tentativa de integrar economicamente o maior número de produtores mais pobres. Demonstram, irrefutavelmente, que o fator terra há muito deixou de ser decisivo para elevar a renda rural, pois em nossos dias apenas a ciência e sua materialização em técnicas modernas é que permitirão a um número expressivo de produtores a chance de deixar a pobreza que caracteriza a maior parte do campo brasileiro.

Alves, com os seus 81 anos e extraordinária capacidade analítica, é visto em certos setores da esquerda como um intratável conservador e insensível aos problemas sociais. É estranha a acusação, pois é ele quem mais consistentemente tem revelado a face real da pobreza rural e os caminhos efetivos e únicos para diminuí-la rapidamente.

A comparação é reveladora dos tempos bizarros que hoje marcam o país. Quem portaria o foco progressista, movido pelo sonho de uma sociedade mais igualitária? Qual a via que, de fato, garantirá mais igualdade e inclusão social nas empobrecidas regiões rurais? Como produzir conhecimento, se fingimos entender o que se passa e também situamos os atores sociais em falsas disposições no campo político? Ainda mais crucial: a quem interessa manter tal confusão sobre a realidade?

Zander Navarro é sociólogo e professor aposentado na UFRGS (Porto Alegre). Entre 2003 e 2010 foi professor e pesquisador no Instituto de Estudos sobre o Desenvolvimento (IDS), na Inglaterra.

FONTE: GRAMSCI E O BRASIL

Melhor para todos - Wilson Figueiredo


O brasileiro não estava nem aí quando o domingo se  apresentou como  cartão de visitas do verão e logo ficou sabendo  da entrevista de teor equivalente ao bilhete em que Jânio Quadros avisou que estava deixando de ser o Presidente da República, com sete meses de governo,  por se sentir impedido  de exercer os poderes a que tinha direito.

A semelhança se esgotou na entrevista em que Marcos Valério fazia, mas deixou de fazer,  uma antologia de razões servidas tarde demais a uma  opinião pública cansada de versões insatisfatórias como saldo republicano. De resto, tarde demais para alterar a ordem dos fatores conhecidos e deixar mal o produto posto à  disposição dos cidadãos, sob o insuficiente nome de mensalão.  O que seria a versão final de Marcos Valério ficou para outra oportunidade, quem sabe melhor, e que não faltará na próxima curva da história.

No domingo as circunstâncias eram outras, e não estavam em causa  as tentações  da reeleição. Pairava no ar expectativa indefinida. Ninguém ficou sabendo, nem por intermédio de quem, a entrevista voltou ao ponto de partida. Deixou de haver. Se é que não faltou alguém, com senso de oportunidade e faro mineiro, para reviver o papel de José Maia Alkimim quando, entre a manhã e a tarde do 25 de  Agosto de 1961,  dirigiu-se ao senador Auro Moura Andrade, então  presidente do Senado, e lhe perguntou se era verdade ter em mãos  “um documento capaz de mudar o destino do Brasil” e,  diante da confirmação, pediu para conhecer o teor. Leu sem pressa e, guardando os óculos,  perguntou o que Moura Andrade estava  esperando para lhe dar curso. (A versão é do próprio autor mineiro e nunca foi posta em dúvida.) A História guarda o essencial, e deixa pormenores para o varejo. Seja como tiver sido, a entrevista de Valério foi recolhida e deixou na manhã de domingo o teor de um episódio que passou de mensalão a Ação Penal 470. Melhor para todos.

As conseqüências não se fizeram de rogadas em agosto de 1961, mas em setembro de 2012 o personagem principal, modéstia à parte, é mais cuidadoso. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que não figura no elenco da Ação Penal 470, mas opera por trás dos demais – para não se incompatibilizar como candidato em 2024, -, não cuidou da Ação Eleitoral 7 desde que se interessou pela eleição municipal, como terapia ocupacional para, na oportunidade, habilitar-se mais uma vez  à presidência, a seu ver incapaz de viver sem ele. Este é, até segunda ordem, problema que só diz respeito à presidente Dilma Rousseff, com prioridade para aceitar a reeleição, desde que a República se sentiu em condições de manter esse desafio amaldiçoado. Mas aí o problema passa a ser de Lula.

No caso da entrevista de domingo, tenha ou não sido concedida, pessoalmente ou por tabela, Marcos Valério pingava os pontos nos iis: tudo que disse já era do conhecimento de boa parte do público interessado ou não. Lula sabia  de tudo e, se não soubesse, pior para seu saldo negativo. Falou mais firme a sensação  de que se trata exatamente do que se sabia. O Supremo mastigara com vagar para que a opinião pública não engasgasse com a própria fome de escândalos  acumulados  ao longo do percurso para tornar realmente digeríveis as conclusões finais.

Se não estava, como devia estar, previsto que não poderia terminar bem o método que encalacrou  PT,  a conclusão só pode ser que a  ameaça de Valério antecipou a primavera à espreita da oportunidade no eterno jogo de  empurra que é razão de ser da política.

FONTE: JORNAL DO BRASIL

A Ação Penal 470 e o sistema de representação política brasileiro


Helena Regina Lobo da Costa

Nesta semana, o Supremo analisa o chamado "núcleo político" da Ação Penal 470, formado por réus acusados de prática de corrupção passiva (dentre outros crimes), que teriam recebido vantagem econômica em troca de votos no Congresso Nacional.

Esses atos inserem-se no contexto da representação política brasileira, que merece ser refletida, para que se possa compreender mais profundamente o tema. Evidentemente, o sistema, por si, não gera, tampouco justifica a suposta prática de corrupção por parte dos representantes eleitos.

Como se sabe, o Presidente da República é escolhido a partir de votação majoritária, sendo eleito pela maioria absoluta dos votos válidos diretos dos cidadãos. Já o Senado, por ser o representante da Federação, tem três representantes para cada Estado e para o Distrito Federal. Assim, no Senado, não há vinculação direta entre o número absoluto de votos válidos de eleitores: o Estado brasileiro mais populoso tem idêntico número de representantes do Estado menos populoso.

A Câmara dos Deputados, por sua vez, tem representação proporcional, sendo formada por no mínimo 8 e no máximo 70 deputados de cada Estado, de acordo com a população correspondente. Além disso, vigora o sistema de listas partidárias, compostas pelos membros mais votados de cada partido ou coligação. O número de cadeiras cadeiras obtidas pelos partidos é proporcional à soma dos votos em todos os candidatos daquele partido ou coligação.

Outro dado importante é o de que o sistema partidário brasileiro é multipartidário - diferentemente, por exemplo, dos Estados Unidos, onde é bipartidário. As alianças entre esses partidos, nos diferentes Estados, municípios e no nível federal, variam bastante, não se podendo identificar, via de regra, uma orientação fundada em ideologias e princípios, mas, em geral, em interesses conjunturais, locais ou temporais específicos.

Nesse contexto, nem sempre um presidente eleito com ampla maioria de votos conta, no Congresso Nacional, com apoio da maioria dos representantes. Isso ocorre, evidentemente, não apenas no Brasil, mas também em outros sistemas, e há uma razão política para isso.

A ideia deste equilíbrio de forças é, exatamente, o de concretizar a democracia: diferentes órgãos de representação votando projetos de alteração na legislação brasileira, com vistas a garantir a prevalência da vontade popular. O grande desafio, portanto, ocorre no momento da discussão de projetos de interesse do Executivo a serem votados no Congresso.

Entretanto, e infelizmente, nesses momentos, nossa história mostra que o recurso a atendimento de interesses privados de representantes em troca de seus votos não foi exceção. Isso não é culpa do sistema eleitoral. Certamente, há pontos a serem aperfeiçoados, mas somente com uma mudança de mentalidade dos operadores e atores desse sistema se poderá alterar o foco dos alinhamentos políticos.

É preciso amadurecer as discussões sobre propostas, as alianças políticas em torno de projetos ou ideias e a oposição fundada em discordância de concepções. E, evidentemente, isso é algo a ser concretizado não apenas na representação federal, mas também na estadual e municipal.

Ainda que pareça utópico e ingênuo, a grande discussão pública que o julgamento da Ação Penal 470 gerou somente levará a mudanças políticas se esse momento for utilizado menos para a catarse e mais para a (re)construção política.

De nada adiantará nos escandalizarmos com os fatos discutidos no julgamento se, nas eleições que se avizinham, não soubermos escolher candidatos com base em projetos, ideias e propostas. Deixemos de ser mero expectadores, tomemos as rédeas de nosso futuro político.

Helena Regina Lobo da Costa é professora doutora da Faculdade de Direito da USP.

FONTE: VALOR ECONÔMICO

Lula ignora mensalão em palanques do ABC

Ex-presidente atua como cabo eleitoral e diz sentir saudades do poder e da militância sindical em porta de fábrica

Depois de articular manifesto contra a oposição, petista omite escândalo e faz elogios ao próprio partido

Bernardo Mello Franco

SÃO PAULO - Na volta aos palanques do ABC paulista, no fim de semana, o ex-presidente Lula ignorou o julgamento do mensalão e investiu em elogios ao PT e ao próprio governo.

Ele evitou referências ao manifesto em que partidos aliados acusam a oposição de "golpismo" e de questionar sua "honra e dignidade" ao explorar o escândalo nas eleições. O próprio Lula articulou a redação do texto, divulgado na última quinta-feira.

"Quando fazem críticas ao PT, a gente tem que fechar os olhos e imaginar o Brasil sem o PT. Não seria esse país alegre e orgulhoso que é", disse ontem, em Santo André.

"Estou feliz porque o câncer está derrotado, como estarão os nossos adversários", afirmou horas depois, em novo comício em Diadema.

Em São Bernardo do Campo, anteontem, Lula disse que "não falta nego safado neste país para fazer provocação", mas defendeu a aliança local com o DEM, que fez oposição ao seu governo.

Em Diadema, ele pediu boicote a candidatos do PSDB e do PPS, mas se corrigiu ao ser alertado pelo candidato petista Mário Reali que a última sigla o apoia.

Houve princípio de tumulto quando dois homens com sinais de embriaguez abriram faixas com as inscrições "Lula, cadê o Maluf?" e "Mensalão em Diadema, não". O material foi confiscado por seguranças sem que o ex-presidente visse o incidente.

A 15 dias do pleito, Lula deu uma pausa na campanha por Fernando Haddad em São Paulo para atuar como cabo eleitoral no ABC. A maratona continua hoje em Mauá.

"Depois o pessoal quer que eu vá a Guarulhos, Osasco. O Claudinho da Geladeira quer que eu vá a Rio Grande da Serra...", contou anteontem.

"Não sei se vai dar para ir em tudo quanto é lugar, mas vou falar menos e tentar cobrir o maior número de cidades possível para pedir voto."

Com a voz ainda debilitada, ele falou para plateias com menos de 3.000 pessoas e disse sentir saudade de quando tomava cachaça, em vez de água, antes de falar.

"Quando eu ia na porta de fábrica, eu tomava era uma caninha de manhã. Agora tenho que tomar uma aguinha", reclamou no sábado.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

No Rio, máquina eleitoral alimenta favoritismo de Paes


Prefeito montou aliança de 20 partidos, tem mais da metade do tempo de propaganda e lidera em arrecadação de recursos

Alfredo Junqueira

RIO - Com 20 partidos na coligação, 75% dos candidatos a vereador, mais da metade do tempo de TV e uma avaliação positiva que ultrapassa 50%, o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), montou uma máquina eleitoral poderosa e é favorito para vencer a eleição na cidade já no primeiro turno.

Seu principal concorrente, o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), ainda não rompeu a barreira dos 20% nas pesquisas. Sem alianças partidárias, faltam a ele recursos e estrutura. Sobram, no entanto, apoios da classe artística - como os de Caetano Veloso e Chico Buarque. Ao apresentar sua campanha como uma "Primavera Carioca", em referência ao movimento de revoltas que acontecem nos países árabes desde o ano passado, Freixo faz críticas ao que chama de política tradicional e busca uma "aliança com a sociedade".

Até o momento, o discurso de mudança na forma de fazer política, a atuação contra as milícias e a adesão de artistas parecem ter sensibilizado apenas o eleitorado mais instruído e com maior poder aquisitivo - concentrado na zona sul da cidade. Já a aliança entre o ex-prefeito Cesar Maia (DEM) e o ex-governador Anthony Garotinho (PR), que lançaram chapa com seus respectivos filhos, o deputado federal Rodrigo Maia e a estadual Clarissa Garotinho, ainda não cumpriu seu objetivo de atrair o eleitorado mais popular.

Áreas. A campanha de reeleição do prefeito se concentra basicamente na apresentação dos resultados de projetos de sua administração direcionados, principalmente, para as zonas norte e oeste do Rio - regiões mais pobres e que concentram número elevado de eleitores.

"O Eduardo direcionou boa parte das obras para essas regiões e montou um pacote de projetos que tem uma pegada social", explicou Renato Pereira, estrategista da campanha de Paes. "Pesquisas qualitativas mostram que ele é identificado como candidato do povão".

Desde o início da campanha, Freixo fez críticas à coligação de Paes: "A nossa campanha não precisa dar satisfações a 20 partidos que já lotearam a administração." Mesmo assim, foi do PSOL que surgiu um candidato a vereador suspeito.

Rosenberg Alves do Nascimento, o Berg Nordestino, foi citado no relatório da CPI das Milícias, presidida por Freixo, e tinha ligações com o vereador miliciano Luiz André Deco, preso ano passado. Berg foi expulso do partido, mas o episódio deu combustível para os adversários criticarem Freixo.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Paes critica Guaraná, ex-chefe de gabinete


Candidato a vereador contratou assessor ligado a miliciano

Cristina Tardáguila, Juliana Dal Piva

O prefeito Eduardo Paes, candidato à reeleição pelo PMDB, criticou ontem seu ex-chefe de gabinete, ex-secretário de Obras e da Casa Civil, Luiz Guaraná - atual candidato a vereador pelo PMDB - por ter contratado como assessor um antigo funcionário do ex-vereador Cristiano Mathias Girão, condenado a 14 anos de prisão por formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Em carreata pelo Cachambi, Paes disse que a contratação demonstra "falta de inteligência e de percepção" e contou que já "puxou a orelha" de Guaraná. Negou que o caso revelado pela "Veja" afete sua campanha.

No evento, a comitiva de Paes, que contava com pelo menos dez veículos adesivados pela campanha de Guaraná e com a presença do "homem latinha" (símbolo do candidato), passou por centenas de cartazes em que os dois aparecem acima da frase "Há 20 anos trabalhando juntos". Mas Guaraná não participou do evento.

- Acho muito ruim para ele ter contratado alguém que trabalhou para o Girão. Se eu fosse ele, já tinha demitido ontem - disse Paes. - Isso não me afeta em nada, mas já puxei a orelha dele porque, por mais que o rapaz não tenha ligação com a milícia, tem um mal antecedente. Trabalhou no gabinete de um sujeito esquisitíssimo.

Paes, que diz ter se reunido com Girão "duas ou três vezes", classifica o ex-vereador como "um horror", mas defende Guaraná, dizendo se tratar de "um homem de bem".

Em nota, Guaraná informa que todos os assessores são submetidos à pesquisa antes da nomeação e que não há qualquer problema na ficha de Anderson da Silva, citado pela "Veja". Mesmo assim, anunciou ter pedido sua exoneração.

A revista "Veja" informa que o ex-assessor de Girão, conhecido como Zoião, trabalhou para o miliciano até 2010 e coordenava a campanha de Guaraná na Gardênia Azul.

O candidato do PSOL à prefeitura, Marcelo Freixo, afirmou que, em depoimento à CPI das Milícias, por ele presidida, Girão contou que mantinha relações com o ex-secretário municipal de Ordem Pública Rodrigo Bethlem, que hoje é coordenador de campanha de Paes. O próprio PSOL, no entanto, já teve nesta eleição problemas com milicianos. Há duas semanas, o partido, após divulgação de que o candidato a vereador Berg Nordestino era citado no relatório da CPI, abriu processo de expulsão contra ele. O TRE-RJ, no entanto, ainda não cassou seu registro.

FONTE: O GLOBO

Risco de fuga das urnas


Aumento dos votos nulos, brancos e da abstenção em algumas das maiores cidades de Minas revela descrença de parte da população na força do voto

Bertha Maakaroun

Eleitores mais distantes da disputa. Poucos adesivos em carros. Para boa parte dos cidadãos, não há emoção na briga pelo voto na qual se engalfinham candidatos. Esse movimento não é novo, e a julgar pela evolução dos votos brancos, nulos e da abstenção nas últimas eleições, a frieza poderá voltar a se traduzir nas urnas, com o encolhimento dos votos válidos. Na última campanha para prefeito de Belo Horizonte, em 2008, brancos, nulos e abstenções somaram quase um terço do eleitorado: 29%. Foi o maior percentual verificado nos últimos quatro pleitos na capital, que superou inclusive 1996, quando foram registrados 27%. Em 2000 e em 2004, brancos, nulos e abstenção caíram para 24%, voltando a subir quatro anos depois.

Não é apenas na capital que o eleitor parece acompanhar de camarote o debate. Também em cidades grandes, em que há segundo turno, registra-se crescimento do grupo que opta pelo voto nulo, branco ou não comparece às urnas. Em Contagem, depois do aumento gradual dos votos válidos entre 1996 e 2004 – respectivamente 77%, 78% e 79% – nas últimas eleições municipais esse percentual caiu para 75%. Um quarto dos eleitores abriram mão de escolher um candidato. O mesmo ocorreu em Juiz de Fora e em Betim. Na cidade da Zona da Mata, os votos válidos caíram de 81% em 1996 para 77% em 2008, a menor taxa das quatro últimas eleições. Em Betim, os votos válidos para prefeito em 2000 e em 2004 chegaram a 82% do eleitorado, mas em 2008 encolheram para 80%.

Num contexto em que o voto é obrigatório, como é o caso brasileiro, o crescimento do número daqueles que não querem ir às urnas sugere um afastamento – quase um desencanto – do eleitor. Para o cientista político e professor do Departamento de Ciência Política da UFMG Bruno Wanderley Reis, o fato de as eleições terem virado uma rotina torna previsível esperar, a longo prazo, algum aumento da abstenção. "É de se esperar um movimento nesse sentido. Em contextos específicos, entretanto, pode haver picos de participação", contrapõe.

As conjunturas políticas podem ser mais ou menos propícias a que seja reacesa a chama da participação. O cientista político Marcus Figueiredo, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), considera, no artigo "O voto obrigatório", que a participação do eleitor varia em função de sua percepção quanto à capacidade de influir na vida política do país, cidade e município. Nesse sentido, a flutuação na taxa de abstenção relaciona-se às condições em que ocorre a competição política e à crença na efetividade do voto como mecanismo de mudança.

Nas primeiras eleições após um longo jejum provocado pelo regime militar, a abstenção no primeiro turno em 1989 foi de 11,9%, proporção que, em média, dobrou nas eleições da última década. A lógica eleitoral pode ser facilmente aplicada também às democracias antigas, como é o caso da eleição de Barack Obama, nos Estados Unidos, em 2008, quando numa sociedade desgastada pelo governo de George W. Bush e sua política única de guerra ao terror, levou quase 66% dos 153,1 milhões de eleitores registrados às urnas. Nos Estados Unidos, onde o voto não é obrigatório – e o comparecimento médio gira em torno de 50% –, a participação política naquele ano foi a maior desde 1908, quando várias restrições impediam todos os americanos de votar. O comparecimento naquela eleição também superou o recorde de 1960, quando 64,9% foram às urnas na disputa entre John Kennedy e Richard Nixon.

FONTE: ESTADO DE MINAS

Em Recife, Humberto: bombardeio no PSB e PSDB


Petista decide reforçar, em discursos e na TV, o debate sobre a PPP da Compesa, procurando atingir Geraldo Julio e Daniel

Bruna Serra

O mantra que permeou as campanhas petistas em esfera nacional e local durante as últimas cinco eleições está de volta: as privatizações. Ciente de que o discurso contrário à Parceria Público Privada (PPP) da Compesa está irritando os socialistas, uma vez que lembra a polêmica da privatização da Celpe, Humberto Costa (PT) decidiu abordar o tema em todos os seus atos públicos e intensificar com o guia eleitoral. Ele pretende, também, tratar do assunto no debate de amanhã na TV Jornal. “Nesse processo, a parte boa – a lucrativa – da Compesa vai para o setor privado. E o prejuízo será nosso, vai aumentar a conta de água”, insistiu Humberto ontem, depois de realizar carreata de mais de dez quilômetros pelo Ibura.

A estratégia petista externa a briga histórica entre o governador Eduardo Campos (PSB) e o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB), que enquanto foram adversários jogaram um no colo do outro a responsabilidade pela venda da Celpe. Ao trazer à tona o episódio, o PT provoca a entrada dos socialistas no debate político e, de quebra, deixa a população intrigada com o argumento de que, assim como a conta de energia, a água vai custar mais caro.

O discurso ainda resvala no adversário Daniel Coelho (PSDB), com quem Humberto disputa uma vaga no segundo turno. Desde a sexta-feira (21), o petista vem repetindo que Daniel não personifica o novo. “Esse tucano representa as privatizações, a inflação que só gerou infelicidade para o nosso povo”, atacou.
Humberto ainda ironizou Geraldo Julio quando afirmou que o socialista busca se vincular apenas às ações bem avaliadas do governo do Estado. “Ele não assume o corte do ICMS (do Recife), que foi ele que fez, prejudicando a administração municipal. Também não assume a PPP da Compesa. Isso não foi ele que fez?!”, disparou. No fim de semana, o petista ainda criticou o TRE, por ter indicado o juiz João Maurício Alcoforado – primo do presidente do PSB, Sileno Guedes –, para julgar a ação do PT contra o socialista Geraldo Julio, por suposta propaganda “casada” com o governo do Estado.

Ainda ontem, depois de dizer que é “um tiro no escuro apostar num desconhecido” – fazendo outra referência ao rival socialista –, Humberto reconheceu que existe no Recife um sentimento de mudança. Segundo ele, foi ciente dessa necessidade que o PT optou por mudar o candidato. “A situação não é boa, sabemos disso. A atual administração (João da Costa) não tem conseguido dar continuidade às mudanças que a cidade precisa, as políticas sociais. Por isso mudamos o candidato”, disse.

FONTE: JORNAL DO COMMERCIO (PE)

Apetites maniqueístas – José de Souza Martins


Às fomes antagônicas do MST e do diretor da FAO contrapõe-se uma terceira: a da menina sudanesa fotografada enquanto um abutre ao lado esperava sua morte

Na perspectiva maniqueísta que domina hoje as formas vulgares do pensamento social existe a fome da esquerda e existe a fome da direita. Na esquerda, a fome se mata com reforma agrária e preservação de costumes agrícolas tradicionais das populações camponesas, verdadeiro capital cultural que a Revolução Verde jogou no lixo. Na direita, a fome se mata com o agronegócio, a concentração da propriedade e a modernização tecnológica da agricultura em grande escala, substituindo trabalhador por máquina, fertilizante e agrotóxico. Na esquerda, a agricultura familiar mata a fome dos famintos. Na direita, a agricultura extensa mata antes a fome do mercado. É possível estender a ladainha por um grande número de itens comparativos sem saciar a fome política de nenhum dos dois grupos nem, principalmente, fazer com que o pão nosso de cada dia chegue de fato ao prato raso dos famélicos da terra.

A polarização retornou à pauta dos assuntos pendentes no correr dessa semana. O MST, e o grupo de entidades que em torno dele se articula, soltou um manifesto em que questiona, com indignação e medo, dizem, artigo publicado no Wall Street Journal por José Graziano da Silva (o brasileiro que é diretor-geral da FAO - Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação) e Suma Chakrabarti (o indiano que é presidente do Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento). O artigo tem o título provocativo de Fome por Investimento e o subtítulo, mais provocativo ainda, de O Setor Privado Pode Dirigir o Desenvolvimento Agrícola em Países que mais o Necessitam. Provocativo para quem vê o assunto da perspectiva do calor úmido de um barraco de acampamento de sem-terra, mas que de fato não lê o Wall Street Journal senão através de intermediários que não passam necessariamente fome. No entanto, desafiador e instigante para quem vê o assunto com óculos de cifrões no conforto de um escritório bem mobiliado e ar condicionado de Wall Street.

Quem lê o manifesto do MST tem a impressão de que, em Roma, o petista José Graziano não tem outra coisa a fazer senão maquinar a demolição das propostas ideológicas da entidade que o julgava amigo, o que ele é. Quem lê o artigo publicado no jornal das altas finanças internacionais tem a impressão de que o intuito de seus autores é bem outro: o interlocutor não é o MST nem o MST está nos horizontes de quem publica artigo nas páginas especializadas em economia do Wall Street Journal.

A comparação entre os dois documentos mostra claramente que Graziano e Chakrabarti falam de uma coisa e o MST fala de outra. O medo do MST é a subjacente doutrina do favorecimento do agronegócio na ocupação das terras agrícolas do mundo. O medo de Graziano e Chakrabarti é o de que as urgências das crises internacionais, provocadas pelo capital especulativo, minimizem ainda mais a FAO e seu já claudicante papel no desenvolvimento econômico. Se há tensão política nas crises tópicas recentes na Europa, há também tensão política na crise crônica das populações agrícolas, em especial no Terceiro Mundo.

A terceira via de Graziano e Chakrabarti é, sem dúvida, a de atrair o grande capital para a agricultura nos países que dispõem de extensos territórios férteis em desuso ou usados em cultivos arcaicos e ineficientes. O apelo dos dois autores, tendo em conta os poderes que representam, se baseia no primado da produtividade lucrativa. Por essa via, haveria produção, exportação, emprego. Haveria, também, melhora nas condições de vida dos agricultores. Como tudo que se orienta para a terceira via, o artigo é confuso e escamoteia questões essenciais. A camisa de 11 varas de Graziano já ficara exposta na entrevista que deu à revista alemã Der Spiegel, em 16 de janeiro. Acossado pelas jornalistas, que trataram com sarcasmo suas ideias para resolver o problema da fome no mundo, confrontando-as com as objeções do agronegócio, reconheceu que o problema da fome muito deve à interferência especulativa do capital financeiro no comércio de commodities.

Tanto no documento do MST quanto no artigo de Graziano e Chakrabarti a disputa é quanto à propriedade dos meios de produção na agricultura: a família agrícola ou o agronegócio. A fome é aí uma fome puramente teórica. É, pois, na mesma lógica econômica que das incongruências do artigo de Graziano e Chakrabarti se dá conta o MST, quando questiona: "Não mencionam em momento algum que as cifras oficiais mostram que nos três países mencionados (Rússia, Ucrânia e Casaquistão) a produtividade é muito mais alta nas terras em mãos de camponeses que naquelas em mãos do agronegócio". Portanto, os verdadeiros personagens do triunfo agrícola não são os mencionados e cortejados pelos autores do artigo. Mas se poderia dizer, também, que a fome que os preocupa e preocupa o MST não é a mesma daquela menininha sudanesa, faminta, fotografada em 1993 por Kevin Karter (Prêmio Pulitzer), enquanto um abutre ao seu lado esperava o momento de saciar a própria fome.

José de Souza Martins - é sociólogo, professor emérito da Faculdade de Filosofia da USP, autor, entre outros, de Reforma agrária: o impossível diálogo (EDUSP)

FONTE: ALIÁS / O ESTADO DE S. PAULO

"Samba para Vinicius" - Toquinho e Maria Creuza

Oficina Irritada – Carlos Drummond de Andrade


Eu quero compor um soneto duro
como poeta algum ousara escrever.
Eu quero pintar um soneto escuro,
seco, abafado, difícil de ler.

Quero que meu soneto, no futuro,
não desperte em ninguém nenhum prazer.
E que, no seu maligno ar imaturo,
ao mesmo tempo saiba ser, não ser.


Esse meu verbo antipático e impuro
há de pungir, há de fazer sofrer,
tendão de Vênus sob o pedicuro.


Ninguém o lembrará: tiro no muro,
cão mijando no caos, enquanto Arcturo,
claro enigma, se deixa surpreender.


Casamento do Céu e do Inferno
No azul do céu metileno
a lua irônica
diurética
é uma gravura de sala de jantar.


Anjos da guarda em expedição noturna
velam sonos púberes
espantando mosquitos
de cortinados e grinaldas.


Pela escada em espiral
diz-que tem virgens tresmalhadas,
incorporadas à via-láctea,
vaga-lumeando...


Por uma frincha
o diabo espreita com o olho torto.

domingo, 23 de setembro de 2012

OPINIÃO DO DIA – Roberto Freire: ‘o mensalão maculou a República (XLVII)


 Lula já tentou se livrar do mensalão de muitas maneiras. Quando o escândalo estourou, deu uma entrevista esquisita em Paris, justificando que os recursos eram fruto de doações de caixa dois de campanha, como se isso não configurasse crime eleitoral. Depois, em pronunciamento à Nação, garantiu que fora traído pelos companheiros e que de nada sabia. Denunciado o caso pelo então procurador Antônio Fernando de Souza, tratou de dizer que era tudo uma farsa. Algo que nunca ocorrera na vida real. Invenção da imprensa. As versões, copiadas pelos réus do mensalão, não duraram um dia no Supremo Tribunal Federal.

Roberto Freire, deputado federal (SP) e presidente do PPS. ‘O garganta profunda’, Brasil Econômico, 21/9/2012.

Manchetes de alguns dos principais jornais do Brasil

O GLOBO
UPPs já evitaram 250 assassinatos em favelas
MP tenta evitar indulto para corrupção
Eleições 2012: Paes cumpriu 67% das promessas
Pré-sal: Até ONU quer os royalties
Sete usinas no meio da floresta

FOLHA DE S. PAULO 
 Conservadorismo em SP dá impulso a Russomano
Modelo Dilma de economia a distancia de Lula e FHC
Para candidato do PRB, conflito com arcebispo é 'letra morta' 

O ESTADO DE S. PAULO 
 Mensalão vira tema de campanha nas capitais
Governo avalia projeto para flexibilizar leis trabalhistas
Metade dos brasileiros investe em poupança
Russomanno busca eleitor consumidor
Coaf mira empresas que lavam dinheiro

 CORREIO BRAZILIENSE 
 Os guerrilheiros que o mensalão engoliu
 Dilma na ONU e bem longe da crise petista
O Impeachment de Collor sob o olhar dos Arapongas

 ESTADO DE MINAS 
 Campanha abastecida com nosso dinheiro
Juiz de Fora- Disputa a caminho do 2º turno
A danaça dos preços pelo mundo

 ZERO HORA (RS)
 Fraudes e erros tiram R$ 753 milhões do SUS 

JORNAL DO COMMERCIO (PE) 
 Geraldo lidera e Daniel já ultrapassa Humberto

O que pensa a mídia - editoriais dos principais jornais do Brasil

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

Os guerrilheiros que o mensalão engoliu


A próxima batalha dos ex-guerrilheiros

Dirceu e Genoino, que recorreram à luta armada contra a ditadura, contam os dias para o desfecho do caso no STF

Paulo de Tarso Lyra

Dois personagens emblemáticos da luta contra o regime militar, que resistiram aos anos de chumbo, foram presos, voltaram à vida pública após a redemocratização, fundaram um partido que misturava a classe trabalhadora com a intelectualidade e ajudaram a eleger o primeiro presidente operário no país. Enfrentam, agora, aquela que pode ser a última das grandes batalhas políticas de suas vidas. José Dirceu e José Genoino estão às vésperas de serem julgados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no escândalo do mensalão.

Pelo histórico atual do julgamento e com base nas declarações dadas por eles mesmos nas últimas semanas, a condenação é dada como certa. Resta saber se ela virá com punições em regime fechado. Quando Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito, em 2002, Dirceu era o todo-poderoso presidente do PT e ganhou ainda mais força ao ser nomeado chefe da Casa Civil. Ainda há uma década, Genoino forçou um segundo turno contra o tucano Geraldo Alckmin na disputa pelo governo de São Paulo e, após perder a disputa, tornou-se presidente do PT no ano seguinte. Daqui a duas semanas, ambos poderão estar condenados por corrupção ativa. A outra acusação que pesa contra eles é formação de quadrilha, ponto que será julgado após o primeiro turno das eleições municipais.

A forma como os dois enfrentam o julgamento diz um pouco das diferenças de personalidade entre eles. Dirceu emagreceu seis quilos, mas jura que é por causa dos exercícios físicos regulares, que incluem musculação, esteira e alongamento na academia do prédio em que mora na capital paulista. Genoino submeteu-se, na semana passada, a um cateterismo após ser constatado o entupimento de uma artéria em um check-in de rotina. Não precisou, no entanto, fazer uma cirurgia para colocação de um stent, aparelho que evita a contração das artérias do coração.

"O Genoino é daquele jeito elétrico, entrava em uma comissão, saía para outra, fazia discursos no plenário, dava entrevistas no Salão Verde. Ele é passional", resumiu o líder do PT na Câmara, Jilmar Tatto (PT-SP). "O Dirceu não, ele é mais calculista, estrategista, lida melhor com as adversidades", completou Tatto. "Genoino é ideológico. Dirceu, pragmático. Se assim não fosse, não traria o PL para a chapa de Lula em 2002", disse ao Correio um aliado do ex-ministro.

Quando estourou o escândalo do mensalão, em 2005, companheiros de Genoino ficaram preocupados com o comportamento depressivo apresentado pelo ex-presidente do PT. Ele chegou a ficar mais de um mês no quarto, com pouca disposição para receber até os amigos mais próximos. Pessoas que testemunharam aquele momento lembram do abatimento que acometeu o ex-deputado.

Com o início do julgamento, ele se tornou ainda mais tenso e nervoso. "A depressão voltou para valer", disse um interlocutor que acompanha o processo do mensalão. O advogado Luiz Fernando Pacheco reconhece que o cliente está ansioso com a proximidade da análise do caso pelos ministros do STF. "Esse processo estava dormindo há sete anos e agora vivemos os momentos finais. Claro que existe uma grande expectativa, mas Genoino está convicto da legalidade de seus atos", completou o defensor, buscando desanuviar o ambiente.

Renúncia

Dirceu, ao contrário, jamais se abateu, pelo menos publicamente. Assim que o presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson — também réu no mensalão — o apontou como "chefe da quadrilha" do mensalão, renunciou ao cargo de ministro da Casa Civil, repassando o cargo para a atual presidente, Dilma Rousseff, a quem cumprimentou como "companheira de armas" (Dilma também foi guerrilheira) e, em seguida, enfrentou o processo de cassação do mandato de deputado federal na Câmara.

Genoino acabou conseguindo se eleger deputado federal em 2006, mas o mandato foi mais discreto e com menos brilho do que suas passagens anteriores. Em 2010, não conseguiu se reeleger, permanecendo na fila dos suplentes da bancada. Graças à proximidade com os militares e com o então ministro da Justiça, Nelson Jobim, foi nomeado assessor especial do Ministério da Defesa. No início do julgamento, tirou férias de 30 dias. Agora, está de licença-médica para o tratamento de saúde.

José Dirceu resolveu arriscar-se na iniciativa privada e virou consultor de diversas empresas, valendo-se de seu expertise como ex-homem forte do governo. Não admite quais são os clientes, alegando confidencialidade, mas comenta-se que presta serviços para Carlos Slim — o homem mais rico do mundo — e o proprietário da Delta Construções, Fernando Cavendish.

José Genoino está muito abatido, contam pessoas próximas ao ex-deputado

FONTE: CORREIO BRAZILIENSE

Parlamentares da base reclamam de nota de solidariedade a Lula


Representantes do PDT e do PMDB dizem não ter sido consultados sobre ataque aos partidos de oposição

Eugênia Lopes

BRASÍLIA - Integrantes do PMDB e do PDT reclamaram ontem da decisão dos presidentes Valdir Raupp e Carlos Lupi de assinar nota, idealizada pelo PT, na qual seis partidos da base aliada defenderam o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e acusaram a oposição de tentativa de golpe.

Divulgada na quinta-feira, a nota de desagravo a Lula faz ataques ao PSDB, DEM e PPS, após a oposição ameaçar pedir apuração sobre a suposta relação do ex-presidente com o mensalão. “É um exagero”, disse ontem o senador Cristovam Buarque (PDT-DF). “A oposição não está sendo golpista. Não existe golpe contra ex-presidente.”

Ele e o senador Pedro Taques (PDT-MT) divulgaram nota reclamando por não terem sido consultados sobre o desagravo a Lula. “Se tivéssemos sido consultados, seríamos contra”, afirmaram os dois senadores, na nota. “Além de ser um direito inerente às oposições fazer críticas, em nenhum momento tocaram na presidenta Dilma. Consideramos mais ameaçadoras à democracia as consequências dos imensos gastos publicitários feitos pelos governos”, escreveram.

Dirigentes do PMDB também condenaram a atitude do presidente do partido, senador Valdir Raupp (RO), de assinar a nota em defesa de Lula. “Ele (Raupp) puxou para o colo do PMDB o mensalão. Nós não temos nada com isso”, argumentou um peemedebista. Na época do mensalão, o PMDB não era da base de apoio do governo Lula. “O PMDB era de oposição e depois do mensalão é que o governo veio atrás da gente”, observou outro integrante do partido. “O Raupp renegou fatos históricos ao tomar uma posição dessas e assinar a nota sem nos consultar.”

Surpresa. Segundo um parlamentar peemedebista, o presidente do PT, Rui Falcão, teria pego Raupp de surpresa com a nota já assinada pelos outros cinco partidos. Sem saída, Raupp chancelou a Carta à Sociedade e, depois, avisou o vice-presidente da República, Michel Temer, sobre o documento de solidariedade a Lula.

“O Raupp não teve capacidade de reagir”, reclamou um peemedebista. Na nota, os presidentes de seis partidos – PT, PSB, PMDB, PC do B, PDT e PRB – atacam o que chamam de “forças conservadoras” que estariam dispostas a “qualquer aventura” e falam em “práticas golpistas”. A manifestação foi organizada em meio à série de reveses no Supremo Tribunal Federal e à possibilidade de o ex-ministro José Dirceu vir a ser condenado às vésperas das eleições municipais de 7 de outubro. O texto da nota foi articulado pelo próprio Lula. Ele fez essa sugestão ao participar de ato de campanha de Fernando Haddad no último domingo, no Centro de Tradições Nordestinas, em São Paulo. Declarações atribuídas ao publicitário Marcos Valério pela revista Veja, naquele fim de semana, jogaram Lula no centro da crise, apontando-o como chefe do mensalão.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Mensalão põe candidatos na defensiva


Discursos se repetem na maior parte das grandes capitais, mas o tom começou a mudar desde a semana passada

Avanço do julgamento fez o PT partir para o ataque; Executivo pediu que militantes defendam o partido

Paulo Peixoto, Felipe Bächtold


BELO HORIZONTE, PORTO ALEGRE - Candidatos a prefeito pelo PT nas principais capitais do país têm jogado na defensiva quando confrontados com o julgamento do mensalão.


Em geral, petistas se esquivam com um discurso que parece ensaiado: não estão acompanhando o julgamento ou estão com a cabeça voltada só para suas campanhas.

Essa linha foi incorporada por Fernando Haddad, em São Paulo, Patrus Ananias, em Belo Horizonte, e Humberto Campos, em Recife.

As exceções até agora foram Adão Villaverde, em Porto Alegre, e Elmano de Freitas, em Fortaleza.

O primeiro disse em um debate que é estranho o julgamento ocorrer em pleno período eleitoral, enquanto o segundo partiu para o ataque ao lembrar o caso do mensalão tucano em Minas Gerais.

Na semana passada, o tom mudou um pouco. Primeiro uma nota oficial da Executiva do PT pediu aos militantes que defendam o partido, sem citar diretamente o mensalão.

Depois, em nota, o PT e os principais partidos aliados acusaram a oposição de golpismo ao usar o julgamento durante a campanha.

As notas coincidiram com o avanço do julgamento no Supremo Tribunal Federal, que analisa agora o núcleo político do esquema. E também com a edição de "Veja" atribuindo a Marcos Valério afirmações sobre suposta atuação do ex-presidente Lula como "chefe" do esquema.

Apesar de ainda defensivo, discursos de alguns candidatos também mudaram de tom.

Em BH, por exemplo, Patrus, que antes evitava totalmente o tema, agora afirma que o julgamento não prejudica sua candidatura porque "não envolve o ex-presidente Lula" e não compromete o PT.

Prejuízo

Nenhum dos petistas candidatos em capitais do peso político de São Paulo, Porto Alegre, BH, Recife, Salvador e Fortaleza lidera neste momento as disputas locais.

Nos bastidores das campanhas, admite-se que o mensalão incomoda e que isso cria dificuldades para o partido.

O cientista político Ricardo Caldas, da Universidade de Brasília (UnB), diz que há influência do julgamento sobre o eleitor.

"Está havendo um fenômeno, mas não dá para dizer a porcentagem que causou a diminuição", afirma Caldas.

Uma hipótese, diz, é que o eleitor de classe média se afastou dos candidatos petistas em razão do julgamento.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Risco de indulto para mensaleiros


Benefício de Natal poderia ir para pelo menos três réus do mensalão, avaliam procuradores

Vinicius Sassine

UM JULGAMENTO PARA A HISTÓRIA

BRASÍLIA - Integrantes do Ministério Público que tentam limitar o alcance do indulto - o perdão da pena a partir de uma decisão do presidente da República - temem que os próximos decretos presidenciais beneficiem réus do mensalão condenados à prisão. Um grupo de promotores de Justiça e procuradores da República propôs ao Ministério da Justiça a proibição para conceder indulto a condenados por corrupção, lavagem de dinheiro e crimes contra o sistema financeiro nacional, principais acusações debatidas na ação penal do mensalão em julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF). Réus presos por esses crimes podem ser indultados em casos de penas inferiores a 12 anos de reclusão. Os decretos preveem ainda reduções gradativas das penas, as chamadas comutações.

Diante das enormes chances de prisão a partir das condenações no STF, promotores e procuradores que integraram um grupo de trabalho constituído no Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) apontam chances reais de réus do mensalão serem beneficiados com o perdão presidencial.

O indulto é uma atribuição do Executivo. A cada fim de ano, o presidente publica um decreto em que garante o perdão ou a redução da pena, com base em critérios definidos pelo próprio governo. Primeiro, o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP) - vinculado ao Ministério da Justiça - recebe sugestões em audiências públicas e elabora uma minuta do decreto. O documento, então, é encaminhado ao ministro da Justiça, que o remete à Casa Civil da Presidência. Ao fim do debate, o presidente publica o decreto em dezembro, em alusão ao Natal.

O decreto atual - o primeiro assinado pela presidente Dilma Rousseff e pelo ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo - permite que presos condenados a até oito anos de detenção sejam indultados, desde que tenham cumprido um terço da pena. Pessoas sentenciadas a penas entre oito e 12 anos também podem receber o benefício, caso o crime tenha sido praticado "sem grave ameaça ou violência". Há ainda possibilidades de perdão seguindo critério de idade ou a necessidade de tratamento médico.

Medida vem sendo flexibilizada

Os decretos presidenciais passaram a abarcar cada vez mais possibilidades de perdão de pena ao longo dos anos. Em 2002, o último ato do presidente Fernando Henrique Cardoso permitiu indulto a condenados a menos de seis anos de prisão e vetou o benefício a sentenciados por crimes contra o sistema financeiro. Já o primeiro decreto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2003, permitiu o indulto no caso de crimes contra o sistema financeiro. O então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, assinou o decreto junto com Lula. Hoje, Bastos é advogado do ex-diretor do Banco Rural José Roberto Salgado, já condenado pelo STF por gestão fraudulenta - um crime contra o sistema financeiro. Em 2010, o benefício foi estendido aos presos que cumpriram um terço de penas de até 12 anos.

Três casos analisados pelos procuradores, com base no decreto vigente e nos indicativos de pena já apontados no julgamento do mensalão, mostram como os réus podem se beneficiar.

Presidente nacional do PTB e delator do esquema de compra de votos no Congresso, Roberto Jefferson seria indultado automaticamente, em caso de condenação a pena privativa de liberdade. O atual decreto prevê perdão a presos que "exijam cuidados contínuos que não possam ser prestados no estabelecimento penal". O ex-deputado enfrenta um câncer no pâncreas. A pena do deputado federal João Paulo Cunha (PT-SP), condenado por corrupção passiva, peculato e lavagem de dinheiro, pode ser inferior a 12 anos, o que o habilitaria ao indulto.

É também o caso do ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil Henrique Pizzolato, condenado pelos mesmos crimes. A dosimetria aplicada pelo ministro Cezar Peluso, que se aposentou em meio ao julgamento, indica uma pena de 12 anos e um mês de reclusão em regime fechado. Se o plenário reduzir minimamente essa pena, Pizzolato poderá ter perdão de dois terços do tempo.

O procurador da República no Rio Luiz Fernando Voss, que integrou um grupo de trabalho no CNMP responsável por fazer sugestões para o decreto presidencial, cita o caso do ex-banqueiro Salvatore Cacciola. Ele recebeu o indulto da Vara de Execuções Penais do Rio neste ano por ter mais de 60 anos e por ter cumprido um terço da pena de reclusão. Cacciola, protagonista do escândalo do Banco Marka, foi condenado a 13 anos de prisão por crimes contra o sistema financeiro nacional. A sentença está extinta.

- Os decretos sempre mudam para facilitar a concessão do indulto, para favorecer os apenados - diz Luiz Fernando.

O procurador regional da República Douglas Fischer, com atuação no Rio Grande do Sul, afirma haver "muitos casos de indultados condenados por corrupção". O Ministério da Justiça não tem dados estatísticos de indultos por tipo de crime.

- É possível que réus do mensalão sejam beneficiados por indulto. As chances são muito grandes, inclusive de progressão da pena - afirma Fischer, que auxiliou o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, com um estudo sobre a responsabilização de réus em casos de provas indiretas de participação no crime.

O procurador da República Daniel de Resende Salgado, com atuação no estado de Goiás, concorda com a "grande possibilidade" de os réus do mensalão cumprirem apenas uma parte da pena.

- A presidente da República assina compromissos internacionais de combate à corrupção e a crimes contra o sistema financeiro, mas passa um sinal contrário à sociedade quando indulta esses crimes - critica o procurador Daniel Salgado.

FONTE: O GLOBO

Mensalão vira tema de campanha nas capitais


Assunto só ficou fora da eleição municipal onde o PT não tem candidatos ou eles não são competitivos. Arma política do PSDB contra o PT em São Paulo, o escândalo do mensalão começa a dominar a pauta de outras campanhas eleitorais pelo país. Levantamento feito pelo Estado nas 26 capitais mostra que em pelo menos 13 delas o tema tem sido abordado. O mensalão só é ignorado em cidades nas quais o partido do ex-presidente Lula não tem candidato ou o nome do PT não se mostra competitivo, como Florianópolis, Palmas e Macapá. A participação de Lula em comícios de aliados também fez o tema emergir na última semana Em Salvador, o líder nas pesquisas, ACM Neto(DEM) passou a abordar o caso assim como Arthur Virgílio (PSDB, em Manaus e o tucano Aécio Neves em apoio a Marcio Lacerda (PSB), em Belo HOrizonte. Em Fortaleza, o candidato Elmano Freitas(PT) virou alvo por ter contratado como marqueteiro um dos réus do mensalão, o publicitário Duda Mendonça

Uso do mensalão como arma eleitoral se espalha por campanhas nas capitais

Série de condenações no Supremo Tribunal Federal atropela expectativa petista de deixar o tema em segundo plano nas disputas locais

A série de condenações no Supremo Tribunal Federal atropelou os planos do PT de manter o mensalão distante das eleições municipais. O tema já está presente em pelo menos metade das disputas das capitais e tende a se alastrar com o julgamento do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu às vésperas do 1.º turno, em 7 de outubro.

O embate que opõe petistas e aliados do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva aos partidos de oposição capitaneados pelo PSDB já apareceu, na TV ou em discursos públicos de campanha, em 13 capitais, segundo levantamento realizado pelo Estado. O mensalão só é ignorado em cidades nas quais o partido de Lula não tem candidato ou o nome do PT não se mostra competitivo.

A participação de Lula em comícios de aliados também faz o tema emergir. Apesar de o ex-presidente não ter tocado no assunto nos palanques pelos quais passou até agora, seus adversários aproveitam a visita do petista para utilizar o julgamento do Supremo como arma política.

Na semana passada, o mensalão apareceu pela primeira vez na campanha de Salvador. Líder nas pesquisas, ACM Neto (DEM), um dos principais nomes da oposição na CPI dos Correios, que investigou os repasses de dinheiro do valerioduto, passou a explorar o escândalo assim que Lula deixou a capital baiana.

Em entrevista a uma rádio, o neto de Antonio Carlos Magalhães disse que "todo mundo sabe" que Nelson Pelegrino é "amigo fraterno" do ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares, também réu no mensalão, e de Dirceu.

Com a posterior visita de Lula a Manaus para dar apoio à candidata do PC do B, Vanessa Grazziotin, o ex-senador Artur Virgílio (PSDB) afirmou que o ex-presidente deveria estar mais preocupado com o julgamento no Supremo do que com a eleição.

O mesmo aconteceu em Belo Horizonte. Após comício no fim de agosto em defesa da candidatura de Patrus Ananias (PT), o senador Aécio Neves (PSDB), que apoia a reeleição do prefeito Márcio Lacerda (PSB), aproveitou para usar o julgamento no Supremo tão logo o ex-presidente passou por lá. "O PT se apropria de empresas públicas, como está comprovado pelo STF", disse.

Mas é na capital paulista onde os ataques ao candidato do PT, Fernando Haddad, têm sido mais intensos. As críticas da campanha do tucano José Serra começaram de maneira indireta, chamando de "bilhete mensaleiro" a proposta do petista de criar o Bilhete Único Mensal, até culminar em um depoimento do próprio Serra na TV, no Dia da Independência, no qual o tucano afirma que o STF estava "mandando para a cadeia um jeito nefasto de fazer política".

A equipe de Serra escalou também o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para abordar o tema em uma propaganda em apoio ao candidato. Na mais recente peça de propaganda, Serra sugere que a eleição de Haddad traria de volta à vida pública Delúbio e Dirceu. Os petistas tentaram em vão obter um direito de resposta sob o argumento de que a propaganda era "degradante".

A preocupação do PT e de Lula com a perda de controle sobre o tema mobilizou o PT, que ao lado de outros partidos da base aliada, decidiu divulgar uma nota na qual compara o uso do mensalão nas campanhas eleitorais a uma tentativa de "golpe".

A nota oficial foi articulada pelo próprio ex-presidente, receoso não só com as consequências eleitorais da investida dos partidos de oposição mas também com a preservação de seu legado.

Duda Mendonça. O assunto também está na ordem do dia em Fortaleza, Vitória e Goiânia. Na capital do Ceará, o candidato do PT, Elmano de Freitas, que está tecnicamente empatado em primeiro lugar com outros dois adversários, virou alvo por ter contratado como marqueteiro de sua campanha um dos réus do mensalão: o publicitário Duda Mendonça, acusado de evasão de divisas e lavagem de dinheiro.

Em Vitória, a ex-ministra Iriny Lopes (PT) trocou farpas em programas de rádio com o candidato do PSDB, Luiz Paulo. A propaganda do tucano fez um alerta para que o eleitor não votasse "em candidata do partido que está envolvido até o pescoço com mensalão". A petista se defendeu dizendo que quem discute o mensalão é o Supremo.

Já em Goiânia, imagens de Dirceu e Delúbio foram usadas pela campanha do candidato Jovair Arantes (PTB) para relacionar o adversário e candidato à reeleição Paulo Garcia (PT) aos réus do julgamento. Em João Pessoa, Recife e Porto Alegre o mensalão foi usado em debates pelos candidatos. Campanhas de Cuiabá, São Luís e Curitiba também exploraram o assunto.

FONTE O ESTADO DE S. PAULO