sábado, 13 de junho de 2020

Centrão aumenta perigo fiscal das pautas-bomba – Editorial | O Globo

Pelo menos 110 projetos de lei, parte redigida pela nova base de Bolsonaro, atentam contra a recuperação

A crise econômica de grandes dimensões que começa a ser detectada por diversos indicadores pode ser potencializada por vários projetos de lei apresentados ao Congresso que o governo precisará rejeitar. Caso contrário, a recuperação, se vier, será lenta e insuficiente para restabelecer empregos e salários varridos pela recessão que se inicia, e não conterá os estragos sociais e políticos que acompanham este tipo de debacle.

Estas propostas são chamadas de pautas-bomba porque, formuladas sem qualquer preocupação com a administração responsável dos gastos públicos, também não consideram uma definição de prioridades que leve em conta interesses da maior parte da população, podendo agravar problemas que a própria crise já torna mais sérios. O perigo potencial desta agenda explosiva já começou a aumentar porque o governo, como no resto do mundo, é forçado a expandir suas despesas em imprescindíveis programas de emergência — no bônus para os informais, na ajuda às pequenas empresas etc., e preveem-se pressões para transformar gastos emergenciais em perenes.

Vista pelo ângulo político, a situação é também preocupante, porque o Planalto atraiu para sua base partidos do centrão (PP, PL, PSD, PTB e outros), que carregam a marca da fisiologia, do toma lá dá cá. E, segundo levantamento do site VirtuNews, feito em parceria com o CLP - Liderança Pública, dos pelo menos 110 projetos de lei que tramitam no Congresso classificados como pautas-bomba, 45% deles (49) foram apresentados por este grupo de partidos.

Hélio Schwartsman – O parque dos enjeitados

- Folha de S. Paulo

Talvez as próxima gerações aprendam que, olhando de perto, não existem heróis

Alguns leitores criticaram minha coluna de sexta-feira (12) sobre racismo e a derrubada de estátuas, afirmando que existe uma diferença entre apagar a história e deixar de celebrar certas figuras à luz de mudanças nos valores da sociedade. A segunda atitude, ao contrário da primeira, é defensável.

Não poderia concordar mais. Quem se der ao trabalho de voltar a meu escrito verá que tomei o cuidado de não defender figuras como Edward Colston, que parece ter sido principalmente um traficante de escravos que enriqueceu e fez caridade, ou os generais confederados, mencionando só Colombo e Churchill.

Nenhum dos dois entrou para o clube dos heróis estatuáveis pelas ideias que defenderam, mas por feitos mais específicos, respectivamente a “descoberta” da América e a liderança dos britânicos durante a Segunda Guerra.

Julianna Sofia – Múltipas bizarrices

- Folha de S. Paulo

Quanto mais erros, mais Weintraub amplia apoio de radicais

Buscou-se um desfecho simbólico —não por isso menos vexatório ou inócuo— para a presepada em torno da medida provisória que dava poderes ao ministro Abraham Weintraub (Educação) para nomear, sem eleições, os reitores de universidades federais durante a pandemia. Equivocado no nascedouro por patente inconstitucionalidade (violação da autonomia universitária), o ato foi revogado pelo Palácio do Planalto.

Após sua edição, a MP fora criticada pela cúpula do Legislativo, por parlamentares e pela comunidade acadêmica. O episódio provocou reações de partidos políticos, que recorreram ao Supremo Tribunal Federal (STF) para derrubar a medida, além de gerar ruído em votações importantes no Senado.

Demétrio Magnoli* - Um retângulo vazio

- Folha de S. Paulo

Pela esquerda ou pela direita, país não dá a mínima para a educação pública

O plano de Doria saiu há 18 dias, com cinco colunas descrevendo as fases de reabertura de São Paulo e 15 linhas elencando previsões de reativação de cada atividade.

Lá no fim, na linha educação, um retângulo vazio indica a ausência de previsão de retomada de aulas presenciais. Escolas, só depois de indústrias, escritórios, shoppings, igrejas, parques, restaurantes, bares, passeatas e futebol. A história se repete, Brasil afora. A educação foi catalogada oficialmente como a mais supérflua das "atividades não essenciais". Weintraub é a cara da elite governante nacional.

Ciência? Um artigo publicado na Lancet (https://bit.ly/30sNBeN), revisando diversos estudos internacionais, conclui pela falta de evidências de que o fechamento de escolas seja efetivo contra a Covid-19, cujo comportamento epidêmico é o oposto daquele da gripe: o coronavírus tem alta transmissibilidade mas incidência muito menor em crianças. Experiência? Na Europa, 22 países reabriram as escolas no ponto de partida da flexibilização, seis a oito semanas atrás, seguindo restrições sanitárias, sem gerar focos significativos de contágio.

A esquerda enxerga a escola pelos óculos do sindicalismo (remunerar professores), enquanto a direita a vê pelos olhos do mercado (fornecer mão de obra).

Manobra canhestra – Editorial | Folha de S. Paulo

Corretamente devolvida, MP que mudava nomeação de reitores soava a intervenção

Acertou o presidente do Senado e do Congresso, Davi Alcolumbre (DEM-AP), ao devolver sem votação da Casa a medida provisória 979, que daria ao ministro da Educação, Abraham Weintraub, o poder de nomear reitores e vice-reitores de universidades e institutos federais durante a pandemia.

Tão logo se tornou público, o texto foi tachado de inconstitucional pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Consta da Carta de 1988 que as universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial.

A premissa da MP era que o distanciamento social impediria o processo, previsto em lei, de escolha de dirigentes das instituições federais de ensino por meio de consulta interna e formação de lista tríplice. Ao governo caberia, de acordo com a propositura, nomear líderes enquanto as atividades presenciais estiverem suspensas.

O MEC ignora ou finge ignorar que tais procedimentos têm sido mantidos virtualmente durante o período de quarentenas.

Eros Roberto Grau* - O Itamarati, para sempre!

- O Estado de S.Paulo

O restaurante que encantou minha juventude me emociona sem parar

Começo a escrever estas linhas relembrando a canção que afirma ser “sempre bom lembrar coisas passadas”. A superposição do passado e do presente leva-me de repente ao Itamarati, que lá estava, na Rua José Bonifácio 270, desde os anos 40! O restaurante que encantou minha juventude e me emociona sem parar estará inserido no meu futuro. O tempo não existe, em razão do que estivemos, estamos, estaremos todos eternamente juntos.

Ponho-me a escrevê-las, de um lado, porque desejo libertar-me da aflição que suporto por conta da superposição entre afirmações de políticos membros da “corona” e a epidemia do coronavírus. Os primeiros, a gritar que a saúde não vale nada – em latim, sanitas tua potius nulla erit. A pandemia de covid-19 seria, para eles, mera ficção! De outro lado, escrevo-as, estas linhas, transtornado pelo que leio num texto do José Rogério Cruz e Tucci – Sinal dos tempos: o apagar das luzes do velho Itamarati – dando notícia do fechamento do nosso Itamarati.

Vencendo o tempo volto a lá estar com amigos que ainda por aqui estão e alguns que já se foram para o Céu. Michel Temer, Sergio e Renato Mange, Edmur Andrade Nunes Pereira Neto, Erasmo Valadão Novaes França, Luiz Antônio Sampaio Gouveia, Luiz Eduardo Lopes da Silva, Erasmo de Boer, Luiz Antônio Ferreira de Castilho, José Rogério et caterva.

João Gabriel de Lima - Somos Bangcoc, não Paris

- O Estado de S.Paulo

Vivemos em guetos. Moradias de um lado, empregos do outro. Pobres de um lado, ricos do outro

Caçadores de androides ziguezagueiam entre arranha-céus, em seus carros voadores. Telões trepidantes iluminam gente amontoada entre barracas de espaguete. Anos atrás, quando pensávamos no futuro das cidades, uma imagem recorrente era a bagunça urbana do filme Blade Runner, de Ridley Scott – tirando, claro, a parte dos androides (os carros voadores continuam sendo um sonho...).

Não fosse o coronavírus, estaríamos todos, a esta altura de junho, falando sobre as eleições municipais. E discutindo o futuro de nossas cidades. Mas será que pandemia e metrópoles não podem ser parte da mesma conversa?

Um programa de debates na TV francesa defendeu que as cidades poderão sair até melhores da era do coronavírus. Mais gente trabalhando de casa. Menos trânsito. A prefeitura de Paris aproveitou a quarentena para aumentar o número de ciclovias. A realidade aqui no hemisfério sul, no entanto, está mais para Blade Runner mesmo.

Metrópoles – como explica o economista Edward Glaeser, professor de Harvard, em seu clássico O Triunfo da Cidade – são, antes de tudo, pontos de encontro. De pessoas, culturas, negócios. Mas as metrópoles brasileiras, ao contrário das europeias, ainda não fizeram a lição de casa do encontro – ou adensamento, na linguagem dos urbanistas. Adensar significa que residências, escritórios e serviços devem conviver nos mesmos espaços — como em Paris. Em vez disso, vivemos em guetos. Moradias de um lado, empregos do outro. Pobres de um lado, ricos do outro. A fazer a ponte entre tais universos, sistemas de transporte abarrotados e falidos.

The Economist: Jair Bolsonaro ameaça a democracia?

- The Economist, O Estado de S.Paulo

Desde que assumiu o governo, em janeiro do ano passado, muitos brasileiros temem o risco que ele representa

Em muitos fins de semana desde que a covid-19 chegou ao Brasil, os apoiadores do presidente Jair Bolsonaro realizam manifestações em Brasília e São Paulo, para demandar a reabertura da economia, parcialmente submetida a um lockdown, o fechamento do Supremo Tribunal Federal e do Congresso e o retorno do regime militar dos anos 1964/1985. Alguns estão armados. Em Brasília, Bolsonaro com frequência se junta a eles, distribuindo abraços e apertos de mão e desafiando as regras de saúde estabelecidas. Nem ele e nem as pessoas usam máscaras no rosto.


Desde que Bolsonaro, antigo capitão do Exército com ideias de direita, assumiu o governo, em janeiro de 2019, muitos brasileiros temem a ameaça que ele representa para a democracia. Alguns argumentam que as instituições do País são fortes o bastante para freá-lo. Na verdade, o presidente lotou o seu governo com oficiais militares. Mas eles são vistos como tendo uma influência moderadora e as manifestações são pequenas.

As tensões aumentaram nas últimas semanas. Bolsonaro se tornou mais ameaçador, ao se dirigir ao Congresso afirmando que “o tempo da vilania acabou, agora é o povo no poder”, e ao Poder Judiciário dizendo “acabou, porra!”. Alguns ministros militares, a começar pelo vice-presidente Hamilton Mourão, general aposentado, também fizeram ameaças veladas contra o STF, o Congresso e a mídia.

Em uma mensagem pelo WhatsApp vazada no mês passado, o ministro do STF Celso de Mello escreveu: “temos de resistir contra a destruição da ordem democrática para evitar o que ocorreu na República de Weimar “que foi derrubada por Hitler”. “A democracia brasileira está sob uma grave ameaça”, diz Oscar Vilhena Vieira, diretor da faculdade de Direito da Fundação Getúlio Vargas (FGV). “O presidente não vem tentando apenas criar um conflito institucional, mas também estimulando grupos violentos”.

Falsa simetria – Editorial | O Estado de S. Paulo

Fala do procurador-geral Augusto Aras no julgamento da ação que questiona inquérito do STF revela confusão entre fake news e jornalismo profissional

No julgamento da ação que questiona o inquérito das fake news e ameaças contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), o procurador-geral da República, Augusto Aras, disse que as pessoas precisam “ter mais cuidado na leitura das notícias” para não acreditarem em fake news. Segundo Aras, as notícias falsas não estão apenas em blogs ou em redes sociais. A fala do procurador-geral da República revela uma enorme confusão sobre o que são as fake news e o que é o jornalismo profissional. O caso é especialmente grave tendo em vista que o tema se relaciona diretamente com os direitos e liberdades fundamentais, e a missão institucional do Ministério Público é a defesa da ordem jurídica e do regime democrático.

“Sabemos que esse fenômeno maligno das fake news não se resume a blogueiros ou às redes sociais. Ele é estimulado por todos os segmentos da comunicação moderna, sem teias, sem aquele respeito que a minha geração aprendeu a ler o jornal, acreditando que aquilo era verdade”, disse Augusto Aras. “Temos que hoje ter mais cuidado na leitura das notícias para fazermos um filtro fino para encontrar um mínimo de plausibilidade em relação a esta campanha de fake news, que não guarda limites de nenhuma natureza.”

Como se vê, segundo Augusto Aras, as fake news também são difundidas na imprensa, o que recomendaria cautela na sua leitura. O procurador-geral da República sugere “fazermos um filtro fino”. Ao falar assim, Aras revela desconhecimento sobre o significado de fake news. Elas não são apenas uma informação equivocada, contendo, por exemplo, algum conteúdo inexato. Fake news são mensagens falsas criadas e disseminadas deliberadamente com o objetivo de causar dano. É por isso que o material produzido pelo jornalismo profissional não tem nenhuma simetria com as fake news. Estas são, por sua própria essência, o antijornalismo.

O governo e as universidades federais – Editorial | O Estado de S. Paulo

MP devolvida é mais um capítulo da guerra do governo contra o ensino superior público

O governo voltou a ser derrotado na segunda tentativa de restringir, por meio de uma medida provisória (MP), a autonomia das universidades federais em matéria de consulta à comunidade acadêmica para a elaboração de listas tríplices para reitor. A primeira tentativa ocorreu no final de 2019, quando Bolsonaro baixou uma MP com esse objetivo. Mas, como não foi votada pelo Congresso em tempo hábil, ela caducou há alguns dias. A segunda tentativa se deu nessa quarta-feira, quando o presidente baixou uma nova MP com o mesmo objetivo. Mas, por não atender aos requisitos constitucionais da urgência e relevância, ela foi devolvida pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), ao Executivo. De 1988 até agora, essa é a quarta MP devolvida.

Quando baixou as duas MPs, a que caducou e a que foi devolvida, o governo justificou a iniciativa - que na prática lhe dava a prerrogativa de escolher os novos reitores sem qualquer consulta - em nome do combate à crise de saúde pública. A alegação é que a pandemia de covid-19 impediria a presença física de professores, estudantes e funcionários nas votações. A justificativa não procede, pois as universidades federais há anos já realizam reuniões virtuais, para agilizar o processo decisório.

Na realidade, a MP que acaba de ser devolvida é mais um capítulo da guerra declarada pelo governo Bolsonaro contra o ensino superior público. Ela começou no ano passado quando, em audiência na Câmara, Weintraub acusou as universidades federais de serem “centros de drogas e balbúrdia”. Prosseguiu com o congelamento das verbas orçamentárias e tentativas de alterar o peso dos professores, alunos e funcionários na eleição das listas tríplices para reitor. Avançou quando o Ministério da Educação deixou claro que não escolheria os candidatos mais votados, caso não fossem “alinhados ao pensamento de Bolsonaro”. E culminou neste ano quando, em nome de um combate ao que as autoridades educacionais chamam de “doutrinação ideológica”, os Ministérios da Educação e da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações restringiram a concessão de bolsas para a área de humanidades.

Marcus Pestana - 1960, sessenta anos depois!

Hoje chego aos 60. Nunca pensei que isso aconteceria. Não porque achasse que morreria antes. Mas, o sonho da eterna juventude acalenta a todos nós. E logo no meio de uma pandemia, longe dos familiares e amigos.

Dia de Santo Antônio, não só casamenteiro, mas padroeiro da minha cidade, Juiz de Fora, que já se chamou Santo Antonio do Paraibuna.

Envelhecer é inexorável, muito a contragosto é verdade. Como sou um otimista na ação, procuro seguir o conselho de Picasso: “Quando me dizem que sou muito velho para fazer uma coisa, procuro fazê-la imediatamente”. Embora os limites físicos reais sabotem este plano diariamente.

1960 foi o ano da inauguração de Brasília. Finalmente ocuparíamos o Brasil profundo, coroando o Plano de Metas do presidente JK, o presidente bossa nova de um país feliz. O Brasil cresceu 9,4% no ano, a inflação era um pouco superior a 25%. Éramos 70 milhões de brasileiros, 45% nas cidades, 55% no campo. O país era jovem, 53% tinham até 19 anos. As desigualdades eram presentes, 20% viviam com renda até um salário mínimo e tínhamos 27,5% de analfabetos. Curiosamente, os primeiros resultados do Censo de 1960 foram anunciados no intervalo do clássico Flamengo versus Vasco, no Maracanã.

1960 foi o ano da eleição do carismático e promissor Presidente dos EUA, Jonh Fitzgerald Kennedy. Foi também o ano da eleição de Jânio Quadros, que renunciaria meses depois, desencadeando a crise pré-64. Nasceu Airton Sena, que tantas alegrias nos daria no automobilismo. A FDA americana, a ANVISA de lá, aprovou a primeira pílula anticoncepcional, importante passo na luta pela libertação feminina. Houve o espetacular assalto ao trem pagador, que renderia até filme, e Éder Jofre se tornou campeão mundial de boxe.

Em 1960, Ziraldo lançou a primeira revista em quadrinhos brasileira, a Turma do Pererê. A Portela foi campeã em conturbada apuração. A TV Record promoveu o primeiro Festival da Música Popular Brasileira, ganho pela “Canção do Pescador” de Newton Mendonça. Nelson Rodrigues publicou seu clássico “O Beijo no Asfalto”. Nas rádios as mais tocadas eram “Banho de Lua” com Celly Campelo e “A Noite do meu Bem” de Dolores Duran. A Bossa Nova fazia sucesso nas classes médias urbanas. No Brasil de 1960, apenas 38,54% das casas dispunham de energia elétrica, 35,38% possuíam rádio e apenas 4,6% tinham TV.

Ministro Ramos rechaça golpe militar, mas ressalta que 'outro lado' não pode 'esticar a corda'

General afirma a revista ter ido a ato contra o governo 'disfarçado' e confirma pretensão de ir para reserva

- O Globo

RIO - O ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, afirmou ser "ultrajante e ofensivo" dizer que as Forças Armadas vão dar um golpe militar no país, mas ressaltou que o "outro lado" não pode "esticar a corda". Ele afirmou ainda não haver motivos para se cogitar um processo de impeachment no Congress ou afastamento do presidente Jair Bolsonaro pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ramos, que é general da ativa, afirmou em entrevista à "Veja" publicada nesta sexta-feira que esteve "disfarçado" na manifestação contra o racismo e o governo, em Brasília, no último domingo, e confirmou que depois de ter sido criticado por outros militares de alta patente por sua participação em um ato ao lado de Bolsonaro no mês passado, vai pedir a aposentadoria das Forças Armadas.
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"É ultrajante e ofensivo dizer que as Forças Armadas, em particular o Exército, vão dar golpe, que as Forças Armadas vão quebrar o regime democrático. O próprio presidente nunca pregou o golpe. Agora o outro lado tem de entender também o seguinte: não estica a corda", disse. O ministro se mostrou assustado com as faixas de protesto na manifestação com acusações de fascismo ao governo Bolsonaro.

Confira outros trechos da entrevista:

Sobre impugnação da chapa Bolsonaro-Mourão
"Acho que não vai acontecer, porque não é pertinente para o momento que estamos vivendo. O Rodrigo Maia (presidente da Câmara) já disse que não tem nenhuma ideia de pôr para votar os pedidos de impeachment contra Bolsonaro. Se o Congresso não cogita essa possibilidade, o TSE que vai julgar a chapa irregular? Não é uma hipótese plausível".

Atos contra o governo
"Só há uma coisa que me incomoda e me desperta atenção. Um movimento democrático usando roupa preta. Isso me lembra muito autoritarismo e black blocs. Quando falo em democracia, a primeira coisa que me vem à mente é usar as cores da minha bandeira, verde e amarelo. No domingo, fiquei disfarçado no gramado em frente ao Congresso observando o pessoal. Eles não usavam vermelho para não pegar mal. Mas me pareceu que eram petistas".

Participação em ato pró-governo e reserva
"Fui muito criticado no dia seguinte pelos meus companheiros de farda. Não me sinto bem. Não tenho direito de estar aqui como ministro e haver qualquer leitura equivocada de que estou aqui como Exército ou como general. Por isso, já conversei com o ministro da Defesa e com o comandante do Exército. Devo pedir para ir para a reserva".

Entrevista | Luiz Eduardo Ramos: “É ultrajante dizer que o Exército vai dar golpe”

O chefe da Secretaria de Governo defende a tese de que não há motivos para pensar em um impeachment de Bolsonaro e anuncia sua passagem para a reserva

Por Thiago Bronzatto | Revista Veja

Ninguém percebeu, mas havia um ministro da equipe de Jair Bolsonaro infiltrado na manifestação contra o governo no último domingo em Brasília. E não era qualquer ministro. Luiz Eduardo Ramos, chefe da Secretaria de Governo, é quem controla as indicações para os cargos mais importantes, o responsável pela articulação política, o fiador da aliança com o notório Centrão e, por ser general da ativa, também desperta algumas teorias conspiratórias que serviram de mote para os protestos do fim de semana. De gorro, máscara e óculos escuros, Ramos ouviu bem de perto os gritos contra o presidente, assistiu às performances de combate ao racismo e diz ter se assustado com as faixas que traziam acusações de fascismo contra o governo. No mês passado, o general acompanhou Bolsonaro em um ato em frente ao Palácio do Planalto, onde apoiadores atacaram o Congresso e o Supremo Tribunal Federal. A participação dele foi alvo de críticas e causou um tremendo mal-estar entre militares de alta patente. O ministro, por causa disso, anunciou que vai se aposentar das Forças Armadas. Em entrevista a VEJA, Ramos classifica as manifestações como legítimas, critica os ataques que são feitos ao presidente e confessa que a coisa que mais o deixa irritado é quando lhe perguntam sobre a possibilidade de golpe militar no Brasil.

Qual a possibilidade de um golpe militar no Brasil?

Fui instrutor da academia por vários anos e vi várias turmas se formar lá, que me conhecem e eu os conheço até hoje. Esses ex-cadetes atualmente estão comandando unidades no Exército. Ou seja, eles têm tropas nas mãos. Para eles, é ultrajante e ofensivo dizer que as Forças Armadas, em particular o Exército, vão dar golpe, que as Forças Armadas vão quebrar o regime democrático. O próprio presidente nunca pregou o golpe. Agora o outro lado tem de entender também o seguinte: não estica a corda.

O senhor se refere a exatamente o quê?

O Hitler exterminou 6 milhões de judeus. Fora as outras desgraças. Comparar o presidente a Hitler é passar do ponto, e muito. Não contribui com nada para serenar os ânimos. Também não é plausível achar que um julgamento casuístico pode tirar um presidente que foi eleito com 57 milhões de votos.

O que seria um julgamento casuístico?

Um julgamento do Tribunal Superior Eleitoral que não seja justo. Dizem que havia muitas provas na chapa de Dilma e Temer. Mesmo assim, os ministros consideraram que a chapa era legítima. Não estou questionando a decisão do TSE. Mas, querendo ou não, ela tem viés político.

E se essa impugnação vier a acontecer?

Sinceramente, não vou considerar essa hipótese. Acho que não vai acontecer, porque não é pertinente para o momento que estamos vivendo. O Rodrigo Maia (presidente da Câmara) já disse que não tem nenhuma ideia de pôr para votar os pedidos de impeachment contra Bolsonaro. Se o Congresso, que historicamente já fez dois impeachments, da Dilma e do Collor, não cogita essa possibilidade, é o TSE que vai julgar a chapa irregular? Não é uma hipótese plausível.

Forças Armadas não aceitam tentativas de tomada de poder, diz Bolsonaro ao comentar decisão de Fux

Presidente assina nota conjunta ao lado de vice e ministro da Defesa

Bruno Góes / O Globo

BRASÍLIA — Em nota assinada em conjunto com o vice Hamilton Mourão e o ministro da Defesa, Fernando Azevedo, o presidente Jair Bolsonaro se manifesta sobre a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luiz Fux sobre o papel da Forças Armadas. No documento, eles afirmam que os militares "não aceitam tentativas de tomada de poder".

Fux concedeu nesta sexta-feira uma liminar declarando que as Forças Armadas não exercem poder moderador em eventual conflito entre o Executivo, Legislativo e Judiciário. A decisão foi tomada em uma ação em que o PDT pediu para a Corte esclarecer as atribuições dos militares, de acordo com a Constituição Federal.

A nota de Bolsonaro, Mourão e Azevedo é dividida em quatro tópicos. No primeiro, há a lembrança de que, segundo o artigo 142 da Constituição, "as Forças Armadas estão sob a autoridade suprema do Presidente da República".

Logo em seguida, afirmam que "as mesmas destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem".

Bolívar Lamounier - Bolsonaro: seis por meia dúzia?

- Revista IstoÉ 

Vamos lá, capitão, mostre sua coragem! Visite um hospital, conheça o trabalho que o pessoal médico faz nas UTIs

Na eleição presidencial de 2018, dezenas de milhões de brasileiros optaram pelo voto útil mais inútil de nossa história. Queriam se livrar do PT, mas arranjaram Bolsonaro. Como escreveu o filósofo americano Andrew Peirce, todo problema é causado por soluções. Pelas vagas indicações programáticas feitas durante a campanha, é plausível que a emenda tivesse saído um pouco melhor que o soneto. Mas não saiu, por várias razões, entre as quais duas são óbvias. Primeiro, porque o coronavírus não estava a fim de cooperar. Ao contrário, está deitando e rolando. O brasileiro médio não se distingue por um sentimento acentuado de responsabilidade ou por uma disposição a colaborar. Adora aglomerações.

A segunda razão chama-se Jair Messias Bolsonaro. Ignorante, autoritário e irresponsável, ele parece passar o dia todo pensando “naquilo”: tumultuar o país, com uma indisfarçável intenção de arrastá-lo para um golpe militar. Ou seja, o Brasil, quando mais precisava de um líder sensato e apaziguador, tornou-se refém de um especialista em dividir e desorganizar. Se conhecesse um pouco mais de história, perceberia que o primeiro a ser defenestrado por um golpe será justamente ele, Jair Bolsonaro. Conseguirá ser nomeado para nossa embaixada (que no momento está fechada) em Vanuatu.

Marco Antonio Villa - Bolsonaro caminha para o golpe

- Revista IstoÉ

O presidente pouco se importa com os milhares de óbitos. Ou com os milhões de desempregados

A cada dia que passa as crises sanitária, econômica e político-institucional ficam ainda mais graves. O governo Bolsonaro não sabe como agir de forma coordenada. Na verdade, não há mais governo. O que existe de fato
é um grupo político tentando a todo custo sobreviver em plena conjunção das maiores crises — no tempo e em profundidade — da história do Brasil. Isto levará inevitavelmente a uma catástrofe, que será ainda maior quanto mais se postergar a abertura de um processo de impeachment.

Evidentemente que para dar este passo será necessária uma hábil articulação política na esfera congressual e — de acordo com o que é possível nesta situação de anormalidade que vivemos — mobilização popular que não se resume a atos públicos. Mas, é inegável — e os fatos diários reafirmam, especialmente nos últimos meses deste ano — que não há nenhuma outra possibilidade para solucionar a crise.

O impasse político não foi edificado pela oposição. Pelo contrário, ela pouco ou nada fez. O governo foi avançando no processo de desmoralização das instituições sem que houvesse uma efetiva ação contrária, de defesa da democracia, da Constituição. As bases foram sendo sucessivamente solapadas. 

A timidez das respostas fez com que aumentasse a ousadia dos extremistas. Nunca na nossa história assistimos cenas, como as ocorridas, desde fevereiro, em Brasília. Jair Bolsonaro deu inúmeras demonstrações de desapreço ao nosso ordenamento legal. Transformou o Palácio do Planalto numa organização paralegal. Organizou até um sistema de informações só dele. E, pior, fez questão de publicizar este ilícito, como se fosse uma demonstração de esperteza, de alguém que não se submete à organização estatal.

Música | Arraiá de Geraldo Azevedo: - "Moça Bonita" (Geraldo Azevedo e Capinan)

Poesia | João Cabral de Melo Neto - Rios sem discurso

Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água se quebra em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
e porque assim estanque, estancada;
mais: porque assim estancada, muda,
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria.

O curso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez;
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
Salvo a grandiloqüência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase a frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a seca ele combate.

João Cabral de Melo Neto, in “Melhores Poemas de João Cabral de Melo Neto”. [Seleção Antônio Carlos Secchin], São Paulo: Global Editora, 8ª ed., 2001, pag. 191.
§

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Fernando Gabeira* - O capitão combate a verdade

- O Estado de S.Paulo

Ao lado do armamento da população, esse é um passo decisivo rumo a um governo autoritário

“E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.” Bolsonaro venceu as eleições citando com frequência esse versículo de João. No entanto, não se conhece na História moderna do Brasil um governo que tenha combatido a verdade em todos os níveis.

Os números do desemprego, compilados pelo IBGE de acordo com métodos internacionalmente reconhecidos, foram negados por Bolsonaro. O indice de desmatamento na Amazônia obtido com ajuda de satélites foi contestado por Bolsonaro e o cientista Ricardo Galvão, demitido. Pesquisas da Fundação Oswaldo Cruz sobre consumo de drogas no Brasil foram engavetadas porque não atendiam às expectativas do governo.

A briga contra os dados não se limitou ao choque contra o trabalho científico. Ele se estendeu de forma perigosa contra a própria possibilidade de acesso às informações oficiais.

Com a anuência de Bolsonaro, o general Hamilton Mourão tentou fazer passar uma diretiva que permitia a funcionários de segundo escalão determinar o que era ou não passível de ser classifico como material secreto. A diretiva de Mourão caiu no Congresso.

Mal começou a pandemia, Bolsonaro, usando-a como pretexto, queria suspender parcialmente a Lei de Acesso à Informação. De novo foi derrotado, dessa vez no Supremo Tribunal Federal

A apoteose dessa medida obscurantista foi na semana que passou, com a decisão de censurar as informações sobre a pandemia de covid-19.

Inicialmente, um homem chamado Carlos Wizard, um bilionário que supõe entender de tudo, disse, em nome do governo, que os números de mortos estavam sendo inflacionados nos Estados e municípios porque os gestores queriam mais dinheiro.

Wizard foi para o espaço no momento em que se articulava na rede um boicote a suas atividades empresariais, incluídas ss de greenwashing, aquelas em que você ganha dinheiro fingindo que protege o meio ambiente. Mas foi Bolsonaro que, radicalizando sua política de negação da pandemia, ordenou que as notícias diárias sobre mortes e contaminações não poderiam ser divulgadas antes dos jornais noturnos de TV. E, mais ainda, ordenou que o número de mortos não poderia ultrapassar mil, sem explicar como combinaria com o vírus. Felizmente, as emissoras se deram conta e passaram a divulgar as notícias em plantões especiais, com audiência até maior que no início da noite.

Eliane Cantanhêde - Atraindo raios e trovoadas

- O Estado de S.Paulo

Bolsonaro emenda crises: recuou na Saúde e já partiu para cima das universidades

Saúde e Educação são áreas sensíveis e estratégicas, com corporações mobilizadas e grande capacidade de fazer barulho. Pois a Saúde foi obrigada a recuar e parar de esconder os números da pandemia e, já no dia seguinte, a Educação entrou na roda com uma medida provisória do presidente Jair Bolsonaro que quebra a autonomia universitária e dá poderes a Abraham Weintraub – inimigo número um das universidades – para nomear reitores a bel prazer durante a pandemia.

É assim que o Brasil vai vivendo aos trancos e barrancos. Bolsonaro manda maquiar o número de mortes. Epidemiologistas, sanitaristas, infectologistas, cientistas e associações médicas gritam. O Congresso, a mídia e o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta providenciam estatísticas independentes. E o Supremo determina a volta da metodologia internacionalmente aceita. Aí o governo recua.

Sem se dar tempo para respirar, Bolsonaro já providencia automaticamente a nova crise. Se aquela era na Saúde, que sofre um desmanche à luz do dia, esta é na Educação, onde o ministro Abraham Weintraub nunca explicou a que veio, brinca no twitter de “Cantando na chuva” (com guarda-chuva e tudo), provoca os chineses com um vídeo trocando os “R” pelos “L” e ataca professores, alunos e universidades, enquanto massacra a língua pátria.

Simon Schwartzman* - A Revolta da Vacina

- O Estado de S.Paulo

Hoje podemos ver que todos perderam. Paralelos com a crise do coronavírus...

Sempre se compara a tragédia do coronavírus com a da gripe espanhola, de 1918, mas a comparação mais significativa é com a Revolta da Vacina, de 1904. Foi um ano em que a ciência foi para a berlinda, os políticos brigaram por ela e o povo saiu de seu desespero para as ruas.

Tal como hoje, o Rio de Janeiro era dividido entre um pequeno oásis onde viviam as elites políticas e econômicas e o povão – uma multidão de pessoas aglomeradas nos morros e cortiços, ex-escravos, mestiços e imigrantes, a maioria sem emprego regular, vivendo em péssimas condições, vitimadas pelas epidemias recorrentes de peste bubônica, febre amarela, tuberculose e varíola e vivendo em constante revolta e conflitos com a polícia. Na política, vivia-se o confronto entre, de um lado, os florianistas e jacobinos – militares e civis, sobretudo do Rio de Janeiro, que haviam inscrito o lema dos positivistas, “ordem e progresso”, na Bandeira Nacional – e, de outro, as oligarquias dos republicanos paulistas e mineiros que haviam enriquecido com o café e também se haviam mobilizado para derrubar o Império, 15 anos antes.

Olhando para trás, vem a tentação de classificar um ou outro lado como de esquerda ou de direita, mas, então como hoje, não é nada fácil. Os jacobinos tinham um discurso radical contra as antigas oligarquias e defendiam um Estado moderno, eficiente e autoritário, com um discurso a favor da educação popular e da ciência, tal como havia defendido seu guru Augusto Comte, mas eram contra a pesquisa científica e as universidades. Depois de alguns anos comandando a República, tiveram de dar lugar aos republicanos paulistas e seus presidentes – Prudente de Morais, Campos Sales e Rodrigues Alves –, que tinham sua própria versão de como o País deveria modernizar-se e se desenvolver. Para estes, era preciso livrar os portos das doenças contagiosas que afastavam os navios de outros países, desenvolver o transporte ferroviário para escoar as safras e modernizar as cidades, tirando os pobres e miseráveis da vista e abrindo espaço para centros e bairros elegantes, onde o governo e os endinheirados pudessem construir seus prédios e mansões.

Celso Ming - Medo da segunda onda da pandemia

- O Estado de S.Paulo

Aumentaram as evidências de um rebote global do novo coronavírus, justamente quando a atividade econômica começava a ser retomada

Os mercados globais desabaram nesta quinta-feira (veja o gráfico) porque aumentaram as evidências de que uma segunda onda do coronavírus já está atuando globalmente, justamente quando a atividade econômica começava a ser retomada – e não só nos países avançados, mas também no País.

Pelo feriado de Corpus Christi, no Brasil, o impacto sobre os mercados internos só ficará claro nesta sexta-feira. O número de mortos por aqui já ultrapassa os 40 mil e o de infectados, mais de 790 mil.

As grandes aglomerações que aconteceram na Europa e nos Estados Unidos, nos protestos contra a escalada no racismo, realizadas sem a observância mínima de cuidados, são a hipótese com maior probabilidade de se confirmar como o fator disparador mais importante desse novo agravamento. Mas não é a única. A abertura gradual e possivelmente prematura do comércio, das atividades escolares e da convivência social em alguns países também levanta suspeição.

Antes das manifestações, os epidemiologistas dos Estados Unidos e da Europa temiam possível segunda onda apenas lá por setembro ou outubro. Mas à medida que os protestos tomaram corpo, eles passaram a disparar novos sinais amarelos. Nesta quinta-feira, novas projeções da Universidade de Washington apontam o novo pico de uma nova onda na segunda semana de setembro e um total de 170 mil mortes nos Estados Unidos até 1.º de outubro.

Hora de prorrogar a ajuda – Editorial | O Estado de S. Paulo

As medidas oficiais foram insuficientes para impedir falências e demissões, mas, sem aqueles programas, a devastação gerada pela crise teria sido certamente muito maior

Milhões de famílias serão beneficiadas e a economia ganhará algum alento, numa das piores crises da história republicana, se o governo prorrogar medidas emergenciais implantadas em abril. Preservar o poder de consumo dos mais vulneráveis servirá a dois propósitos muito importantes – garantir um mínimo de bem estar a um enorme número de pessoas e injetar algum combustível nos negócios. O ministro da Economia, Paulo Guedes, já indicou a disposição de manter as ações de apoio por algum tempo e congressistas dão suporte à ideia.

No Brasil, os primeiros casos de covid-19 foram confirmados em fevereiro e a gravidade da crise sanitária foi plenamente reconhecida em março. Em abril o Executivo anunciou as primeiras medidas econômicas para enfrentar a epidemia e seus efeitos econômicos. O Executivo apresentou um programa de apoio imediato a empresas pequenas e médias e de preservação de empregos. Foram definidas ações para facilitar a redução de jornadas e salários ou de suspensão temporária de contratos. Ao mesmo tempo, o Banco Central (BC) cuidou de expandir a liquidez e de criar condições para aumento crédito. A estratégia de suporte financeiro acabou envolvendo a participação do Tesouro e de bancos estatais.

Houve dificuldades para engatar a política de crédito, por causa dos critérios dos bancos e também pelas condições burocráticas impostas pelo Executivo. Também houve problemas no pagamento de auxílio emergencial de R$ 600 reais por mês a trabalhadores informais e a desempregados. Recursos foram entregues de forma indevida a milhares de pessoas, enquanto milhares de outras, embora qualificadas, tiveram dificuldade de acesso ao dinheiro. De modo geral, no entanto, as ações produziram efeitos sociais e econômicos positivos.

Dora Kramer - Midas do avesso

- Revista Veja

Bolsonaro coleciona fracassos como um rei com toque de ouro ao contrário

Nada que o presidente da República faz dá certo. A última de Jair Bolsonaro, ou penúltima, considerada a velocidade da produção, foi a tentativa de “acabar com matéria do Jornal Nacional” maquiando estatísticas sobre a incidência da Covid-19 no país. Os dados ganharam destaque na aflitiva trilha sonora das notícias extraordinárias e continuaram sendo divulgados graças a um consórcio de imprensa.

Ao governo restou enfiar mais uma viola no saco das ofensivas frustradas. Tal recipiente vem sendo abastecido por Bolsonaro desde os primórdios do mandato, quando não conseguiu despertar interesse da sociedade nem apoio do Parlamento para sua antiquada pauta de costumes.

Do início da pandemia para cá, os insucessos têm se avolumado. Nesse aspecto traz à lembrança o mitológico rei dono do toque de ouro, mas no sentido inverso. Jair Bolsonaro não acerta uma, notabilizando-se por obter resultados contrários às suas pretensões.

A mais recente pesquisa do Datafolha, que registrou queda acentuada na popularidade dele, apoio massivo ao isolamento social e repúdio majoritário à ideia de armar a população, aponta também a melhora da imagem do Congresso e do Supremo Tribunal Federal, com os quais Bolsonaro se relaciona de maneira conflituosa. Pois bem, a pesquisa de 30 de maio mostra uma queda de 14 pontos na avaliação negativa do Legislativo e de 13 pontos em relação ao STF. Isso de dezembro para cá.

Ricardo Noblat - O que é bom para os Estados Unidos pode ser bom para o Brasil

- Blog do Noblat | Veja

Lição para os generais

O Chefe do Estado Maior do Exército americano, general Mark Milley, vestiu a farda, pôs no peito as condecorações a que teve direito e pediu desculpas públicas por ter acompanhado há 11 dias o presidente Donald Trump na curta caminhada até a igreja de Saint John, a uma quadra da Casa Branca. Ali, Trump limitou-se a posar para fotos com uma bíblia na mão.

Quando o ministro da Defesa do Brasil (ou será ministro da Defesa do governo?), general Fernando Azevedo e Silva, pedirá desculpas públicas por ter sobrevoado de helicóptero ao lado do presidente Jair Bolsonaro a manifestação antidemocrática que ocorreu em Brasília há 12 dias? Lá embaixo, devotos de Bolsonaro portavam faixas pedindo uma nova intervenção militar.

O que é bom para os Estados Unidos nem sempre é para o Brasil, mas nesse caso seria. “Errei e aprendi com o meu erro”, disse Milley. “Eu não deveria estar lá. Minha presença criou a impressão de que os militares estão envolvidos em política doméstica”. E completou: “Precisamos honrar um princípio essencial da República: o de que as Forças Armadas não são políticas”.

A amigos, Milley explicou que acreditava que estava acompanhando Trump e sua comitiva para passar em revista as tropas da Guarda Nacional na Praça Lafayette, local onde houve protestos pela morte do segurança George Floyd. À imprensa, Azevedo e Silva afirmou que pegara carona com Bolsonaro para ir para casa, uma vez que mora perto do local da manifestação.

Duas semanas antes de exibir-se na companhia do ministro da Defesa, Bolsonaro comparecera a outro ato antidemocrático que teve lugar ao pé da rampa do Palácio do Planalto. A seu convite, estavam lá 9 ministros – entre eles, o general da ativa Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo. Do alto da rampa, Bolsonaro levantou o braço do general apresentando-o ao público.

Ramos foi alvo de críticas de seus colegas militares em grupos de WhatsApp. Cotado para substituir o general Edson Leal Pujol no comando do Exército, ele anda falando que se sente desconfortável por ter feito o que fez. Que já conversou com Bolsonaro sobre ir para a reserva, mas que por ora hesita. Gostaria de continuar como ministro para ajudar o país. Ora, tenha dó!

Bruno Boghossian – Viagem ao centrão da Terra

- Folha de S. Paulo

Acordo para defender presidente do impeachment dependerá da popularidade do governo

Antes de ganhar um ministério, o PSD ajudou Jair Bolsonaro a aprovar a reforma da Previdência. A pauta era considerada amarga, e a proposta foi desidratada pelos parlamentares, mas a sigla colaborou com o governo: deu 34 votos a favor da medida e apenas 2 contrários.

Nas últimas semanas, líderes partidários brincavam que, ao distribuir cargos para o centrão, o presidente pagaria por um apoio que já recebe. Era um exagero. Apesar do avanço da pauta econômica, Bolsonaro nunca teve vida fácil na Câmara e no Senado. O gracejo, porém, mostra que a relação entre o Planalto e sua nova base aliada deve continuar instável.

Nas conversas em que ofereceu espaço aos partidos, o presidente não pediu apoio a uma agenda de governo. Segundo dirigentes, Bolsonaro só cobrou a aprovação do projeto que prorroga a validade das carteiras de motorista. Não citou nenhuma ideia para a economia ou para a saúde na esteira da pandemia.

Hélio Schwartsman - Racismo, passado e futuro

- Folha de S. Paulo

Não dá para interpretar o passado com os olhos de hoje.

O racismo é moralmente condenável porque atribui a um indivíduo particular características tidas como representativas da categoria a que ele pertence. O racista tira conclusões sobre pessoas sem conhecê-las, o que é profundamente injusto e frequentemente fatal, como se constata nas abordagens policiais de negros nos EUA ou no Brasil.

Nesse contexto, vejo com simpatia os protestos mundiais deflagrados pelo assassinato de George Floyd. Não sou tão panglossiano a ponto de acreditar que acabarão com o racismo, mas dão visibilidade ao problema e, numa nota mais prática, já estão provocando mudanças nos protocolos policiais que poderão reduzir a violência das forças de segurança.

Meu apoio a esses movimentos, porém, é crítico. Não creio que faça muito sentido se revoltar contra personagens históricos como Cristóvão Colombo e Winston Churchill e quebrar-lhes estátuas. Não dá para interpretar o passado com os olhos de hoje.

Ruy Castro* Para militares que gostam de ler

- Folha de S. Paulo

Algumas frases de Napoleão para reflexão dos generais que apoiam Bolsonaro

Ouço dizer que os militares brasileiros gostam de ler. Ótimo. O problema é que só devem ler autores militares. Bem, o mundo já conheceu grandes escritores que foram também importantes como militares —Júlio César, Maquiavel, Euclides da Cunha, T. E. Lawrence (o da Arábia), Saint-Éxupéry, George Orwell. E houve um que pode não ter sido o maior escritor, mas certamente foi o maior militar: Napoleão.

Caiu-me às mãos outro dia um livro, "Napoleão - Máximas e Pensamentos", selecionados em 1838 por, ora vejam, Honoré de Balzac. É uma edição da Vecchi, de 1946. Contém 525 frases de Napoleão, tiradas de seus discursos e reflexões, entre uma e outra das monumentais batalhas em que jogava com a vida e com a morte de centenas de milhares. Nossos generais, embora só comandem escrivaninhas e manobrem carimbos, devem admirá-lo. Pois aqui vão algumas frases de Napoleão --para as considerações dos que, ignorando o legado de Osório, Barroso, Tamandaré, Caxias e Rondon, apoiam, por ação ou omissão, o governo de Jair Bolsonaro.

Reinaldo Azevedo – Nós, os corrupto-dependentes!

- Folha de S. Paulo

Os métodos mais uma vez não permitem distinguir o certo do errado, o culpado do inocente

É fácil levar a imprensa —no seu conjunto e sem exceções— a servir de instrumento da fascistização bolsonarista: ofereça a ela alguns acusados de corrupção! Como, com efeito, a política brasileira não é um convento (ou é, mas daqueles do Eça de Queiroz pré-conversão), basta que a Polícia Federal —a pedido do Ministério Público e com a autorização de um juiz— realize algumas operações espetaculosas e pronto! A coisa está feita.

Na coluna passada, escrevi neste espaço: “Eis a PGR a servir de pátio de manobra da sanha de Bolsonaro contra os governadores. A Lava Jato destruidora de instituições —que morreu como projeto de poder de Sergio Moro e dos ‘white blocs’ do MPF— renasce em espírito com Augusto Aras, agora sob os auspícios do bolsonarismo”.

As operações de caça a governadores em razão de irregularidades reais ou supostas envolvendo a compra de respiradores estavam escritas nas estrelas e também nos tuítes, entrevistas e telefonemas ameaçadores da deputada Carla Zambelli (PSL-SP).

À míngua – Editorial | Folha de S. Paulo

Economia brasileira dá sinais de que pode sofrer mais que as de outros países

Se os impactos econômicos e sociais da pandemia são graves em todo o mundo, no Brasil as consequências podem se revelar mais devastadoras. Com progressos insuficientes no combate ao vírus, a retomada ameaça ser ainda mais lenta do que em outros países.

As projeções mais recentes apontam para uma retração do Produto Interno Bruto de pelo menos 6,5% neste ano. Se confirmada tal hipótese, a deterioração da renda será equivalente à do período 2015-16, mas de forma mais súbita e com o país em situação mais frágil.

A taxa de desemprego, que já estava perto dos 12%, saltará mais alguns pontos. O desalento que atingia 25 milhões de pessoas tende a se tornar endêmico, com impactos sociais negativos e perdas para a produtividade da economia.

Outra limitação grave está nas contas públicas, que serão danificadas seriamente com os necessários programas emergenciais de suporte à renda e ao emprego. A dívida pública deve saltar do equivalente a 75% para 95% do PIB ou mais, um fator limitante para que o Estado possa fazer investimentos em montantes significativos.

César Felício* - O centrão italiano

- Valor Econômico

Operação política de Bolsonaro agora lembra a de Mussolini

O soberbo livro “M- O filho do século”, uma biografia romanceada de Benito Mussolini que levou Antonio Scurati a ganhar, no ano passado, o Prêmio Strega, o principal da literatura italiana, tem sido muito usado para traçar analogias entre a ascensão do fascismo na Itália e o que pode estar acontecendo no próprio país de origem do livro, em outras nações e no Brasil, sem que estejamos percebendo claramente. A carapuça serve a várias cabeças.

A leitura impressiona quando se pensa no Brasil, sem que seja preciso forçar a barra em considerar o bolsonarismo como a versão cabocla e contemporânea do fascismo. Banalizar o que foi Mussolini é uma afronta às vítimas do horror da ditadura que arrasou a Itália entre 1922 e 1943.

Por mais que seja inegável o caráter populista e autoritário do bolsonarismo, ainda há um oceano a separá-lo de Mussolini em termos de brutalidade política. Aqui não se sodomiza deputados esquerdistas com cassetete e nem se executa sindicalistas a pauladas no meio da rua, em expedições punitivas pela madrugada. Detalhe: essas duas barbaridades, relatadas no livro, aconteceram antes da ascensão de Mussolini ao poder, em tempos em que o fascismo apenas ganhava forças.

Ressaltar as diferenças não significa outorgar ao bolsonarismo um ISO 9000 de aceitação da democracia. A extrema-direita não é uma força comprometida com a democracia nem no Brasil, nem em nenhum lugar do mundo, frise-se. Como a extrema-esquerda também não é. A ação de um bolsonarista ao retirar as cruzes que simbolizam as mortes por covid em um protesto nas areias de Copacabana são sugestivas neste sentido.

Claudia Safatle - Dúvidas sobre a eficácia do Pronampe

- Valor Econômico

Micro e pequenas empresas estão à espera de oxigênio

O pacote de crédito instituído pelo governo, com a regulamentação dos fundos garantidores de Operações (FGO) e de Investimento (FGI), está concluído. As últimas medidas foram para “desenrolar” e “desentupir” os canais do crédito para que os recursos cheguem ao tomador final.

“Foi um passo audacioso”, comentou o assessor Especial do Ministério da Economia Guilherme Afif, que foi um dos responsáveis pela estruturação das operações.

Afif se refere sobretudo ao fato de o Tesouro Nacional bancar praticamente 100% das garantias necessárias para que o sistema bancário se habilite à participar das operações para as micro, pequenas e médias empresas.

“Fizemos tudo para que o crédito chegue na ponta final. Se não chegar, vai morrer muita gente”, comentou Afif. Ele sabe bem a situação de tremendas dificuldades que essas empresas estão passando diante dos efeitos da pandemia da covid-19, que derrubou a economia para uma violenta recessão.

Com as medidas provisórias e os regulamentos já divulgados em mãos, fontes do mercado avaliam que os empréstimos para as empresas de pequeno e médio porte, com garantia do FGI, têm boas condições de dar certo. Faltam ainda algumas definições do BNDES, que opera o FGI. Por exemplo, ainda está em análise a taxa de juros que o programa vai cobrar.

José de Souza Martins* - O poder invisível

- Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

O povo brasileiro votou para ter um governante e elegeu um usurpador que governa em nome do que acha, e não do prescrito

Faz tempo que um poder invisível tem aqui se ocultado nos bastidores do poder formal e aparente. Esse fantasma sobrevive e manda em todos nós. Está de volta. A cara do poderoso é apenas a máscara do invisível.

Temos um governante que faz e diz, diariamente, coisas fora do marco do que possa ser reconhecido e interpretado como próprio da democracia, da representação política e do decoro da governança, que foi o motivo da eleição de 2018. O povo votou para ter um governante e elegeu um usurpador. Governa em nome do que acha, e não do prescrito.

Não há, pois, como não suspeitar de que o país está sob o jugo de um governo invisível. Porque, com a mentalidade diariamente divergente do governante em relação ao constitucionalmente previsto e ao politicamente esperado, o país está sendo governado por alguém que não é o eleito, nem sabemos quem é.

Já aconteceu antes: o presidente Garrastazu Médici (1905-1985), por suas insuficiências, foi escolhido para não governar. Governava o chamado “sistema”, o governo invisível da linha-dura do regime militar. Gente que queria mandar, mas não tinha coragem de assumir os malfeitos do regime. Até porque era mando para executar o inconfessável da repressão, da tortura e dos desaparecimentos políticos.

Gente que sabia ou, ao menos, intuía que lá adiante, quando o país retornasse à normalidade democrática, teria que enfrentar a acusação de suas vítimas e da própria sociedade restituída ao seu legítimo direito de governar-se às claras.

Maria Cristina Fernandes – Democracia remota blinda Congresso

- Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Sob deliberação remota há quatro meses, parlamentares terceirizaram ao STF o enfrentamento com o Executivo e agora se preparam para enfrentar pressão redobrada pelo impeachment

A aprovação do projeto que transfere terras da União para os Estados de Roraima e Amapá, antigos territórios federais, arrancou vivas tanto do senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), integrante da turma que morde o bolsonarismo, quanto do seu principal artífice, o presidente da Casa, senador Davi Alcolumbre (DEM-AP), capitão da banda que assopra.

O dueto de antagonistas conterrâneos foi interrompido pelo senador Jean Paul Prates (PT-RN). Votara a favor da iniciativa, mas denunciava a manobra que havia levado todos a retirar projetos prioritários de pauta em função do acordo para apenas colocar em votação remota o que estivesse relacionado à doença: “Ou a gente muda a regra ou cumpre a regra. Isso não tem absolutamente nada a ver com a covid”.

Não era a única queixa do senador. Prates reclamou ainda que os colegas que pediam para falar “pela ordem” deviam ser colocados para o fim da fila de quem se inscreveu para falar os três minutos regulamentados pela norma da votação remota.

O procedimento, comum nos apartes parlamentares, virou uma guerra no plenário virtual. O presidente do Senado, cuja contemporização com o bolsonarismo rendeu, além da transferência de terras, benesses como um hospital de campanha federal no Amapá, prometeu resolver o rolo dos apartes, mas não disse palavra sobre os jabutis da pauta.

Quatro meses depois, os procedimentos adotados pelas mesas da Câmara e do Senado para manter os trabalhos em funcionamento durante a pandemia se transformaram num poço de controvérsias. Se todos concordam que as sessões remotas foram a saída possível para manter as deliberações do Congresso, sobram divergências em relação ao poder redobrado dos presidentes, do colégio de líderes e até dos burocratas das mesas diretoras.

Os presidentes das Casas e os colégios de líderes definem a pauta, abrem a sessão e depois de manifestações parlamentares de três minutos, os projetos são votados. Se houver acordo com os líderes, o projeto entra em regime de urgência, o que não permite qualquer obstrução. Nos chats, foi aos funcionários que os parlamentares passaram a dirigir pedidos desesperados de que querem se fazer ouvir.

Fed sinaliza afrouxamento monetário e juro zero até 2022 – Editorial | Valor Econômico

As ações do Fed e a desvalorização do dólar deixam o BC brasileiro mais confortável para seguir reduzindo os juros

A catástrofe econômica provocada pelo coronavírus obrigará os EUA a manter as taxas básicas de juros encostadas no zero pelo menos até 2022, apontou ontem, por unanimidade de seus membros, o Federal Reserve. A economia está afundando no segundo trimestre, embora haja sinais de que deixou o fundo do poço, e o banco central manterá a alta dose de estímulos dados, e se precisar, acrescentará outros para que o país consiga fazer uma travessia que Jerome Powell, presidente do banco, acredita que será “longa”, marcada por “um grau extraordinário de incertezas”. Powell não fez qualquer menção, sequer hipotética, sobre quando começaria a retirar o apoio monetário em curso, que poderia motivar perigosa reversão de expectativas nos mercados de ações.

Pela primeira vez desde a pandemia o Fed apresentou projeções sobre o desempenho econômico e o retrato é tão pessimista quanto ou até mais do que as dos investidores. Para o Fed, os EUA vão se retrair 6,5% na média, mas pode ser um pouco pior - as previsões variaram entre -5,5% e -7,5%. Em 2021, a expectativa é de avanço de 5%. Uma pesquisa com 42 enquetes, feita pelo Fed da Filadélfia, indica que os analistas estão um pouco mais otimistas que o banco central no curto prazo - recuo de 5,5% - e menos no médio prazo, com o crescimento projetado de 2,2% a 4,1% nos próximos três anos.

Merval Pereira - A caminho da reserva

- O Globo

Saúde passou a ser exemplar da ‘militarização’ do governo, tendo sido nomeados no último mês 30 assessores militares

A autocrítica do General Mark Milley, chefe do Estado Maior Conjunto, principal autoridade militar dos Estado Unidos, por ter participado de uma caminhada com o presidente Donald Trump de cunho político, vem a calhar diante da incorporação de militares, da ativa e da reserva, no governo do presidente Bolsonaro.

“Minha presença naquele momento, e naquele ambiente, criou uma percepção de envolvimento dos militares na política interna”, disse o general Milley. O mesmo desconforto sentiu o General de Exército da ativa Luiz Eduardo Ramos, ministro da Secretaria de Governo, ao participar de uma manifestação política em frente ao Palácio do Planalto no domingo dia 17.

Convocado pelo presidente Bolsonaro, assim como outros ministros, o General Ramos compareceu “disfarçado”, com um boné da Harley Davidson e óculos escuros, e ficou no alto da rampa, sem participar da manifestação. Mas naquele dia o presidente resolveu chamar todos os ministros para próximo dele, e apresentou um a um à multidão, levantando seus braços.

Sua presença na rampa do Planalto tinha um inescapável sentido político e foi muito criticada pelo fato de ser um General da ativa. Foi a última vez em que Ramos participou de uma manifestação, e começou a pensar em ir para a reserva.