quinta-feira, 3 de novembro de 2022

Roberto Macedo* - Lula e os muitos e complexos problemas de sua gestão

O Estado de S. Paulo

Ele precisa ampliar seu apoio político ao centro, e tratar os problemas com uma visão mais analítica que a de seu discurso eleitoral.

Há tempos Lula sentiu a necessidade de ampliar sua sustentação política além da advinda de grupos que tradicionalmente o apoiam, como sindicalistas e petistas históricos, mais à esquerda, com seus líderes ávidos pelo poder e suas benesses.

Esse apoio tradicional também explica, em parte, por que enquanto candidato Lula não apresentou uma visão detalhada de seu plano de governo, em razão de seu receio de desagradar esses grupos. Mas, de agora em diante, a realidade vai se impor. Politicamente, Lula já buscou ajuda mais ao centro, como ao escolher Geraldo Alckmin como vice-presidente. E teve apoios importantes como o de Simone Tebet e também o de muitos brasileiros que se arrependeram do seu voto em Jair Bolsonaro em 2018, vendo agora no petista um risco menor do que o associado ao atual presidente.

Lula terá de mostrar serviço, diante da dura realidade econômica e social. Para tanto, será fundamental que prossiga este movimento mais ao centro, pois ele é indispensável para contar também com quadros políticos e administrativos mais experientes em lidar com os muitos problemas a enfrentar. E será preciso que isso seja feito prestigiando o entendimento desses problemas em suas múltiplas dimensões, o que, numa linguagem mais acadêmica, significa buscar apoio em análises científicas, e não em visões baseadas em crenças preconcebidas.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Por uma transição ordeira e pacífica para o novo governo

Valor Econômico

Liberar as estradas é uma necessidade urgente

Políticos, ministros do Supremo Tribunal Federal e leigos em geral tiveram de fazer uma complexa análise semântica do discurso de pouco mais de 2 minutos do presidente Jair Bolsonaro, quase dois dias depois de ser derrotado nas eleições. A interpretação dada pelo Supremo Tribunal Federal, em nota, obteve consenso na interpretação: “O STF consigna a importância do pronunciamento do Presidente da República em garantir o direito de ir e vir em relação aos bloqueios e, ao determinar o início da transição, reconhecer o resultado final das eleições”. E assim foi entendido.

A facção dos caminhoneiros que segue Bolsonaro e faz arruaça nas estradas do país, acreditou até o fim na fantasia de que houve um complô para derrotar o presidente por métodos escusos. As bandeiras do movimento têm as claras marcas da ilegalidade: repudiam o resultado de eleições limpas e pedem intervenção dos militares para por fim à democracia. Bolsonaro considerou as manifestações legítimas: “São fruto de indignação e sentimento de injustiça de como se deu o processo eleitoral”. Depois disse que os métodos da direita não podem ser os da esquerda, com “cerceamento do direito de ir e vir”.

Poesia | Elogio do aprendizado (Bertolt Brecht)

 

Música | André Mehmari e Monica Salmaso - A lua girou

 

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

Vera Magalhães - Que venha a transição

O Globo

Brasil deveria dar despedida breve a Bolsonaro e se ocupar da agenda que vai além das tarefas executivas e inclui a reconstrução do ambiente de diálogo

O Brasil deveria fazer como Jair Bolsonaro e lhe dar uma despedida breve, telegráfica, do tamanho de um tuíte. Se o presidente não se preocupou em, quase 48 horas depois da inédita derrota de um incumbente à reeleição, respeitar a liturgia do cargo e endereçar uma mensagem ampla ao conjunto da sociedade brasileira, dividida e traumatizada por uma campanha eleitoral suja, que sigamos sua ideia e passemos a nos dedicar ao dia seguinte.

Como escrevi no dia da eleição, há um país a reconstruir. E, ainda assim, o bolsonarismo se dedicou a depredá-lo um pouco mais desde domingo, numa sinalização clara de que não pretende exercer oposição ao próximo governo de forma democrática e institucional, mas sim promovendo arruaças e conturbando o ambiente econômico, político e social.

A transição, portanto, tem de se ocupar das muitas tarefas executivas necessárias para superar quatro anos de retrocessos, desmonte das estruturas de fiscalização, desrespeito aos direitos civis e coletivos e desarranjo fiscal para fins eleitoreiros, sem falar na política armamentista assassina e nos sigilos de cem anos para tudo.

Será preciso também fazer o caminho de volta para o convívio civilizado entre os que têm ideologias distintas, professam diferentes religiões, vivem nas várias regiões do país, pobres e ricos, trabalhadores e patrões, pais e filhos. Não é pouca coisa, e haverá sabotadores impedindo o trânsito como fizeram os caminhoneiros insurrectos nas estradas.

Bernardo Mello Franco – Aposta na arruaça

O Globo

Presidente tenta manter tropa mobilizada para demonstrar força e negociar proteção

A história acontece como tragédia e se repete no Brasil como arruaça. O bloqueio de rodovias faz parte de um enredo premeditado por Jair Bolsonaro: a tentativa de melar, pela via do tumulto, o resultado da eleição presidencial.

O capitão sempre buscou imitar Donald Trump. No ano passado, o republicano incentivou seus apoiadores a invadirem o Capitólio. Queria barrar a posse de Joe Biden, eleito pela maioria dos americanos.

Na versão tupiniquim, a baderna foi menos organizada. Os bolsonaristas se limitaram a parar o trânsito, com a cumplicidade da cúpula da Polícia Rodoviária Federal. Outros grupos de extrema direita armaram piquetes em frente a quartéis, onde clamam por golpe e prisão de ministros do Supremo.

Bolsonaro está isolado. Seus aliados já começaram a reconhecer a vitória de Lula na noite de domingo. O discurso do presidente da Câmara, Arthur Lira, serviu como senha para o desembarque do Centrão.

Elio Gaspari - Bolsonaro ficou fora da curva

O Globo

O Brasil é um só, mas dividido

Lula já mostrou que sabe agregar, e os luminares do Centrão sabem agregar-se. Já Bolsonaro, com seu silêncio dominical, confirmou o que se sabia desde janeiro de 2019, quando ele chegou ao Planalto: o figurino das instituições democráticas assenta-lhe mal.

Prever sua morte política é uma precipitação. Ela só ocorre, às vezes, com a morte física. Mais morto que Lula no cárcere de Curitiba, só Getúlio Vargas no leito de seu quarto no Palácio do Catete. Nenhum dos dois morreu politicamente, e Lula viveu o suficiente para ser eleito pela terceira vez.

Deve-se buscar o Bolsonaro do futuro no inexpressivo capitão da política do Rio de Janeiro. Ele foi eleito em 2018 por muitos fatores. Um deles foi a soberba petista diante das denúncias de corrupção. Deve-se lembrar que o candidato petista, Fernando Haddad, dizia que, eleito, teria um conselheiro em Lula, preso em Curitiba. A coligação alimentada pelo sentimento antipetista elegeu-o. Quatro anos depois, Bolsonaro tornou-a minoritária. Minoritária, porém robusta.

Luiz Carlos Azedo - Um sapo barbudo entalado na garganta de Bolsonaro

Correio Braziliense

Bolsonaro não fez nenhum questionamento ao resultado das eleições, mas também não o endossou publicamente, até agora. Entretanto, na prática, está digerindo a derrota, ou seja, o “sapo barbudo”

O título da coluna é inspirado na frase famosa do ex-governador fluminense Leonel Brizola, cujo sonho de chegar à Presidência foi frustrado em 1989, ao ficar em terceiro lugar na disputa presidencial, atrás de Fernando Collor de Mello e, para surpresa geral, do então estreante nas eleições Luiz Inácio Lula da Silva. Atropelado pelo líder metalúrgico, Brizola decidiu apoiá-lo no segundo turno e transferiu seus votos para o petista, principalmente no Rio de Janeiro e no Rio Grande Sul. O “sapo barbudo”, porém, somente viria a se eleger presidente da República em 2002, tendo que ser digerido pelo senador José Serra (SP), seu adversário tucano.

O presidente Jair Bolsonaro (PL) ainda não engoliu a vitória do “sapo barbudo”. Seu pronunciamento de ontem, depois de um adiamento de 48 horas após o encerramento da apuração, foi pautado pela ambiguidade política. Agradeceu aos seus eleitores, enalteceu a formação de uma direita ideológica no país, anunciou que sua luta continua, mas não reconheceu a derrota eleitoral nem cumprimentou Lula, o presidente eleito. Sua grande preocupação foi manter o apoio dos caminhoneiros e militantes bolsonaristas de raiz, que ainda não aceitaram o resultado da eleição e, ao mesmo tempo, orientá-los a não cometerem nenhum ato de violência nem impedirem o direito de ir e vir.

Vera Rosa – Será que acabou mesmo?

O Estado de S. Paulo

Bolsonaro não quer passar a faixa presidencial para Lula e tarefa pode ficar com Mourão

Desde que perdeu as eleições, o presidente Jair Bolsonaro dá sinais de que vai apostar no confronto até a posse de Luiz Inácio Lula da Silva, em 1.º de janeiro de 2023. Disposto a mostrar que comanda a “tropa” nas ruas, Bolsonaro demorou quase 45 horas após ser derrotado para fazer um pronunciamento de pouco mais de dois minutos, no qual vestiu o figurino de líder da oposição.

O discurso foi lido de duas formas. Para ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), Bolsonaro entendeu o recado de que, ao não se manifestar sobre os bloqueios nas estradas e deixar a confusão correr solta, estava cometendo crime de responsabilidade. No diagnóstico de seus apoiadores, porém, o chefe do Executivo apenas “despistou” os críticos quando conjugou, com todas as letras, o verbo da rendição: “Acabou”.

Maria Cristina Fernandes - Bolsonaro não clareia incerteza sobre seu futuro

Valor Econômico

No curto pronunciamento no Palácio do Planalto, Bolsonaro foi tão dúbio que só conseguiu mesmo mostrar que vai infernizar a vida do país até seu último dia no poder

presidente Jair Bolsonaro tentou tirar as meias sem descalçar os sapatos, mas continua com uma bola de ferro amarrada nos seus pés que é a incerteza de seu futuro depois que deixar o Palácio do Planalto.

No curto pronunciamento no Palácio do Planalto, ele agradeceu os 58 milhões de votos e valeu-se dos movimentos de contestação ao resultado eleitoral que bloqueiam as estradas para se vitimizar, dizendo que os movimentos populares são “fruto de indignação popular e sentimento de injustiça”.

Vinicius Torres Freire - Lula e STF tentam ignorar o golpismo

Folha de S. Paulo

Presidente não reconhece derrota e tenta manter confusão permanente, agora ou em 2023

Jair Bolsonaro tomou providências a fim de evitar mais um flagrante de seus tantos crimes, como bloquear o processo legal de transição para o próximo governo e ser conivente com o paradão de estradas. Afinal, há algum risco de que seja processado, talvez julgado e condenado.

Mas não reconheceu o resultado da eleição coisa alguma. Ainda pior, disse o contrário em seu pronunciamento bananeiro desta terça-feira: "Os atuais movimentos populares [o paradão] são fruto de indignação e sentimento de injustiça de como se deu o processo eleitoral". Fez um discurso de líder da extrema direita e da baderna subversiva, para o que muito comentarismo político passou pano.

O comando da transição para o governo de Luiz Inácio Lula da Silva e o PT sabem o que Bolsonaro está fazendo. Mas fingem ignorar a incitação à baderna a fim de reforçar a ideia de que o país vai voltar à vida normal.

Hélio Schwartsman - Capitólio tupiniquim

Folha de S. Paulo

Silêncio vem servindo de senha para que apoiadores radicais promovam bloqueios em estradas

Jair Bolsonaro tenta emular os passos de Donald Trump. Ele esperou quase 48 horas para se pronunciar sobre o pleito e, quando finalmente falou, agradeceu os votos recebidos e reclamou de uma suposta injustiça do sistema eleitoral. Não parabenizou Lula nem reconheceu explicitamente a derrota. Fê-lo apenas indiretamente, indicando que jogaria nas quatro linhas da Constituição. Também autorizou seu ministro da Casa Civil a dizer que daria início ao processo de transição.

Se fosse só isso, poderíamos classificar a atitude como uma infantilidade sem maiores consequências. Denotaria uma tremenda falta de educação e de compromisso com os ritos da democracia, mas Bolsonaro já fez coisas piores. Se ele não quiser entregar a faixa a Lula, sua ausência não será lamentada. João Figueiredo, o último ditador militar, também saiu pela porta dos fundos.

Bruno Boghossian - O Golpismo de cartola

Folha de S. Paulo

Presidente não desautoriza contestação eleitoral e tenta manter protagonismo na direita

Jair Bolsonaro não demonstrou intenção de condenar o golpismo ou pedir que seus apoiadores reconheçam a derrota na eleição. O presidente quebrou um silêncio de mais de 40 horas com uma declaração de 2 minutos, que teve como objetivos manter sua base engajada e reduzir os danos de sua saída do poder.

Em nenhuma palavra, Bolsonaro desautorizou seguidores que contestam a escolha de Lula ou pedem uma intervenção militar para impedir sua posse. Ao contrário, mediu palavras para deslegitimar a vitória do adversário quando afirmou que o bloqueio de estradas é fruto de "indignação e sentimento de injustiça" em relação ao processo eleitoral.

O presidente fez reparos apenas às ferramentas usadas pelos manifestantes. Criticou o cerceamento do direito de ir e vir, mas não a pauta golpista. Ele chegou a se incluir entre os apoiadores ao usar a primeira pessoa do plural: "Os nossos métodos não podem ser os da esquerda".

Mariliz Pereira Jorge - Golpista sendo golpista

Folha de S. Paulo

Tão direito como só um covarde consegue ser, deu a entender que não foi uma eleição limpa

De onde menos se espera, daí é que não sai nada, diria Apparício Torelly, o "barão de Itararé". Quase dois dias após ser derrotado nas urnas, Jair Bolsonaro deixou milhões de brasileiros e dezenas de profissionais da imprensa plantados, à espera do projeto de ditador finalmente reconhecer o resultado das eleições. Tolinhos — e eu me incluo nesse bonde.

Havia um tiquinho de esperança de que houvesse algum resquício de civilidade. O que tivemos foi mais do mesmo: golpista sendo golpista. Agradeceu aos votos dos eleitores, ignorou, como sempre fez, a outra metade do país para quem ele fez questão de não governar, e aproveitou o holofote para atiçar a militância.

Igor Gielow - Governo Bolsonaro acaba com ato de covardia institucional

Folha de S. Paulo

Isolado, presidente imita Trump e entrega os pontos, sem reconhecer vitória de Lula

O presidente Jair Bolsonaro (PL) encerrou seu governo na prática nesta tarde de terça (1º) com um ato de covardia institucional, para ficar próximo da pior sigla da ditadura que enalteceu de várias formas ao longo de sua gestão.

Convocou sem ênfase o fim de protestos em rodovias por parte de uma franja de seus apoiadores que acredita que coisas como intervenção militar para negar a derrota por margem mínima sofrida para Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Agradeceu os mais de 58 milhões de votos que teve, mas não reconheceu a vitória do adversário. Deixou para um encabulado, se a palavra se aplica, Ciro Nogueira (Casa Civil) o papel de dizer que irá começar a transição de governo com o vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin (PSB).

Ou seja, admitiu a derrota sem ter a hombridade de fazê-lo. Novamente, seguiu a cartilha deixada por seu modelo político, o ex-presidente americano Donald Trump. Em novembro de 2020, o republicano demorou uma semana após a proclamação do resultado da eleição para, a seu estilo, postar no Twitter que Joe Biden havia ganho a eleição.

Cristovam Buarque* - Lula: três pontes

Correio Braziliense,01/11/22

Lula está na história do Brasil como o líder sindical de origem pobre, que chega à Presidência e se afirma como um dos grandes presidentes da nossa República. Com sua eleição para o terceiro mandato, ele se transforma no maior sucesso eleitoral entre todos os políticos brasileiros, até hoje e por muitas décadas no futuro. Pode ser também o maior de nossos presidentes ao construir três pontes de que o Brasil carece.

A primeira ponte é para recuperar a unidade política e emocional entre os brasileiros e construir coesão nacional. Estamos divididos regionalmente, religiosamente, racialmente e até na preferência musical. Um país dividido em partes que se rechaçam e até se odeiam. Lula tem o desejo, a responsabilidade e a competência de reunificar o Brasil. Seu discurso na hora da vitória foi no sentido de voltar o diálogo, fazer com que famílias e amigos conversem sobre política e futuro sem rancor e sem distanciamento; que católicos e evangélicos se sintam igualmente cristãos e respeitem judeus, muçulmanos, espíritas, umbandistas, budistas e ateus; que nenhum brasileiro deixe de respeitar a outro por causa de seu gênero ou sua orientação sexual, seu partido político ou o líder de sua preferência; todos solidários na brasilidade e no humanismo.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Pronunciamento de Bolsonaro traz sensação de alívio

O Globo

Ele demorou a se manifestar, mas aceitação tácita do resultado das urnas deverá esvaziar atos golpistas

Mais de 44 horas depois de o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) anunciar a vitória do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na corrida ao Planalto, o presidente Jair Bolsonaro fez ontem à tarde um rápido pronunciamento em que legitimou o resultado. Agradeceu os 58 milhões de votos que recebeu no segundo turno e desautorizou manifestações que restrinjam o direito de ir e vir —referência aos bloqueios de caminhoneiros que fecharam estradas e provocaram transtorno nos últimos dias. “Somos pela ordem e pelo progresso”, afirmou. “Enquanto presidente da República e cidadão, continuarei cumprindo todos os mandamentos da nossa Constituição.”

Em nenhum momento Bolsonaro questionou o resultado nem fez menção a qualquer tentativa de contestação judicial. Ao contrário, fez em seguida uma visita ao Supremo Tribunal Federal (STF), onde, pelo relato de ministros, disse que “acabou”. Em seu pronunciamento, Bolsonaro afirmara ainda que, apesar de rotulado como antidemocrático, sempre jogou “dentro das quatro linhas da Constituição”. Após o breve discurso, o ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, informou ter sido autorizado a conduzir a transição para o novo governo. Na prática, apesar da saída inusitada —derrotados nas urnas costumam dar parabéns aos vencedores —, foi um reconhecimento implícito de Bolsonaro de que perdeu e entregará o cargo a Lula.

Poesia | Nada é Impossível de Mudar (Bertolt Brecht)

 

Música | Roberta Sá - Luz da minha vida

 

terça-feira, 1 de novembro de 2022

Marco Aurélio Nogueira* - Uma nova chance para o Brasil

O Estado de S. Paulo

A decantada 'união nacional' dependerá muito do que vier a fazer o novo governo. Mas não nascerá somente dele. As forças democráticas, seja onde quer que estejam, precisarão dar sua contribuição.

Foi duro, sofrido, apertado, muito mais do que se imaginava e do que esperavam as torcidas. Mas Lula venceu a disputa e será o novo presidente da República a partir de janeiro de 2023.

As urnas apontaram muitas coisas. Uma sociedade dividida como nunca dantes, um novo padrão de disputa política, uma direita extremada aguerrida e forte, um desejo pulsante de democracia.

Apontaram também a resiliência de ambos os candidatos.

Lula, com sua trajetória épica, revelou uma recuperação que há 4 anos se imaginava impossível. Ele nunca esteve “morto”, mas foi alvejado por potentes petardos, que poderiam ter alquebrado seu espírito e manchado sua reputação. Mostrou que continua mais vivo do que nunca, com uma extraordinária capacidade de empolgar partes importantes da população.

Merval Pereira - Bolsonaro isolado

O Globo

Surgirão líderes para fazer política de direita e Bolsonaro ficará com o núcleo radical do eleitorado representante de uma força importante, mas minoritária

Não vai ser fácil, pelas primeiras reações do único presidente a não conseguir a reeleição, apesar de ter sido o que mais abusou de suas prerrogativas para vencer o pleito. Lula tem que confirmar seu discurso de eleito, magistralmente montado como se marcasse sua posse no cargo que só assumirá em janeiro, de que seu terceiro governo será mais amplo, além do PT, um governo de união nacional, de uma frente democrática ampla.

A distância entre a retórica e a realidade poderemos constatar logo adiante, quando da escolha do ministério. É preciso que o governo esteja representado pela pluralidade de apoios que Lula obteve, sem o que Bolsonaro possivelmente teria vencido a eleição. Lula representa muito mais que o PT, é um líder importante com uma visão de futuro não sectária, que ajudou a viabilizar essa ampla coalizão democrática em torno dele.

Nem Lula nem Bolsonaro são donos dos milhões de votos que cada um teve. A ex-senadora Simone Tebet me disse que trabalhou mais na campanha de Lula do que na sua própria, o que é verdade. Lula está demonstrando que reconhece a importância desse esforço. Era a democracia que estava em jogo, não um cargo ministerial.

A força que Lula deu a seu vice Geraldo Alckmin no domingo na Avenida Paulista foi impressionante. A toda hora o chamava, levantava a sua mão, fez questão de não escondê-lo, de dizer para seu povo, que recebeu o ex-tucano friamente: este aqui é o homem que me ajudou e vai ser importante neste governo de transição para a redemocratização do país. Boa parte do PT queria que Lula fosse mais para a esquerda, criticou a escolha de Alckmin, e quem estava certo era Lula.

Míriam Leitão - A solidez da vitória de Lula

O Globo

A vitória de Lula foi sólida, legitimada pelas instituições e respaldada pelo mundo. Nossa democracia venceu o ataque mais duro que já sofreu

vitória do presidente Lula é robusta, está consolidada e o fato de a diferença ter sido estreita não muda essa realidade. O presidente Bolsonaro, como é normal nesses momentos, vai perder força a cada dia. O poder se alimenta do futuro do poder, os holofotes já estão em outra direção. Quando as urnas falam, um democrata ouve. Bolsonaro ainda não ouviu. E isso por maus modos políticos e por falta de inclinação democrática. O governo vai querer tumultuar a transição, mas os servidores que tiverem noção de que servem ao país poderão superar esse bloqueio às informações. Uma nova maioria vai se formar em torno de Lula, com parte dos parlamentares hoje com Bolsonaro se reposicionando.

A democracia brasileira superou, com esta eleição, o mais duro ataque já recebido desde a Constituição. Ficaram muitas sequelas. Em alguns momentos ela parecia fazer água. É preciso fortalecê-la agora. Há muito trabalho para as instituições. A captura da Procuradoria-Geral da República, o uso abusivo de alguns órgãos como aconteceu com a Polícia Rodoviária Federal em pleno dia do voto, a supressão da barreira de que em ano eleitoral não se cria benefícios, comandantes militares que não souberam a fronteira entre governo e Estado, há uma lista de rupturas com as regras democráticas feitas por Bolsonaro que não podem ser repetidas.

Carlos Andreazza - Mano Brown 2022

O Globo

'Não serão fáceis os próximos dois meses. Serão dificílimos, como duríssimos serão os próximos anos. O buraco é fundo e ainda está sendo cavado'

Até a conclusão deste artigo, no começo da noite de 31 de outubro, Bolsonaro não havia se pronunciado sobre a derrota. Não que surpreenda. Foi péssimo presidente — derrotado, sobretudo, por haver sido péssimo. Teria de ser péssimo perdedor.

Não surpreende, nem há muito mistério. Fez o diabo para camuflar — maquiou até posto de gasolina — a ruindade de sua gestão; e fracassou. Uma façanha. Derramar, concentradamente, R$ 100 bilhões — a população a lhe financiar a campanha — e perder. O silêncio, previsível, compondo a atitude padrão de um agente para o conflito que joga com expectativas. Mas a quem sobraram poucas possibilidades.

Escrevo isso para que não se superestime sua força. Tendo feito tudo o que fez, estranho seria se perdesse de lavada. Derrotado, não lhe resta muita margem.

Não que seja carta fora do baralho. É o presidente. Não que não tenha base social própria. Tem. Nem que não canalize o sentimento antipetista, esse gigante subestimado. Canaliza. Ainda. Era óbvio que seria competitivo. É óbvio que ainda provocará distúrbios. Café frio também mancha.

Luiz Carlos Azedo - Protesto de caminhoneiros ressalta a importância do segundo turno

Correio Braziliense

A demora de Bolsonaro para reconhecer a vitória de Lula alimenta especulações e a agitação golpista. Entretanto, ao mesmo tempo, é um fator de desgaste político de sua liderança

As manifestações de caminhoneiros, ontem, com bloqueios de estradas em 16 estados, em protesto contra a vitória do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, no domingo, não são propriamente uma surpresa; são ações planejadas por uma extrema direita golpista, que sempre procurou desacreditar as urnas eletrônicas e trabalhou para construir um cenário de deslegitimação do resultado das eleições, caso o presidente Jair Bolsonaro fosse derrotado. Entretanto, é um movimento que não tem a menor chance de dar certo.

As lideranças dos caminhoneiros talvez nem saibam, mas estão derrotados desde o 7 de Setembro de 2021, quando ocuparam a Esplanada dos Ministérios e ameaçaram invadir o Supremo Tribunal Federal (STF), furando o bloqueio da Polícia Militar do Distrito Federal. Àquela ocasião, foram insuflados pelas manifestações bolsonaristas de Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo, e pelos ataques de Bolsonaro às urnas eletrônicas. A reação das instituições e da sociedade foi inequívoca: não haveria apoio suficiente para impedir que as eleições deste ano fossem realizadas, com a utilização do sistema de urna eletrônica, nem que o ex-presidente Lula fosse candidato.

Eliane Cantanhêde – União e governabilidade

O Estado de S. Paulo

Lula tem ‘povo na rua’ e reconhecimento institucional e internacional; falta Bolsonaro

O presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva fechou o cerco, com muitas, rápidas e expressivas manifestações internacionais, o reconhecimento da sua vitória pelos presidentes da Câmara, do Senado e do Supremo e, o que não poderia faltar, apoio popular, nas ruas. A primeira providência após o anúncio do resultado, portanto, foi reforçar algo indispensável: condições de governabilidade.

Dos apoios institucionais, o primeiro e mais relevante foi de Arthur Lira, legítimo líder do PP e do Centrão, que foi eleito para a presidência da Câmara com o decisivo apoio do ainda presidente Jair Bolsonaro e defendeu já no domingo o respeito à vontade da maioria e que “é hora de desarmar espíritos, estender a mão aos adversários, construir pontes”.

O Centrão vai fechando a última página do governo Bolsonaro e abrindo a primeira do futuro governo Lula, confirmando a máxima, adaptada, de que “hay gobierno, soy a favor”.

Hélio Schwartsman – Paradoxos

Folha de S. Paulo

As instituições saem bastante debilitadas destes quatro anos de Bolsonaro

"Tò òn légetai pollachôs", "aquilo que é se diz de várias maneiras", ensinava Aristóteles 2.300 anos atrás.

Luiz Inácio Lula da Silva sagrou-se presidente derrotando um adversário que disputava a reeleição no cargo, feito inédito no Brasil e não muito frequente no mundo, e que não hesitou em colocar a máquina pública a serviço de sua candidatura de forma superlativa e despudorada.

Jair Messias Bolsonaro ficou apenas 2,1 milhões de votos atrás de Lula (1,8 ponto percentual), a menor diferença num pleito presidencial desde a redemocratização, apesar da gestão desastrosa da pandemia, na qual pereceram quase 700 mil brasileiros, uma mortalidade quatro vezes maior que a taxa média do planeta, e de ter deixado que a inflação saísse de controle — dois fatores que, num mundo normal, fulminariam suas chances de recondução.

Cristina Serra - Lula e um país em carne viva

Folha de S. Paulo

Urnas mostraram que vencedores e vencidos têm pouquíssima capacidade de se comunicar

Bolsonaro, nunca mais teus maus bofes, tua vulgaridade e tuas mentiras, tuas agressões às mulheres, teus arrotos e palavrões, tuas ofensas aos negros, aos povos indígenas e aos brasileiros do Nordeste, teu ódio aos pobres.

Nunca mais teus fardados bolorentos, teus valentões de Twitter, tuas falanges raivosas, tuas milícias terroristas. Como disse o anônimo haitiano que te enfrentou, em 2020: "Bolsonaro, acabou".

Bolsonaro nunca mais? Não, seus 58 milhões de votos não permitem tal afirmação. As urnas mostraram que vencedores e vencidos têm projetos de país inconciliáveis e pouquíssima capacidade de se comunicar, mas, ao realizar a façanha de se eleger para o terceiro mandato, Lula já diz a que veio.

Alvaro Costa e Silva - Os eleitos e os presos

Folha de S. Paulo

Se for para a cadeia, Bolsonaro será inocentado, como Lula?

Cá com meus botões, sempre achei que os perseguidores de Lula erraram de estratégia em 2018. Depois de quatro vitórias seguidas do PT, que ocupou a Presidência de 2003 a 2016, naquele ano havia surgido a oportunidade perfeita para derrotá-lo – o cavalo selado que só passa uma vez – com o conchavo que levou ao impeachment de Dilma e o hiato oportunista de Temer.

Quatro anos atrás, no rastro do escândalo do petrolão, o antipetismo atingiu o ponto máximo, substanciando a onda bolsonarista que varreu o país. Com Lula derrotado e humilhado nas urnas, sua carreira política provavelmente teria acabado. Só que a prisão veio antes, seus inimigos armaram para que ele não concorresse às eleições. "Tentaram me enterrar vivo", segundo suas próprias palavras. Engaiolado na república do Paraná durante 580 dias, o ex-presidente começou a renascer, conquistando primeiro a simpatia do seu carcereiro, e a tramar a volta por cima de 2022.

Bolsonaro tem agora sua segunda grande chance na vida. A primeira, depois de ter caído de paraquedas no Palácio do Planalto, ele desperdiçou com os planos de virar um ditadorzinho. A chance de ser preso, e depois inocentado, provando que não cometeu nenhum crime no exercício do poder – tarefa difícil, mas no Brasil tudo é possível. Aos olhos da maioria dos eleitores, no entanto, o capitão já foi condenado.

Joel Pinheiro da Fonseca* - Existe direita depois do Bolsonaro?

Folha de S. Paulo

Segmento está com a reputação destroçada e precisará se reinventar

Com a vitória, Lula tem algo que a maioria de nós nunca terá: uma segunda chance. E é a chance de mostrar que tem a grandeza para superar mágoas passadas e governar com a sociedade mais ampla, ou de fazer o governo mais ideológico, revanchista que seus adversários temem. Apenas ele pode decidir.

Do outro lado, do lado perdedor, do espectro da direita, não há uma chance, e sim uma dura imposição da realidade. A situação é dramática: a direita não apenas perdeu, como sua reputação está destroçada, e com razão. Precisará se reinventar.

Primeiro é preciso ter a dimensão da derrota de Bolsonaro: pela primeira vez na Nova República, o presidente perdeu a reeleição. Perdeu tendo em mãos a máquina pública e tudo que ela oferece. Lideranças políticas, ideológicas e espirituais que se renderam ao projeto alucinado do bolsonarismo lançaram suas próprias causas na lama.

Miguel Lago* - Bolsonaro perdeu, mas seguirá ditando ritmo da política

Folha de S. Paulo

Presidente articulou melhor que outros políticos valores emergentes da sociedade

Eleições costumam ser encaradas como forma de premiar ou punir o governo. O governante que melhora a vidas das pessoas seria reeleito ou elegeria seu sucessor. Aquele que piorasse a vida da população, não.

Em que pese a derrota, é surpreendente o sucesso eleitoral de Jair Bolsonaro (PL). A economia piorou, a fome voltou, as políticas públicas foram desmanteladas, milhares de pessoas morreram na pandemia por causa do comportamento do presidente e o futuro foi hipotecado. Em circunstâncias normais, não estaria sequer no segundo turno.

De onde vem a força de Bolsonaro? Alguns dirão que a sociedade brasileira é intrinsecamente conservadora e, portanto, preocupada com a preservação dos valores cristãos e da família. O capitão reformado seria aquele que melhor representa esse ideário.

A conclusão me parece apressada e superficial. Bolsonaro não é conservador, muito menos representa os valores cristãos.

O conservadorismo político se construiu integralmente em oposição à ruptura e à revolução. Mudanças radicais são seu pesadelo, e toda a força política conservadora busca suavizar as mudanças, impedir os arroubos, as rupturas. O conservadorismo é, por essência, contrarrevolucionário.

Igor Gielow - Opções golpistas encolhem e Bolsonaro encara abismo isolado

Folha de S. Paulo

Se apostar na bagunça dos caminhoneiros, presidente enfrentará reação quase unânime

Quando apareceu rapidamente em frente às câmaras para saudar o fim do processo eleitoral e abrir caminho para manter seu quinhão de poder no terceiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Arthur Lira (PP) disparou a mais importante sinalização institucional da noite do domingo (30).

O presidente Jair Bolsonaro (PL) está mais isolado do que nunca, mesmo contando seu padrão insular de articulação política. O presidente da Câmara foi seguidos pelo do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD), e por toda a litania dos Poderes no reconhecimento do resultado das urnas.

Ninguém apareceu para gritar que houve fraude fora das redes robotizadas do bolsonarismo. Nenhuma Damares, nenhum Moro, nenhuma Zambelli. E os líderes mundiais rapidamente parabenizaram Lula, Joe Biden (EUA) à frente.

Ato contínuo, o mandatário máximo se comportou como criança que perdeu a partida e foi correndo para casa se trancar em um silêncio vexatório, digno de um João Figueiredo saindo do Planalto para não passar a faixa a José Sarney em 1985. E não pôde levar consigo a bola do jogo.

Andrea Jubé - Lula quer começar transição e viajar

Valor Econômico

Lula mira técnico com traquejo político na transição

Aos 77 anos, o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) até hoje impressiona os aliados, mesmo aqueles com quem convive há décadas, pela vitalidade. Após a apertada vitória nas urnas na noite de domingo, Lula leu um pronunciamento escrito de nove páginas, recebeu cumprimentos em uma sala de reuniões de um hotel, fez três discursos para os populares na Avenida Paulista do alto de um trio elétrico, dançou com Janja duas músicas do show de Daniela Mercury, e deixou a festa por volta de meia-noite.

Muito antes dele, o vice-presidente eleito Geraldo Alckmin (PSB), 69 anos, e a ex-presidente Dilma Rousseff, 74 anos, haviam saído à francesa da comemoração na Paulista. Integrantes da coordenação da campanha e da Executiva Nacional do PT, que haviam planejado tirar a manhã de segunda-feira para um breve repouso, surpreenderam-se ao serem convocados para uma reunião com Lula às 10 horas.

Luiz Schymura* - Pandemia, inadimplência maior e mais gasto público

Valor Econômico

Presidente Lula começará seu governo já tendo que propor respostas para resolver endividamento das famílias

Com a aterrissagem da covid-19 em solo brasileiro, a necessidade das quarentenas e do fechamento da maior parte do setor de serviços acabou gerando enorme impacto no orçamento das famílias, especialmente nas de baixa renda. É verdade que o Auxílio Emergencial chegou a mais do que compensar a perda de renda do salário durante certo período, mas foi concedido de maneira descontínua e incerta. Pressionadas pelas condições econômicas adversas, as famílias se endividaram. Assim, houve uma espécie de corrida por crédito para garantir a sobrevivência na severa crise sanitária, ainda mais diante da redução dos juros à época.

Contudo, com o passar do tempo a pandemia acabou trazendo em sua esteira substancial aumento da inflação. Com intuito de debelar a cavalgada inflacionária para a casa de dois dígitos, o Banco Central agiu rápido e promoveu alta expressiva da taxa de juros, revertendo o cenário anterior. Com o crédito mais caro, e por estar superendividada, a população com menor nível de renda sentiu o golpe e passou a enfrentar grandes dificuldades financeiras.

Paulo Hartung* - Biodiversidade: rumo à COP15

O Estado de S. Paulo

Neste finalzinho de ano, Brasil pode começar a retomar atitudes compatíveis com seu histórico de cooperação na questão ambiental.

O mais recente Relatório de Avaliação Global sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos das Nações Unidas deixou claro que milhões de espécies podem enfrentar a extinção em decorrência de redução de habitat, poluição e mudanças climáticas. O documento indica que estamos numa encruzilhada quanto ao legado que queremos deixar para as futuras gerações, já que essa perda de biodiversidade tem graves impactos sobre os sistemas sociais e econômicos, para além da questão ambiental.

O cenário, sem precedentes na história, exige mudanças transformadoras. Por isso, mais uma vez, de forma multilateral, o mundo tenta achar caminhos viáveis para barrar esse desastre. Esse será o desafio da 15.ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), prevista para dezembro, em Montreal. O objetivo é aprovar o Marco Global de Biodiversidade contendo 22 metas que passam por valorizar, conservar, restaurar e usar com sabedoria os recursos naturais.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Brasil tem dever de repudiar ‘Capitólio dos caminhoneiros’

O Globo

Bolsonaristas adotam estratégia de Donald Trump para tentar ganhar no grito eleição perdida na urna

Até o fechamento desta edição, o presidente Jair Bolsonaro não havia se manifestado sobre a derrota para o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva no domingo. Mas bolsonaristas — decerto supondo contar com a aprovação tácita de Bolsonaro — já punham em marcha desde a véspera a mesma estratégia de Donald Trump nos Estados Unidos para criar confusão e contestar o resultado.

O primeiro ato foi protagonizado pela Polícia Rodoviária Federal (PRF), ao violar a proibição de blitzes determinada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A proibição visava a evitar a manobra, comum nos Estados Unidos, conhecida como “supressão de voto”. Trata-se da tentativa de dificultar o acesso às urnas de eleitores mais pobres ou menos instruídos para reduzir a votação daqueles em que esses estratos costumam votar. Quase metade das blitzes da PRF, que causaram engarrafamentos colossais, foi no Nordeste, onde Lula teve melhor desempenho.

O uso da força policial para favorecer Bolsonaro é ato escandaloso, que precisa ser investigado e punido. O diretor-geral da PRF, Silvinei Vasques, chegou no sábado a pedir voto em Bolsonaro numa rede social (depois apagou o pedido). Só recuou depois de uma reunião em que o presidente do TSE, Alexandre de Moraes, determinou multa horária de R$ 100 mil em caso de desobediência. Por ver a PRF como uma espécie de milícia bolsonarista, fica evidente que Vasques não tem mais condição de permanecer no cargo.

Poesia | Não há vagas (Ferreira Gullar)

 

Música | Maria Bethânia - "Apesar de você"