Valor Econômico
Tudo sugere que o modelo capitalista
americano está em decadência. Defende-se combatendo o capitalismo no país dos
outros, como o nosso, o México, o Canadá
Para entender as aberrações de conduta
política do presidente americano e de seu secretário de Estado em relação a
países como o nosso, é sociologicamente incorreto imputar a Lula e às esquerdas
a responsabilidade pela polarização ideológica que nos sufoca e cerceia.
Responsabilizá-los ainda é parte do jogo
político da polarização promovida pelo “centro”. Em várias partes, as esquerdas
da era pós-stalinista jogam o jogo já feito para nele identificar e superar
seus erros, suas brechas, e ocupá-las.
As esquerdas já entenderam que não são elas que fazem o jogo político contemporâneo pois já feito pelas irracionalidades, pelas ambições de riqueza e poder, pela corrupção, que delas decorre. Há muito, o mundo não está polarizado entre capitalismo e comunismo. Está determinado pelo mero crescimento econômico a qualquer preço, de lucro imediato e desmedido, sem desenvolvimento social.
As esquerdas assumiram a função política de agentes de consciência social crítica das contradições autodestrutivas do capital.
Tudo sugere que o modelo capitalista
americano está em decadência. Defende-se combatendo o capitalismo no país dos
outros, como o nosso, o México, o Canadá. Isso não é coisa de agora. Em relação
a nós, vem de longe.
É preciso definir as temporalidades do
crescente processo de ação americana em suas relações internacionais no sentido
de monitorar e limitar economias do Terceiro Mundo e, no que nos interessa,
cercear o desenvolvimento capitalista na América Latina e, em particular na
Argentina, no México e no Brasil.
O capitalismo se desenvolveu mais típica e
caracteristicamente na Inglaterra, onde ocorreu a primeira revolução econômica
capitalista. O Brasil nasceu, como país independente, patrocinado e financiado
pela Inglaterra, que concebeu nossa independência e a financiou como parte do
projeto inglês de potência econômica colonial. Esse plano está num documento de
1805 da Biblioteca Britânica, de Londres.
Quando a crise do capitalismo abateu o
capitalismo inglês, o eixo da economia internacional se deslocou para os EUA.
Surgiu a “doutrina” da América Latina como quintal americano, agora ainda
invocada pelo governo Trump. O chamado imperialismo surgiu geopoliticamente
como um modo de impedir a expansão territorial do capitalismo, para concentrar
na metrópole sua poderosa capacidade de produzir riquezas e distribuí-las
parcimoniosamente por menos do que o apetecido pelos subdesenvolvidos.
Antes mesmo de consolidar-se a transferência
da hegemonia econômica da Inglaterra para os EUA, os americanos já temiam e
estavam preocupados com o desenvolvimento da indústria no Brasil. Nos anos
1920, o Departamento de Comércio realizou na Argentina e no Brasil uma pesquisa
sobre o desenvolvimento industrial nos dois países.
Descobriu que ambos tinham um desenvolvimento
industrial significativo, com capacidade ociosa para atender a demanda interna
de produtos industrializados numa eventual crise que dificultasse a importação
de bens de consumo. Nossa industrialização não nasceu da crise do café, como equivocadamente
supôs Celso Furtado, que não examinou os documentos americanos para explicá-la.
Os nossos engenheiros, mesmo os formados nas
escolas militares, e nossa mão de obra qualificada, foram capazes de inventar
peças e máquinas, começaram a substituir importações substituindo peças
desgastadas de máquinas importadas por peças fabricadas aqui mesmo,
artesanalmente, com a reciclagem de ferro-velho. Ou importação de
matéria-prima.
Mesmo a espionagem industrial entrou no jogo.
Antônio Pereira Inácio, que seria sogro de José Ermírio de Moraes, expressão da
burguesia nacional, fez isso em empresas americanas. Quando decidiu voltar ao
Brasil e montar sua própria indústria, devolveu à empresa que espionara todos
os salários recebidos.
O exemplo que entre nós evidencia o quanto o
capitalismo americano é anticapitalista é o da biografia de Roberto Cochrane
Simonsen, industrial e político. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, os
americanos montaram o Plano Marshall para aplicar recursos de rápido
desenvolvimento econômico nos países vencidos, especialmente na Europa.
Roberto Simonsen foi aos EUA defender que o
Plano Marshall fosse estendido à América Latina, que se transformaria numa
potência econômica. Os americanos recusaram o apoio. Sem dizê-lo, não queriam
que a América Latina se transformasse numa potência capitalista. Ficamos
confinados nos limites bem definidos de um subcapitalismo, como o definiu
Fernando Henrique Cardoso.
O golpe de 1964 foi patrocinado pelo governo
americano em nome da geopolítica da dominação econômica. Para não sermos o que
tínhamos condições de ser.
*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

Um comentário:
Muito bom !
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