sexta-feira, 31 de julho de 2026

O cerco americano ao capitalismo, por José de Souza Martins*

Valor Econômico

Tudo sugere que o modelo capitalista americano está em decadência. Defende-se combatendo o capitalismo no país dos outros, como o nosso, o México, o Canadá

Para entender as aberrações de conduta política do presidente americano e de seu secretário de Estado em relação a países como o nosso, é sociologicamente incorreto imputar a Lula e às esquerdas a responsabilidade pela polarização ideológica que nos sufoca e cerceia.

Responsabilizá-los ainda é parte do jogo político da polarização promovida pelo “centro”. Em várias partes, as esquerdas da era pós-stalinista jogam o jogo já feito para nele identificar e superar seus erros, suas brechas, e ocupá-las.

As esquerdas já entenderam que não são elas que fazem o jogo político contemporâneo pois já feito pelas irracionalidades, pelas ambições de riqueza e poder, pela corrupção, que delas decorre. Há muito, o mundo não está polarizado entre capitalismo e comunismo. Está determinado pelo mero crescimento econômico a qualquer preço, de lucro imediato e desmedido, sem desenvolvimento social.

As esquerdas assumiram a função política de agentes de consciência social crítica das contradições autodestrutivas do capital.

Tudo sugere que o modelo capitalista americano está em decadência. Defende-se combatendo o capitalismo no país dos outros, como o nosso, o México, o Canadá. Isso não é coisa de agora. Em relação a nós, vem de longe.

É preciso definir as temporalidades do crescente processo de ação americana em suas relações internacionais no sentido de monitorar e limitar economias do Terceiro Mundo e, no que nos interessa, cercear o desenvolvimento capitalista na América Latina e, em particular na Argentina, no México e no Brasil.

O capitalismo se desenvolveu mais típica e caracteristicamente na Inglaterra, onde ocorreu a primeira revolução econômica capitalista. O Brasil nasceu, como país independente, patrocinado e financiado pela Inglaterra, que concebeu nossa independência e a financiou como parte do projeto inglês de potência econômica colonial. Esse plano está num documento de 1805 da Biblioteca Britânica, de Londres.

Quando a crise do capitalismo abateu o capitalismo inglês, o eixo da economia internacional se deslocou para os EUA. Surgiu a “doutrina” da América Latina como quintal americano, agora ainda invocada pelo governo Trump. O chamado imperialismo surgiu geopoliticamente como um modo de impedir a expansão territorial do capitalismo, para concentrar na metrópole sua poderosa capacidade de produzir riquezas e distribuí-las parcimoniosamente por menos do que o apetecido pelos subdesenvolvidos.

Antes mesmo de consolidar-se a transferência da hegemonia econômica da Inglaterra para os EUA, os americanos já temiam e estavam preocupados com o desenvolvimento da indústria no Brasil. Nos anos 1920, o Departamento de Comércio realizou na Argentina e no Brasil uma pesquisa sobre o desenvolvimento industrial nos dois países.

Descobriu que ambos tinham um desenvolvimento industrial significativo, com capacidade ociosa para atender a demanda interna de produtos industrializados numa eventual crise que dificultasse a importação de bens de consumo. Nossa industrialização não nasceu da crise do café, como equivocadamente supôs Celso Furtado, que não examinou os documentos americanos para explicá-la.

Os nossos engenheiros, mesmo os formados nas escolas militares, e nossa mão de obra qualificada, foram capazes de inventar peças e máquinas, começaram a substituir importações substituindo peças desgastadas de máquinas importadas por peças fabricadas aqui mesmo, artesanalmente, com a reciclagem de ferro-velho. Ou importação de matéria-prima.

Mesmo a espionagem industrial entrou no jogo. Antônio Pereira Inácio, que seria sogro de José Ermírio de Moraes, expressão da burguesia nacional, fez isso em empresas americanas. Quando decidiu voltar ao Brasil e montar sua própria indústria, devolveu à empresa que espionara todos os salários recebidos.

O exemplo que entre nós evidencia o quanto o capitalismo americano é anticapitalista é o da biografia de Roberto Cochrane Simonsen, industrial e político. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, os americanos montaram o Plano Marshall para aplicar recursos de rápido desenvolvimento econômico nos países vencidos, especialmente na Europa.

Roberto Simonsen foi aos EUA defender que o Plano Marshall fosse estendido à América Latina, que se transformaria numa potência econômica. Os americanos recusaram o apoio. Sem dizê-lo, não queriam que a América Latina se transformasse numa potência capitalista. Ficamos confinados nos limites bem definidos de um subcapitalismo, como o definiu Fernando Henrique Cardoso.

O golpe de 1964 foi patrocinado pelo governo americano em nome da geopolítica da dominação econômica. Para não sermos o que tínhamos condições de ser.

*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

Um comentário:

Mais um amador disse...

Muito bom !