O Globo
Uma das fantasias mais recorrentes e
irrealizáveis do 47° comandante em chefe é apresentar-se como herói militar
Peter Baker não é um jornalista qualquer. Correspondente-chefe do New York Times junto à Casa Branca, ele traz no currículo a cobertura diária de seis presidentes dos Estados Unidos. É autor de vários livros sobre o poder e a história política moderna e, vez por outra, produz ensaios situando determinados mandatos em contextos mais amplos. Raramente se ocupa de temas amenos do métier. Daí a relevância da reportagem intitulada “60 postagens em 10 horas”, em que Baker se debruça sobre um surto quase psicótico de publicações digitais por parte de Donald Trump no fim de semana passado.
No início, escreveu o jornalista, o feed do
presidente americano nas redes sociais era visto como espelho de seu “id”. Mas,
desde a incorporação de recursos de IA às postagens, elas passaram também a
expressar como Trump deseja ser visto pelo mundo: um guerreiro, um
conquistador, uma figura histórica, uma versão mais jovem, mais magra e mais
musculosa de si mesmo. Elas servem, sobretudo, de termômetro de seu estado
mental aos 80 anos. Uma mente movida a delírios, vaidade e violência.
Os fins de semana e feriados, quando Trump
dispõe de menos assessores e mais tempo ocioso, parecem despertar seus
fantasmas interiores. As 60 postagens analisadas foram disparadas em rajadas
intermitentes de seu clube de golfe em Bedminster, estado de Nova Jersey.
Nelas, há muito de (Trump esmaga o Irã com um martelo
gigante, subjuga o primeiro-ministro do Canadá com um
taco de beisebol) e uma montanha de infantilidades, como o redesenho do
mapa-múndi em versões cada vez mais vorazes.
Uma das fantasias mais recorrentes e
irrealizáveis do 47° comandante em chefe é apresentar-se como herói militar.
Como é sabido, Trump evitou o alistamento militar durante a Guerra do Vietña
graças a um diagnóstico de esporões ósseos assinado por um médico que era
inquilino de seu pai. Ainda que nunca tenha servido ao país, surge num uniforme
militar para posar entre os generais históricos George S. Patton e Douglas
MacArthur — cortesia da inteligência artificial.
Para os apoiadores de Trump, essa forma de comunicação
direta e sem filtros é considerada “autêntica” e eficaz, pois consegue
desencadear horror e alarme nas hostes democratas. Há um deleite ostensivo em
ver o adversário levar a sério o que seriam meros trolls bem-humorados. Na
verdade, o que precisa, sim, ser considerada é a capacidade mental, física,
intelectual e moral de Trump no comando da grande potência em declínio.
— Chega. Nada disso é normal ou aceitável —
escreveu Chellie Pingree, democrata do Maine citada por Peter Baker.
Um narcisista patológico no poder — com
apenas 30% de aprovação popular, atolado até a cintura na guerra que
desencadeou contra o Irã, sem solução para as guerras na Ucrânia e em Gaza, e às vésperas
de uma eleição de meio de mandato em que arrisca perder maioria na Câmara e no
Senado — é um perigo real. E mundial.
Um indivíduo que se utiliza do dantesco
atentado terrorista múltiplo de 2001 contra as Torres Gêmeas para se vangloriar
de proezas pessoais, inventadas, não pode ser considerado pessoa equilibrada.
Na sexta feira, 11 de setembro, Trump não se perfilou junto aos ex-presidentes
dos Estados Unidos reunidos no local da hecatombe de 25 anos atrás para a
sempre pungente homenagem aos mortos na tragédia. A cerimônia anual não abre
espaço a discursos de políticos, e comove precisamente por isso. A leitura do
nome e sobrenome de cada uma das 3 mil vítimas — feita por algum pai, mãe, avô,
irmão, filha, neto ou amigo da família — basta. São centenas de origens,
etnias, naturalidades e procedências unidas pela morte.
Trump preferiu comparecer à cerimônia
realizada em Washington, pelo Pentágono, cujo prédio também foi atingido por um
dos voos suicidas de 25 anos atrás. Ali, pôde falar à vontade. E Narciso falou.
Descreveu com requintes uma cena de que não existe a mais remota comprovação:
ele teria se deslocado ao local das Torres Gêmeas logo depois do atentado e
sido carregado para fora da zona de perigo por dois bombeiros:
— Dois caras grandes e fortes — recordou com
nostalgia.
Tampouco existe qualquer evidência de outra
alegação feita por Trump, de ter ajudado na limpeza da área e testemunhado
cenas horríveis de corpos espalhados pelos escombros. Tem mais: nenhum
bombeiro, socorrista ou policial jamais viu os 100 ou 200 operários que Trump
alega ter despachado para o local em ruínas. O único fato concreto é que ele
acompanhou o 11 de Setembro do alto da Trump Tower, localizada na Quinta
Avenida em Midtown Manhattan, a seis quilômetros de distância do horror.
O atentado que fez desmoronar certezas
consolidadas desde o final da Segunda Guerra emociona a família humana até hoje
— à exceção dos terroristas islâmicos e de Donald Trump.

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