Valor Econômico
A proposta do presidente do TSE é apenas um
gesto de policiamento indireto, que nem aponta os problemas estatísticos nem os
resolve
O presidente do Tribunal Superior Eleitoral
convocou dirigentes de institutos de pesquisa de opinião para discutir
procedimentos de investigação que neutralizem a interferência das pesquisas nos
resultados da eleição. Criou um prêmio para as pesquisas que sejam confirmadas
no resultado eleitoral.
Provavelmente o correto e seguro teria sido
convocar um seminário de especialistas em matemática e estatística das boas
universidades. E ouvi-los. Conhecedores que são das várias e diferentes
mediações da pesquisa científica baseada em quantificação e das interferências
que podem intencional ou acidentalmente sofrer.
Esses pesquisadores poderiam explicar que o conhecimento quantitativo nessa área não é adivinhação, nem é loteria ou aposta. Não expressa o acaso e o fortuito, mas o provável.
Diversamente do que supõe o ministro, a
função de pesquisas desse tipo não é buscar informações objetivas sobre a
certeza de resultados prováveis. Mas, principalmente, resultados improváveis,
que revelem o nível de risco decorrente de fatores intervenientes na formação
da opinião eleitoral. Os que permitam aos partidos e candidatos dirigirem-se
aos eleitores para informá-los do que, nos seus respectivos programas,
corresponde a suas expectativas sociais e políticas e a suas concepções do que
deve ser a composição doutrinária de orientação de um novo governo.
A função das pesquisas eleitorais é a de
dotar o eleitorado de condições de agir racionalmente, durante a campanha, nas
escolhas que fizer. Não entre diferentes pessoas, que é o que equivocadamente
se faz aqui, mas entre diferentes doutrinas e diferentes programas de
concretização dos valores e concepções dessas doutrinas. Que os candidatos, no
regime democrático, devem personificar. De modo a não serem eles mesmos na
disputa eleitoral a sua vontade pessoal, mas personificação e expressão da
necessidade social e da vontade política coletiva.
Na função política do político, na sociedade
democrática, deve haver necessariamente uma certa renúncia a ser ele mesmo para
ser a personificação do ser coletivo que a política é.
O próprio eleitor há de ser conscientizado de
que deve impessoalizar-se para ser o outro na política, e não ele mesmo
enquanto ser vulgar e cotidiano, no momento solene do registro do voto na urna
eletrônica. Para que o faça em nome do todo de que é parte e protagonista, o
sujeito coletivo do processo político.
Desse modo, avaliando e racionalmente
decidindo seu voto para que tenha a maior probabilidade possível de contribuir
para a formação de um governo democrático e representativo. Esse momento do
processo político só pode existir como instrumento e expressão de uma vontade
sociologicamente crítica.
A maioria dos nossos políticos e a dos
agentes de nossas instituições políticas não sabe o que é isso. Não sabe qual é
a enorme diferença entre a eleição de um governo e a eleição de miss. No
Brasil, a vontade política é nivelada por baixo.
A proposta do ministro passa muito longe
dessas premissas e dos problemas e dificuldades científicos da pesquisa de
opinião eleitoral. É apenas um gesto de policiamento indireto da pesquisa. São
tantos os fatores que enviesam a pesquisa eleitoral que esse policiamento nem
aponta os problemas nem os resolve.
As pesquisas eleitorais são geralmente feitas
de viva voz, no mínimo com a mediação de um intermediário que fala, cujo tom de
voz, cujo timbre, cuja entonação pode involuntariamente induzir a resposta. O
que discrepa da realidade da urna na hora de votar, que não tem um
intermediário de voz. Essa discrepância invalida a possibilidade de que a
resposta na pesquisa seja equivalente à resposta no voto. Mas não anula a
interferência da pesquisa no voto.
Nas ciências sociais, mesmo com todas as
cautelas do pesquisador competente, a pesquisa é indutora de resposta e
sobretudo de mudança de comportamento e de consciência em relação ao tema
investigado.
É claro que a escolha da região, da
localidade, da categoria social, etária, racial, religiosa, de gênero de
referência pode resultar em pesquisas discrepantes quanto ao mesmo objeto. Em
resultados não generalizáveis. É óbvio, para qualquer conhecedor dessas
técnicas, que instituições de pesquisa podem receber encomendas de informações
de opinião eleitoral tendo em conta determinado setor da sociedade e, ao
divulgá-los, não divulgam, exatamente, quais as características da população
estudada.
Divulga-se obrigatoriamente o tamanho da
amostra e o erro amostral, mas nunca é divulgado o viés investigativo
intencional, o que já sugere antecipadamente a interpretação, que é o que afeta
o resultado da pesquisa e até mesmo afeta a decisão eleitoral.
*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

Nenhum comentário:
Postar um comentário