Valor Econômico
Flávio teve de fazer mais de um vídeo e mais de um gesto para se aproximar de Michelle
Uma máxima, ouvida com frequência em
Brasília, diz que “a política não é para amadores”. Tradicionalmente dirigido
às raposas do Centrão, pode ser aplicada, agora, sem titubear, à
ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), que emergiu altiva da crise com o enteado,
o presidenciável do PL, senador Flávio Bolsonaro (RJ).
A propósito, é curiosa a deferência de alguns à ex-primeira-dama. Internamente, ela é chamada de “dona Michelle”. Porém, mesmo fora da presidência do PL Mulher, o presidente nacional do partido, Valdemar Costa Neto, se dirige a ela como “presidente Michelle”.
Pois aliados (as) próximos (as) da presidente
Michelle sugerem que, no pior cenário para a família, ela poderá se projetar
como o único representante dos Bolsonaros com mandato político em 2027, caso se
eleja senadora pelo Distrito Federal (DF). Mas a coluna faz ressalvas a essa
previsão, que serão detalhadas adiante.
Antes, é preciso atenção ao timing dos
últimos lances. O vídeo em que Michelle, finalmente, acolheu o pedido de
desculpas do enteado, e prometeu se engajar na campanha dele, deu fôlego ao
presidenciável do PL a 48 horas da convenção, e foi ao ar num dos piores dias
de sua jornada eleitoral.
Na quinta-feira (23), o ministro André Mendonça
do Supremo Tribunal Federal (STF) determinou a abertura de um inquérito para
investigar transferências do ex-banqueiro Daniel Vorcaro para o filme “Dark
Horse”, sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Como veio a público, Flávio apareceu em
áudios com Vorcaro, a quem chamou de “irmão”, cobrando repasses atrasados
desses recursos. O senador repudiou qualquer ilegalidade nos diálogos, mas a
iniciativa de Mendonça, a dois dias do ato do PL que sacramentará a candidatura
de Flávio, irritou aliados do ex-presidente. O ministro “terrivelmente
evangélico”, como ficou conhecido, foi nomeado por Bolsonaro.
Flávio teve de fazer mais de um vídeo e mais
de um gesto para se aproximar de Michelle, após o vídeo dela, divulgado em 24
de junho, acusando-o de tê-la destratado e humilhado, afirmando que ela não
entendia nada de política.
O primeiro vídeo do senador pedindo desculpas
circulou no dia seguinte, 25 de junho, e ficou sem resposta. Depois, no dia 1º
de julho, ele declarou, em um evento com mulheres conservadoras - ao qual, ela
faltou - que respeita Michelle, bem como o trabalho que ela realizou no PL
Mulher: “Ela vai caminhar junto com a gente”, exortou.
Nesta quinta, foi ao ar o segundo vídeo de
Flávio se retratando com Michelle. Como resultado da intervenção de muitos
bombeiros, e após muitas costuras internas, poucas horas depois, foi veiculada
a gravação em que ela acolhe as desculpas do enteado, e diz que, em nome do
marido e pai dele, vai se envolver na campanha presidencial.
Pesquisas recentes mostraram os danos que o
desabafo dela causaram à campanha de Flávio. No começo do mês, a
AtlasIntel/Bloomberg revelou a queda do senador no eleitorado feminino. Em
maio, ele e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tinham cerca de 43% das
intenções de voto nesse segmento. Após o vídeo, Lula cresceu para 50,1%,
enquanto o senador caiu para 35,1%. A Genial/Quaest divulgada em 15 de julho
mostrou que entre as pessoas que souberam do atrito entre ambos, 42% tendem a
concordar mais com ela, e 18% com ele.
No Distrito Federal, é alta a probabilidade
de Michelle se eleger para o Senado. Ela lidera as pesquisas, ao lado da
senadora Leila do Vôlei (PDT), que mira a reeleição. A deputada Erika Kokay
(PT) vem em terceiro.
O cálculo de aliados de Michelle de que ela poderia
se tornar o “único Bolsonaro” com mandato em 2027 envolve inúmeras variáveis. A
primeira delas pressupõe a derrota de Flávio Bolsonaro na corrida sucessória. A
se confirmar essa previsão, ele volta para a planície, já que expira o mandato
de senador pelo Rio de Janeiro.
Outra avaliação é de que o ex-vereador Carlos
Bolsonaro (PL), irmão de Flávio, corre risco de perder a eleição para o Senado
em Santa Catarina.
Uma liderança do Centrão descreveu à coluna a
conjuntura no Estado, onde os eleitores votam em peso na direita bolsonarista.
Escolhida por Michelle, a deputada Caroline de Toni (PL-SC) é considerada
“senadora eleita”. A segunda vaga estaria em disputa entre Carlos e o veterano
senador Esperidião Amin (PP-SC), que busca a reeleição. Mas Amin tem um
histórico de serviços prestados ao Estado e vai para a briga com uma
provocação. O slogan é de que “Amin é catarinense de verdade”, enquanto Carlos
transferiu o domicílio do Rio de Janeiro para Santa Catarina.
Outro foco é o ex-deputado Eduardo Bolsonaro
(PL), radicado nos Estados Unidos, e recém-contemplado com o Green Card. Ele é
o primeiro suplente do pré-candidato ao Senado por São Paulo, André do Prado
(PL). Mas sua pretensão enfrenta incertezas, porque após a condenação pelo STF,
ele ficou inelegível.
Na visão da coluna, o furo da leitura de
aliados de Michelle está no esquecimento do vereador de Balneário Camboriú,
Jair Renan Bolsonaro (PL), que deverá ser eleito deputado federal por Santa
Catarina. A se confirmar a projeção pessimista para a família Bolsonaro,
Michelle e Jair Renan seriam os únicos com mandato e acesso à tribuna para
discursar em defesa do ex-presidente.

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