Folha de S. Paulo
Até a urna, eleitor pode mudar de posição,
indecisos podem se decidir e campanhas podem alterar o ambiente
Também merece cautela a proposta de divulgar
locais das entrevistas, sob risco de comprometer a amostragem
O Tribunal Superior Eleitoral exerce papel
essencial na garantia de eleições livres,
limpas e confiáveis. É positiva a mobilização do TSE pela
transparência e pelo aprimoramento metodológico das pesquisas. A reunião e o
diálogo promovidos pela corte com os institutos é louvável e estamos à
disposição para conversar e construir soluções.
As propostas partem de uma intenção legítima: estimular qualidade, transparência e confiança. Precisamos, porém, avaliar seus efeitos, evitando que mecanismos criados para fortalecer as pesquisas comprometam sua integridade científica.
Esse cuidado se aplica especialmente à
eventual criação
de um selo de qualidade para quem chega mais perto do resultado final
das urnas. Pesquisa não é um instrumento sobre o que vai acontecer. É um
diagnóstico sobre o que já aconteceu: registra as opiniões manifestadas durante
a coleta. Reportam intenções de voto e a visão do eleitor sobre o momento
político.
Até o momento de digitar o número na urna,
eleitores podem mudar de posição, indecisos podem se decidir e campanhas podem
alterar o ambiente eleitoral.
Também merece cautela a proposta de divulgar
previamente os locais das entrevistas. Ao saber onde ocorrerá a coleta,
candidatos, partidos, militantes ou grupos organizados podem concentrar ações
nesses pontos. Mesmo legítimas, essas mobilizações alteram o contexto social,
podem influenciar entrevistados e comprometer
a amostra.
Há ainda um problema da segurança física. Em
um contexto de polarização, a divulgação dos locais pode expor entrevistadores
a intimidações, constrangimentos ou agressões, além de reduzir a liberdade dos
cidadãos para responder. Proteger a operação de campo é condição para a
qualidade dos dados.
A fiscalização pode ser ampliada sem a
exposição antecipada da coleta. Por isso, apoiamos a criação de um Programa de
Transparência e Integridade das Pesquisas Eleitorais, com obrigações objetivas.
A primeira seria divulgar os relatórios
completos no site do TSE em até 48 horas após a publicação da pesquisa na
imprensa. O instituto que não cumprir a obrigação deveria ficar impedido de
trabalhar naquela eleição até regularizar a situação. Desde 2024, vários
institutos até agora não disponibilizaram os relatórios previstos na resolução
do TSE —o que mostra a necessidade de fiscalização efetiva—, mas continuam
fazendo pesquisa hoje.
A segunda seria exigir que os relatórios
reproduzam integralmente todos os cruzamentos usados na composição e na
ponderação da amostra. É preciso mostrar como os entrevistados se distribuem
pelas variáveis adotadas, permitindo avaliar as correções e os pesos aplicados.
A terceira seria tornar obrigatória a margem
de erro estimada para cada subgrupo ou cruzamento da amostra, calculada após a
coleta. A margem de erro geral não pode ser aplicada automaticamente a
segmentos menores, que têm maior incerteza estatística.
A transparência deve incidir sobre método,
amostra, ponderação, resultados e incertezas, sem comprometer a independência
da coleta. O diálogo aberto pelo TSE é uma oportunidade para avançar. Estamos à
disposição para colaborar na construção de regras que fortaleçam a confiança
pública e protejam a informação oferecida ao eleitor. Afinal, uma pesquisa
confiável mede a realidade —e não contribui para modificá-la.
*Presidente do Conselho de Opinião Pública da Abep (Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa) e fundador do Instituto Vox Populi

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