Correio Braziliense
A insegurança jurídica adia investimentos,
interrompe decisões empresariais, contamina as expectativas econômicas e
aumenta a frustração social e política
A vitória da extrema direita na Saxônia-Anhalt, estado da antiga Alemanha
Oriental, é mais um sinal de que a democracia liberal enfrenta uma crise que
ultrapassa fronteiras. A Alternativa para a Alemanha (AfD) obteve cerca de 44%
dos votos, mais do que o dobro da União Democrata-Cristã (CDU), de
centro-direita, e ficou próxima da maioria absoluta. O partido continuará
afastado do governo pelo Brandmauer — o “muro corta-fogo” que impede alianças
das forças democráticas com extremistas —, mas já condiciona toda a política
alemã.
A contradição é evidente: a barreira político-partidária protege as
instituições, mas não impede o crescimento eleitoral da AfD. A extrema direita
não precisa negociar, moderar suas propostas nem prestar contas pelos
resultados de um governo. Denuncia a todos, promete soluções impossíveis e
responsabiliza àqueles que lhe impedem o acesso ao poder. O fenômeno possui
causas econômicas, sociais e culturais. A estagnação, a desigualdade entre o
Leste e o Oeste alemães, a imigração, a transição energética, a guerra da
Ucrânia e a perda de referências comunitárias criaram um contingente de
eleitores que não se sente representado. Continuam votando, mas já não
acreditam que as instituições tradicionais sejam capazes de melhorar suas
vidas.
A crise do Supremo Tribunal Federal
acrescenta um componente explosivo a esse ambiente. O STF deveria ser o ponto
de estabilidade do regime, o guardião da Constituição e o árbitro dos conflitos
entre os Poderes. Entretanto, decisões monocráticas contraditórias, disputas
entre ministros e o caso Banco Master transformaram a Corte no epicentro da
insegurança institucional.
Paralisia econômica
O problema ultrapassa os nomes de Alexandre de Moraes e de André Mendonça,
estão além da força de Flávio Dino ou de Gilmar Mendes. Quando os julgadores
parecem envolvidos nos fatos que deveriam julgar, a confiança no devido
processo legal é inevitavelmente abalada. As providências de Fachin foram
suspender decisões conflitantes, preservar o comando da Polícia Federal,
quebrar o sigilo das investigações já concluídas, retirar de Moraes a relatoria
do inquérito das fake news e submeter ao plenário a abertura de investigação.
São medidas necessárias, mas talvez insuficientes. É preciso esclarecer
integralmente os fatos, definir responsabilidades e demonstrar que nenhum
ministro está acima da Constituição.
Manifestos de entidades empresariais,
associações civis e ex-integrantes do Supremo sobre a crise possuem, nesse
contexto, dois significados. O primeiro é positivo: revelam que as elites do
país procuram uma saída dentro das instituições. Seus signatários não pedem a
destruição do STF, mas sua recuperação. O segundo é um alerta: quando setores
responsáveis pela produção e pelos empregos do país se mobilizam para denunciar
uma crise institucional, sinalizam que a instabilidade já ultrapassou os
limites do mundo político e jurídico, paralisou a economia.
A insegurança política e jurídica adia investimentos, interrompe decisões
empresariais e contamina as expectativas econômicas. Em consequência, por sua
vez, aumenta a frustração social e oferece combustível aos discursos
antissistema. Nenhuma muralha institucional será suficiente se, aos olhos da
população, aqueles que estão dentro dela abusarem do poder, protegerem aliados
ou se recusarem a prestar contas. A extrema direita cresce e captura o centro
quando consegue convencer as pessoas de que todas as instituições fazem parte
de um único sistema voltado para a própria preservação.
A crise do Supremo não favorece apenas um candidato ou campo ideológico.
Fortalece as narrativas dispostas a apresentar a democracia como fraude, o
equilíbrio entre os Poderes como conspiração e as garantias constitucionais
como obstáculos à vontade popular. A História nos ensina que a desesperança na
democracia é a antessala do autoritarismo.

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