domingo, 13 de setembro de 2026

Inflação recua, mas ainda falta PIB mais dinâmico, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Não haverá crescimento mais veloz enquanto os setores público e privado mantiverem uma aplicação miseravelmente baixa em infraestrutura, máquinas, equipamentos e instalações produtivas

Comer, morar, acompanhar o mundo pela TV e assistir a novelas – tudo isso ficou mais barato em agosto, quando o custo de vida recuou 0,32%, puxado pelas despesas com alimentação (0,34%), habitação (-1,87%) e eletricidade (-7,63%). Milhões de famílias endividadas e pressionadas pelos juros pouco devem ter percebido essas melhoras, mas suas finanças – pelo menos objetivamente – ganharam alguma estabilidade. É difícil apostar se essa condição persistirá até dezembro ou, num quadro muito mais otimista, se ainda se manterá no início do novo mandato presidencial, em 2027.

A inflação acumulada no ano, até agosto, bateu em 3,11%. Em 12 meses, os preços ao consumidor aumentaram 4,22%, pouco menos do que no período até julho (4,44%), e as últimas projeções de mercado indicaram 5% até dezembro. Esse número é bem superior ao teto da meta, 4,5%, e muito distante do centro, ainda fixado em 3%.

As notícias do campo indicam uma boa produção de alimentos, componentes fundamentais do custo de vida. Mas a inflação depende também da gastança federal, sem perspectiva de grande contenção, e das condições internacionais, ainda muito sujeitas aos delírios imperiais do presidente Donald Trump e, como sempre, às ambições das maiores potências da Europa e da Ásia.

As encrencas no Oriente Médio têm elevado o preço do petróleo, beneficiando a Petrobras, mas, ao mesmo tempo, dificultando a política anti-inflacionária no Brasil. O governo tem procurado conter o encarecimento dos combustíveis e lubrificantes, mas esse tipo de intervenção impõe custos indesejáveis ao poder federal.

Pressões desse tipo, surgidas de fatores fora do controle brasileiro, são motivos adicionais para uma gestão mais prudente das contas públicas. Nem todo governante petista é gastador, mas o presidente Lula parece nunca haver abandonado, para valer, a velha identificação entre governar e gastar. Não se governa, é claro, sem realizar despesas, mas esse reconhecimento de nenhum modo envolve a defesa da gastança como algo indispensável.

Se nada for feito, em Brasília, para disciplinar os gastos federais, a insegurança fiscal seguirá dificultando o equilíbrio das contas públicas e uma redução mais firme dos juros pelo Banco Central (BC). Juros elevados continuarão atrapalhando os negócios, emperrando o crescimento econômico e freando a criação de empregos produtivos e mais seguros.

Sem finanças públicas mais controladas e juros mais toleráveis, o investimento permanecerá travado e o País continuará no atoleiro, sem perspectiva de modernização e expansão do potencial produtivo.

Não haverá crescimento econômico mais veloz – vale a pena repetir essa obviedade – enquanto os setores público e privado mantiverem, conjuntamente, uma aplicação miseravelmente baixa em infraestrutura, máquinas, equipamentos e instalações produtivas. É urgente retomar com firmeza, para em seguida ultrapassar, o velho nível de investimento correspondente a 18% do Produto Interno Bruto (PIB). O investimento em educação e pesquisa vem melhorando, mas tem de avançar muito mais para o Brasil deixar de ser uma economia emergente sem perspectiva de maior avanço.

A maldição do emperramento econômico é lembrada semanalmente no boletim Focus, em que a mediana das projeções de crescimento permanece na vizinhança de 1,90% para este ano, em torno de 1,50% para 2027 e pouco acima disso para os anos seguintes.

Esses números são conhecidos tanto no governo quanto no setor privado, mas a persistência desse quadro parece pouco alarmante para as autoridades. No setor empresarial, surge de vez em quando algum sinal de preocupação com o baixo nível geral de investimento, mas sem manifestações importantes sobre o assunto.

Enquanto isso, o governo insiste em gastar, simplesmente, como se isso bastasse para promover a necessária expansão do PIB. Não basta, no entanto. Para se alcançar esse resultado, é preciso gastar bem, poupando e aplicando recursos em meios produtivos selecionados segundo sadios critérios empresariais e governamentais. Esses critérios são seguidos em outros países, desenvolvidos e em desenvolvimento, com resultados visíveis para quem acompanhe com alguma atenção a economia internacional.

Na cúpula do poder, em Brasília, esse acompanhamento parece envolver pouco mais que o interesse em questões geopolíticas e diplomáticas, mas no sentido mais abstrato. Se o interesse das autoridades fosse um pouco mais prático e mais prosaico, alguém poderia notar, por exemplo, a diferença entre o dinamismo de outros membros do Brics e o do Brasil.

Inicialmente formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, esse grupo expandiu-se rapidamente e passou a incluir países muito diferentes, mas quase todos com uma característica evidente – um dinamismo econômico maior que o do Brasil. Se as autoridades de Brasília dessem maior atenção às diferenças de desempenho econômico e às suas explicações técnicas, talvez as projeções do PIB no boletim Focus, hoje tão modestas, ficassem um pouco mais animadoras.

 

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