Valor Econômico
Ritmo de condução do processo deveu-se ao
temor, predominante no gabinete do presidente do STF, de interferência na
campanha eleitoral
A pressão para que a sessão que vai deliberar sobre o futuro do ministro Alexandre de Moraes seja fechada, que parte de gabinetes da Corte e de governistas, é apenas mais uma das muitas que chegaram ao presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, nos dias que antecederam a decisão de quarta-feira (9). Fachin tirou Moraes da relatoria do inquérito das fake news e marcou, para a próxima terça-feira, a sessão que vai deliberar sobre o futuro do ministro.
A resposta à pressão pela retirada dos
inquéritos do Master e do INSS das mãos do ministro André Mendonça tem sido
respondida com o argumento de que se a presidência adquire poder para avocar os
inquéritos que lhe aprouver, criará um precedente a ser usufruído pelos
ministros que estão na linha sucessória da Corte — pela ordem, Moraes e Kassio Nunes Marques.
A cobrança para que
investigue os vazamentos dos inquéritos é acolhida no gabinete ainda que não se
haja clareza sobre o que a presidência poderia vir a fazer sem invadir as
prerrogativas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que delibera sobre
interferências na campanha eleitoral.
Fachin se depara nesta sexta com o fim do
prazo dado ao diretor-geral da Polícia Federal para que ele preste
esclarecimentos sobre as acusações que lhe foram feitas pelo ministro André
Mendonça. Se Fachin o mantiver no cargo, estará desautorizando Mendonça. Se o
retirar, estará invadindo as prerrogativas do presidente Luiz Inácio Lula da
Silva. Por isso, há negociações para que Andrei Rodrigues peça demissão.
O ritmo com o qual Fachin conduziu o processo
— e o levou a ser acusado de omissão — deveu-se ao temor, predominante em seu
gabinete, de interferência na campanha eleitoral. Foi a decisão do
ministro Flávio Dino pela
reintegração de Andrei, que precipitou os desdobramentos postos em curso pelo
presidente do STF.
Fachin avisou aos colegas que tomaria medidas
duras naquela quarta-feira depois da decisão de Dino, às 9h da manhã, que
coroou a sobreposição de decisões monocráticas na Corte num desafio à sua
autoridade. Se este encaminhamento dependeu de sua decisão sobre o inquérito
das fake news e a definição da pauta da sessão desta terça-feira (15), o
desfecho de um processo que poderá levar à investigação de Moraes e a análise
dos procedimentos processuais de Mendonça será colegiado. O rito a ser
estabelecido, em grande parte sob suas mãos, será determinante. Para defini-lo,
Fachin tem mantido o processo de consultas que o levou à decisão desta
quarta-feira.
Quem são os conselheiros de Fachin
Além de todos os ministros, com quem fala sem
interdição, dois ex-ministros estão entre seus interlocutores mais
frequentes, Carlos
Velloso e Rosa
Weber. Indicado à Corte pelo ex-presidente José Sarney, em
1990, Velloso lá permaneceu até 2006, nove anos antes da entrada de Fachin.
Rosa foi indicada pela ex-presidente Dilma Rousseff e deixou o STF em 2023.
Ambos foram signatários da carta de ex-ministros que pede apuração rigorosa dos
fatos em sessão pública. Com menos frequência, tem conversado com os ex-ministros
Celso de Mello (1989-2020) e Luís Roberto Barroso (2013-2025).
Um dos temas mais sensíveis da sessão da
terça-feira é se a petição de Moraes, com base num relatório de inteligência da
PF, que pede investigação de Mendonça será levada ao colegiado. Como esta
petição foi feita no âmbito do inquérito das fake news, cuja relatoria hoje
está nas mãos e Fachin, ele teria que se valer de outro instrumento para
fazê-lo ou delegar a atribuição a um colega.
A percepção de que os crimes imputados a
Moraes e as infrações processuais constituem uma falsa equivalência ficou
evidente na decisão de Fachin na quarta (9). A
previsão, no seu gabinete, é a de que apenas a decisão sobre a investigação de
Moraes tomaria as três sessões da semana, de terça a quinta. Se juntar tudo, o
término da análise é imprevisível.
As dúvidas se acumulam, em grande parte, em
função do ineditismo do processo de investigação de um ministro do STF pela
própria Corte. A despeito das previsões constitucional e regimental, há brechas
no rito que podem ter grande interferência no processo, como na concessão de
apartes e, antes tudo, da própria instrução processual que não está clara na
petição de André Mendonça pela investigação do colega.
Sessão aberta ou fechada?
O rito também dependerá da decisão sobre a
realização de uma sessão aberta ou fechada. No jogo de pressões no tribunal, o
relatório da PF, que cita o envolvimento dos ministros Kassio Nunes e Luiz Fux
com o Master, além do já conhecido relacionamento de Dias Toffoli com um fundo
administrado pelo ex-banqueiro, tem sido usado para convencer os ministros a
votar por uma sessão fechada. Tampouco se sabe o quórum da deliberação, dada a
imputação de suspeições. Quais dos ministros vão se declarar ou serão
considerados impedidos? Que posição tomará a ministra Cármen Lúcia?
O pronunciamento de Moraes, que chegou a ser
marcado para as 11h de quinta-feira e acabou cancelado, também foi visto,
enquanto durou, como uma tentativa de dar alguma satisfação à opinião pública
sobre as relações do ministro com Vorcaro de maneira a fazer recuar a pressão
por sessão aberta. A expectativa, no entorno do ministro, é de que partirá do
ministro Flávio Dino sua principal defesa. O ministro Gilmar Mendes, que está
em viagem à Europa, é esperado no Brasil antes do fim de semana.
O governo emite sinais de divisão. O recurso
Andrei Rodrigues à PF a Dino atropelou os procedimentos da Advocacia-Geral da
União neste sentido. O ministro da Justiça, Wellington Lima e Silva, que tem
feito dobradinha com o ministro da AGU, Jorge Messias, divulgou vídeo, na noite
de quarta-feira, selou a percepção de um governo dividido. Lima e Silva falou
das ações para assegurar a “plena normalidade” da PF sem mencionar Andrei.
O presidente e candidato à reeleição, parece convencido de que não pode se deixar guiar pelas ambiguidades. Em entrevista ao SBT, elogiou Fachin, disse que a balbúrdia não afeta apenas a campanha mas o país e defendeu um mandato para os ministros com um recado para Moraes: “Quem quiser ser da Suprema Corte não pode ser rico, vai trabalhar no seu escritório”.

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