sexta-feira, 11 de setembro de 2026

‘Indignação’ de Flávio dura pouco, por Vera Magalhães

O Globo

Candidato do PL vinha inacreditavelmente surfando na onda da cobrança a Moraes, sem, no entanto, explicar para onde foram os milhões que ele pessoalmente cobrou e recebeu de Vorcaro

Flávio Bolsonaro viu na crise que engolfou o Supremo Tribunal Federal (STF) a chance de encenar um teatrinho de indignação cívica e cobrar o afastamento do algoz de seu pai, Alexandre de Moraes, se dando à ousadia de, na mesma frase, dizer que o caso Dark Horse era coisa do passado e que já estava explicado. Não era passado, não estava nada explicado e, agora, esse cavalo desembestado voltou para assombrá-lo.

À medida que a guerra declarada entre Moraes e André Mendonça avançava, ficava patente o desequilíbrio de providências do relator do caso Master, que foi deixando para depois o capítulo relativo ao financiamento milionário, majoritariamente por meio de depósitos no exterior, da cinebiografia daquele que o nomeou para o STF.

Flávio Dino pegou um atalho para antecipar esse calendário. Usou investigação sobre emendas para autorizar uma operação da Polícia Federal (PF) sobre os envolvidos com a produção, tendo à frente um nome vistoso do governo Jair Bolsonaro, o ex-secretário de Cultura Mario Frias.

A omissão de Mendonça e a entrada em cena de Dino não redimem um ou outro, apenas confirmam o que o eleitor já percebeu há tempos: a completa politização da atuação do STF, tornada mais explícita depois que Mendonça resolveu implodir Moraes a partir da confirmação de suas relações inexplicáveis com Daniel Vorcaro.

Sempre ensaiadinho, Flávio falava ontem em “toga política”, como se só Moraes ou Dino envergassem tal vestimenta. E, mesmo afetando indignação, não conseguiu arriscar uma mísera explicação a respeito dos repasses, agora não só apenas de Vorcaro, mas também de um preposto do banqueiro que acaba de fechar uma delação premiada e até de seu ex-marqueteiro, para um dos filmes com maior verba da história do cinema brasileiro.

É lamentável que o Supremo tenha assumido, pelo pior dos caminhos, tamanho protagonismo eleitoral. Até a próxima terça-feira, é impossível prever um epílogo para a crise interminável em que ministros se rebaixam diariamente com gestos voluntaristas, até mesmo tresloucados, como a convocação seguida de cancelamento de um “pronunciamento” de Moraes, que até aqui também não deu um pio sobre as mensagens trocadas na calada da visualização única com o perpetrador da maior fraude financeira da História brasileira

O correto para evitar que a Corte fosse tão aviltada teria sido Edson Fachin agir aos primeiros sinais do envolvimento de seus integrantes com a rede de Vorcaro, mas ele deixou a coisa correr solta até um ponto em que a desmoralização dificilmente será sanada com as medidas tardias que adotou e com a sessão de lavação de roupa suja marcada para a próxima terça-feira (isso se nada acontecer até lá).

A forma de minimizar o efeito deletério de toda a bandalheira nas eleições é redefinir com rigor as atribuições de cada ministro em todos os inquéritos com implicações políticas em andamento no STF e impedir com autoridade que eles continuem agindo segundo suas agendas próprias de agora em diante.

O simples fato de o presidenciável do PL ter se dado ao desplante de tentar cantar de galo quando está pendurado até o pescoço no caso Master mostra quanto a condução desbalanceada dos inquéritos pode ajudar a distorcer a percepção política do eleitor.

Lula, também atingido pela crise, embora de forma diferente, demorou semanas para encontrar um caminho para se descolar de Moraes e seus rolos. Mas, desde o início da semana, adotou a estratégia de cobrar que se torne público tudo o que houver em todas as frentes, inclusive as que envolvem seu filho Lulinha e seu ex-chefe de gabinete Marcola. É a única forma de assegurar que, mesmo com a discussão eleitoral tão deturpada, a quantidade de lama para cada um seja proporcional à responsabilidade.

Trata-se de um momento tão lamentável que, qualquer que seja o resultado das urnas, uma reforma profunda do Judiciário será a única saída para recuperar minimamente sua credibilidade. E ela não poderá ser feita com revanchismo. Deverá vir com o senso de dever daqueles que obtiverem mandatos em outubro.

 

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