domingo, 6 de setembro de 2026

O apagamento de Gaza, por Dorrit Harazim

O Globo

O fanatismo exterminador de Ben-Gvir já lhe valeu condenações por incitação ao racismo e apoio a movimento terrorista

Pronto, agora é oficial. Na semana passada, em Israel, foi anunciado o plano de limpeza étnica e erradicação da vida palestina em Gaza. A única ambiguidade — e ela é infame — está no título do opus: “Plano Nacional de Trabalho para a Emigração Voluntária do Estreito de Gaza”. De resto, o documento de 20 páginas detalhado com orgulho por seu autor, o ministro da Segurança Interna Itamar Ben-Gvir, é “realista” e “concreto”. E inequívoco. Numa primeira leva, com prazo de execução de 12 meses, a cota de desterro coercivo deverá atingir 250 mil cabeças. O restante dos 2 milhões de gazenses deverá abandonar o que lhe resta de chão ao longo dos seis anos subsequentes. Está tudo equacionado, garante Ben-Gvir, afirmando já ter uma lista de países dispostos a absorver os desenraizados. O próprio ministro da Defesa israelense, Israel Katz, também já informou aguardar apenas a aprovação do presidente dos Estados UnidosDonald Trump, para dar início à emigração “a qualquer custo”.

Vale lembrar o Direito Internacional Humanitário (Estatuto de Roma de 1998, Quarta Convenção de Genebra, de1949), que define como crime de guerra “a deportação ou transferência da totalidade ou de parte da população do território ocupado dentro ou para fora desse território, em conflitos internacionais”. Ainda assim, o mundo viciado em noticiário 24/7 preferiu não se deter nesse marco que a História haverá de registrar. Preferiu-se, para melhor acomodar o sono, atribuir o anúncio declarado do crime a mais uma extravagância da campanha de Ben-Gvir às decisivas eleições legislativas de 27 de outubro próximo.

De fato, o ministro supremacista mais extremado do governo de Benjamin Netanyahu tem se superado. Dia desses, ele postou um vídeo de 25 segundos tão tóxico que foi aconselhado a deletá-lo. O vídeo gerado por IA mostrava prisioneiros palestinos rechonchudos e sorridentes numa sala de tribunal, aguardando julgamento. No plano seguinte, o mesmo grupo já emaciado e cabisbaixo era encaminhado, em fila, ao que parecia ser um abatedouro humano industrializado. Um horror difícil de dissociar do horror maior do século XX. Mas era brincadeirinha de IA.

Um segundo vídeo do ministro de popularidade galopante dispensou pirotecnias digitais. Gerou impacto justamente pela veracidade factual da filmagem: uma visita às obras do futuro complexo de forças reservado à execução de palestinos condenados por crimes de terrorismo. O local exato da obra permanece sigiloso, mas já era possível ver escavadeiras e construções pesadas em andamento.

— O corredor da morte e as instalações para enforcamento estão começando a tomar forma — informa o ministro.

Ele acrescenta que o local das execuções será equipado com cabines de observação para as famílias judaicas das vítimas acompanharem o ritual. A pena de morte aprovada neste ano em Israel isenta judeus extremistas acusados de crimes semelhantes contra palestinos.

O fanatismo exterminador de Ben-Gvir já lhe valeu condenações por incitação ao racismo e apoio ao movimento terrorista Kach, banido. Ele também poderá sofrer sanções se pisar na França, na Irlanda ou no Reino Unido. Nos Estados Unidos está em curso uma moção do senador democrata Ruben Gallego, do estado do Arizona, a favor do seu banimento do solo americano. Uma parte do Ocidente envergonhado considerou excessiva a recente defesa que ele faz de execuções punitivas em Gaza:

— Acho que deveríamos realizar de 30 a 40 assassinatos seletivos por noite. Não apenas daqueles que representam uma ameaça imediata. Há pessoas ali que não merecem viver... Elas nem sequer são gente.

A marcha de Israel anda acelerada. O partido Poder Judaico, sob comando de Ben-Gvir, tem fortes chances de ganhar mais sete cadeiras na nova legislatura e já se fala na criação de um novo ministério para cuidar da emigração forçada. Na terça-feira, autoridades do país iniciaram a imposição de novo currículo para mais de 45 mil alunos palestinos matriculados em escolas públicas do setor árabe de Jerusalém. Como parte de uma campanha global, o Estado judeu e seus aliados têm intensificado esforços para apagar a palavra Palestina de registros históricos, livros e museus. Soa delirante? Nem tanto. A seção libanesa da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Próximo (UNRWA, na sigla em inglês) já substituiu a palavra “Palestina” por “Cisjordânia” e “Gaza” em mapas didáticos do ensino médio. Até o majestoso British Museum de Londres cedeu a pressões em fevereiro último e apagou “Palestina”, “palestino” e “ocupação israelense” de alguns painéis históricos específicos.

Deixamos o mais afrontoso para o final, revelado por Jeremy Greenstock, embaixador junto à ONU no primeiro mandato do esquecível governo de Tony Blair (1997-2007). Atualmente, Blair integra o esdrúxulo Comitê de Paz montado por Trump para implementar o cessar-fogo em Gaza, acordado, mas não cumprido, por Israel desde outubro passado. Pois bem, em entrevista ao site Middle East Eye, o diplomata contou que Blair havia sido incumbido de levar à Autoridade Palestina uma proposta capaz de amolecer Israel: a troca do termo “Palestina” pelas designações bíblicas judaicas “Judeia” e “Samaria” no currículo escolar das crianças palestinas. A indecência dessa proposta está à altura do mensageiro, que nega o ocorrido. Decididamente, há bípedes que se superam na ignomínia.

 

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