Folha de S. Paulo
Crítico
investigou a impressão de desajuste entre as ideias modernas, importadas da
Europa, e a realidade do país
A
partir de Machado de Assis, Schwarz reconstituiu o processo de formação do
romance brasileiro
Ler extensivamente
a obra de Roberto Schwarz é o melhor caminho para compreender os argumentos
dos seus estudos mais conhecidos porque possibilita perceber as relações
internas que dão ao conjunto dos seus textos ensaísticos um caráter muito
articulado, sugerindo um ponto de vista crítico de alcance sistemático.
Os seus textos não
fazem concessões ao leitor e, ao mesmo tempo que buscam o máximo de clareza e
precisão, exigem dele disposição para acompanhar argumentos complexos, juntar
conhecimentos de áreas que a especialização separa e se preparar para
raciocínios contraintuitivos, sempre em luta contra o senso comum e em atrito
com opiniões estabelecidas.
Só assim é possível apreciar a beleza dos movimentos do pensamento e da composição altamente refletida, o senso de humor e as sutilezas de inflexão que compõem a sua prosa de ensaio —um estilo literário construído e adaptado em cada caso para fazer frente à complexidade dos objetos de que trata, visando ao seu significado estético e político.
É verdade que
"A Sereia e o Desconfiado" (1965), o seu primeiro livro de ensaios,
traz uma prosa mais emaranhada, com andamento próprio na construção meticulosa
da análise, que buscava conjugar a leitura textual cerrada e a avaliação de
posições ideológicas e explorava problemas então pouco tratados de maneira
consequente pela crítica literária brasileira.
Algo daquele
estilo de análise intrincadamente minuciosa ainda ressoa nos capítulos sobre os
primeiros romances de Machado de Assis em "Ao Vencedor as
Batatas" (1977), mas é plausível dizer que, como o próprio Schwarz já
sugeriu, a conquista da dicção própria na prosa ensaística já havia dado um
salto significativo a partir de "Cultura e Política, 1964-69" (1970),
recolhido em "O Pai de Família" (1978).
Esse estudo, que
se tornaria um clássico da crítica sobre a cultura dos primeiros anos da
ditadura e o acirramento da repressão a partir de 1968, foi escrito no exílio
francês praticamente sem bibliografia e apoiado, sobretudo, na experiência de
quem havia acompanhado com atenção a movimentação artística e os conflitos do
período. Daí a construção, ao mesmo tempo, muito livre e muito unificada, em
que o vaivém entre a análise da produção cultural e o comentário sobre a
política desenha um quadro que, muito mais que a mera visão panorâmica,
configura um diagnóstico de época.
Ao longo da década
de 1980, Schwarz publicou estudos que comporiam os capítulos de "Um Mestre
na Periferia do Capitalismo" (1990), em que a sua prosa, mais do que
amadurecida, flui plena, com agilidade, rigor e clareza e sem abdicar dos
andamentos complexos.
A escrita de
Schwarz é autoconsciente ao extremo. Poucos críticos expõem tão abertamente os
próprios pressupostos, apresentando a posição teórica e o ponto de vista
político em que se situam. Acresce que ele, muitas vezes, comenta os modos como
procede no desenvolvimento das análises, o que indica o quanto parece estar
ciente da dificuldade das questões que discute.
Tomando os livros no
conjunto, se percebe a tenacidade com que ele volta aos seus temas centrais,
desdobrando argumentos, adicionando aspectos novos e correlacionando assuntos
sempre em busca da visão mais clara e interligada dos problemas.
Além disso, ao
reunir os seus escritos, Schwarz não deixa de lado debates e entrevistas,
incluindo-os nos seus livros ao lado dos ensaios, tendência que se intensifica
em "Seja como For" (2019), cobrindo um arco que vai de 1976 a 2019.
Forma discursiva especialmente acessível, a entrevista possibilita explicar
pontos centrais dos argumentos, abordar questões adjacentes que não encontram
lugar na construção dos textos publicados ou possíveis desdobramentos
implícitos e adicionar outra camada de autocomentário.
Os estudos sobre
Machado de Assis concentram o núcleo da obra crítica e teórica de Schwarz.
"As Ideias Fora do Lugar", ensaio de 1972 que introduz "Ao
Vencedor as Batatas", suscitou debates que se estenderam por décadas, e o
seu título colou-se de tal modo ao nome do autor que parecia impossível
dissociá-los. É sabido que a circulação do texto e a sua repercussão envolveram
incompreensões e mal-entendidos, atribuindo-se ao autor a posição —no fundo, um
clichê conservador— que ele procurava discutir e explicar historicamente.
"As Ideias Fora
do Lugar", de fato, lançava a base da investigação do que mais tarde
Schwarz chamaria de matéria brasileira, especificando as relações fundadas no
escravismo-clientelismo e os efeitos de deslocamento de ideologias. No centro
dessa matéria, se formou um peculiar amálgama funcional de práticas senhoriais
e atitudes liberais-burguesas em um quadro de dominação social e clivagem entre
proprietários, dependentes e escravizados —um resultado do dinamismo
assimétrico de relações sociais e econômicas modernas em plano mundial.
O ensaio buscava
fornecer uma explicação materialista para o persistente sentimento, na vida
intelectual brasileira, de inautenticidade da cultura, dado que as ideias
artísticas, políticas, científicas etc. tomadas do estrangeiro pareciam
desajustadas quando transpostas para a realidade local. Sem deixar de carregar
um grão de verdade, esse sentimento conduziria intelectuais e artistas, ao
longo do século 19 e boa parte do 20, seja a posições nacionalistas ilusórias,
seja à adesão direta, também ilusória, aos modelos prestigiosos da cultura
ocidental, configurando, assim, o movimento pendular entre localismo e
cosmopolitismo que Antonio Candido, mestre de Schwarz, havia
examinado.
Enquanto estudos
clássicos de interpretação do país assinalavam certa incompatibilidade entre as
formas modernas europeias e a realidade material brasileira, Schwarz operava
uma torção ao enfatizar a compatibilização dos incompatíveis —o
escravismo-clientelismo e o ideário liberal-burguês—, que configurava uma forma
social estabilizada e normalizada no Brasil oitocentista.
Mais tarde, em
"Nacional por Subtração" (1986), Schwarz retoma o assunto
explicitando o fundamento do problema: a impressão de inautenticidade das
formas e ideias modernas não se deve à importação, que é inevitável, mas à
estrutura social iníqua do país, que segrega a maioria da população e, assim,
"confere à cultura uma posição insustentável, contraditória com o seu
autoconceito".
Isso sem esquecer
que a própria reprodução das desigualdades internas, bem como o funcionamento
desajustado do liberalismo na sociedade escravista regida pelo favor, eram
efeitos da inserção do país na ordem moderna do capitalismo mundial e,
portanto, um resultado local da história mundial.
Mas, em "Ao
Vencedor as Batatas", aquele esquema de caracterização histórica da
sociedade brasileira vinha a propósito da indagação sobre o problema da
importação de uma forma literária intrinsecamente moderna, o romance, que havia
se constituído na França e no Reino Unido internalizando na sua estrutura a
nascente experiência burguesa.
Por isso, antes de
abordar os romances machadianos, Schwarz apresenta uma análise de
"Senhora", de José de Alencar. Mais precisamente, ao analisar o romance
urbano do principal predecessor de Machado, o crítico expõe o processo por meio
do qual se definiu um campo de problemas próprio à literatura brasileira que
exigia soluções formais novas, isto é, que não estavam previamente codificadas
na teoria ou na história literária disponíveis.
Como ele escreve,
o capítulo sobre Alencar "retoma integralmente, agora no plano da história
do romance, o esquema de 'As ideias fora do lugar'". Toda a força do
argumento está na abordagem da história do romance brasileiro por um ângulo
inédito, buscando apreender a lógica da configuração de uma forma capaz de dar
conta da complexidade própria da matéria brasileira.
Ao transpor a
forma do romance romântico-realista para a ambiência local, Alencar produziu
uma obra cindida em que a linha central do enredo não tem apoio nas relações
sociais efetivas que aparecem nas franjas da narrativa nem interage com elas,
implicando uma dualidade de princípios. O resultado é inconsistente, mas torna
visível a inadequação da forma do romance realista sério para figurar as
relações sociais vigentes na sociedade brasileira.
Com isso, o
romance europeu, enquanto forma desajustada, se revela como parte constitutiva
dos materiais com que o escritor brasileiro precisa lidar. Nos termos de
Schwarz, "nossa matéria alcança densidade suficiente só quando inclui, no
próprio plano dos conteúdos, a falência da forma europeia".
Os romances do
primeiro Machado parecem querer contornar aquela inconsistência formal e evitam
transpor diretamente os grandes temas modernos do individualismo burguês,
recuando para a atmosfera abafada das relações entre dependentes e
proprietários, ainda enquadrada nos limites das convenções românticas e
moralizantes. O resultado foi literária e ideologicamente conformista porque, sem
questionar os fundamentos da ordem, parecia ter no horizonte a autorreforma dos
proprietários com o intuito de "civilizar" as relações paternalistas,
atenuando o seu fundo autoritário.
A despeito disso,
os romances da primeira fase esquadrinham progressivamente os meandros das
relações de favor nas suas situações e nos seus termos, o que constitui um
ganho na identificação das potencialidades formais daquela matéria local, mas
paga o preço de perder o contato com as questões do mundo contemporâneo.
Dessa forma, não
se tratava de apenas evitar o desajuste do modelo europeu, mas de elaborar um
novo arranjo em que o dado local das relações práticas fornecesse um princípio
ordenador capaz de comportar igualmente as formas e as ideias modernas, agora
conferindo-lhes o seu lugar verdadeiro no quadro das relações entre os
proprietários e as camadas subalternas.
Assim é que, na
análise de "Memórias Póstumas de Brás Cubas", apresentada em "Um
Mestre na Periferia do Capitalismo", o princípio formal da volubilidade,
fundado na transposição da lógica que rege a prática social, possibilita
introduzir em larga escala a referência à civilização moderna, mas subordinada
ao arbítrio do defunto-autor.
Não cabe retomar o
argumento aqui. Basta dizer que a solução formal machadiana resolvia impasses
acumulados na tradição local do romance e apresentava como resultado
substantivo a crítica contundente à estrutura de dominação da sociedade
brasileira e à ordem capitalista-burguesa que a determinava.
Note-se que esse
passo da análise, em que a experiência brasileira é sopesada no quadro da
história mundial, constituiu um movimento crítico decisivo e tinha um
predecessor na "Dialética da Malandragem", de Antonio Candido. Nesse
ensaio, o crítico especulava sobre o sentido da sociabilidade popular
formalizada em "Memórias de um Sargento de Milícias" e a considerava
no quadro das opções históricas na atualidade do mundo, conjugando a
experiência brasileira com "a apreciação da cena internacional e a
interpretação da sociedade contemporânea", como Schwarz escreveu em
"Que Horas São?".
Assim, ao buscar
compreender a obra madura de Machado, Schwarz foi levado a reconstituir o
processo de formação do romance brasileiro. O que importa sublinhar é que a
continuidade que articula a tradição literária não se define apenas pela soma
de soluções acertadas, mas envolve principalmente a constituição de um campo de
problemas específicos à criação literária, que permanecem irresolvidos e estão
inscritos nos materiais com que lidam os escritores ao se articularem à
tradição. Esse campo de problemas está diretamente relacionado à "matéria
brasileira".
No estudo sobre o
diário de Helena Morley, Schwarz propõe uma reflexão comparativa entre
"Minha Vida de Menina" e "Dom Casmurro", tendo como ponto
de ancoragem o universo comum que subjaz à configuração da prosa em cada obra:
"Os dois livros expõem em chaves diversas, mas comparáveis, o conjunto
peculiar de posições e relacionamentos que se poderiam chamar de matéria
brasileira, cujos desdobramentos até hoje não deixaram de nos dizer
respeito".
O fundamento da
comparação está na potência estruturante dessa matéria para a criação
artística, sendo por isso capaz de pautar tanto "uma obra artística máxima
como organizar o diário despretensioso de uma adolescente".
Comentando o
próprio estudo, Schwarz explica que a matéria brasileira se refere ao sistema
de relações sociais produzido pela história do país (e do mundo) e aos pontos
de vista implicados nele. Essas relações não são tomadas em abstrato, mas estão
inscritas na linguagem, nas tradições culturais, nos temas e nas situações que
os escritores elaboram.
Nos termos do
crítico: "A história do mundo moderno cristalizou no Brasil uma
problemática, para mal e para bem, mais para mal, que teleguiou consciente ou
inconscientemente os trabalhos decisivos de nossa cultura, que a procuram
explorar e solucionar de uma forma ou outra". Sendo também um
"resultado consistente da própria evolução do mundo moderno", a
matéria brasileira, nas suas diversas elaborações, "serve de espelho ora
desconfortável, ora grotesco, ora utópico" ao dinamismo geral da sociedade
contemporânea.
Assim, Schwarz
sugere que a permanência dos elementos que compõem a matéria brasileira
corresponde a um traço estrutural da sociedade e, por isso mesmo, tem ampla
abrangência na vida cultural do país, decerto com modificações históricas. E
propõe a hipótese de que os "momentos fortes" da inteligência
brasileira, incluindo as "invenções literárias mais originais",
responderam de forma também estrutural aos problemas armados pelo sistema de
relações brasileiro.
Seria possível
então imaginar uma investigação crítica que procurasse especificar as
diferentes maneiras pelas quais as obras formalizaram essa matéria, com
resultados e significados ainda por descobrir, porque o interesse de estudos
nessa direção estaria não só em indicar o fundo comum, mas principalmente na
diferenciação das soluções artísticas particulares.
De fato, em
diversas ocasiões, Schwarz sugere um programa de estudos para a crítica
literária a partir dessa proposição geral. Nesse sentido, ele observa: "As
soluções literárias que Machado inventou para dar uma visão apropriada e
profunda da sociedade contemporânea, através da sociedade brasileira, foram
reinventadas de maneira diferente por quase todos os nossos grandes escritores
modernos". Essas reinvenções ou diferentes soluções artísticas, sugere o
crítico, tendem a formar sistema.
Schwarz indica
que, tendo esse quadro em mente, se poderia, por exemplo, estudar a rispidez
de Graciliano Ramos, a meditação sobre a preguiça
em Mário de Andrade, a utopia modernista em Oswald de Andrade e o profetismo de Glauber Rocha, além de outros escritores
como Carlos Drummond de Andrade e João Cabral
de Melo Neto.
Cada estudo
particular seria um trabalho de fôlego, e o conjunto possibilitaria uma visão
sistemática da literatura brasileira que escaparia aos modelos convencionais de
historiografia literária e ultrapassaria o confinamento aos limites nacionais
porque o desdobramento necessário do tipo de análise proposto implica
especificar o sentido artístico, ideológico e político de cada solução formal e
avaliá-la no quadro do dinamismo do mundo contemporâneo.
Não é preciso
dizer que a maioria dos estudos de Schwarz sobre obras específicas, mesmo
quando escritos por motivações circunstanciais, envolve uma reflexão sobre o
modo como a obra se situa em face das relações sociais depositadas nos
materiais mobilizados. Alguns dos ensaios remetem àquele programa de pesquisa
sugerido, ainda que de maneira indicativa. É o caso do conhecido estudo sobre a
poesia de Oswald de Andrade, "A Carroça, o Bonde e o Poeta
Modernista", em "Que Horas São?", e das considerações sobre a
feição social da prosa de Mário de Andrade ao final de "Duas Meninas".
Outros textos,
mesmo sem aludir diretamente à estrutura comum ligada à matéria brasileira,
articulam as obras aos problemas postos por ela em conjunturas específicas. É o
que se vê em "Martinha versus Lucrécia", no ensaio "Um
Minimalismo Enorme", sobre "Elefante", de Francisco Alvim, ou em
"Cetim Laranja sobre Fundo Escuro", sobre "Leite
Derramado", de Chico Buarque —obras que, à sua maneira,
reelaboram aspectos do problema pelo ângulo da contemporaneidade.
Também em "Um
Percurso de Nosso Tempo", sobre "Verdade Tropical", de Caetano Veloso, são as relações brasileiras e
os pontos de vista artísticos e políticos implicados na maneira como o autor
repassa a sua trajetória que estão no radar do crítico.
Pode-se dizer algo
semelhante dos estudos sobre "Estorvo", de Chico Buarque, e
"Cidade de Deus", de Paulo Lins (em "Sequências
Brasileiras"), e do comentário sobre o filme "Cronicamente Inviável",
de Sergio Bianchi (em "Agregados Antigos e Modernos"), em que as
considerações sobre as mutações contemporâneas da matéria tradicional capturam
tendências que abrem novas perspectivas, mais sombrias, sobre o futuro.
De outro modo, o
posfácio a "O Nome do Bispo" (em "Que Horas São?") faz o
romance de Zulmira Ribeiro Tavares entrar em correspondência, pela sátira a
certo tipo social paulista, com as novelas de Paulo Emílio Sales Gomes, "Três Mulheres
de Três PPPês" (em "O Pai de Família"), livro que Schwarz voltou
a comentar depois em "Forma Excêntrica de Luta de Classes",
alinhando-o a Machado de Assis, Oswald de Andrade e Graciliano Ramos pelo uso
do narrador em primeira pessoa reinventado para fins de "auto-exposição de
classe".
Além disso,
Schwarz disseminou nos seus textos inúmeras observações pontuais sobre autores
brasileiros. Comentando o significado artístico e político da prosa de Mário de
Andrade, por exemplo, Schwarz assinala que ele havia forjado "um
instrumento literário poderoso e estranho, profundamente ancorado nas
realidades brasileiras, bem como na atualidade, capaz como quase nenhum outro
de formular a experiência do país", possibilitando reunir diferentes
registros e transitar entre eles.
São observações
lançadas pelo crítico e deixadas sem desenvolvimento, mas que, reunidas,
organizam um conjunto de intuições críticas que poderia servir como ponto de
apoio para desenvolvimentos analíticos.
Penso que alguns
pesquisadores das gerações seguintes, que se formaram com Schwarz como
referência intelectual, produziram trabalhos que, de certo modo, se afinavam
com aquele programa, mesmo que não o fizessem deliberadamente ou de todo
autoconsciente. Correndo o risco de ser injusto, tenho a impressão de que os
resultados foram desiguais e, embora vários estudos tenham contribuído para
avançar no conhecimento sobre diversos escritores e obras, os trabalhos não
somaram, no sentido de possibilitar articular aquela visão de conjunto que
estava no horizonte do programa schwarziano.
Nos últimos anos,
os focos de interesse dos estudos literários se alteraram substantivamente, por
vezes ampliando o escopo de questões —gênero, raça e outros—, por vezes
incidindo sobre temas que acompanham as inflexões contemporâneas das pautas
políticas e do engajamento.
A propósito, vale
lembrar que Schwarz, no seu discurso ao receber o título de professor emérito
da Unicamp em 2022, fez considerações sobre algumas dessas mudanças: "Os
'cultural studies' dos anos 1980, em sua versão norte-americana, concentraram-se
nas questões de raça, gênero e classe, tomadas como categorias gerais.
Voltava-se à utilização documentária da ficção, ou seja, a um tipo de
conteudismo crasso, indiferente à especificação estética. Ao passo que a
perspectiva pós-moderna, cancelando o dinamismo da história e a dimensão da
realidade exterior à linguagem, restabelece o jogo vazio e a-histórico das
abstrações universalistas, indiferentes às formações históricas
singulares".
No mesmo discurso,
Schwarz lembra que a crítica deveria se situar com independência e se colocar a
serviço das obras e não dos autores, pois "a figuração literária é um modo
sui generis de pensar e investigar o mundo, com valor de conhecimento próprio
—diferente de ciência e teoria, mas real ainda assim. A aventura crítica
beneficia-se do acerto dessas formalizações, cuja verdade lhe cabe
desentranhar, dizendo por sua vez algo novo".
Nesse quadro,
seria de interesse reatar com os escritos de Roberto Schwarz, não apenas para
repetir o que ele analisa e teoriza, mas para enfrentar as questões
irresolvidas da crítica e da literatura que a sua obra tão decisivamente
possibilita identificar.
*Professor do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da FFLCH-USP

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