quarta-feira, 9 de maio de 2012

Delegado lança suspeita sobre a PGR

Ao depor na CPI, delegado da PF diz que investigação da Operação Vegas foi engavetada pela Procuradoria Geral da República (PGR), ao constatar a participação de Demóstenes e de deputados goianos no caso. Na CPI, aumenta a pressão para que o procurador-geral. Roberto Gurgel, seja convocado.

Um “míssil” em direção ao procurador-geral

OPERAÇÃO MONTE CARLO

Delegado da PF afirma que Ministério Público interrompeu a investigação contra parlamentares suspeitos de envolvimento com a quadrilha de Cachoeira. Integrantes da CPI defendem a convocação imediata de Roberto Gurgel e da mulher dele, subprocuradora da República

João Valadares, Diego Abreu

O depoimento do delegado da Polícia Federal Raul Alexandre Marques de Souza, responsável pela investigação da Operação Vegas, prestado na tarde de ontem na CPI do Cachoeira, complicou de vez a situação do procurador-geral da República, Roberto Gurgel. Nas entrelinhas, o investigador deu um recado claro: a Vegas foi interrompida e engavetada, em setembro de 2009, pela Procuradoria-Geral da República (PGR), no momento em que se constatou a participação do senador Demóstenes Torres (sem partido) e dos deputados federais Carlos Alberto Leréia (PSDB-GO) e Sandes Júnior (PP-GO) na organização criminosa. Após o depoimento, que terminou às 22h40, até mesmo parlamentares que desde o início do escândalo se posicionaram contra a convocação de Gurgel, agora, acreditam que é impossível a comissão não chamá-lo para depor.

Bastante discreto e sem utilizar adjetivos, o delegado da PF comunicou que uma ordem da Justiça Federal de Goiás determinou que a investigação fosse remetida à PGR porque esbarrava em investigados com foro privilegiado. Um mês após encaminhar todo o inquérito à subprocuradora criminal da PGR, Cláudia Sampaio, mulher de Roberto Gurgel, o delegado esteve com ela e recebeu a resposta de que não havia provas contundentes contra os parlamentares. Resultado: o inquérito nem foi devolvido para realização de novas diligências nem seguiu para o Supremo Tribunal Federal (STF) para abertura de investigação em relação aos parlamentares citados.

Nesta época, já se tinha a notícia de que Demóstenes teria recebido dinheiro do contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, para pagamento de um táxi aéreo. A Operação Vegas teve início em 2008 para apurar uma rede que lucrava com jogos de azar e foi paralisada em 15 de setembro de 2009. Ao todo, ocorreram 61 mil interceptações telefônicas.

Recado claro

O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, alegou que não remeteu o inquérito ao STF na época porque haveria outra investigação, a Monte Carlo. No entanto, a operação só teve início mais de um ano depois. “Só um cego não enxerga o descontentamento do delegado durante o depoimento. Ele veio e deu, ao seu modo, bastante objetivo e discreto, um duro recado. O procurador-geral da República paralisou toda a investigação. A Monte Carlo nada mais é do que uma retomada daquilo que estava parado, um complemento do serviço que ficou pela metade”, avaliou um parlamentar oposicionista.

Para o senador Randolfe Rodrigues (PSol-AP), que nunca defendeu a convocação de Gurgel, o depoimento agravou a situação do procurador-geral da República. “É verdade que a situação se complicou, mas não podemos perder o foco. Tenho medo de que isso aqui vire a CPI do Gurgel. Eu quero saber detalhes da rede da empresa Delta e todas as suas ligações.”

Já o deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS) afirmou que o delegado enviou um míssil Exocet contra a Procuradoria-Geral da República. “Eu defendo a convocação, agora, da subprocuradora criminal, Cláudia Sampaio. Convocar o procurador-geral é complicado porque ele vai atuar nesse caso. Ficou claro que, sem a PGR, todo o procedimento tinha sido continuado. Foi um Exocet que ele mandou”, ironizou. Randolfe Rodrigues informou que apresentará na próxima reunião administrativa, em 17 de maio, um requerimento para convocar a subprocuradora Cláudia Sampaio.

O deputado Paulo Teixeira (PT-SP) informou que o interrogatório do delegado, embora não traga grandes novidades, foi bastante esclarecedor para entendimento de todo o processo. “Uma coisa ficou muito clara: Demóstenes, Leréia e Sandes Júnior não foram interceptados diretamente porque a Procuradoria-Geral da República paralisou a investigação. O delegado deixou isso muito claro.”

No início da sessão, houve bate-boca e muita confusão. Alguns integrantes queriam que o depoimento fosse aberto, no entanto, por 17 votos a 11, o interrogatório foi fechado. Inicialmente, o delegado leu um relatório explicando todo o histórico da Operação Vegas. Depois, 26 integrantes da comissão se inscreveram para fazer perguntas. O delegado, tranquilo segundo os parlamentares, respondeu absolutamente tudo aquilo que foi perguntado. Na próxima reunião administrativa, requerimento que pede o fim do sigilo dos documentos vai ser votado pela CPI.

Inquérito

O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, afirmou ao Correio que quando recebeu as informações da Operação Vegas constatou que o material não continha indícios jurídicos suficientes para justificar a abertura de um inquérito contra Demóstenes no Supremo Tribunal Federal. “Estaríamos diante de um inquérito absolutamente inviável, cuja finalidade seria a de revelar as investigações que estavam em curso. Não ocorreria a Monte Carlo nem a revelação de nada o que está acontecendo agora”, disse Gurgel. “Tivemos uma estratégia de atuação extremamente bem-sucedida, porque permitiu que esses fatos fossem apurados”, completou.

Sobre a possibilidade de ser convocado pela CPI, o procurador-geral destacou que há um impedimento processual absoluto dele para comparecer à comissão, uma vez que, segundo ele, as investigações referentes a Demóstenes e a outros parlamentares estão sob a sua atribuição. “Se eu comparecesse, ficaria impedido de continuar atuando nesses feitos. Ou seja, a insistência na minha convocação significa a pretensão de afastar o procurador-geral da República da atuação nesses casos se o depoimento viesse a ser efetivado. Não há como eu ser compelido a comparecer à CPI”, frisou.

Fonte: Correio Braziliense

Elis Regina - Deixa

Manobras:: Merval Pereira

Mais uma manobra para atrapalhar o julgamento do mensalão acaba de ser superada pelo Supremo Tribunal Federal, que recusou retirar do processo Roberto Salgado, diretor do Banco Rural, utilizado no esquema dos mensaleiros.

Se a manobra do advogado Márcio Thomaz Bastos tivesse prevalecido, o argumento de que o banqueiro não tem foro privilegiado beneficiaria também réus como o ex-ministro José Dirceu, acusado pela Procuradoria Geral da República de ser o chefe da quadrilha do mensalão e que, por ter sido cassado, não tem mandato. Os processos voltariam à primeira instância da Justiça, e começariam do zero.

Outra manobra está em curso, com a tentativa de levar a imprensa tradicional a ser julgada pela CPI do Cachoeira, criando um clima político que favoreça a aprovação de uma legislação de controle da mídia, como sempre quiseram setores radicais do PT.

Ainda bem que o presidente do PT Rui Falcão é um trapalhão que antecipa as estratégias políticas em declarações açodadas, que servem para advertir a sociedade do que seu grupo político radical está tramando por baixo dos panos, contra a democracia.

Quando se transformou no primeiro petista a fazer uma ligação explícita entre a criação da CPI do Cachoeira e a tentativa de "melar" o julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal, Rui Falcão provocou irritação no ex-presidente Lula, que tramava a jogada política mas não queria revelá-la antes do tempo, e da presidente Dilma Rousseff, que não queria saber de confusão no seu governo.

"A bancada do PT na Câmara e no Senado defende uma CPI para apurar esse escândalo dos autores da farsa do mensalão. É preciso que a sociedade organizada, movimentos populares, partidos políticos comprometidos com a luta contra a corrupção como é o PT, se mobilizem para impedir a operação abafa e para desvendar todo o esquema montado por esses criminosos, falsos moralistas que se diziam defensores da moral e dos bons costumes", conclamava Rui Falcão na ocasião, para ser desmentido por políticos de seu próprio partido, que tentaram disfarçar o fato que o presidente do PT tornou indesmentível: setores do petismo queriam usar a CPI do Cachoeira para pressionar o STF.

A primeira tentativa foi transformar a gravação do suborno de um diretor dos Correios em ação do grupo de Cachoeira, para atingir o então chefe da Casa Civil José Dirceu.

Não deu certo, pois mesmo que a gravação tenha sido feita a mando de Cachoeira, quem acusou Dirceu de comandar um esquema de corrupção dentro do Palácio do Planalto foi o então deputado Roberto Jefferson, acusação, aliás, que acabou sendo acolhida pela Procuradoria Geral da República.

O atual procurador, Roberto Gurgel, por sinal, caiu em desgraça com o PT quando apresentou a denúncia e por isso mesmo está sendo ameaçado de convocação na CPI, embora seja inconstitucional tal convocação, pelo fato de que é ele quem deverá fazer a denúncia dos casos já levantados pela Polícia Federal envolvendo o senador Demóstenes Torres e outras autoridades com foro privilegiado.

O constrangimento da convocação provocou mal-estar entre os ministros do Supremo, que entenderam o gesto como uma afronta ao Judiciário.

A segunda trapalhada de Falcão veio em seguida, quando anunciou, como se fosse uma decisão de governo, que o próximo alvo seria a imprensa. Segundo suas palavras, "este é um governo que tem compromisso com o povo e que tem coragem para peitar um dos maiores conglomerados, dos mais poderosos do país, que é o sistema financeiro e bancário. E se prepara agora para um segundo grande desafio, que iremos nos deparar na campanha eleitoral, que é a apresentação para consulta pública do marco regulatório da comunicação". E por que o governo faria isso? Segundo Rui Falcão, por pura vingança, pois a mídia "é um poder que contrasta com o nosso governo desde a subida do (ex-presidente) Lula, e não contrasta só com o projeto político e econômico. Contrasta com o atual preconceito, ao fazer uma campanha fundamentalista como foi a campanha contra a companheira Dilma (nas eleições presidenciais de 2010)".

A própria presidente já mandou dizer por meio do ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, que esse projeto de controle social da mídia não está em suas prioridades.

E, segundo ela, o único controle admissível é o controle remoto da televisão, com o qual cada cidadão é o juiz de sua decisão de ver este ou aquele canal.

O mesmo raciocínio vale para os jornais e revistas, que os cidadãos têm à disposição e compram ou deixam de comprar de acordo com sua vontade, e por razões pessoais. Este é o verdadeiro controle social da mídia numa democracia.

Por falar nisso, uma pesquisa da Associação de Jornais dos Estados Unidos (NAA, na sigla em inglês) mostrou mais uma vez que os jornais tradicionais são marcas confiáveis para as quais o leitor corre quando algo importante está acontecendo.

Pesquisas das universidades Stanford e Cornell, já mencionadas aqui na coluna, já mostravam que estava errada a tese de que as novas tecnologias, como a internet, os blogs, o Twitter e as redes sociais de comunicação, como o Facebook, seriam elementos de neutralização da grande imprensa.

Ao contrário, a internet seria como a "caixa de ressonância" da grande imprensa, de quem precisa para se suprir de informação e para dar credibilidade às informações.

Os sites e blogs mais acessados tanto nos EUA quanto no Brasil são aqueles que pertencem a companhias jornalísticas tradicionais, devido à credibilidade.

A pesquisa da NAA sobre o uso de multiplataformas mostra que ¾ de todos os usuários da internet têm os jornais como principal fonte de notícias, e os leem em várias plataformas.

Fonte: O Globo

Sem pai nem mãe:: Dora Kramer

Tantas campanhas ditas politicamente corretas e factualmente incorretas são difundidas pela internet e repercutem fora dela que não custava nada essa massa em estado de rebeldia à deriva abraçar um bom combate.

Há várias causas à disposição de soldados efetivamente interessados no aperfeiçoamento da nossa ainda imperfeita democracia. Um exemplo? O fim do voto secreto no Congresso, ao menos para os casos de cassação de mandatos comprovadamente incompatíveis com o decoro parlamentar.

O assunto de quando em vez volta à discussão no Parlamento. Sempre que há algum escândalo envolvendo deputados e/ou senadores ou quando assistimos a alguma absolvição escandalosa.

A última, em 2011, favoreceu a deputada Jaqueline Roriz, flagrada em vídeo recebendo dinheiro de origem desconhecida pelas mãos de um conhecido frequentador – Durval Barbosa, o delator e participante do esquema que resultou na queda do então governador do DF, José Roberto Arruda – de terrenos onde a política se mistura à corrupção.

Em 2006, em meio a renúncias e absolvições de parlamentares envolvidos no escândalo do mensalão, a Câmara aprovou o fim do voto secreto. Foram 383 votos a favor, nenhum contra e quatro abstenções, em primeiro turno.

Na época houve muita animação e apoio à decisão. Mas o tempo passou, o clima de indignação arrefeceu e a coisa por ali ficou faltando completar o processo de votação na Câmara e remeter a proposta ao Senado.

Agora com o caso do senador Demóstenes Torres volta-se a debater o assunto, embora timidamente. É que a situação dele é tão grave, há tanta intolerância em relação ao disfarce de defensor da ética, são tantos os inimigos que o senador colecionou por causa desse papel e é tão inconsistente (senão inexistente) sua sustentação política, que o corporativismo dificilmente prosperará ao abrigo do voto secreto quando o processo for ao exame do plenário no Senado.

Portanto, ainda não será dessa vez que uma crise resultará em avanço e o voto secreto no Parlamento continuará servindo de salvaguarda a representantes da sociedade que não desejam dar satisfações aos seus representados.

Note-se, então, que esse assunto se inscreve entre aqueles passíveis de intervenção popular. Energia solta no ar há de sobra. Pena que em boa medida desajeitada e por isso desperdiçada.

Falta compreensão para distinguir o que realmente é importante para a melhoria do processo político daquilo que tanto serve para aplacar consciências de inocentes úteis quanto presta serviço ao (não raro remunerado) ofício da má-fé.

Roncos da reação. Há duas questões não respondidas pelas tropas de ataque à Veja: as denúncias divulgadas pela revista eram verdadeiras ou falsas? Ajudaram ou prejudicaram na elucidação de casos de corrupção?

Considerando a veracidade e o benefício (abertura de inquéritos, processos e demissões) resultante das reportagens e reveladores do compromisso com os fatos, resta a evidência de inequívoco desconforto com a vigência da liberdade de imprensa no país e o indisfarçável desejo de alguma forma de revogação da regra.

Certamente não se veem assim, mas esses grupos atuam à semelhança de setores conhecidos durante a ditadura como "bolsões radicais" contrários à retomada do Estado de Direito.

Revisão. Leitor pondera e tem razão: se Carlos Augusto Ramos é tratado na imprensa como chefe de um esquema criminoso, acusado em processo na Justiça de Goiás por diversos delitos entre os quais lavagem de dinheiro, não faz sentido nos referirmos a ele como mero "contraventor".

Ademais... É como já avisou doutor Márcio Thomaz Bastos: o homem silenciará na CPMI a fim de não se incriminar mais do que já está.

Fonte: O Estado de S. Paulo

O segredo como patologia:: Fernando Rodrigues

Às vésperas da entrada em vigor da Lei de Acesso à Informação, no próximo dia 16, a CPI do Cachoeira protagonizou ontem uma cena que se encaixaria à perfeição num filme do grupo de humor britânico Monty Python: uma sessão secreta (sic) na qual estavam presentes cerca de 50 pessoas, entre congressistas e servidores.

Em regra, não deve haver segredo no Congresso. É a "Casa do Povo". Na prática, querer manter em sigilo uma reunião com 50 participantes é tarefa inglória, patética ou as duas coisas juntas. Em CPIs anteriores era comum um deputado ou um senador deixar seu celular ligado e captando tudo para repórteres que ficavam do lado de fora.

Ontem, no início da sessão dita secreta, houve uma tentativa de obrigar todos os presentes a deixar seus celulares do lado de fora da sala. A exigência não vingou.

O depoente foi o delegado da Polícia Federal Raul Alexandre Marques Souza. Ele comandou a chamada Operação Vegas, que precedeu e deu origem à Operação Monte Carlo. Ambas desvendaram o esquema de negócios comandado por Carlos Cachoeira, raiz da CPI.

Antes de serem entregues ao Congresso, documentos dessas operações vazaram copiosamente para a mídia. O delegado Raul, por dever de ofício, já colocou tudo o que sabe em seu relatório. A CPI tem acesso a esses documentos -bem como qualquer cidadão com alguma habilidade em navegar pela internet.

Nada além de uma obsessão patológica pelo sigilo justifica o depoimento secreto de ontem. Da mesma forma, é ilógico impedir cada integrante da CPI de ter uma cópia da documentação sobre o escândalo. Só assim todos teriam como formar convicção sobre o que se passou.

Ao perder tempo sendo bedel de deputados e de senadores, o comando da CPI desacelera o ritmo da investigação. Por tabela, ajuda quem deveria ser punido com rapidez.

Fonte: Folha de S. Paulo

Surrealismo & Cia:: Rosângela Bittar

Para fazer o que deseja a nova entidade Collor-PT, inimaginável há 20 anos, mas produzida agora em todos os seus contornos, à luz do dia, na CPI do Cachoeira, o inquérito implodiria antes mesmo do começo dos trabalhos. A entidade quer "pegar" o procurador-geral da República, Roberto Gurgel; a imprensa - a começar da revista "Veja" - e aproveitar a oportunidade para retomar com vigor a proposta de controle da mídia; e o PSDB, na figura do governador de Goiás, Marconi Perillo. Tudo com muito sigilo, o que é contradição evidente, mas Collor certamente quer evitar o que os seus acusaram o PT de fazer com ele na CPI do PC, quando passava à imprensa e ao Ministério Público as informações que ali transitavam.

Para o que tentar escapar desse roteiro, com texto e modo de operação prontos, em que a agressividade de Collor seja bem explorada pelo PT para substituí-lo em algumas ações, a ordem é atropelar.

Tanto o presidente da CPI, Vital do Rêgo (PMDB-PB), quanto o relator, Odair Cunha (PT-RS), dificilmente, por querer ou precisão, agirão fora do jugo da entidade. Quanto mais não seja, por intimidação.

A oposição já tem um código de conduta na CPI

Mas a oposição, numérica e politicamente fragilizada, não se considera aniquilada já de saída e prefere esperar ter os dados que lhe permitam definir se dá para participar da investigação ou não. Por enquanto, não quer desistir.

Numa reunião ocorrida esta semana, os senadores Alvaro Dias (PSDB), Jarbas Vasconcelos (PMDB) e Randolfe Rodrigues (PSOL), debateram essa situação que se configurou na CPI, e o assunto que emergiu da conversa tem clareza objetiva. A CPI, constataram, pode realmente ficar incontrolável. Primeiro, é uma comissão que começa seus trabalhos ao contrário das outras, de início tomando conhecimento de inquéritos já feitos e já vazados para a imprensa. Há inquéritos concluídos e outros, não. Antes, as CPIs apresentavam sugestões de providências ao Congresso, ao Ministério Público e à Polícia Federal. Agora, a PF mandou o inquérito pronto à CPI.

Diante dessa inversão, a oposição acredita que um bom projeto de ação seria trabalhar em duas vertentes. Uma, para tentar saber a extensão do poder do Cachoeira, suas ligações com autoridades federais e estaduais, a pouco esclarecida mistura de suas atividades com as da empreiteira Delta, a relação com governadores. Outra, abrir a caixa preta da Delta. Se isto não for feito, de nada adiantará a tarefa da CPI, vez que as informações já foram prestadas à polícia nas duas operações investigadas.

Embora a Delta seja, as investigações concluídas mostram, uma expressão ponderável do PAC e de vários governos de Estado e grandes cidades, a oposição não quer, segundo diz, usar métodos do PT quando o partido era oposição. Sabem todos que há muitos outros governos envolvidos com a empreiteira além dos de Goiás, Distrito Federal e Rio, mas ponderam que, no momento em que houver transparência nos dados da empresa, será possível verificar que ela, em alguns lugares, não teve uma presença irregular, e em outros, ou até mesmo na maioria, agiu de maneira nefasta. O que é mais coerente com o que apontam as gravações de conversas divulgadas até agora.

A oposição se diz decidida a fugir do protesto juvenil, não quer de maneira alguma aproveitar a CPI para atingir a presidente Dilma ou o governo. Por isso defende que a Delta seja investigada não apenas com relação ao PAC, mas nas suas demais ações Brasil afora.

Isto significa, e a oposição defende, a convocação dos governadores dos três Estados que se relacionaram com a empreiteira, segundo as transcrições dos grampos da polícia, sejam filiados ao PSDB, ao PT e ao PMDB (como é notório). Nenhum desses partidos pode resistir à chamada a seus governadores, segundo crê a oposição. Os três têm que ser convocados, se possível juntos, para evitar que um compareça e os demais consigam licença para a ausência.

A presença do senador Fernando Collor, o que, convenhamos, já dá uma aura de surrealismo a qualquer CPI; sua associação com o PT, que lhe resgatou a cidadania política, vez que a eleitoral tinha obtido sozinho, para transformar a comissão em campo de guerra contra os inimigos comuns, e a ação intimidatória que sua conduta exerce sobre o presidente - agressividade que empalideceu Vital do Rêgo várias vezes como já havia tirado a cor de Pedro Simon em plenário - transforma aquilo em um teatro. Do absurdo. Tanto que ainda há, na CPI e ao mesmo tempo nos autos da PF, o ex-delegado Protógenes Queiroz (PCdoB), autor da célebre Operação Satiagraha, supostamente para prender e tirar do mercado o "banqueiro bandido" Daniel Dantas, mas que cometeu tamanhas irregularidades que acabou se afastando léguas da Justiça enquanto se aproximava a passos largos de um mandato. Teatro sendo, vai ser muito difícil a oposição fazer o que articula nos bastidores.

A visão negativa tem lógica, e a decisão de dar caráter sigiloso ao primeiro depoimento, ontem, é prova disso. Mas, adverte-se, está tudo muito no começo. A oposição, com algumas de suas condutas comuns a um grupo de representantes de partidos governistas, está disposta, para não ser aniquilada de início ou ver implodida a CPI, a reunir-se, debater os assuntos, juntar-se, fazer um trabalho que está definindo como "objetivo, racional, cuidadoso".

Com isso acredita poder criar pelo menos algum constrangimento, não custa experimentar, à entidade Collor-PT, para conseguir realizar alguma investigação sobre a Cachoeira-Delta. Acha cedo, porém, para avaliar o que vai apurar, se vai se sair bem ou mal. Dar em nada ou dar em tudo. Em três semanas será possível observar o desdobramento disso e concluir se o trabalho é válido.

Na CPI da corrupção, Collor e PT, agressivos, querem transferir à imprensa a condição de ré. Já Dilma Rousseff declarou guerra aos bancos privados em tom acima de uma relação polida. Corre o risco de uma inspeção nos bancos oficiais mostrar que ela não tem exemplos a dar nas instituições do governo. Prepara-se para a Rio+20 incendiando a disputa de interesses, enquanto ameaça com veto total o trabalho do Parlamento. O ar em Brasília está carregado.

Fonte: Valor Econômico

'Carcará' e Falcão contra a liberdade de expressão :: José Nêumanne

Rui Falcão, presidente nacional do Partido dos Trabalhadores (PT), e Fernando Collor de Mello, que há 20 anos renunciou à Presidência da República sob acusações de corrupção e atualmente é senador governista, exibiram publicamente seu desapreço comum pela liberdade de expressão.

Como registrou este jornal na editoria Nacional, no sábado, o petista deu uma informação inusitada em encontro realizado em Embu das Artes para discutir estratégias eleitorais do partido. Segundo ele, a presidente Dilma Rousseff "poderá" (atente para o verbo usado) pôr em discussão o marco regulatório da mídia depois de acertar as contas dos juros altos com os banqueiros. "Este é um governo que tem compromisso com o povo e que tem coragem para peitar um dos maiores conglomerados, dos mais poderosos do País, que é o sistema financeiro ou bancário. E se prepara para um segundo grande desafio, que (sic) iremos nos deparar na campanha eleitoral, que é a apresentação para consulta pública do marco regulatório da comunicação", pontificou.

Em teoria, a presidente da República tem poderes constitucionais para, por exemplo, declarar guerra aos Estados Unidos ou ao Paraguai. Ninguém acredita que o fará. Mas Falcão espera que ela declare guerra aos meios de comunicação. Ela pode desejar. Mas ele poderá influir ou mesmo informar a respeito, sendo presidente nacional do partido em que milita a presidente e ocupando uma cadeira na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo? Não consta que nenhum de seus cargos o torne porta-voz da presidente ou do governo federal, no qual é um zero à esquerda como o autor destas linhas e a quase totalidade dos que as leem. Como não consta que a presidente da República seja obrigada a cumprir o que determina o principal dirigente da legenda pela qual se elegeu, a autoridade dele para anunciar o que o governo dela fará é igual à de um marronzinho anônimo ou do bispo de Santo André.

Nada há, pois, a temer quanto às consequências de suas bravatas contra a liberdade de imprensa gozada nesta República, que, felizmente, não é uma republiqueta de bananas. Elas devem provocar idêntico susto (que ninguém sentiu) ao de quando Collor assumiu o encargo de atrapalhar a cobertura da imprensa na CPI de Carlinhos Cachoeira.

Há, sim, que esclarecer os motivos do desprezo de ambos pelo jornalismo. Falcão e Collor são profissionais de imprensa. O currículo do petista revela sua passagem por jornais importantes e por ele se constata que dirigiu a redação da Exame, revista que propaga e defende o capitalismo, que o deputado execra. Sabe-se lá que mágoas ele guarda de seus antigos patrões ou os dilemas de consciência que teve de ultrapassar para editar o noticiário e os artigos de uma publicação que nega todos os princípios do socialismo, que ele abraçou e seguiu depois de trocar a profissão de jornalista pela militância política num partido de esquerda. É possível entendê-lo, mas não dá para justificá-lo. A transposição de ódios pessoais para o ideário político não faz bem ao profissional nem ao cidadão.

Ao contrário dele, Collor foi apenas um "foca" (iniciante) que não chegou a seguir carreira, trocando-a pela atividade política, em que atingiu o posto máximo que alguém do ramo pode almejar, sem, porém, conseguir dar nenhuma amostra de mérito pela vertiginosa ascensão. Foi na carreira pública, e não no ofício jornalístico, que o ex-presidente encontrou seus motivos para, mais do que o outro, detestar os meios de comunicação em geral e, em particular, a liberdade de informação e opinião. Afinal, jornais, revistas e emissoras de rádio e televisão revelaram à sociedade as estripulias da "República de Alagoas", que ele e seu anspeçada PC Farias aprontaram em Brasília.

O "Carcará Sanguinollento" nunca perde a oportunidade de se dizer inocente das acusações contra ele publicadas, usando como argumento o fato de nunca ter sido condenado pela Justiça. É verdade, contudo, que essa evidência não elimina outra: a de que ele deixou de ser o poderoso presidente de uma "República monárquica" e hoje não passa de um obscuro senador por Alagoas, Estado que governou depois de ter sido prefeito da capital, Maceió. Livre de cumprir condenação judicial e usufruindo sem restrições os bens que amealhou, ele é agora um acólito do baixo clero sempre disposto a fazer o serviço sujo para os novos patrões, por ironia do destino, seus mais brutais algozes, os principais responsáveis por sua derrocada. A ponto de se oferecer, sem que ninguém tivesse encomendado ou mesmo pedido, para atrapalhar a cobertura da CPI no Congresso Nacional

A pouca prática de Collor e a notória carreira de Falcão no jornalismo não bastaram para que ambos aprendessem uma lição elementar: o direito à livre informação e à opinião plural não é dos concessionários dos canais de rádio e televisão nem das empresas proprietárias de jornais e revistas, mas do cidadão. Comunicação não é um negócio como os bancos, mas um ofício que depende da aprovação de seu cliente, o cidadão, que exige ser bem informado para poder decidir sobre o próprio destino. Assim funciona o Estado de Direito.

Aliás, a página deste jornal que expôs o destampatório do deputado também publicou o anúncio feito pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Carlos Ayres Britto, de que o Judiciário fará "até campanhas esclarecendo o conteúdo da decisão do Supremo (que derrubou a Lei de Imprensa em 2009), que foi pela plenitude da liberdade de imprensa". Para tranquilidade geral da Nação, que quer continuar a ter acesso à informação livre e à opinião plural, a presidente Dilma Rousseff tem feito reiteradas declarações no mesmo sentido desta. O ódio de Falcão, coerente com o sobrenome, mas contrário ao pedido de "luz" do poeta alemão Goethe, seu segundo nome, e de seu novel companheiro Collor terá, assim, o destino das iniciativas anteriores: o lixo da História.

Fonte: O Estado de S. Paulo

James Heckman: 'A nova economia exige mais do indivíduo'

Para Prêmio Nobel, educação terá que ser engajada, privilegiar novas habilidades e a formação de cidadãos

Lucianne Carneiro

O GLOBO: O senhor está participando de uma conferência chamada "Ciência para o desenvolvimento sustentável", da Academia Brasileira de Ciências. Como a educação deve mudar para se adequar a um mundo no qual a sustentabilidade tem um papel bem mais relevante? Deve haver um novo modelo de educação para um novo modelo econômico?

JAMES HECKMAN: Em essência, escolas tendem a ser separadas do resto da sociedade. Esse é um processo muito peculiar. Não é natural à condição humana retirar, de certa forma, as crianças do resto do mundo ao mandá-las para a escola. Criar uma cultura adolescente no ensino médio, e até mesmo na universidade, que é desconectada do resto do mundo, da forma como o mundo funciona. Nós criamos esse tipo de adolescência prolongada em escolas que não treinam as crianças ou os jovens adultos numa série de habilidades sociais, emocionais e práticas que são úteis na vida. Há cerca de 150 anos, a maioria dos profissionais era treinada por outros profissionais, de forma que se via as habilidades serem aplicadas na prática, compreendiam-se todos os aspectos do trabalho. Não eram apenas os efeitos, como ser um advogado ou médico, mas como tratar um paciente, como interagir com o cliente etc. Ele aprendia as habilidades práticas e teóricas e também as estruturas da interação social. Isso foi totalmente dissociado. Hoje as pessoas são treinadas para ser uma coisa, ter uma profissão, dentro de um mundo artificial. E então são jogadas no mundo real sem um treinamento completo. Assim, considero benéfico integrar a educação com o ambiente social e econômico. Mas a educação precisa ser reconsiderada de uma forma mais profunda. Deve ser reconsiderada numa mudança na estrutura de capacidades que criamos. Educação é um conceito mais amplo, é mais que passar em uma prova; é mais um treinamento de caráter que começa muito mais cedo e se estende por muito mais tempo. Creio que, num ambiente sustentável, no qual se cultivam as habilidades humanas, incluindo saúde, cognição e tendências de personalidade, essas características, que nós chamamos de soft skills (termo inglês usado pela sociologia para designar inteligência emocional) devem ser o objeto de algo mais amplo que simplesmente "a escola". Deveria ser um tipo de "formação de habilidades", na qual a escola seria apenas uma pequena parte do processo.

Como essas soft skills são importantes para as crianças entenderem esse novo mundo?

HECKMAN: Por exemplo, a natureza da tecnologia está mudando. Há cem anos, o modelo padrão de desenvolvimento era a fábrica, pessoas fazendo trabalhos manuais na linha de montagem. Foi um enorme desenvolvimento que aconteceu cem anos atrás. Pessoas como Henry Ford e outros industriais criaram a linha de montagem, que foi tremendamente produtiva. Ela era uma ideia antiga, mas gente como Ford a elevou a uma escala massiva. Mas isso criou a ideia de seres humanos como apenas elementos numa linha de montagem, elementos que faziam uma tarefa específica e nem mesmo compreendiam a natureza do trabalho da pessoa a seu lado ou mais adiante na linha de fabricação. A economia de serviços está se tornando mais forte, maior, e ela demanda habilidades sociais, interação, habilidade para lidar com pessoas, características que não eram tão valorizadas no sistema de fábricas. Assim, é parte do processo de desenvolvimento econômico e social a demanda por soft skills. Vemos também que as habilidades cognitivas necessárias são diferentes. O sistema de fábricas, de linha de montagem, era melhor servido por pessoas obedientes, dóceis, que faziam seu trabalho mas basicamente não eram criativas. A nova economia exige muito mais a participação do indivíduo. Então, parte do processo de desenvolvimento, incluindo desenvolvimento social, é o indivíduo desempenhar um papel cada vez maior como pessoa, de forma que essas características pessoais são mais valorizadas em toda parte. Não é só você como uma máquina pensante, é a sua habilidade de organizar tarefas, de se adaptar e de inovar. Isso requer habilidades que não eram valorizadas no esquema de educação para o modelo de fábricas, de linhas de montagem.

E como isso se aplica à sustentabilidade?

HECKMAN: Parte do interesse da sustentabilidade vem do sentido de engajamento social. As soft skills hoje são consideradas muito produtivas para criar empatia, confiança e uma sensação de engajamento social. Se o seu trabalho é apenas ficar numa fábrica, ou desempenhar uma tarefa que é muito rotineira numa sociedade muito estratificada, uma ditadura, seu engajamento com questões mais amplas não é lá muito importante. Mas eu acho que o modelo mais amplo de desenvolvimento vai produzir pessoas mais criativas, com mais capacidade de se colocar no lugar do outro, pessoas que pensam mais nas gerações futuras, pessoas mais altruístas, com mais interesse em se juntar ao restante da sociedade e confiar nas pessoas. Assim, você tem um sistema de confiança que é fundamental para uma economia moderna e uma sociedade sustentável. E uma das grandes questões da sustentabilidade é "o quanto nos importamos com a próxima geração?". Isso inclui confiança e ativismo social. A habilidade de reduzir o consumo em prol da próxima geração, de pensar em um projeto social mais amplo, além de seu ganho individual. A educação não pode ser um sistema estreito para ensinar uma habilidade, mas sim algo para ajudar o indivíduo a se engajar mais numa sociedade mais ampla.

O senhor acredita que a educação sobre o consumo deveria estar no currículo escolar?

HECKMAN: O que deveria estar no currículo é entender as forças maiores da natureza, das escolhas que os indivíduos tomam, em termos de escolhas sociais e políticas. As pessoas deveriam entender melhor a natureza das mudanças climáticas, que as escolhas que fazemos hoje afetam o futuro das próximas gerações, de seus próprios filhos e netos. Hoje o entendimento é com relação a como aumentar a qualidade de vida. Ter crianças entendendo as grandes consequências das ações privadas, até ações de desenvolvimento econômico é algo que as escolas poderiam fazer. As escolas, pais e outras instituições da sociedade deveriam ser parte deste projeto de formar cidadãos. Então é muito diferente de dizer que queremos professores que sejam capacitados para que os alunos atinjam boas notas em provas, como o Scholastic Aptitude Test (prova aplicada em estudantes nos EUA), isso é uma das partes, mas não é o todo. É importante educar pessoas para que pensem mais no resto da sociedade, produzindo um senso de sociabilidade e inclusão.

Fonte: O Globo

Mais um pibinho?:: Celso Ming

O crescimento dos estoques de veículos, para os níveis mais altos em três anos e meio, e a derrubada das vendas em abril, de 14,2% sobre as de março, indicam que algo não se comporta como pretende o governo Dilma - que planeja avanço do PIB superior a 4,5% neste ano.

Há mais indicações de mudanças importantes nesse mercado. O volume de financiamentos novos de veículos tende a cair (veja o gráfico ao lado) e o nível da inadimplência está aumentando.

Em parte, esse fraco desempenho é consequência de situação artificial anterior. Entre janeiro de 2009 e março de 2010 o governo incentivou as compras com a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Esse fator antecipou compras pelo consumidor. E o mercado financeiro contribuiu com a saturação do segmento, quando disputou o consumidor com financiamentos para compra de automóveis de até 90 meses sem entrada.

A queda dos preços dos carros usados vem sendo forte. Em dois anos, o veículo perde mais de um terço do seu valor de mercado - como mostrou matéria de Cleyde Silva, no Estado de 12 de fevereiro. Nessas condições, a garantia dada ao banco por ocasião do financiamento perde qualidade. Embora a reserva de domínio continue sendo considerada um dos melhores fatores de segurança para a instituição financeira e principal razão da prática de juros mais baixos no crédito, a forte queda dos preços dos carros usados tirou sua importância. Neste prazo (dois anos), o saldo da dívida contraída no financiamento se mantém mais alto do que o valor da garantia, que é o preço do automóvel no mercado. Nem o proprietário obtém bom preço para dar de entrada num veículo novo, nem o banco consegue recuperar com a revenda do veículo o saldo do financiamento. São razões fortes demais que atuam para desacelerar o crédito.

As exportações também não ajudam. Caíram 4,9% sobre igual período do ano passado. A crise global vem contendo as encomendas. Além disso, o made in Brazil padece da doença crônica já conhecida, que o impede de acessar os mercados: é caro demais, porque enfrenta o insuportável custo Brasil, que trava o resto da indústria.

Esse quadro indica que, mesmo avançando mais rapidamente do que o PIB; e mesmo se baseando na expansão do emprego e da renda; o crescimento acelerado do consumo total no País (e não só o de carros) começa a esbarrar em limitações naturais. A rápida elevação do endividamento familiar é uma delas. Diante do aumento da inadimplência, a falta de apetite dos bancos pela expansão dos financiamentos é outra. Não haverá o que os force a perder dinheiro.

Como já enunciado, esse é um quadro geral que torna mais difícil o cumprimento do projeto do governo de obter, neste ano, crescimento do PIB entre 4,0% e 4,5%. Provavelmente nem as projeções mais conservadoras do Banco Central (crescimento do PIB de 3,5%) terão condições de acontecer.

A mera redução dos juros, destinada a estimular ainda mais a economia brasileira, não parece suficiente para evitar mais um pibinho.

CONFIRA

O gráfico mostra como vem aumentando a inadimplência no segmento do financiamento de veículos.

Função dos juros. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, não esconde que a estratégia do governo é a derrubada dos juros e, com base na redução dos custos do financiamento, provocar a expansão do crédito. Mas não é o que está ocorrendo. Os bancos se recusam a expandir o crédito num quadro de expansão da inadimplência. Nesta terça-feira, provocada pela imprensa, a presidente Dilma preferiu não comentar a nova atitude dos bancos.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Dilma não está com sorte:: Vinicius Torres Freire

Volta do tumulto europeu tende a colocar bancos e empresas na retranca, mesmo que juros caiam

Suponha-se que a campanha de Dilma Rousseff contra os juros altos funcione. Pode bem ser que o custo do crédito caia, mas a quantidade de dinheiro emprestado também, assim como a vontade de tomar empréstimos e investir. O tumulto europeu redivivo pode ser um dos fatores do desânimo.

Dilma Rousseff não tem a sorte de Lula.

A lentidão da economia mundial, em especial no mundo rico, não anima as exportações. As providências euroamericanas para combater a crise, despejo de dinheiro na praça, ademais encarecem o real e os produtos da indústria. A nova rodada de confusão europeia deve induzir bancos e empresários a jogar mais na retranca. Bancos em particular.

A situação europeia não está feia como pareceu no terço final de 2011. Naqueles meses, o risco de quebra de bancos da eurozona e de calote caótico da Grécia era bem real.

Mas os bancos receberam dinheiro de presente do Banco Central Europeu (empréstimo trilionário e subsidiado). A Grécia recebeu mais empréstimos de emergência e, mais importante, seus credores praticamente deram o fora de lá. Um calote grego, agora, seria ruim, mas não tão ruinoso como em 2011.

Ainda assim, a reação política e eleitoral ao arrocho na Grécia foi tão forte que voltaram à mesa as soluções mais radicais. No mínimo, o caso grego é por ora imponderável -a maioria de esquerda quer tocar fogo nos acordos com União Europeia, BCE e FMI. Mesmo que não vingue o incêndio, há a incerteza que virá com a nova e provável eleição no país.

A incerteza provoca medo, mesmo que materialmente agora a Grécia seja um problema um tanto menor.

Os donos do dinheiro grosso estão desconfiados de que a vitória dos socialistas na França vai colocar água no pacto europeu contra dívidas e deficit de governos. Não deve acontecer grande coisa, mas o fato de a finança mundial voltar à retranca, segurando dinheiro, cobrando mais por ele, pode ser a gota d"água fatal para quem já está com água pelo nariz. Mesmo que não seja, está "todo mundo" (com dinheiro grande) pensando nisso.

O medo retrai os donos do dinheiro, o que provoca mais medo -há uma bolinha de neve rolando por esses dias.

Pode haver "solução feliz" para o medo do mercado diante da reação das urnas? Isto é, uma solução que combine retomada relevante do gasto e investimento público na Europa sem retaliação da finança? Sabe-se lá, mas os entendidos dizem que isso seria viável apenas se os governos europeus "à esquerda" (França) e/ou desesperados (Espanha, Itália) oferecessem "reformas" de peso.

Isto é, mudanças no sistema de previdência, desmonte das leis trabalhistas, capitalização dos bancos europeus mortos-vivos. Vai acontecer? Os socialistas franceses desmanchando o Estado de Bem-Estar Social? Uhm.

Dê no que der, há combustível para pelo menos uns dois meses de tumulto: haverá cúpulas europeias, eleição parlamentar na França, talvez nova eleição na Grécia. Talvez a virada greco-francesa estimule mais protestos em outros países. Isso já dá pano para manga. E molho para bancos e empresas daqui colocarem suas barbas.

Fonte: Folha de S. Paulo

As contas de Hollande:: Rolf Kuntz

Grandes contas a pagar esperam o novo governo francês e essa deve ser uma das primeiras preocupações do recém-eleito François Hollande. A economia francesa deve crescer 0,5% neste ano e 1% no próximo, segundo projeção do Fundo Monetário Internacional (FMI). Para manter os livros em dia, o governo precisará do equivalente a 18,2% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2012. Será o indispensável para cobrir os vencimentos do ano e o buraco do orçamento. Para 2013, a necessidade estimada é de 19,5%. Hollande conquistou a presidência prometendo mais crescimento, menos arrocho e uma revisão do pacto fiscal assinado por 25 dos 27 governos da União Europeia. Falta explicar como vai cumprir as promessas e, naturalmente, convencer os credores. Para isso precisará de um entendimento com o governo alemão.

A primeira-ministra alemã, Angela Merkel, também enfrenta descontentamento e riscos eleitorais, mas seus problemas econômicos são muito menores. O crescimento previsto para este ano, 0,6%, é pouco maior que o projetado para a França, mas talvez seja preciso elevar a estimativa. A produção industrial cresceu 2,8% de fevereiro para março, descontados os fatores sazonais, e ficou 1,6% acima do nível de um ano antes. A fabricação de bens de consumo aumentou 3% no mês e a de bens de capital, 2%. A situação fiscal também é muito mais confortável. O Tesouro alemão precisará captar o equivalente a 8,9% do PIB em 2012 e 8,5% em 2013, se as projeções do FMI se confirmarem. Se a expansão econômica for maior, o acerto das contas será mais fácil.

A eleição francesa foi interpretada - e saudada por muitos - como o fim da era Merkozy e o provável começo de uma revisão das políticas da zona do euro. Pode ser, mas o governo alemão, apoiado numa economia bem mais saudável que a dos parceiros, poderá negociar duramente cada proposta de mudança. Por enquanto, a chanceler Angela Merkel descarta uma revisão do pacto fiscal e dos compromissos de curto prazo assumidos pelos governos mais dependentes de ajuda.

Se os critérios forem afrouxados - este foi o primeiro argumento -, os gregos vão cobrar uma revisão do acordo com a União Europeia, o Banco Central Europeu (BCE) e o FMI. Nesta terça-feira, no entanto, os gregos não dispunham sequer de um governo para cuidar da economia nem para conversar com os credores. Ao longo do dia, os mercados refletiram as preocupações com a indefinição política grega.

A Grécia, segundo havia dito na véspera um funcionário citado pela Dow Jones, tem dinheiro para se manter até julho. Mas não há nada tranquilizador nessa informação. O país deve receber neste mês pouco mais de 5 bilhões do segundo pacote de ajuda, mas quem vai assinar o papel? Dois dias depois da eleição parlamentar, ainda não havia uma resposta. A eleição havia desmontado um governo, mas sem arranjar um substituto e reforçando as dúvidas quanto à permanência do país na zona do euro.

A crise grega pode preocupar e reacender o temor de um ou mais calotes, mas François Hollande vai depender de si mesmo, e não de uma parceria com os gregos, para impor um novo padrão de ajuste à França e à zona do euro - porque não poderá desconhecer os compromissos do bloco. Infinitamente mais importante será um entendimento com o presidente do BCE, Mario Draghi, favorável à criação de um mercado comum para os títulos da zona do euro.

Analistas têm lembrado a longa relação de governos derrubados por eleitores descontentes com a austeridade, mas parecem esquecer um detalhe: nenhum novo governo anunciou uma reviravolta na política econômica. O atual governo português segue uma política tão dura quanto a defendida pelo antecessor. O espanhol reafirmou os compromissos de arrumação orçamentária e continua discutindo a reforma dos bancos. Pior que isso: nesta terça-feira os mercados ainda avaliavam a hipótese de uma ajuda oficial ao Bankia, terceiro maior grupo financeiro espanhol. Em resumo: todos os novos governantes se enquadraram. O de maior prestígio, o primeiro-ministro Mario Monti, da Itália, tem reforçado o discurso a favor de mais crescimento, mas sua primeira providência foi negociar um severo pacote de ajuste fiscal e de reformas.

Na prática, ninguém foi adiante da agenda proposta pelo FMI e reafirmada por sua diretora-gerente, Christine Lagarde, num discurso na segunda-feira: combinar um programa de ajuste de médio prazo, sério e confiável, com medidas para aceleração do crescimento. Isso é mais do que os alemães têm aceitado discutir, mas a influência do Fundo pode pesar nas decisões. Credibilidade continua sendo essencial, exceto se os governos se dispuserem a encarar o mercado e ver quem pisca primeiro. Será um espetáculo interessantíssimo.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Indústria e commodities aumentam dependência do PIB ao consumo::Jarbas de Holanda

Indicadores básicos do desempenho da economia no primeiro quadrimestre conflitam com as expectativas da presidente Dilma Rousseff de uma retomada do crescimento no período como etapa de sua prioridade essencial: um PIB de 4,5% em 2012 (que o ministro Mantega, da Fazenda, já procura reduzir para 4%), após a frustração de apenas 2,7% no ano passado. As manchetes dos cadernos de economia dos últimos dias destacam a queda de 0,5% de produção industrial em março, de par com a das exportações de commodities – de 8% do volume na comparação de abril de 2012 com o de 2011 – bem como de seus preços. E em abril, na mesma comparação, houve um recuo do conjunto das exportações, com exceção das vendas de petróleo para os EUA: de menos 8,5% para a União Europeia e de 27% das destinadas à Argentina, sob efeito também da escalada protecionista do governo Cristina Kirchner. Já a principal manchete de ontem do Estado de S. Paulo foi “Estoque dispara e montadoras param produ-ção aos sábados”. Os indicadores correspondentes à produção industrial como um todo mostram a ausência ou influência mínima até agora do processo de queda da Selic, iniciado há quase nove meses, e da ofensiva mais recente para a redução dos juros do sistema fi-nanceiro privado.

“Modelo esgotado” e carga tributária – Uma das me-lhores avaliações das causas do problema foi feita em editorial da Folha de S. Paulo, de anteontem, com o tí-tulo entre aspas acima. Trechos: “Acumulam-se evi-dências de que a volta do crescimento será lenta. Con-trariando as expectativas, a produção industrial teve queda de 3% no primeiro trimestre, sobre o mesmo pe-ríodo de 2011...”. “Apenas o consumo de bens não du-ráveis permanece robusto, impulsionado pelo aumento de renda e pela queda da inflação. Mas, sozinho, não é suficiente para compensar o recuo em outros setores. Por isso, salvo uma recuperação muito forte no segun-do semestre, há risco real de crescimento do PIB infe-rior a 3% este ano”. “A letargia da atividade econômica vai além de um fenômeno cíclico. Há esgotamento do modelo de expansão baseado no crédito ao consumo e na alta de preços das commodities exportadas. Ne-nhum outro setor parece ter condições de substituir es-sa dupla. O candidato óbvio a novo motor da economia seria o investimento que, no entanto, permanece abai-xo de 20% do PIB, uma das menores taxas entre todos os países emergentes”. “Há anos o país espera, em vão, que o governo federal controle seus gastos, o que em tese permitiria estancar o crescimento da arrecada-ção e reduzir a carga tributária”.

Não obstante haja a presidente – em recente encon-tro com empresários – reconhecido que os “impostos altos” têm-se somado às elevadas taxas de juros e ao câmbio como a terceira das “amarras” que obstruem o crescimento, em lugar de passos efetivos no sentido de uma reforma fiscal ampla (que nada tem a ver com medidas pontuais e seletivas em favor de algumas ati-vidades) as respostas concretas do governo a tais indi-cadores negativos centram-se em ações voltadas à du-plicação do consumo. Por meio de estímulos creditícios e do aumento dos gastos públicos (com o gigantismo estatal e o assistencialismo). Combinados com práticas protecionistas contra produtos estrangeiros cujo espaço no mercado interno é ampliado pela baixa competitivi-dade de nossa economia, em particular da produção industrial. Decorrente, sobretudo, dos enormes custos da carga tributária, que aumenta ano a ano, e também das trabalhistas (no contexto de uma globalização de mercados dominada por exportações asiáticas, sobre-tudo chinesas, produzidas com um custo muito menor da mão de obra). Quanto aos gastos públicos, ganha-rão novo incremento no próximo domingo, dia das Mães, com o anúncio pela presidente de um pacote de ampliação dos benefícios do Bolsa Família, de Lula, agora articulado com o programa dilmista Brasil sem Miséria.

Pacote esse que servirá, de um lado, como parte das medidas de incremento do consumo, à meta de expansão do PIB prometida pela presidente, e, de ou-tro, a objetivos políticos e eleitorais dela própria e do ex-presidente. Objetivos que incluem também ações li-gadas à economia, como a responsabilização exclusiva dos banqueiros pelos juros altos. E se estendem da uti-lização do marketing ético da chefe do governo, con-traposta a políticos corruptos ou ineficientes, e do es-forço da presidente e do seu antecessor para restringir a oposicionistas o alcance da CPMI recentemente ins-talada, até o empenho maior do lulopetismo neste ano eleitoral para protelar e esvaziar o julgamento do men-salão.

Jarbas de Holanda é jornalista

Grécia à deriva força Europa a apostar no crescimento já

Os mercados globais reagiram assustados ontem à crise política grega. O líder da Coalizão da Esquerda Radical, Alexis Tsipras, defendeu que as medidas de austeridade com cortes de €11 bilhões fossem rejeitadas, o que poria a perder o socorro do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da União Européia. Sem acordo, pode haver novas eleições no país em junho. As bolsas de Londres, Frankfurt e Paris recuaram, e o euro registrou seu pior patamar nos últimos três meses frente ao dólar. A Comissão Europeia chegou a propor uma reunião de emergência para 23 de maio para discutir a crise, levando em consideração o resultado das urnas na Grécia e na França, que elegeu o socialista François Hollande. Mas a proposta acabou não sendo aprovada, e a reunião de cúpula do grupo em 28 de junho está mantida. De qualquer forma, a Comissão Europeia, defensora da austeridade, quer consenso para incluir a agenda do crescimento econômico nas discussões, o que significa uma mudança importante de tom

Odisseia grega derruba mercados

Ameaça de rompimento com UE e FMI faz Bolsa de SP cair 1,4% e dólar subir a R$ 1,939

Bruno Villas Bôas*

O RECADO DAS URNAS EUROPEIAS

RIO, ATENAS, LONDRES e NOVA YORK - Os mercados operaram com fortes perdas ontem pelo mundo, com euro e commodities também em queda, em meio a crescente preocupação dos investidores sobre o impasse político na Grécia. O líder da Coalizão da Esquerda Radical (Syriza), Alexis Tsipras, defendeu ontem o não cumprimento do acordo fechado com União Europeia (UE) e Fundo Monetário Internacional (FMI), além da suspensão de medidas prejudiciais aos trabalhadores, como demissões e cortes salariais. Se até amanhã Tsipras não formar um governo de coalizão com os partidos socialista (Pasok) e conservador (Nova Democracia), com cujos líderes ele se reunirá hoje, é quase certo que a Grécia convoque novas eleições no mês que vem. O resultado das eleições na Grécia e na França - onde o socialista François Hollande derrotou Nicolas Sarkozy, aliado da Alemanha na implantação de uma política de austeridade - levou a Comissão Europeia, órgão executivo da UE, a colocar na agenda a discussão sobre como estimular o crescimento econômico. A UE chegou a considerar ainda a convocação de uma reunião emergencial de líderes para o dia 23 de maio, mas a ideia não foi adiante.

Tsipras pediu aos líderes do Pasok e do Nova Democracia que enviem cartas à UE e ao FMI cancelando o acordo que garantiu o socorro à Grécia. Isso significaria que o país não adotaria cortes adicionais de 11 bilhões no mês que vem, condição para que continue recebendo os recursos de UE e FMI.

- O resultado das eleições gregas foi um voto contra um socorro bárbaro - disse Tsipras na TV grega. - Não haverá medidas adicionais de austeridade de 11 bilhões, e não serão eliminados 150 mil empregos.

Para analista, Grécia deixará o euro

Na Europa, os mercados tiveram a maior queda em quatro meses. Recuaram as Bolsa de Londres (1,78%), Paris (2,78%), Frankfurt (1,90%), Madri (0,80%) e Milão (2,37%). A Bolsa de Atenas, que na véspera despencara quase 7%, recuou 3,62% e atingiu o menor patamar em duas décadas.

A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) fechou no menor patamar em quase quatro meses, tendo operado abaixo dos 60 mil pontos pela manhã. O Ibovespa, seu índice de referência, recuou 1,40%, aos 60.365 pontos, influenciado pela queda das commodities.

- O mercado teme que o impasse atrapalhe a liberação das próximas parcelas da ajuda à Grécia, que precisa cumprir metas de cortes de gastos. O FMI disse que vai aguardar a formação de um novo governo para ir ao país. Isso pode precipitar a saída da Grécia da zona do euro e cria uma percepção negativa para outras nações, como Espanha, Portugal e Irlanda - disse Eduardo Velho, economista-chefe da Prosper Corretora.

Também mexeram com o mercado as declarações do analista do fundo hedge FX Concepts John Taylor, para quem a Grécia abandonará o euro, provavelmente, em junho.

- Os europeus não lhes darão mais dinheiro, o FMI não vai mais lhes dar o sinal verde. Eles ficarão sem recursos em junho - disse Taylor à Bloomberg TV.

Sem indicadores capazes de mudar o clima no mercado, o Standard & Poor"s 500, que reúne as principais empresas dos Estados Unidos, recuou 0,43% e registrou sua menor pontuação em um mês. O Dow Jones caiu 0,59% e o Nasdaq, 0,39%.

Os temores sobre a Grécia atraíram investidores para os títulos do Tesouro americano, os Treasuries. O dólar avançou, assim, 0,94%, a R$ 1,939. É o maior valor desde 14 de julho de 2009 (R$ 1,969). O movimento acompanhou a oscilação do euro, que recuou 0,47%, a R$ 1,299. Foi o sétimo pregão seguido de baixa, maior sequência desde setembro de 2008. Lá fora, o euro recuou 0,4% frente ao dólar, a US$ 1,305, o menor patamar em três meses.

- A Grécia voltou a assombrar e, desta vez, o mercado americano não ajudou a segurar a queda das bolsas - disse Carlos Augusto Nielebock, especialista em bolsa da Icap Brasil.

Tsipras ainda ganhou um curioso aliado na luta contra a austeridade: Charles Dallara, diretor do Instituto de Finanças Internacionais (IIF, na sigla em inglês), que representou os bancos na renegociação da dívida grega. Em entrevista à rede americana CNBC, ele disse que é preciso ajustar o foco à realidade econômica.

- O foco ficou por demais concentrado em cortes orçamentários de curto prazo, o que criou o sentimento de que a situação não tem saída - disse Dallara. - Acho que a Alemanha terá de reavaliar a atual estratégia.

No mercado brasileiro, a queda dos preços das commodities ajudou a derrubar as principais ações da Bolsa, como Vale PNA (-2,53%) e Petrobras PN (-1,55%). Das 68 ações que compõem o índice, apenas 11 fecharam em alta.

Os principais vendedores foram investidores estrangeiros, representados por corretoras como Morgan Stanley, Merrill Lynch e HSBC, com vendas de R$ 192,7 milhões, R$ 62,7 milhões e R$ 57,4 milhões, respectivamente. Segundo operadores, a queda foi intensificada pelo disparo de ordens automáticas de venda de ações, instrumento usado para evitar perdas maiores.

Para Fernando Goes, analista da Octo Investimentos, o Ibovespa não recuou mais porque há um ponto de resistência do mercado nos 60 mil pontos. Abaixo desse patamar, investidores acham que os papéis estão baratos e voltam a comprá-los. Se esse suporte for perdido, o Ibovespa pode voltar aos 56.500 pontos, eliminando a recuperação das ações no ano.

- A tendência de alta do mercado morreu. Existe agora uma resistência para a Bolsa subir além dos 61 mil pontos - disse Goes.

(*) Com agências internacionais

Fonte: O Globo

Risco geopolítico :: Carlos Lessa

Poucas coisas, para mim, são mais satisfatórias do que ler um artigo que gostaria de haver escrito. Reinaldo Gonçalves publicou no número 31 da Revista da Sociedade Brasileira de Economia Política um artigo que alcunha de "nacional-desenvolvimentismo às avessas", a trajetória econômica do Brasil no novo milênio. Sintetiza nacional-desenvolvimentismo como um projeto "de desenvolvimento econômico, assentado na industrialização e na soberania dos países latino-americanos". Desdobra o desempenho brasileiro nas últimas décadas como um desempenho no qual a economia, as estruturas de produção, o comércio exterior e a propriedade do ativo produtivo caminharam no sentindo contrário ao projeto que animou o Brasil de 1930 a 1980.

Gonçalves, de forma rigorosa, mostra que houve redução na participação da indústria de transformação no Produto Interno Bruto (PIB). O Brasil perdeu participação no panorama industrial mundial. Mostra, de forma inequívoca, que o que cresce no país é o valor adicionado da mineração e da agropecuária. A política econômica foi orientada para a liberalização comercial, e o coeficiente de importações em relação ao consumo aparente cresceu de forma sistemática entre 2002 e 2010.

A participação dos manufaturados caiu no valor das exportações, e houve a queda assustadora da dos produtos altamente intensivos em tecnologia entre 2002 e 2010. Todas as indicações mostram aumento de dependência tecnológica. A diferença entre o valor de importações e bens intensivos em tecnologia, exportações brasileiras destes bens, evoluiu de US$ 19,3 bilhões em 2002 para US$ 85 bilhões em 2010.

São precárias nossas salvaguardas ante uma crise mundial que inexoravelmente produzirá mudanças

Houve uma dramática perda de competitividade internacional; aumentou a vulnerabilidade externa, houve concentração de capital e explosão da lucratividade dos bancos. A rentabilidade "lucro/patrimônio líquido" dos 50 maiores bancos no Brasil é de 17,5% ao ano entre 2003/10.

Enquanto isso, a rentabilidade das 500 maiores empresas industriais foi de 11% ao ano. Brasil e Turquia são os dois países que têm os mais elevados custos de dívida pública nas 24 principais economias do mundo. Nestes países, custo médio da dívida é de 4%, enquanto no Brasil é de 8,6%. A relação entre pagamento de juros de dívida pública e do PIB no Brasil apenas é superada pela Grécia, sendo que a média dos 24 países é 2%, enquanto que a brasileira é 51%. Quem quiser conhecer em detalhe, leia este artigo.

São corretas as advertências que os dirigentes da política econômica estão fazendo aos bancos privados, porém claramente insuficientes. O ministro Guido Mantega advertiu no Fundo Monetário Internacional (FMI) que "o Brasil fará de tudo para impedir" o ingresso de capital de curto prazo especulativo. Porém, anunciou que não descarta o controle de capitais voláteis. Isso se faz sem advertência. É correto baixar juros; aumentar a competição dos bancos públicos; barrar capitais do exterior que se nutrem no nosso juro excessivo; tocar para frente o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Porém, tudo isso chega a conta-gotas e de forma tímida. Em um cenário em que a crise mundial se desdobra na Europa, há redução do crescimento da China (o FMI advertiu que a alta das commodities será interrompida), não se deve cutucar a onça com vara curta. São precárias as salvaguardas brasileiras ante uma crise mundial que inexoravelmente produzirá mudança de sinal no balanço de pagamentos brasileiro. Há um discurso eufórico que desconhece vulnerabilidades. Nas palavras de Gonçalves: "É visível a crescente vulnerabilidade externa estrutural brasileira em função do aumento do passivo externo financeiro".

A Argentina expropriou a YPF. Luiz Carlos Bresser-Pereira publicou na "Folha de São Paulo", no dia 23, um brilhante artigo: "A Argentina tem razão". A mídia internacional chegou a falar "de um tribunal internacional". 62% dos argentinos apoiam a medida. O FMI declarou que a matéria é de soberania. Não mergulharei em detalhes sobre a escandalosa privatização da YPF feita pelo neoliberal Carlos Menem. É incrível nenhum tribunal internacional ter se pronunciado sobre a auditoria externa que "escandalosamente" subestimou (para baratear) o patrimônio estatal argentino. Bresser-Pereira mostra a competência do governo argentino nessa medida.

Diz: "Não faz sentido deixar sob o controle estrangeiro um setor estratégico para o desenvolvimento do país". Se a recuperação pela Argentina de um ativo estratégico gera tal reação, nós brasileiros deveríamos, de forma inequívoca, nos aliar ao país irmão. Argentina solicitou à Maria das Graças Foster, presidente da Petrobras, que o Brasil aumentasse sua participação na produção de petróleo na Argentina de 8% para 15% (a principal razão da expropriação foi a medíocre atuação da Repsol em produção de petróleo na Argentina). Além das óbvias implicações no balanço de pagamentos, a Argentina, um país de clima temperado, necessita manter suas residências aquecidas no inverno, lhe é vital aumentar sua disponibilidade energética. Desconheço detalhes, mas pelo menos uma empresa chinesa foi convocada pela Argentina. Nesta questão, o Brasil não deveria vacilar em apoiar o país irmão.

A política de outorga de lotes nas reservas brasileiras, e principalmente concessões no pré-sal, é para o Brasil um erro estratégico. Sei que durante o governo Lula e no atual o Brasil conseguiu colocar um brasileiro no 6º (ou 8º) lugar na lista de maiores fortunas mundiais. O interessante é que esse salto aconteceu sem a produção de nada, apenas metamorfoses patrimoniais consagradas pela valorização de ações do empreendedor vendidas a capitais internacionais. Faz um estranho contraponto com a correta elevação do poder de compra do salário mínimo real colocar uma fortuna brasileira baseada em valorização de lotes de petróleo no pódio dos grandes patrimônios individuais. Façamos votos para que no futuro não tenhamos que enfrentar a maldição de país primário-exportador de petróleo. Ainda é tempo para não expor a soberania de um país que, no Atlântico Sul, pode vir a ser "dono" da terceira maior reserva mundial de petróleo. Há enorme risco geopolítico nessa matéria.

Carlos Francisco Theodoro Machado Ribeiro de Lessa é professor emérito de economia brasileira e ex-reitor da UFRJ. Foi presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES.

Fonte: Valor Econômico

Esquerda x esquerda:: Francisco Bosco

De saída, um protesto: que alguns tenham estranhado publicamente o fato de Roberto Schwarz ter demorado 15 anos para escrever sobre “verdade tropical” atesta o quão avançada está a lógica jornalística da “ordem do dia”, a ponto de se evocá-la mesmo diante de um acontecimento inequívoco de pensamento. Isso só confirma o diagnóstico do filósofo Christoph Türcke, de que vivemos numa “sociedade excitada”, viciados em estímulos que se exaurem rapidamente e exigem substituição. Ora, o pensamento não obedece a essa lógica. O pensamento não deve chegar a tempo, mas no tempo, cujo sentido ele tem por tarefa revelar (daí a relação estabelecida por Agamben entre o contemporâneo e o inatual). Assim, não apenas Schwarz, com o atraso constitutivo do pensamento (e sua mundialmente reconhecida inteligência), abre e revela o tempo histórico da matéria narrada por seu objeto, como essa abertura se mostra absolutamente contemporânea: as questões em jogo permanecem vivas e irresolvidas.

O ensaio de Schwarz, reunido no livro “Martinha versus Lucrecia”, divide-se em dois tempos. No primeiro , um Caetano jovem e provinciano alia-se ao desejo das artes de “romper com a herança colonial de segregações sociais e culturais (...) e saltar para a linha de frente da arte moderna, fundindo revolução social e estética”. É o momento, anterior ao golpe de 64, em que se deu o “encontro explosivo” de “experimentalismo artístico sem fronteiras nacionais, subdesenvolvimento, radicalização política, cultura popular onipresente e província, além da hipótese socialista no horizonte”. Esse Caetano, percebido como alinhado às posições da esquerda da época, merece do intérprete elogios em abundância.

O idílio entre o narrador e seu intérprete é quebrado no segundo tempo do ensaio, cujo marco instaurador é a reação crítica de Caetano a uma cena do filme “Terra em transe”. Nela, o jornalista e revolucionário Paulo Martins cala a boca de um líder sindical servil e interpela o público: “Estão vendo quem é o povo? Um analfabeto, um imbecil, um despolitizado!”. Aí onde Schwarz vê um “beco histórico”, um impasse para a revolução (sem que as condições objetivas estruturais do país tivessem se atenuado; pelo contrário), Caetano viu “a morte do populismo”, com efeitos liberadores para sua interpretação e ação sobre a realidade. Schwarz lê a passagem como uma apostasia, a partir da qual Caetano se opõe ao campo da esquerda revolucionária. O tropicalismo se originaria aí, como primeiro movimento pós-moderno, “nascido já no chão da derrota do socialismo”. O astro pop nasce de uma desobrigação com a dívida social histórica com os desfavorecidos, e daí em diante aliar-se-ia ao mercado.

Discordo da interpretação. A própria divisão nítida entre um Caetano pré e outro pós-64 soa forçada. Caetano foi herdeiro de primeira hora da bossa nova, e sua revolução harmoniosa, capaz de integrar esteticamente o local e o cosmopolita, a modernidade e a tradição, cultura popular e vanguarda, pobres e ricos – foi desde o início seu modelo a ser seguido politicamente, como utopia de civilização (o Brasil precisa estar à altura da bossa nova, ele diria repetidamente). Schwarz não o ignora, mas também não percebe que esse modelo já se coadunava mal com o da esquerda convencional, de revoluções sangrentas e consecutivos regimes totalitários. E no fundo é esse e centro da questão: Caetano foi, antes e depois de 64, e continua sendo, um sujeito de esquerda crítico da esquerda. À altura de 64, os sistemas totalitários em que se tinham transformado todas as experiências do socialismo real já eram conhecidos.

Schwarz insiste, ao longo do ensaio, em afirmar que Caetano se sente à vontade no atrito, mas é avesso ao antagonismo. Nessa afirmação, o termo antagonismo é valorizado, ao mesmo tempo em que é concebido unicamente como sendo aquele a opor esquerda e direita, revolução e conservadorismo. Mas são precisamente esses termos que Caetano questiona, mantendo a negatividade (o tropicalismo, como Schwarz o reconhece, é “francamente negativo”), mas recusando traços da esquerda, tais como: certo paternalismo com a experiência popular (o que ele chama de “populismo”); a obtusidade em estética (tema do célebre discurso no festival de 68), comportamento, sexualidade; e o totalitarismo que a experiência histórica mostrou ser um devir provável do espírito revolucionário (no lugar do qual ele deseja uma revolução estrutural que não cobre os mesmo brutais custos em vidas, daí hoje seu interesse por Mangabeira Unger, que procura desenhar um processo nesses termos). Que esse desejo possa ser inviável, ou mesmo ingênuo, não o lança no campo oposto. É de se perguntar se a impossibilidade de Schwarz reconhecer a legitimidade dessa crítica não acaba por confirmar a intolerância histórica da esquerda para com a diferença.

Esse debate me concerne vivamente. Considero-me um sujeito de esquerda, mas com uma forte exigência de respeito por liberdades individuais. Que o liberalismo cada vez mais demonstre o descalibre de sua balança, em que a liberdade de alguns se dá ao custo da grande desigualdade entre todos, isso não anula o fato de que a esquerda não conseguiu dar uma resposta real ao desejo de que a igualdade entre todos não comprometa a liberdade de cada um. Dizer isso não implica sair de seu campo. A recomendação de Schwarz serve a ele mesmo: é preciso distinguir “entre antagonismos secundários e principais, adversários próximos e inimigos propriamente ditos”.

Fonte: Segundo Caderno/O Globo, 2/5/2012.

Crônica - Leandro Konder ou sambando na Alemanha:: Ivan Alves Filho

Eu só fui entender o verdadeiro sentido da palavra impacto quando, desembarcando da França, cheguei à cidade de Colônia, na Alemanha, e me vi estatelado diante daquele esplendor: a catedral toda de negro vestida, imensa, tocando quase no céu, ali estava, plantada à minha frente, à saída da estaçãozinha de trem. Uma muralha de fé aquela Catedral.

Começava para mim uma vida nova, que iria me conduzir a vários pontos da Alemanha, um país então ainda marcado pela guerra. Muitos brasileiros vivam em Colônia naquela época – início dos 70 – e, acredito, gostavam da dia a dia na cidade.

Formado por pessoas da melhor qualidade, o nosso grupo de Colônia era para lá de bom. Senão vejamos. Leandro Konder, Oswaldo Peralva, José Arthur Poerner, João Marschner, Samuel Yavelberg, Wambier, apenas para citar alguns. Era um grupo excelente e também muito unido. Quase todos nós tínhamos sido tocados do Brasil pela ditadura e fazíamos das tripas coração para sobreviver na Alemanha. Samuel era fotógrafo. Poerner trabalhava na Rádio oficial, a Deutsche Welle. Marschner era correspondente do Estadão. Tinha a turma que se virava na fábrica, como Paulão e eu, improvisado de operário numa grande gráfica, onde labutava doze horas por dia, das 18h às 6h do dia seguinte.

Leandro Konder, que dava aulas e trabalhava para a revista Visão, era um dos mais animados do grupo. Figura sempre afável e modesta, Leandro costumava embalar as noites frias da Alemanha com um quentíssimo samba-enredo, que compusera em parceria com Carlos Nelson Coutinho. Com voz afiada, cantava a letra do samba – intitulado, muito apropriadamente, O proletariado é o herdeiro da filosofia clássica alemã, se não me trai a memória -, um verdadeiro primor, que nada ficava a dever ao saudoso Stanislaw Ponte Preta. Ao que parece, a melodia era plágio de um samba famoso, mas deixa pra lá. Vamos ao que nos une, isto é, à letra do samba:

“Quando veio a burguesia,
O velho Kant se pôs a filosofar
E chegou um belo dia
A elaborar
O seu
idealismo racional,
Onde a gnoseologia
Não juntava com a moral.
Mesmo sendo uma tremenda antinomia
Fez-se um progresso na filosofia”

E o belo refrão:

“O proletariado não quer
Perder de vista esta lição:
A experiência do idealismo
Clássico alemão ”

E o samba continuava, firme no compasso:

“Hegel foi quem resolveu esse problema,
Uniu a Lógica e a História
Numa grande ontologia,
Que fez sua glória.
Ao seu idealismo genial
Dinâmico e totalizante
Mais profundo que o de Kant
Só faltava a dimensão materialista
Que lhe daria a práxis marxista”

Como se vê, um samba dialético e uma herança para proletariado nenhum botar defeito. E, de quebra, endoidar qualquer alemão, também.

Enquanto a chuva cai:: Manuel Bandeira

A chuva cai. O ar fica mole . . .
Indistinto . . . ambarino . . . gris . . .
E no monótono matiz
Da névoa enovelada bole
A folhagem como o bailar.

Torvelinhai, torrentes do ar!

Cantai, ó bátega chorosa,
As velhas árias funerais.
Minh'alma sofre e sonha e goza
À cantilena dos beirais.

Meu coração está sedento
De tão ardido pelo pranto.
Dai um brando acompanhamento
À canção do meu desencanto.

Volúpia dos abandonados . . .
Dos sós . . . — ouvir a água escorrer,
Lavando o tédio dos telhados
Que se sentem envelhecer . . .

Ó caro ruído embalador,
Terno como a canção das amas!
Canta as baladas que mais amas,
Para embalar a minha dor!

A chuva cai. A chuva aumenta.
Cai, benfazeja, a bom cair!
Contenta as árvores! Contenta
As sementes que vão abrir!

Eu te bendigo, água que inundas!
Ó água amiga das raízes,
Que na mudez das terras fundas
Às vezes são tão infelizes!

E eu te amo! Quer quando fustigas
Ao sopro mau dos vendavais
As grandes árvores antigas,
Quer quando mansamente cais.

É que na tua voz selvagem,
Voz de cortante, álgida mágoa,
Aprendi na cidade a ouvir
Como um eco que vem na aragem
A estrugir, rugir e mugir,
O lamento das quedas-d'água!