O Estado de S. Paulo
No mundo online ou offline, nenhuma democracia conseguirá enfrentar isoladamente um autoritarismo que opera globalmente
Encontros realizados por uma articulação
global do campo progressista nos últimos meses, em Barcelona e no Uruguai, nos
revelam que o crescimento das ameaças às democracias já não pode ser enfrentado
exclusivamente dentro das fronteiras nacionais.
O avanço da extrema direita, a disseminação coordenada da desinformação, o enfraquecimento das instituições democráticas, a violência política e a captura dos espaços públicos por interesses econômicos e tecnológicos compõem hoje um cenário internacional de instabilidade persistente.
Esse cenário não se explica apenas pela força
crescente do autoritarismo. Ele revela uma crise mais profunda das democracias
contemporâneas, de pertencimento, representação e participação social.
Milhões de pessoas sentem que perderam capacidade de influência sobre os rumos de suas próprias sociedades e têm a percepção de que as decisões políticas são tomadas cada vez mais longe de suas vidas. Sentem que a democracia deixou de produzir uma perspectiva de futuro.
Nesse vazio, a extrema direita compreendeu
que a política não se disputa apenas por meio de programas ou instituições, mas
também no campo dos afetos, da identidade e da imaginação coletiva.
Mesmo que reconheçamos os avanços
civilizatórios conquistados na democracia, passamos anos focados meramente na
gestão institucional desse sistema, sem responder às inseguranças do presente
ou de trabalhar a participação social como parte da infraestrutura democrática.
Conselhos, conferências, sindicatos,
movimentos populares, organizações comunitárias e espaços públicos de
deliberação cumprem papel fundamental na construção de legitimidade política,
na mediação de conflitos sociais e na continuidade de políticas públicas.
Não por acaso, projetos autoritários atacam
sistematicamente esses espaços e novas formas de desestabilização democrática
se consolidam globalmente, como a desinformação, que se tornou uma poderosa
ferramenta política transnacional.
Plataformas digitais concentraram enorme
capacidade de influência. Narrativas autoritárias buscam produzir desconfiança
generalizada, fragmentação social e destruição de referências comuns.
No mundo online ou offline, nenhuma
democracia conseguirá enfrentar isoladamente um autoritarismo que opera
globalmente. Justamente por isso, iniciativas internacionais de articulação
democrática se tornaram tão importantes.
O encontro realizado em abril em Barcelona
representou um primeiro passo nessa direção, e simbolizou a percepção crescente
de que democracias precisam construir mecanismos permanentes de cooperação
política, social e institucional para enfrentar ameaças comuns, com
participação social capaz de sobreviver às mudanças de governo.
O próximo encontro, no ano que vem, no
México, trará uma responsabilidade ainda maior. Será necessário consolidar
capacidade política, aprofundar compromissos concretos e ampliar o protagonismo
das organizações da sociedade civil na construção dessa agenda internacional.
Movimentos sociais, sindicatos, organizações
comunitárias, universidades, jornalistas, coletivos populares e defensores de
direitos humanos não podem ocupar apenas um lugar simbólico nesses espaços
internacionais. Precisam ter voz efetiva, capacidade de formulação e poder real
de incidência política.
A extrema direita cresce porque oferece
identidade, pertencimento e explicações simples para sociedades atravessadas
por medo, precarização e insegurança. As forças democráticas respondem apenas
com gestão, defesa abstrata e moderação institucional. E isso é insuficiente.
As democracias precisam voltar a produzir horizonte histórico e mobilizar
esperança coletiva em escala social.
Por isso, é imprescindível que nos
organizemos para disputar a democracia que queremos, aquela que garanta
melhorias reais na vida das pessoas, que possibilite cargas de trabalho mais
dignas, direito à cultura e ao lazer, melhor distribuição de renda. Que
possibilite que as pessoas voltem a sonhar e conectem a política à vida
cotidiana.
Precisamos ser capazes de imaginar modelos de
desenvolvimento socialmente justos, transições ecológicas democráticas, novas
formas de participação popular, redução radical das desigualdades e
reconstrução do sentido coletivo da política.
O encontro do México será importante
justamente porque poderá representar a passagem decisiva da resistência
democrática para a reconstrução de um projeto democrático de futuro.
Barcelona plantou uma semente. O que será
feito dela dependerá da capacidade do campo progressista e da sociedade civil
de assumirem riscos políticos, ampliarem sua capacidade de articulação
internacional e, sobretudo, de recuperarem coragem de imaginar mundos
radicalmente diferentes.
Talvez, a principal disputa do século 21 seja
exatamente essa: quem será capaz de reconstruir esperança coletiva em
sociedades atravessadas pelo medo?
A democracia precisa volta a ser um projeto
de futuro.
*Diretor-Executivo do Instituto Vladimir Herzog

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