Folha de S. Paulo
Brasileiros querem juros, estrangeiros querem
IA e economia é precária e instável
Em abril, propaganda ingênua ou marqueteira
era de Ibovespa além de 200 mil pontos
O Brasil era o "queridinho do
mercado" em abril, expressão cafona que resumia o fato de que parte da
finança do mundo pingava dinheiro por aqui. Era o que aparecia em relatórios de
bancões e em falações de brasileiros mais deslumbrados ou interessados que
passavam pela reunião
de primavera do FMI, naquele mês. O Ibovespa chegava então ao pico de 198
mil pontos e uns quebrados.
A mania murchou em junho. Em agosto, o índice baixou à casa dos 167 mil pontos, queda de uns 15%. O clichê da vez é que "o mercado" entrou no "modo eleição".
Os "estrangeiros"
estão tirando dinheiro das ações brasileiras, mas o saldo acumulado no ano
ainda é positivo. A participação deles no valor da Bolsa ainda anda pela casa
dos 60% a que
chegou na virada para 2025, "recorde". Quem não acreditou na
história do "queridinho" foram investidores institucionais e pessoas
físicas daqui. Saem da Bolsa, se por mais não fosse porque têm opções e taxas
rendosas na renda fixa. Difícil dar peso para ações em um país com juro real de
um ano em torno de 9,5% —não dá para acreditar no país.
Em si mesma, essa baixa diz pouco sobre a
economia brasileira. No médio prazo e no que diz respeito à importância
econômica do mercado de ações, não dá para ficar animado. Por ora, vamos apenas
lembrar que essas manias, "Ibovespa 240 mil", são marqueteiras ou
ingênuas mesmo em economias organizadas. Nesta nossa desordem pobrezinha e
muito dependente de humores internacionais, ainda mais.
A entrada do dinheiro "estrangeiro"
em ações brasileiras, que vinha de 2025, seria "estrutural", dizia-se
até maio. Donos do dinheiro grosso do mundo tiravam uma migalha do que tinham
em ações de tecnologia nos EUA, em alta estrambótica, para diversificar. Era a
hipótese.
Isso que era chamado de "rotação"
talvez se devesse ainda ao fato de que havia pouco dinheiro aplicado em América
Latina, longe de conflitos. A região seria favorecida por vender
"commodities", com preço animado por causa da guerra contra o Irã.
Também ganharia com um dólar mais
fraco no mundo e por estar virando à direita. No Brasil, mesmo a eleição não
abalaria esse cenário. A baixa
das taxas de juros daria empurrãozinho adicional. O pessoal não ligava
muito para a desaceleração da economia, para resultados ruins de empresas e
para o endividamento excessivo, dada as taxas de juros mortíferas.
Os motivos domésticos de otimismo eram poucos
e se quebraram, o que não deveria causar surpresa. Os donos do dinheiro grosso
do mundo voltaram a comprar ações nos EUA, que vão a novas alturas, e emprestam
centenas de bilhões de dólares para os negócios do mundo IA, o
que suscita de novo alertas de bolha de crédito por lá.
O resumo de sempre da opereta é que juros nos
EUA, preços de commodities e algumas manias externas nos dão empurrões ou nos
quebram as pernas, mais ainda em situações de desarranjo macroeconômico ou na
falta de perspectiva de crescimento regular, crise de mais de 40 anos.
Faz meia década que quase não há abertura de
capital na Bolsa, o que não se via desde o final do século passado, quando o
país tentava acreditar que se livrara da hiperinflação. Afora na finança, são
de resto raras as empresas novas com potencial, que dirá setores novos. O
crescimento do PIB costuma ser medíocre e instável como a política econômica e
regras em geral. Variações da taxa de câmbio podem
avariar investimentos. Etc. É uma rotina de sobrevivência na selva
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