quinta-feira, 13 de agosto de 2026

O cerco aos candidatos de mentira se fecha, por Carolina Brígido

O Estado de S. Paulo

TSE planeja barrar o uso de avatares em campanhas por considerar a prática ‘deepfake’

Diga adeus ao laranja e ao boneco de posto: a temporada é dos candidatos de mentira. Munida de inteligência artificial, a campanha de Flávio Bolsonaro recriou a imagem e a voz do pai dele para atrair eleitores. Enquanto isso, o Jair de verdade estava em prisão domiciliar, proibido de falar sobre política. Foi o primeiro cabo eleitoral virtual de 2026.

Em tese, o artifício pode ser usado não apenas para criar apoiadores, mas para aprimorar a imagem do próprio candidato. Não seria necessário refazer os dentes, substituir a calvície por implante capilar ou dar uma passadinha no cirurgião plástico na tentativa de conquistar mais votos. A IA cuidaria de tudo. E, de quebra, faria um discurso melhor que o do titular da foto na urna.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) planeja frear essa prática antes que ela pegue. Em uma reunião agendada para hoje, os ministros pretendem chegar a um consenso sobre o uso de IA nas campanhas. Integrantes da Corte apostam na proibição de todo e qualquer avatar.

A ideia é julgar a questão em plenário a partir da próxima semana, quando as campanhas chegarão oficialmente às ruas. A decisão será tomada no processo sobre o Jair de mentira exibido pela campanha de Flávio. Como o avatar discursou em uma convenção partidária, não em um ato de campanha, o mais provável é que o presidenciável seja punido apenas com multa.

O julgamento, no entanto, vai sedimentar parâmetros para as campanhas deste ano. Ao fim da sessão, os ministros querem avisar que o uso de avatar pode ser considerado abuso, com risco de cassação para o candidato que cometer o ilícito. A Corte deve classificar os avatares como “deepfake”, que foi banida na resolução do TSE sobre IA. Faltou explicar o que o termo abrange na prática.

Na mesma reunião, os ministros vão debater regras para pesquisas eleitorais. Flávio também será parâmetro. Em junho, o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, barrou uma pesquisa que mostrava o candidato em queda. Ele argumentou que, ao apresentar recursos de audiovisual para os entrevistados, o instituto de pesquisa induziu as respostas.

A tendência é de o Tribunal liberar áudios e vídeos nas enquetes, desde que o método seja previamente registrado na Justiça Eleitoral. Há ministros que defendem o uso da ferramenta somente depois que o eleitor for perguntado, de forma espontânea, em quem vai votar, para evitar manipulação do resultado.

Com as premissas firmadas, o número de ações que chegariam ao TSE neste ano poderia diminuir. De quebra, a Corte poupa os eleitores de parte dos políticos de mentira – ao menos daqueles gerados por IA. •

 

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