quinta-feira, 13 de agosto de 2026

A nova face do eleitor brasileiro, por Murilo Medeiros*

Correio Braziliense

O retrato do eleitor brasileiro revela uma sociedade mais madura, mais escolarizada, mais conectada e menos presa a cartilhas ideológicas

A grande transformação desta eleição não está nos candidatos. Está no perfil do eleitor. O Brasil que irá às urnas em 2026 é diferente daquele que escolheu seus representantes há quatro anos. O eleitorado envelheceu, tornou-se mais escolarizado, ampliou a presença feminina, está mais conectado à internet, cresce em regiões historicamente menos valorizadas pela política nacional e demonstra uma independência cada vez maior em relação aos partidos. A sociedade avançou mais depressa do que a capacidade da política de compreender suas transformações.

Os dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que a demografia passou a exercer influência direta sobre a agenda eleitoral. Talvez essa seja a mudança mais significativa desta disputa. Hoje, um em cada quatro brasileiros aptos a votar tem 60 anos ou mais. Em oito anos, esse grupo passou de 18% para quase 24% do eleitorado total. À medida que a população envelhece, temas como saúde, aposentadorias, cuidados de longa duração, mobilidade urbana e segurança ganham espaço no debate público. Ignorar essa agenda passou a custar votos.

Ao mesmo tempo, o eleitor brasileiro tornou-se mais escolarizado. O maior contingente do eleitorado possui ensino médio completo, enquanto cerca de 18 milhões concluíram o ensino superior. Mais escolaridade não elimina o peso da emoção nas eleições, mas amplia a disposição para comparar propostas, verificar informações e cobrar coerência dos candidatos. Campanhas sustentadas apenas por slogans encontram um eleitor menos disposto a aceitar respostas fáceis.

Outro movimento importante é o fortalecimento da presença feminina nas urnas. As mulheres já eram maioria entre os eleitores e ampliaram ainda mais essa vantagem, aproximando-se de uma diferença de 9 milhões de eleitoras em relação aos homens — praticamente o equivalente ao eleitorado da cidade de São Paulo. Além de serem maioria, comparecem mais às urnas e registram índices menores de abstenção. Diante de uma eleição bastante acirrada, conquistar a confiança do eleitorado feminino tornou-se central para todas as candidaturas.

O mapa eleitoral passa, igualmente, por mudanças importantes. Norte, Centro-Oeste e Nordeste ampliaram seu peso na composição do eleitorado nacional, enquanto o Sudeste recuou. Os grandes centros urbanos continuam sendo determinantes para a fotografia final das urnas. Os cinco maiores colégios eleitorais — São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia e Paraná — reúnem 52%  do eleitorado brasileiro. 

Há também uma transformação no comportamento do eleitor. O brasileiro tornou-se menos fiel a partidos e lideranças. O voto está mais volátil, mais pragmático e mais condicionado à percepção de resultados concretos. O cidadão, com mais independência, pune rapidamente quem frustra expectativas. Esse perfil ajuda a explicar o elevado número de brasileiros que ainda permanecem indecisos na escolha do voto. 

As prioridades da sociedade, principalmente entre jovens, estão mais sofisticadas. Cresce o número de brasileiros que desejam depender menos do Estado para melhorar de vida, apegados à autonomia, ao empreendedorismo e à possibilidade de construir a própria trajetória. É uma mudança cultural que tende a influenciar o debate eleitoral nos próximos anos.

Também mudou a forma como o eleitor se informa. São mais de 168 milhões de brasileiros conectados. As redes sociais, a despeito de amplificar vozes e acelerar a circulação de informações, nem sempre refletem a opinião da maioria. Quase sempre reforçam temas que permanecem restritos a grupos altamente engajados, criando a impressão de consenso onde existe apenas uma bolha digital.

É um quadro que ajuda a explicar por que os meios tradicionais de comunicação continuam exercendo papel relevante nas campanhas. Nas eleições municipais de 2024, por exemplo, 75% das candidaturas com maior tempo de propaganda na televisão saíram vitoriosas. A televisão e o rádio continuam sendo indispensáveis para alcançar o eleitorado amplo e heterogêneo que costuma decidir as eleições.

O retrato do eleitor brasileiro revela uma sociedade mais madura, mais escolarizada, mais conectada e menos presa a cartilhas ideológicas. É um eleitor que cobra menos discursos e mais resultados, que valoriza estabilidade sem abrir mão de mudanças e que toma decisões de forma cada vez mais pragmática. Antes de perguntar quem vencerá a eleição, talvez seja mais adequado perguntar quem conseguiu compreender o novo eleitor brasileiro. Afinal, o eleitor mudou. A política ainda precisa alcançá-lo.

*Murilo Medeiros — cientista político da Universidade de Brasília (UnB) e analista em Poder Legislativo e estudos eleitorais

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