Correio Braziliense
O retrato do eleitor brasileiro revela uma
sociedade mais madura, mais escolarizada, mais conectada e menos presa a
cartilhas ideológicas
A grande transformação desta eleição não está nos candidatos. Está no perfil do eleitor. O Brasil que irá às urnas em 2026 é diferente daquele que escolheu seus representantes há quatro anos. O eleitorado envelheceu, tornou-se mais escolarizado, ampliou a presença feminina, está mais conectado à internet, cresce em regiões historicamente menos valorizadas pela política nacional e demonstra uma independência cada vez maior em relação aos partidos. A sociedade avançou mais depressa do que a capacidade da política de compreender suas transformações.
Os dados divulgados pelo Tribunal Superior
Eleitoral (TSE) mostram que a demografia passou a exercer influência direta
sobre a agenda eleitoral. Talvez essa seja a mudança mais significativa desta
disputa. Hoje, um em cada quatro brasileiros aptos a votar tem 60 anos ou mais.
Em oito anos, esse grupo passou de 18% para quase 24% do eleitorado total. À
medida que a população envelhece, temas como saúde, aposentadorias, cuidados de
longa duração, mobilidade urbana e segurança ganham espaço no debate público.
Ignorar essa agenda passou a custar votos.
Ao mesmo tempo, o eleitor brasileiro
tornou-se mais escolarizado. O maior contingente do eleitorado possui ensino
médio completo, enquanto cerca de 18 milhões concluíram o ensino superior. Mais
escolaridade não elimina o peso da emoção nas eleições, mas amplia a disposição
para comparar propostas, verificar informações e cobrar coerência dos
candidatos. Campanhas sustentadas apenas por slogans encontram um eleitor menos
disposto a aceitar respostas fáceis.
Outro movimento importante é o fortalecimento
da presença feminina nas urnas. As mulheres já eram maioria entre os eleitores
e ampliaram ainda mais essa vantagem, aproximando-se de uma diferença de 9
milhões de eleitoras em relação aos homens — praticamente o equivalente ao
eleitorado da cidade de São Paulo. Além de serem maioria, comparecem mais às
urnas e registram índices menores de abstenção. Diante de uma eleição bastante
acirrada, conquistar a confiança do eleitorado feminino tornou-se central para
todas as candidaturas.
O mapa eleitoral passa, igualmente, por
mudanças importantes. Norte, Centro-Oeste e Nordeste ampliaram seu peso na
composição do eleitorado nacional, enquanto o Sudeste recuou. Os grandes
centros urbanos continuam sendo determinantes para a fotografia final das
urnas. Os cinco maiores colégios eleitorais — São
Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia e Paraná — reúnem 52% do
eleitorado brasileiro.
Há também uma transformação no comportamento
do eleitor. O brasileiro tornou-se menos fiel a partidos e lideranças. O voto
está mais volátil, mais pragmático e mais condicionado à percepção de
resultados concretos. O cidadão, com mais independência, pune rapidamente quem
frustra expectativas. Esse perfil ajuda a explicar o elevado número de
brasileiros que ainda permanecem indecisos na escolha do voto.
As prioridades da sociedade, principalmente
entre jovens, estão mais sofisticadas. Cresce o número de brasileiros que
desejam depender menos do Estado para melhorar de vida, apegados à autonomia,
ao empreendedorismo e à possibilidade de construir a própria trajetória. É uma
mudança cultural que tende a influenciar o debate eleitoral nos próximos anos.
Também mudou a forma como o eleitor se
informa. São mais de 168 milhões de brasileiros conectados. As redes sociais, a
despeito de amplificar vozes e acelerar a circulação de informações, nem sempre
refletem a opinião da maioria. Quase sempre reforçam temas que permanecem
restritos a grupos altamente engajados, criando a impressão de consenso onde
existe apenas uma bolha digital.
É um quadro que ajuda a explicar por que os
meios tradicionais de comunicação continuam exercendo papel relevante nas
campanhas. Nas eleições municipais de 2024, por exemplo, 75% das candidaturas
com maior tempo de propaganda na televisão saíram vitoriosas. A televisão e o
rádio continuam sendo indispensáveis para alcançar o eleitorado amplo e
heterogêneo que costuma decidir as eleições.
O retrato do eleitor brasileiro revela uma
sociedade mais madura, mais escolarizada, mais conectada e menos presa a
cartilhas ideológicas. É um eleitor que cobra menos discursos e mais
resultados, que valoriza estabilidade sem abrir mão de mudanças e que toma
decisões de forma cada vez mais pragmática. Antes de perguntar quem vencerá a
eleição, talvez seja mais adequado perguntar quem conseguiu compreender o novo
eleitor brasileiro. Afinal, o eleitor mudou. A política ainda precisa
alcançá-lo.
*Murilo Medeiros — cientista político da Universidade de Brasília (UnB) e analista em Poder Legislativo e estudos eleitorais

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