Correio Braziliense
Agora traduzida pelo slogan
America First, a Casa Branca exuma a Doutrina Monroe: “A América para os
americanos”, desde que “americanos” signifiquem os EUA
O Brasil é grande demais para virar marisco
na briga entre os Estados Unidos, uma superpotência marítima, e a China, a
grande potência continental emergente, que ameaça a hegemonia norte-americana e
amplia sua influência na América Latina. Entretanto, o governo Lula pode não
passar ileso pela guerra comercial, tecnológica e geopolítica entre as duas maiores
economias do planeta.
O presidente Donald Trump sonha com uma volta ao passado, quando Washington podia tratar a América Latina como seu quintal e enquadrar aliados e adversários por meio de pressões econômicas, diplomáticas e militares. Agora traduzida pelo slogan America First, a Casa Branca exuma a Doutrina Monroe: “A América para os americanos”, desde que “americanos” signifiquem os EUA.
Essa nostalgia de uma ordem perdida aproxima
Trump da figura descrita pelo cientista político norte-americano Mark Lilla.
Para o autor de A mente naufragada (Record), o reacionário não é simplesmente
um conservador. O conservador valoriza as tradições, mas reconhece que a
sociedade muda; o reacionário considera a mudança uma catástrofe e deseja
reconstruir um passado idealizado. Acredita que houve uma ruptura no curso da
história e que a única saída é fazer o tempo correr para trás.
Trump é esse náufrago do passado: promete
restaurar a grandeza industrial norte-americana, reafirmar o supremacismo
racial, recompor fronteiras econômicas e recuperar uma hegemonia internacional
incompatível com o mundo multipolar. Seu projeto tenta repetir, em escala muito
mais perigosa, a virada de mesa promovida pelos Estados Unidos na década de
1980, quando o avanço industrial e tecnológico do Japão parecia ameaçar a
hegemonia norte-americana.
Tóquio acumulava enormes superavits
comerciais e suas montadoras e empresas de eletrônicos conquistavam o mercado
dos Estados Unidos. Em 1985, Washington articulou o Acordo de Plaza, que
provocou forte valorização do iene e reduziu a competitividade japonesa. O
acordo foi uma das causas das “décadas perdidas” do Japão. Para todo o
Ocidente, porém, o episódio se tornou símbolo do preço pago por um aliado que
se submeteu à pressão norte-americana.
A China não é o Japão. Não depende
militarmente dos Estados Unidos, dispõe de armas nucleares, controla cadeias
industriais estratégicas e possui um gigantesco mercado interno, além de
riquezas minerais estratégicas, como as terras raras. Além disso, tornou-se a
principal parceira comercial de grande parte da América do Sul, inclusive do
Brasil.
Um novo Acordo de Plaza não pode ser imposto
por Trump a Pequim. Sua alternativa é cercá-la: restringir o acesso a
semicondutores e tecnologias avançadas, reorganizar cadeias produtivas, elevar
tarifas e tentar expulsar investimentos chineses de áreas consideradas
estratégicas, como telecomunicações, energia, inteligência artificial, portos e
minerais críticos. O mercado mais próximo é a América Latina.
Eleições de risco
É nesse contexto que ocorrem as eleições no
Brasil. Nossa aproximação com a China, a participação no Brics, a defesa do
multilateralismo e a autonomia da política externa contrariam Washington. A
nova Doutrina Monroe já não se dirige às antigas potências coloniais europeias,
mas à presença econômica chinesa. Trump deseja que os países latino-americanos
aceitem a liderança dos Estados Unidos ou serão tratados como plataformas de
expansão de Pequim.
A crescente interferência norte-americana nas
eleições brasileiras nasce dessa lógica. Não se trata apenas de afinidade
ideológica de Trump e do secretário de Estado Marco Rubio com a família
Bolsonaro e a direita brasileira. Existe uma disputa concreta sobre a futura
orientação do Brasil. Um governo alinhado a Washington poderia rever acordos
tecnológicos, limitar investimentos chineses, enfraquecer o Brics e apoiar a
estratégia dos Estados Unidos na região.
Já um governo comprometido com a autonomia
diplomática, mesmo mantendo boas relações com os norte-americanos, preservaria
espaço para negociar simultaneamente com Pequim e União Europeia. Para isso,
Trump impõe tarifas, sanciona autoridades, critica o Supremo Tribunal Federal
(STF) e já não esconde o apoio da Casa Branca à candidatura de Flávio Bolsonaro
(PL).
Às favas as normas diplomáticas. O presidente
Luiz Inácio Lula da Silva é considerado um estorvo pelos estrategistas da Casa
Branca. Quando Washington relaciona medidas comerciais a decisões da Justiça
brasileira ou ao andamento da campanha presidencial, transforma as tarifas em
armas eleitorais.
Como a balança comercial com os Estados
Unidos representa apenas 2% do nosso Produto Interno Bruto (PIB), essa
interferência pode ir além das tarifas, por meio de manipulação do ambiente
digital, pressões sobre empresas de tecnologia e campanhas de desinformação. A
maior ameaça é a nova tentativa de desacreditar o sistema eleitoral, que
constrói a perigosa narrativa segundo a qual o resultado das urnas eletrônicas
somente será legítimo se reconhecido por Trump.

Nenhum comentário:
Postar um comentário