O Estado de S. Paulo
Ala relevante do STF e os presidentes das
Casas Legislativas atuam neste momento para que Lula permaneça no poder. É mais
do que uma aliança de conveniência para escapar de investigações. Trata-se de
esforço para manter as coisas como elas estão.
Do ponto de vista institucional, existe uma pesada ameaça. O Supremo tem as armas para combater a hipertrofia do Congresso, hoje dominado por uma massa amorfa de parlamentares que, por meio de emendas, atuam em causa própria com dinheiro público. O Congresso tem as armas para combater a hipertrofia dos poderes do Supremo e seus instrumentos de exceção e, dependendo das eleições, poderia passar do rosnado para a mordida.
Mas uma conflagração se tornou no momento
menos crível, pois o Congresso busca algum tipo de acomodação com Lula
pós-eleição – vide as posturas públicas de Hugo Motta e Davi Alcolumbre. E está
patente no comportamento dos dirigentes de várias correntes políticas que eles
não enxergam em Flávio Bolsonaro a densidade política necessária para comandar
um embate nesses moldes. Atribuem a outros nomes da direita chances reduzidas
de chegar ao segundo turno.
O problema para esse esforço em deixar as
coisas basicamente como estão é o tamanho das incógnitas. Uma das principais
foi bem captada pelas pesquisas: a pequena parcela do eleitorado que decidirá
as eleições consolida a opção de voto só nos derradeiros instantes. O que torna
a votação muito suscetível ao “imponderável” de última hora. Imponderáveis
costumam ser incontroláveis.
Outra incógnita relevante tem natureza
subjetiva, mas também detectada por levantamentos, especialmente pelas
qualitativas não publicadas. Os traços predominantes em larga parcela do
eleitorado são desânimo, desconfiança e falta de esperança em qualquer
candidato. E na capacidade das eleições de alterarem o “sistema”.
Como é que esse clima pesado vai atuar? Em
altos segmentos do setor financeiro já se verifica resignação diante da
tragédia anunciada. No caso, tragédia da dívida de grandes corporações (fora a
sinuca das contas públicas). Fala-se na alta probabilidade do temido “credit
crunch”, no estrangulamento do oxigênio da economia, justamente pela baixa
expectativa de mudanças significativas, ou seja, a permanência por longo prazo
de juros insuportáveis.
Nesse sentido, não há qualquer respeito pelo
que Lula diga ou insinue que vá fazer, muito menos pelas vozes que hoje
sussurram hipotéticos “ajustes” fiscais numa eventual vitória. Curiosamente,
ninguém está pedindo para ser amarrado ao mastro e, assim, poder resistir ao canto
das sereias – que não se vislumbra nem se ouve.
O som predominante é o da arrebentação nas
pedras, que é onde costuma acabar uma nau sem rumo. •

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