quinta-feira, 14 de maio de 2020

Bernardo Mello Franco - A escolha de Teich

- O Globo

É melancólica a situação de Nelson Teich. Antes de completar um mês no governo, o titular da Saúde já se arrasta como um ex-ministro em atividade

É melancólica a situação de Nelson Teich. Antes de completar um mês em Brasília, o oncologista já foi fritado pelo chefe. Agora ele parece se arrastar no cargo como um ex-ministro da Saúde em atividade.

O substituto de Luiz Henrique Mandetta assumiu com jeito de fantoche. Ao ser apresentado, prometeu “alinhamento completo” a Jair Bolsonaro. Depois disso, submergiu para não dizer nada que pudesse contrariar o presidente.

O ministro não teve autonomia nem para escolher seu número dois. O posto foi entregue ao general Eduardo Pazuello, que pendurou outros militares em cadeiras que sempre pertenceram a médicos.
Sem experiência na política, Teich foi triturado no primeiro contato com o Congresso. Sua confissão de que o governo estava “navegando às cegas” reforçou a imagem de uma gestor à deriva.

Luiz Fernando Verissimo - Manhã desnecessária

- O Globo / O Estado de S. Paulo

Das 5 às onze do dia 11 de novembro de 1918, a Primeira Guerra Mundial continuou, embora não precisasse continuar

Comemorou-se há pouco os 75 anos do fim da Segunda Guerra Mundial e alguns meses antes o armistício que acabou com a Primeira. Representantes dos aliados, vencedores, e dos alemães, derrotados e humilhados, reuniram-se num vagão ferroviário que tinha servido a Napoleão III, perto da cidade de La Capelle, França, para tratar dos termos da rendição. Coube ao marechal Ferdinand Foch, que chefiava a delegação francesa, estabelecer as reparações que seriam exigidas dos alemães. A reunião durou toda a noite e às 5 da madrugada o documento do armistício estava assinado.

Fernando Schüler* - Ruy e a passeata dos insensatos

- Folha de S. Paulo

A liberdade de expressão exige tolerância a ideias que detestamos, mas qual o limite?

Em tempos de fúria, passou um tanto despercebida uma decisão do decano do STF, ministro Celso de Mello, na última semana. Ocorre que um desses grupos muito estranhos que andam por aí, e não é de hoje, marcou uma passeata em Brasília, na qual prometiam "dar cabo à patifaria estabelecida no país e representada pela casa maldita do STF, com seus 11 gângsteres". E por aí afora.

O líder do PT na Câmara dos Deputados acionou o Supremo pedindo que a passeata fosse proibida e os envolvidos presos. O ministro Celso de Mello negou o pedido. Orientou o parlamentar a procurar o Ministério Público, se desejasse, mas o importante veio depois, quando enfrentou o tema delicado do direito de reunião e de expressão em um país marcado pela polarização quase doentia.

A posição do ministro é clara: não cabe a uma República que se dê ao respeito a "proibição estatal do dissenso". Pluralismo político é um valor fundamental na democracia e o direito à livre expressão de ideias é garantido pela Constituição.

Seu raciocínio volta a abril de 1919, quando Ruy Barbosa foi conduzido por uma massa popular até o teatro Politeama, em Salvador, e só pôde fazer o seu comício amparado por um habeas corpus dado pelo STF, relatado por Edmundo Lins.

Maria Hermínia Tavares* - O resgate do respeito

- Folha de S. Paulo

Reconstruir nossa política externa exigirá mais que a volta a princípios consagrados

Na semana passada, os principais jornais brasileiros publicaram importante artigo pedindo a reconstrução da política externa do país. Assinaram o texto todos os ex-ministros de Relações Exteriores desde o governo Sarney, um notável diplomata e um ex-secretário de Assuntos Estratégicos da Presidência da República.

Com a cacife de quem conduziu a diplomacia nacional nos últimos 28 anos, o grupo critica implacavelmente a destruição de nossa autoridade além-fronteiras, levada a cabo pelo atual governo. E propõe que a atuação do país volte a se pautar pelos princípios que desde muito cedo vertebraram a conduta e a identidade nacional diante do mundo: autonomia frente às nações poderosas, universalismo, multilateralismo e defesa da solução pacífica de conflitos.

Assim como a Covid-19, mais dia, menos dia, este governo passará —e com ele o chanceler que tão bem o espelha na mediocridade e na fúria descerebrada contra as melhores tradições diplomáticas brasileiras. Mas as circunstâncias sob as quais o país terá de reconquistar o respeito alheio posto abaixo pelo obscurantismo serão provavelmente muito diversas daquelas que favoreceram nossa ascensão internacional nas últimas décadas.

Roberto Dias – Final feliz

- Folha de S. Paulo

Nem o uso de pseudônimos sustenta mais sua narrativa

O personagem Jair Bolsonaro já não dá mais conta do enredo que o roteirista Jair Bolsonaro criou para sua vida.

Para contar essa história inacreditável, é preciso agora recorrer ao Airton, ao Rafael e ao 05. Depois há o trabalho de convencer o espectador e um ministro do STF-- de que os três são mesmo pseudônimos.

Até a pandemia, a fórmula do roteiro vinha se segurando: era tirar da cartola alguma historinha lateral e emendar na anterior. Agora já não funciona. Bolsonaro tentou pautar uma discussão sobre aborto, mas só os espectadores mais atentos de suas redes e alguns militantes do WhatsApp perceberam.

A caneta mágica do filho Carlos, fundamental no caminho até o Planalto, tem menos tinta. A popularidade nas redes dá sinais de queda. Bolsonaro já se repete no vexame de ser um raríssimo chefe de Estado com posts classificados de fake news pelas plataformas. Em perfis onde antes se liam defesas do presidente, hoje se veem pedidos para que não abra a boca.

Até porque cada vez que o faz cria um novo alvo para as edições Tomahawk do Jornal Nacional, que justapõem as falas contraditórias de Bolsonaro em som e imagem claríssimos para um público imenso.

Bruno Boghossian - Moro acobertou Bolsonaro

- Folha de S. Paulo

Ex-juiz agiu como advogado do presidente, mas agora fala em tom autoritário

Sergio Moro dormiu um sono tranquilo por 16 meses. Dias antes de pegar as chaves do Ministério da Justiça, o ex-juiz disse não enxergar “risco de autoritarismo” no governo de Jair Bolsonaro. Agora, ele afirma que a reunião que precedeu sua demissão contém “inquietantes declarações de tom autoritário”.

O ex-ministro demorou a sair do sossego. Moro foi rotineiramente sabotado e humilhado pelo chefe desde a inauguração do mandato. Mesmo assim, agiu como advogado de Bolsonaro e acobertou até as investidas mais perigosas do chefe.

Em agosto de 2019, sob pressão do presidente, Moro trocou o comando da Polícia Federal no Rio. Depois de engolir a mudança, ele espalhou a versão de que tudo era um mal-entendido. No programa Roda Viva, em janeiro, ele quis disfarçar: “Tentaram fraudulentamente colocar o presidente contra a Polícia Federal”.

Vinicius Torres Freire - Vendas no varejo caem menos em SP

- Folha de S. Paulo

Tombo no país foi menor do que o esperado, mas bola de neve mal começou a rolar

As vendas no varejo em São Paulo não caíram em março, caso único entre os estados do país. Sim, março é o passado distante e não foi inteiramente contaminado pelo coronavírus. Além do mais, quando se incluem as vendas de veículos e de material de construção, o colapso foi grande e geral, embora o resultado paulista não tenha sido dos piores, ao contrário, e abaixo da média brasileira.

Não é resultado para animar ninguém. Pode ser mais um indício de desigualdade. Com renda mais alta e mais reservas financeiras, talvez os paulistas tenham podido manter parte do consumo, em especial em mercados e farmácias, talvez até fazendo mais estoques. Pode ser ainda que as pessoas tenham mais meios em geral de fazer compras virtuais, pela internet, tendo mais dinheiro e cartões de crédito ou débito.

Em março, as vendas no varejo paulista foram 0,7% superiores a fevereiro e espantosos 5,4% maiores que em março de 2019. Na média brasileira, quedas de 2,5% e 1,2%, respectivamente.
No varejo dito “ampliado”, que inclui vendas de veículos e material de construção, a baixa paulista foi de 11,1% em relação a fevereiro, oitavo pior resultado nacional, mas acima do resultado do Brasil, que foi de queda de 13,7%.

José Serra* - Sobre filas e descompasso na urgência social

- O Estado de S.Paulo

Não é razoável deixar de pagar um benefício emergencial por causa de pendência eleitoral

As filas, enormes e anárquicas, que a população brasileira tem enfrentado para receber um benefício social emergencial contrariam as normas sanitárias e o bom senso. De forma precipitada, mas previsível, o dedo acusador é endereçado ao ente pagador, a Caixa Econômica. O descompasso entre a urgência social (a emergência sanitária) e o martírio dos longos períodos na espera de atendimento – muitas vezes infrutíferos – pode ser manifestação da ineficiência e ineficácia da corporação. Mas também, e mais provavelmente, é a expressão de um desenho legal e institucional inadequado para responder a uma situação que o mundo está vivendo e nos pegou a todos de surpresa. A atual pandemia pode não ser um cisne negro, mas seu tamanho, tal como se mostrou, com extensão e virulência inéditas na História recente da humanidade, era improvável.

No Brasil, o caso específico do pagamento do auxílio emergencial se reproduz, com outras singularidades, nas mais diversas dimensões sociais, políticas, econômicas e mesmo científicas. Os protocolos usuais para criar, testar e aprovar medicamentos parecem estar em conflito com as demandas por respostas sanitárias quase imediatas ao flagelo. Toda a formatação institucional, legal e organizacional, que parecia ser funcional em tempos “normais”, está sendo submetida a um estresse que induz, pela ineficiência que revela neste momento de crise, a desrespeitar o seu cumprimento. Metas fiscais como as contempladas no Tratado de Maastricht, no caso europeu, são abertamente ignoradas. Se alguma vez puderam ser consideradas um arcabouço para disciplinar potenciais irresponsabilidades na gestão da política econômica, hoje parecem completamente disfuncionais.

William Waack - Equilíbrio precário e perigoso

- O Estado de S.Paulo

Uma combinação de fatos não deixa prosperar, por enquanto, ações para derrubar Bolsonaro

A rigor, o que já se sabe do que está no vídeo da reunião ministerial trazido à tona por Sérgio Moro não surge ainda como prova, mas comprova. Criminalistas experientes lembram que até provas materiais do tipo “conclusivo” são, nos procedimentos judiciais, passíveis de “interpretações”. E são poucas aquelas “provas técnicas” que, neste momento, poderiam produzir a “interpretação” necessária para sustentar uma denuncia pelo procurador-geral da República contra o presidente da República.

Do ponto de vista político, porém, o vídeo é uma comprovação didática de que o governo é comandado sem foco e preso ao que o chefe do Executivo acha que lhe é vantajoso dos pontos de vista político de curto prazo e pessoal. Além daquilo que ele vocifera como se comandasse um bando, as vozes mais eloquentes nesse vídeo são de ministros incompetentes, apegados a teorias malucas, dispostos a pronunciar frases de lacração na internet do tipo “prendam ministros do STF”, “prendam governadores”, como se decidissem na mesa de um bar quem brada estupidezes de forma mais contundente.

Zeina Latif* - Tiro no pé

- O Estado de S.Paulo

É necessário evitar ações que gerem mais distorções e efeitos colaterais na economia

Somos uma sociedade mais propensa a apontar vilões do que a enfrentar os problemas com base em diagnósticos corretos. A crise atual explicita essa fraqueza.

Há preocupações de todos os lados, mas é necessário evitar ações que poderão gerar mais distorções na economia e efeitos colaterais perversos, sem produzir o benefício desejado.

Os bancos – desde sempre no topo da lista de arqui-inimigos - são acusados de “empoçar” recursos e não liberar crédito a empresas e famílias, e são pressionados a bancar parte da fatura da crise. Enquanto isso, pouco esforço é feito para compreender o funcionamento de um setor essencial ao funcionamento da economia.

Os dados do mercado de crédito em março mostram que as críticas são precipitadas, ainda que haja um descompasso entre o aumento brutal da demanda de crédito e a capacidade de atendimento dos bancos.

A concessão (fluxo) de crédito livre para PJ subiu 60% em março em relação a fevereiro, sendo que quase metade está associada à demanda por capital de giro e antecipação de receitas das empresas.

Na PF, o resultado não foi melhor por conta da natural retração de demanda, como na aquisição de veículos e no cartão de crédito (à vista). Como o endividamento dos indivíduos está nas máximas históricas, acima de 45% da renda anual, o espaço para elevações adicionais é limitado, por conta do risco de inadimplência adiante.

Maria Cristina Fernandes - Um mandato blindado a R$ 600 per capita

- Valor Econômico

Auxílio emergencial intimida parlamentares e contém adesão ao impeachment no Congresso

O futuro do governo Jair Bolsonaro hoje parece passar mais pelo auxílio emergencial do que pelo procurador-geral da República. Por mais que os inquéritos no Supremo Tribunal Federal avancem, nenhum processo contra o presidente poderá ser aberto sem a anuência da Câmara dos Deputados. E lá dificilmente se formará maioria contra Bolsonaro enquanto o governo fizer chegar ao bolso dos mais pobres um dinheiro nunca dantes visto para muitos.

O calendário eleitoral é favorável ao presidente. Parlamentares dispostos a se engajar pelo impeachment ficam acuados frente ao número de beneficiários do auxílio emergencial entre eleitores de vereadores e prefeitos que formam a base para sua recondução em 2022. A qualquer movimento desses parlamentares, os eleitores são bombardeados pelas redes sociais bolsonaristas com a exposição de uma conduta que, ao mirar contra o mandato do presidente, se coloca também como adversária do auxílio emergencial. Como a pandemia deve fazer com que esta campanha eleitoral seja ainda mais digital que as anteriores, a armadilha está posta.

Tome-se, por exemplo, o exemplo de Alagoas, Estado de segundo pior IDH do país. Na convalescença da covid-19, o secretário da Fazenda, George Santoro, se deparou com um impacto do auxílio emergencial sobre a renda das pessoas que nunca havia visto antes. O dinheiro que chega hoje mensalmente ao Estado para o auxílio emergencial equivale a cinco vezes o valor destinado ao Bolsa Família.

Ricardo Noblat - Os três generais patetas e o capitão aloprado

- Blog do Noblat | Veja

Contradições enfraquecem a linha de defesa de Bolsonaro
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O disse não disse sobre o que de fato o presidente Jair Bolsonaro disse na reunião ministerial de 22 de abril último, catapultou para a boca do palco da crise política ora em curso a trinca poderosa de generais ministros que dão expediente no Palácio do Planalto.

Os conselhos que receberam sobre a melhor maneira de se comportarem diante dos inquisidores, as horas gastas vendo e revendo a gravação em vídeo da reunião, o acerto sobre o que cada um diria, nada bastou para que contassem a mesma história.

Braga Neto (Casa Civil), Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) e Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) avalizaram a versão de que Bolsonaro se queixou de falhas na sua segurança pessoal no Rio. Nada a ver, pois, com a Polícia Federal.

Mas, em seguida, divergiram em detalhes que põem a versão em dúvida, o que enfraquece a principal linha de defesa do presidente. Ao afirmar que Bolsonaro revelou a intenção de trocar “a segurança” no Rio, Braga Neto entendeu que se tratava da segurança pessoal.

Ora, quem cuida da segurança pessoal de Bolsonaro, no Rio ou em qualquer outro lugar, é o Gabinete de Segurança Institucional a cargo do general Heleno, e não a Polícia Federal. O ex-ministro Sérgio Moro teria entendido tudo errado e por isso foi embora?

Ribamar Oliveira - Inflação baixa antecipa fim do teto

- Valor Econômico

Cenário mostra que será precisos cortar ainda mais investimentos da União e custeio da máquina

A manutenção do teto de gastos nos próximos anos, tão desejada pelo governo, enfrentará uma dificuldade adicional, que não estava prevista. Com a recessão econômica em curso no Brasil e no mundo, provocada pela pandemia da covid-19, a inflação vai cair muito. E inflação mais baixa significará um teto ainda mais apertado.
A Emenda Constitucional 95/2016, que criou o limite para as despesas da União, determinou que o valor do teto de gastos será corrigido, anualmente, pela inflação. Para 2021, o índice a

Limite para as despesas terá correção abaixo de 2%

Por causa da recessão econômica, o Brasil vive um momento de deflação, ou seja, os preços estão caindo, em vez de subindo. Em abril, o IPCA caiu 0,31%. Para maio, o mercado projeta nova deflação, de 0,35%. Para junho, a taxa esperada é próxima de zero. Se as previsões se confirmarem, o índice em 12 meses acumulado até junho ficará abaixo de 2%.

Uma estimativa feita pelo Tesouro Nacional, que consta do anexo de riscos fiscais ao projeto de lei de diretrizes orçamentárias (PLDO) para 2021, estima que o desvio de 0,1 ponto percentual do IPCA provoca uma variação de R$ 1,455 bilhão no limite de despesa. Para uma variação de 1% do IPCA, o impacto no teto será de R$ 14,55 bilhões

No anexo, o governo projeta um valor de R$ 1,502 trilhão para o limite das despesas no próximo ano. O valor foi estimado com base em uma inflação de julho de 2019 a junho de 2020 de 3,23%. Com isso, o espaço para gastos no próximo ano subiria R$ 47 bilhões, em comparação com o teto fixado para 2020.

Jorge Arbache* - E os indicadores sociais?

- Valor Econômico

Desigualdade de renda tende a piorar bastante mais durante períodos de desaceleração do que a melhorar durante períodos de aceleração do crescimento

A taxa de crescimento econômico da América Latina é caracterizada por ser altamente volátil em torno de uma média baixa e por períodos de fortes acelerações e colapsos. O problema é que essas características não são neutras e têm implicações perversas. Isto porque a combinação de baixa persistência com alta descontinuidade do crescimento está associada à maior aversão ao risco, que estimula a especulação e encoraja as empresas a investirem em projetos de menor risco, mas de baixo retorno social. Ademais, pobreza, desigualdade e outros indicadores sociais são bastante sensíveis àquelas características.

De fato, evidências empíricas sugerem que os indicadores sociais melhoram durante períodos de aceleração e pioram durante períodos de desaceleração do crescimento. Ou seja, eles são pro-cíclicos. Mas ainda mais relevante é a reação assimétrica dos indicadores sociais ao ciclo econômico. Indicadores de desigualdade de renda tendem a piorar bastante mais durante períodos de desaceleração do que a melhorar durante períodos de aceleração do crescimento. Condição qualitativamente semelhante ocorre com desemprego, pobreza, miséria, participação do jovem no mercado de trabalho, dentre outros indicadores.

Dani Rodrik* - Um mundo pós-pandêmico melhor

- Valor Econômico

É possível um modelo de globalização mais inclusivo e sustentável

A economia mundial será remodelada nos próximos anos por três tendências. A relação entre mercados e Estado vai ser reequilibrada, em favor do último. Isso virá acompanhado de um reequilíbrio entre a hiperglobalização e a autonomia nacional, também em favor da última. E precisaremos encolher nossas ambições de crescimento.

Não há nada como uma pandemia para colocar em evidência tanto as imperfeições dos mercados diante de problemas de atitudes coletivas quanto a importância da capacidade do Estado de reagir a crises e proteger a população. A crise da covid-19 ampliou as fileiras dos que defendem uma cobertura de saúde universal, mais proteção ao mercado de trabalho (inclusive para os trabalhadores “gig”, temporários) e a importância das cadeias de produção locais para equipamentos médicos cruciais. Isso tem levado os países a priorizar a resiliência e a garantia de fornecimento em detrimento da eficiência e das economias de custo permitidas pela terceirização global. E os custos econômicos das medidas de confinamento aumentarão com o tempo, já que o choque maciço de oferta causado pela desestabilização da produção doméstica e das cadeias de valor globais também vão pressionar para baixo a demanda agregada.

Não se sabe a forma que um Estado mais ativo assumirá. Não se pode descartar a volta ao velho estilo dirigista, de pesado controle central. Mas afastar-se do fundamentalismo de mercado poderia trazer uma forma inclusiva, empenhada na economia verde

Embora a covid-19 reforce e enraíze essas tendências, ela não é a força primária por trás delas. Todas as três - ações governamentais mais fortes, recuo no hiperglobalismo e taxas de crescimento menores - precedem a pandemia. E, embora possam ser vistas como riscos significativos para a prosperidade humana, também é possível que sejam precursoras de uma economia mundial mais sustentável e inclusiva.

Vejamos o papel do Estado. O consenso neoliberal no fundamentalismo de mercado está enfraquecendo-se já há algum tempo. Criar um papel maior para que o governo possa lidar com a desigualdade e a insegurança econômica agora se tornou prioridade central tanto para economistas quanto para os políticos. Embora a ala progressista do Partido Democrata nos Estados Unidos não tenha chegado a conquistar a indicação presidencial da legenda, conseguiu ditar, em grande medida, os termos do debate.

O que a mídia pensa - Editoriais

• Bolsonaro desdenha vídeo que pode comprometê-lo – Editorial | Valor Econômico

O presidente está isolado e inimizou-se com os demais Poderes

Só a divulgação do vídeo da reunião ministerial de 22 de abril, ou um pronunciamento do ministro Celso de Mello, é capaz de deixar claro o que exatamente nela disse o presidente Jair Bolsonaro. Há diversas nuances sobre seu teor e poucas sobre o que aconteceu no encontro - um espetáculo de baixarias, ao qual o presidente e muitos de seus ministros se entregam com volúpia. Bolsonaro vem acumulando ilegalidades, o Supremo Tribunal Federal já tem três inquéritos que podem comprometê-lo, a seus filhos ou todos. O mais recente, sobre a saída de Sergio Moro e a troca do comando da Polícia Federal poderá ou não pôr fim a sua carreira no Executivo.

Os espectadores que viram no vídeo evidências devastadoras contra Bolsonaro, atribuem a ele o desejo, expresso com toda as letras, de proteger sua família de eventuais embaraços com a Polícia Federal. “Não vou esperar foderem com alguém da minha família”, teria dito o presidente, em um dos pontos áureos de um discurso no qual cobrou acesso a relatórios da inteligência da PF para não ser “surpreendido” por investigações. O presidente também ameaçou de demissão quem se colocasse em seu caminho, inclusive ministros.

Música | Teresa Cristina, Wilson Moreira e Diogo Nogueira -Testamento de Partideiro

Poesia | Joaquim Cardozo -Território entre o gesto e a palavra

Entre o gesto e a palavra: território escondido dentro de mim
Marcas de mortas visões; tentativas, indecisões, regozijos,
Entre o gesto e a palavra. Território:
Um silêncio, um gemido, um esforço imaturo
Possibilidade de um grito, modulação de uma dor.
— Ritmos mais doces que os das águas,
— Ternuras mais íntimas que as do amor
Entre o gesto e a palavra. Território
Onde as idéias se ocultam e os pensamentos se perdem
Os conceitos se escondem, os problemas se dissolvem
Entre o gesto e a palavra. Território.
— Os problemas da escolha, os princípios;
Transcendências: transparências, mediante
Uma luz que não se acende, existem
No território contido entre o gesto e a palavra.
— Um axioma, um lema, um versículo, um fonema,
Uma ameaça, uma tolice, o som velar, o eco,
Talvez a estátua de uma atitude.
Estão no campo depois do gesto
E antes da palavra.
Também estás para mim, amiga, entre esses dois expressivos
Entre alguma coisa de mímico ou de sonoro
Alguma coisa que é aceno ou que é voz:
Entre o de mim e o de ti: Tu estou
Tu vivo
Tu falo
Tu choro
Estás, mesmo que entre nós dois não exista
Um aparato gramático — uma sentença verdadeira
— ou uma síntese poética
Ilusória expressão com que se conformam os ingênuos —
Mesmo que a palavra se reduza a simples gesto verbal
Entre o gesto e este gesto há um infinito real.

In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.207-208. Poema integrante da série Mundos Paralelos

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Opinião do dia – Antonio Gramsci* – partidos orgânicos e fundamentais

Será necessária a ação política (em sentido estrito) para que se possa falar de “partido político”? Pode-se observar que no mundo moderno, em muitos países, os partidos orgânicos e fundamentais, por necessidade de luta ou por alguma outra razão, dividiram-se em frações, cada uma das quais assume o nome de partido e, inclusive, de partido independente. Por isso, muitas vezes o Estado Maior intelectual do partido orgânico não pertence a nenhuma dessas frações, mas opera como se fosse uma força dirigente em si mesma superior aos partidos e às vezes reconhecida como tal pelo público. Esta função pode ser estudada com maior precisão se se parte do ponto de vista de que um jornal (ou um grupo de jornais), uma revista (ou um grupo de revistas) são também “partidos”, “frações de partido” ou “funções de determinados partidos”.

*Antonio Gramsci (1891-1937), filósofo, jornalista, crítico literário e político italiano. “Cadernos do Cárcere v.3, p. 349. Civilização Brasileira, 2007

Merval Pereira - O risco da democracia

- O Globo

O presidente do Supremo, ministro Dias Toffoli, e os ministros militares estão sendo lenientes com Bolsonaro

A versão mais recente do Palácio do Planalto sobre o vídeo da reunião ministerial em que o presidente Bolsonaro ameaçou demitir o então ministro Sergio Moro dá conta de que o presidente se queixava da segurança pessoal dele e de sua família. Sem saber o contexto em que se deu a discussão, pois o vídeo ainda não foi liberado, pode-se afirmar, no entanto, que Moro seria o interlocutor errado, pois a segurança do presidente e família é feita pelo Exército e pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin), e o responsável é o General Augusto Heleno, que estava na reunião e não foi admoestado pelo presidente.

Além do mais, quem foi demitido foi o diretor-geral da Polícia Federal, e por tabela o ministro Sergio Moro. Outro ponto interessante é que o delegado Alexandre Ramagem, que foi indicado por Bolsonaro para chefiar a Policia Federal, era o chefe da Abin. Portanto, se a queixa de referia à segurança pessoal, cuja responsabilidade era de Ramagem, por que indicá-lo para a PF? .

A exibição integral da reunião ministerial servirá para confirmar a acusação de Moro ao deixar o ministerio da Justiça, como também para se constatar de que maneira o presidente Bolsonaro conduz os destinos do país. Pelos relatos, um autoritarismo sem controles, e um ambiente de desrespeito a seus ministros que, para agradar o presidente, não apenas aceitam os maus tratos como tentam imitá-lo, usando palavras chulas e atacando sem distinção países e instituições.

Míriam Leitão - Uma acusação que avança

- O Globo

As respostas sem sentido de Bolsonaro diante das suspeitas de interferência na PF só aumentam os indícios em torno dele

Todos os indícios mostram que o presidente da República tentou, diversas vezes, inclusive constrangendo publicamente o então ministro da Justiça, interferir na Polícia Federal para que ela servisse aos seus propósitos. O presidente deu várias respostas, todas contraditórias, para tentar se defender dessa acusação que ganha contornos cada vez mais sólidos. O procurador-geral da República, Augusto Aras, tem o poder de arquivar esse inquérito que ele mesmo pediu para abrir, mas quanto mais transparente for cada etapa da investigação mais difícil será dizer que nada de errado aconteceu.

Ontem, ao fim da sessão de exibição do vídeo para procuradores, policiais federais, PGR, o ex-ministro Sergio Moro e o advogado-geral da União, houve duas versões. Quem assistiu disse a jornalistas que era uma prova definitiva da interferência na Polícia Federal, e o presidente , em entrevista mambembe, de cima da rampa no Planalto, negou:

– A preocupação, desde a facada, foi com a segurança minha e da minha família. Em Juiz de Fora, o Adélio cercou meu filho, no vídeo, no meu entender, talvez quisesse assassiná-lo ali. A segurança da minha família é uma coisa, não estou preocupado com a Polícia Federal, a Polícia Federal nunca investigou ninguém da minha família.

Bernardo Mello Franco - Em nome dos filhos

- O Globo

Bolsonaro se elegeu com a promessa de defender a família. Faltou dizer que se referia à própria. O presidente vê o Estado como um bife a ser repartido entre os filhos

Jair Bolsonaro se elegeu com a promessa de defender a família. Faltou dizer que se referia à própria. O capitão sempre usou o poder para proteger e engordar os herdeiros. É assim desde os tempos de deputado, quando ele pendurou dois filhos na folha de pagamento da Câmara.

Na Presidência, o patriarca farejou boquinhas melhores para o clã. No ano passado, ele tentou emplacar o caçula Eduardo, cuja experiência internacional se resumia a fritar hambúrgueres, como embaixador do Brasil em Washington. Ao defender o indefensável, pronunciou duas frases memoráveis. “Pretendo beneficiar um filho meu, sim. Se eu puder dar filé mignon pro meu filho, eu dou”, afirmou.

A visão do Estado como um bife suculento explica a gula de Bolsonaro pela Polícia Federal. Ele queria espetar o garfo no órgão para reparti-lo entre os filhos. Ao que tudo indica, seu principal objetivo era interferir nas investigações sobre desvio de verbas parlamentares e fábricas de fake news.

Zuenir Ventura - No país de Bolsoshenko

- O Globo

Bolsonaro tem afinidade com ditador da Bielorrúsia

Eles se juntam por afinidade de opinião. O presidente do Brasil e o ditador da Bielorrússia são contrários às medidas de isolamento social para combater o novo coronavírus. Os dois as consideram exageradas, apesar de o mal já ter exterminado mais de 11 mil pessoas entre nós. Bolsonaro classifica a preocupação com a pandemia de “neurose” e Lukashenko, de “psicose”.

Eles não devem saber muito bem o que os termos significam, mas os empregam como xingamentos. Um debocha chamando-a de gripezinha inofensiva, o outro receita “beber vodca, frequentar sauna e dirigir caminhão”. Bolsonaro prefere dirigir jet ski no dia em que o país contabilizava 10 mil vítimas fatais da pandemia — com certeza para espairecer.

O resultado é que o Brasil tem mais casos de infectados do que todos os países da América do Sul juntos. Argentina, Colômbia e Paraguai nos servem hoje de exemplos. O mais humilhante é ter que ouvir calado o presidente argentino, Alberto Fernández, declarar a uma rádio que somos “um risco muito grande, uma ameaça”.

Elio Gaspari - Os palavrões no Conselho de Governo

- Folha de S. Paulo / O Globo

O bolsonarês humilha aqueles que votaram no capitão em nome dos bons costumes

Quando Sergio Moro pôs na roda a questão do vídeo da reunião do Conselho de Governo de 22 de abril, sabia que havia ali uma bala de prata capaz de provar que Jair Bolsonaro queria trocar o diretor da Polícia Federal para blindar os interesses políticos de sua família. Ele sabia também que a bala continha outro material. Ao chegar ao Planalto, com pompa monarquista, o capitão chamou de Conselho de Governo aquilo que se conhecia como reunião do Ministério. Reunindo-o, ele presidiu uma conversa de botequim, e Moro mostraria isso.

A divulgação desse vídeo será também um espetáculo de falta de compostura e de asneiras. Outro dia a secretária de Cultura, Regina Duarte, disse que parou de ler os livros de Olavo de Carvalho porque ele usa muitos palavrões. No governo que ela louva, o vocabulário do doutor Olavo é o de um sacristão.

Alguns presidentes respeitavam seus interlocutores. Michel Temer, Fernando Henrique Cardoso e José Sarney falam como frades. Não se pode dizer o mesmo de Dilma Rousseff e Lula, mas nenhum deles disse palavrão em reunião ministerial. Conhecem-se os áudios das reuniões do Conselho de Segurança Nacional que decidiram baixar o Ato Institucional nº 5 (Costa e Silva) e o Pacote de Abril (Ernesto Geisel). Neles não há palavrões.

Vinicius Torres Freire - O centrão vê a economia na crise de Bolsonaro

- Folha de S. Paulo

Não há impulso para impeachment, mas economia vai mudar, diz um líder do bloco

O governo falou muito, mostrou “boa vontade”, mas entregou pouco até agora, dizia nesta terça-feira (12) um deputado líder do centrão que negocia aliança e cargos com o Planalto. O parlamentar falava no começo da noite de todos os rumores sobre o vídeo da reunião ministerial em que Jair Bolsonaro teria ficado, mais do que nu, em carne viva —ou morta, a depender do boato e do ânimo crítico do espectador.

E daí? Daí que o vídeo degradaria a situação política de Bolsonaro, óbvio. Ainda não parece “tiro na cara”, como diz o deputado, mas o presidente precisaria de mais gente firme na Câmara para se segurar na cadeira e “governar com estabilidade” (sic).

Continua não haver risco de processo de impeachment, por ora, na opinião do deputado, para quem, no entanto, que está muito difícil medir a temperatura do Congresso e do país em geral, por causa do distanciamento provocado pelo vírus.

Bruno Boghossian – O que o vídeo não mostra

- Folha de S. Paulo

Presidente busca novo foco de discussão, mas o vídeo da reunião ministerial só conta uma parte da história

O governo organizou uma sessão de cinema antes de entregar ao STF o vídeo da reunião ministerial de 22 de abril. Ao estudar o conteúdo da gravação, Jair Bolsonaro decidiu bater na tecla de que não usou as palavras "Polícia Federal" ou "superintendência" naquela conversa.

O objetivo do presidente é dizer que aquelas imagens não provam nenhuma tentativa de interferência, mas a fita só conta uma parte da história. Antes de adotar a nova linha de defesa, Bolsonaro já havia afirmado publicamente que tinha problemas particulares com a PF.

Há oito dias, o presidente parou na portaria do Palácio da Alvorada para rebater o depoimento de Sergio Moro sobre o caso. Bolsonaro admitiu que tinha interesse em trocar o chefe do órgão no Rio e justificou: "tentaram colocar na conta" dele e de seus filhos Flávio e Carlos o assassinato de Marielle Franco —e a PF não teria investigado o assunto.

Hélio Schwartsman- O segredo de Bolsonaro

- Folha de S. Paulo

Se ele já teve a doença, não é mais transmissor ativo do vírus

Não penso que Jair Bolsonaro deva ser obrigado pela Justiça a mostrar os resultados de seus testes para a Covid-19. Não tenho aqui a intenção de defender o presidente. Já cheguei à fase em que aplaudo tudo de ruim que acontece a ele. O que merece defesa, creio, é o instituto do sigilo médico, que só pode ser suspenso excepcionalmente e por motivos muito precisos, que não incluem a curiosidade do público.

O sigilo médico visa a proteger a vida e a saúde. Ele existe, entre outras razões, para assegurar que ninguém tenha receio de procurar socorro, mesmo que o ferimento ou a doença que o acometem tenha resultado de um crime. Um bom exemplo é o do usuário de drogas ilícitas. Se a polícia tivesse acesso direto aos prontuários médicos, um pedaço não desprezível da população pensaria duas vezes antes de procurar um hospital —o que seria desastroso em termos sanitários.

Quando, então, é certo suspender o sigilo? De um modo geral, penso que o profissional deve estar autorizado a levantar o segredo apenas para prevenir (não para investigar) certos crimes ou danos à saúde de terceiros. Se um psiquiatra tem razões para acreditar que um paciente seu que disse que planeja matar o vizinho está falando sério, aí sim ele deve comunicar o fato às autoridades. De modo análogo, o médico pode alertar a mulher de um paciente de sífilis que se recuse a seguir o tratamento.

Ruy Castro* - E se Bolsonaro pegar Covid-19?

- Folha de S. Paulo

Se, como diz, seus exames deram negativo, significa que ele ainda pode ser infectado

Jair Bolsonaro anunciou para seu gado que só sairá da Presidência no dia 1º de janeiro de 2027. Se se confirmar, será um alívio. Pelo que fez até agora e continua impune, é tocante sua benevolência de contentar-se com uma única reeleição —esta, já dada de barato. Mas o que o impedirá de, a qualquer momento, decretar-se eterno no poder? Se fizer isso —e não precisaria nem esperar pela reeleição—, é porque sabe que poderá contar com a impotência e o aval bovino dos demais Poderes.

Sua certeza se baseia no sucesso de sua tática, aprendida com os amigos milicianos, de governar pela bofetada. Simbólico ou não, é o tapa na cara. Bolsonaro bate e ninguém reage. Esbofeteia ministros —Sergio Moro, por exemplo, enquanto no cargo, tomou tanto na cara que parecia gostar—, aliados de primeira hora, servidores de carreira, cientistas, juristas. Dias Toffoli viu-o reduzir o STF a palanque e ficou firme, mas, sem a barba, sua face avermelhada acusava a marca da mão aberta. Quanto ao Exército, Bolsonaro pode, por enquanto, recolher a palma. Compra-o a prestações dando-lhe empregos, oficialzinho por oficialzinho.

Ricardo Noblat - Bolsonaro revela sem cortes a face golpista do seu governo

- Blog do Noblat | Veja

O ato e o fato
Que governo é esse onde o presidente ameaça usar as Forças Armadas caso o Congresso abra contra ele um processo de impeachment;

onde o ministro da Educação chama os ministros do Supremo Tribunal Federal de filhos da puta e diz que todos eles deveriam ser presos;

onde a ministra da Mulher e dos Direitos Humanos defende a prisão de governadores e dos prefeitos;

e onde os demais ministros, sendo 8 dos 22 militares, a tudo ouvem, impassíveis, sem dar sinais de que discordam?

É um governo golpista. Que poderá cair por falta de condições de aplicar o golpe. Mas que se tiver condições para tal, se de fato se sentir ameaçado de cair, tentará dar o golpe.

Não é dedução. Não depende de opinião de quem gosta e de quem não gosta do governo. É fato. Está gravado no vídeo exibido, ontem, na Polícia Federal. Está na boca do presidente.

Golpe não se dá mais com tanques rolando pelas ruas, tropas marchando contra cidades, Congresso fechado, Supremo Tribunal Federal fechado, prisões de opositores do novo regime.

Baionetas caladas calam um Congresso que se deixa emascular pensando evitar o pior. Um twitter do Comandante do Exército foi suficiente para mudar o rumo de uma decisão do Supremo.

O presidente da República e seu governo, pois, são, um perigo à democracia. Só isso bastaria para serem removidos. Ou se continuará esperando que o presidente faça o que alardeia que faria?

Entrevista | FHC teme que Forças Armadas possam tomar ‘gosto pelo poder’

- EFE, O Estado de S.Paulo

Ex-presidente também disse que Sérgio Moro não deveria ter deixado a magistratura e assumido a pasta da Justiça no governo Bolsonaro

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso mostra preocupação com a possibilidade de que as Forças Armadas possam se apegar ao poder em um governo com cada vez mais militares e enxerga no país um cenário político com o Legislativo e Judiciário tentando preencher vazios deixados por um Executivo que, de acordo com ele, está “cambaleante” e “sem rumo definido”.

“Há muitos (militares no poder) e cada vez mais. E isso é uma fragilidade política do governo”, afirmou FHC, de 88 anos, em entrevista à Agência Efe por videoconferência em sua residência, em São Paulo. “Não podemos permitir agressões contra a Suprema Corte, contra o Congresso, que vão contra a democracia”, acrescentou.

Na entrevista à Efe, o ex-presidente também opinou que Sergio Moro não deveria ter deixado a magistratura e assumido a pasta da Justiça no governo de Jair Bolsonaro. “Creio que ele se equivocou ao aceitar ser ministro. Não por ser ministro do Bolsonaro, mas porque trocou o âmbito da Justiça, no qual atuou a vida toda, pelo Executivo, e ficou em uma situação delicada, porque não era um homem predisposto a estas funções (políticas)”, comentou.

Leia abaixo a entrevista.

Monica De Bolle* - A agenda da cidadania

- O Estado de S. Paulo

Sem o cuidado das pessoas, não há economia que resista ao choque inédito que testemunhamos

A pandemia e a crise econômica nos oferecem dor, ansiedade, tristeza. Mas a pandemia e a crise econômica também nos oferecem liberdade, justiça e avanços em direitos. Como já argumentava Thomas Paine no século 18, não há liberdade plena sem direitos fundamentais e, para alcançar tais direitos fundamentais, um humanista não pode deixar de defender que o Estado cumpra seus papéis fundamentais. Paine é uma espécie de guru dos libertários norte-americanos, muitos deles defensores das ideias de alguns intelectuais da Universidade de Chicago nos anos 1960 e 70, como o Estado mínimo. O que esses libertários talvez tenham preferido esquecer é que Paine, junto com outros grandes pensadores, lançou as bases do Estado de Bem-Estar social, cujo pilar era a renda básica, sobretudo para os mais jovens e os idosos.

No Brasil, a renda básica, ou a renda básica da cidadania, foi a luta de quase uma vida inteira do ex-senador Eduardo Suplicy. Não à toa, o ex-senador cita Thomas Paine em suas obras. Afinal, vem dali a ideia de cidadania, de que a renda básica transcende o assistencialismo para alcançar outro patamar de justiça social. Esse patamar diz respeito ao humano e a como nos percebemos uns aos outros. Antes da pandemia, era comum considerar esses temas como sendo utópicos, fantasias de intelectuais e políticos que jamais teriam chance de realização. Mas eis que, em plena pandemia, começamos a observar a formação de uma coalizão para construir uma nova realidade, mais justa, mais igualitária, mais humanista, aparecendo a renda básica como o eixo de uma economia com olhar humanista: uma economia do cuidado. Sem o cuidado das pessoas não há economia que tenha qualquer capacidade de resistência ao choque inédito que testemunhamos.

Vera Magalhães - Luz do sol

- O Estado de S.Paulo

Só transparência total vai resolver impasse duplo que inquieta o País

Não é só a vitamina D, tão necessária nesses tempos em que vivemos confinados, que precisa da luz do sol para ser ativada. Só a claridade vai tirar o Brasil do impasse cada vez mais grave em que Jair Bolsonaro joga o País.

O agente capaz de escancarar as janelas e cortinas e iluminar dois cômodos que o presidente gostaria de manter nas trevas é o mesmo: o Supremo Tribunal Federal.

O presidente da Corte, José Antonio Dias Toffoli, bem que demonstrou, em sua densa, porém cautelosa, entrevista ao Roda Viva, minimizar os riscos para a democracia que Bolsonaro representa com seus atos e palavras. Apostou em diálogo e união de todos os Poderes para enfrentar a crise.

Menos de 24 horas depois, a sessão de cinema determinada pelo decano Celso de Mello parece ter entornado a pipoca da concertação nacional: segundo relatos em off de alguns dos espectadores, a reunião ministerial de 22 de abril se assemelhou mais a um filme de gângsteres.

Dada a gravidade dos spoilers de quem viu o filme, Celso de Mello precisa torná-lo público. Se há exortações à prisão de membros da mais alta Corte da Justiça e de governadores por parte de ministros e a explicitação verbal pelo próprio chefe de governo de que quer proteção da Polícia Federal para familiares e aliados, além da admissão de que a revelação de seu exame para covid-19 poderia alimentar um impeachment, as razões de segurança nacional obrigam à publicidade total da reunião, e não à manutenção de seu sigilo, como insiste o Executivo.

Rosângela Bittar - Já é outro dia

- O Estado de S.Paulo

Os militares morrerão por um governo alvo de investigação, imerso em isolamento?

Na linha do tempo, já é outro dia. O vídeo da reunião que expôs as vísceras de um governo em decomposição, principalmente pela atuação do presidente Jair Bolsonaro e os discursos do chanceler Ernesto (bobo da corte) Araújo e Abraham (pior ministro) Weintraub, foi entregue na sua integralidade e visto por algozes e réus. Permanecerá nos arquivos como uma marca definitiva de um time perdido, sem líder ou objetivo, eira ou beira. Um alto encontro de baixo propósito. Desdobramentos são, por enquanto, imperscrutáveis. Os fatos registrados podem dar em tudo, como identificar o crime de que é suspeito o presidente, ou nada, se o procurador-geral da República assim entender.

O segundo vendaval que atravessou a semana transportou o País, machucado por doença e mortes, a outra situação indefinida. Como ficamos depois do depoimento dos três ministros do governo Jair Bolsonaro, em cargos civis e políticos na Presidência, sobre as denúncias do então ministro da Justiça, Sérgio Moro. Já terão tido o seu efeito e será preciso superar a fusão que se tentou fazer de seu desgosto por esta convocação com a adesão das Forças Armadas aos propósitos pessoais do presidente da República.

Pularam o Rubicão e o mundo não acabou, como previam. Os seus desdobramentos, porém, ainda estão embaralhados.

Eliane Cantanhêde - Moro tem o controle da situação e não sobra pedra sobre pedra

- O Estado de S.Paulo

Enquanto frisava que jamais acusara Bolsonaro de crime, Moro deu, sem histrionismo e adjetivos, todos os passos para as investigações. E dissimulou a bala de prata: a reunião de 22 de abril

A principal conclusão sobre a reunião ministerial de 22 de abril é de que o ex-ministro Sérgio Moro tem o controle da situação e da narrativa que pode levar à denúncia e a um processo de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro. Moro lapidou seu temperamento frio e calculista ao longo de 22 anos de magistratura e na Lava Jato e não mergulharia numa aventura. Ele tinha bala na agulha. Ou melhor, uma bomba atômica. Ao comunicar sua demissão do Ministério da Justiça, Moro falou da investida política de Bolsonaro na PF e, na mesma noite, expôs a troca de mensagens em que o presidente reclama das investigações contra dez ou doze deputados do PSL e diz: “mais um motivo para a troca (na PF)”.

Fernando Exman - As dificuldades do Brasil para respirar

- Valor Econômico

Produção nacional de ventiladores pode opor alas do governo

O ano de 2020 será marcado, entre outros tristes aspectos decorrentes da pandemia, como aquele que incluiu máscaras, equipamentos de segurança individual e respiradores artificiais entre os fatores essenciais à segurança nacional de qualquer país. No Brasil, contudo, quase tudo parece ocorrer na hora mais imprópria possível. Ou então nós mesmos nos esforçamos para complicar o que já é complexo e desafiador.

Essa discussão sobre a importância estratégica da indústria de materiais e equipamentos médico-hospitalares ganhou relevância no cenário global, em razão da concentração da produção na China e da concorrência imposta por diversos países - muitas vezes desleal - na corrida para a formação de estoques. É uma nova dinâmica que já afetou as relações internacionais.

No âmbito local, o tema demanda atenção urgente do governo e também do empresariado: os números de infectados e mortos não param de crescer. Está evidente a fragilidade do Brasil.

Cristiano Romero - Brasil não consegue superar modelo dos 80

- Valor Econômico

Brasil demorou para superar inflação e crise da dívida

Depois de ter sido o país que mais cresceu entre as décadas de 1950 e 1970, o Brasil perdeu todos os “bondes” da história desde então, tornando-se uma economia de baixo crescimento. Demorou muito para superar a crise da dívida e livrar-se do processo hiperinflacionário, dois problemas que assolaram de forma indistinta nações subdesenvolvidas no início da década de 1980. Na verdade, foi justamente por não aceitar o fim do modelo de substituição de importações que a Ilha de Vera Cruz nunca mais se reconciliou com o crescimento acelerado.

Uma medida da “estagnação” está na comparação com os Estados Unidos. Dados do FMI mostram que em 1980, ano em que crescemos 9,2%, o PIB do Brasil, a preços correntes e pelo Poder de Paridade Compra (PPP, na sigla em inglês), era de US$ 590,9 bilhões. Naquele ano, pelo mesmo critério, o dos EUA era de US$ 2,857 trilhões, portanto, 4,8 vezes o brasileiro. No ano passado, segundo estimativa do FMI, a relação aumentou para 6,22 vezes - respectivamente, PIB (PPP) de US$ 3,479 trilhões e US$ 21,665 trilhões.

Em 1980, a China, ainda um gigante adormecido, mas com despertador programado para acordá-lo logo mais, tinha um PIB, também pelo critério usado pelo FMI, de US$ 304,3 bilhões, quase metade do brasileiro. Bem, 40 anos depois, os chineses já registram PIB, medido pelo PPP, superior ao dos EUA - US$ 30,9 trilhões, quase nove vezes o do Brasil. Uma observação importante: isso não faz da China nação mais rica que os EUA, afinal, seu PIB per capita, estima o FMI, chegou a US$ 20 mil no ano passado, enquanto o dos americanos é de US$ 67,7 mil.

Nilson Teixeira* - Retomada: muita incerteza no ar

- Valor Econômico

É difícil antecipar o comportamento do ciclo econômico, pois consumidores e empresários terão provavelmente conduta diferente daquela que tinham antes da pandemia

A normalização da economia nos países bem-sucedidos em evitar o aumento de novos casos de infecção da covid-19 ensina que é crucial promover uma saída segura da quarentena. Essa estratégia requer a capacidade de realização contínua de testes, em particular nos grupos de risco, para ser implementada uma segregação imediata daqueles com sinais de possível contaminação. O começo da saída só é indicado quando o número de novos casos de infecção e de morte já está declinando e houver na localidade um número suficiente de leitos e de respiradores para atender um possível aumento desses casos com a flexibilização da quarentena.

A ausência dessas condições em muitas regiões do Brasil neste momento sugere que o ideal é manter o distanciamento social por um período mais longo, apesar do impacto desfavorável na economia e do aumento dos gastos fiscais advindo da necessidade de ampliação do suporte à população e às empresas.

A possibilidade de repique do número de novos casos de infecção torna arriscada uma saída acelerada da quarentena. Essa decisão poder ter um impacto na economia no médio prazo ainda mais desfavorável do que o prolongamento do afastamento social, pois um eventual retrocesso na reabertura deterioraria a confiança de consumidores e empresários e fragilizaria a retomada.

O que a mídia pensa - Editoriais

• Vídeo de Bolsonaro parece uma confissão – Editorial | O Globo

Confirmados os fatos, inquérito precisa prosseguir para o bem das instituições republicanas

O vídeo da reunião ministerial de 22 de abril, em que, segundo o ex-ministro Sergio Moro, o presidente Bolsonaro confirmou que faria tudo para substituir Maurício Valeixo na diretoria-geral da Polícia Federal, inclusive demitir o ministro da Justiça e Segurança Pública, superior hierárquico de Valeixo, era a peça final de um quebra-cabeça já conhecido no seu conteúdo. O relato público que Moro fez no dia 24, dos motivos de sua saída, sem responder a perguntas da imprensa, já trazia o entendimento de que o presidente queria ter na Polícia Federal, na cúpula e/ou na superintendência do Rio de Janeiro, pessoas com as quais ele pudesse obter informações e relatórios de inteligência, o que não é função da PF, uma polícia que trabalha em inquéritos instaurados pela Justiça. Bolsonaro queria privatizar a PF.

A íntegra do vídeo, pedida pelo ministro do Supremo Celso de Mello, presidente do inquérito sobre as denúncias de Moro, conduzido pelo procurador-geral da República, Augusto Aras, foi exibida ontem em Brasília para Moro e seus advogados, além de representantes da Advocacia-Geral da União (AGU), do lado do presidente, policiais e procuradores. A divulgação restrita — o vídeo continua sob sigilo — completou uma cena não surpreendente, mas o fez com um bônus. Segundo relatos, o presidente aparece, como afirmara Moro, dizendo que substituiria o então diretor-geral da PF, Maurício Valeixo, a quem Moro resistia a afastar, e que poderia demitir o próprio ministro. O bônus veio na declaração de que ele queria defender sua família. Tudo ficou explícito, a se confirmar o conteúdo do vídeo.

Música | Moacyr Luz -Pra que pedir perdão

Poesia | Carlos Pena Filho - A solidão e o seu desgaste

Freqüentador da solidão, às vezes
Jogava ao ar um desespero ou outro,
Mas guardava os menores objetos
Onde a vida morava e o amor nascia.

Era uma carga enorme e sem sentido,
Um silêncio magoado e impermeável…
A solidão povoada de instrumentos,
Roubando espaço à andeja liberdade.

Mas, hoje, é outro que nem lembra aquele
Passeia pelos campos e os despreza
E porque sabe com certeza clara,

O princípio e o fim da coisa amada,
Guarda pouco da vida e o que retém
É só pelo impossível de eximir-se.