segunda-feira, 11 de maio de 2020

Opinião do dia - Norberto Bobbio*

Constituição italiana era mais do que um texto jurídico. Para um país que saíra da barbárie do fascismo, era “um compromisso, necessário e a longo prazo benéfico, entre forças políticas apoiadas em ideias morais e sociais diferentes, algumas vezes até opostas”. O que se espera da Constituição é que ela defina as regras do jogo. Mas o modo como um governo se conduz nesse jogo, “se deve colocar-se mais à esquerda ou mais à direita, se deve ir ao ataque ou fechar-se na defesa, nenhuma Constituição o pode estabelecer”

Deixo para os fanáticos, aqueles que desejam a catástrofe, e para os insensatos, aqueles que pensam que no fim tudo se acomoda, o prazer de serem otimistas. O pessimismo é um dever civil. (...) Só um pessimismo radical da razão pode despertar com uma sacudidela aqueles que, de um lado ou de outro, mostram que ainda não se deram contam de que o sono da razão gera monstros”.

*Bolsonaro e o pessimismo da razão*, Editorial do Estado de S. Paulo, 10/5/2020.

Fernando Gabeira - Bolsonaro perde bonde do corona

- O Globo

Ele apenas falou contra o isolamento. Foi incapaz de apresentar um plano, mesmo um pobre esboço, como Trump

Confesso que não fiquei tão perplexo com a ida de Bolsonaro ao STF levando um grupo de empresários. Acredito que, tanto quanto eu, ele não esperava nenhuma solução para o problema que levantava: a volta às atividades econômicas.

O objetivo de Bolsonaro era mostrar que estava trabalhando pela economia. Para isso, levou uma equipe de TV e transmitiu o encontro ao vivo, para surpresa do próprio STF. Um golpe de propaganda, nada mais. Interessante como Bolsonaro consegue perder os bondes nessa luta contra o coronavírus.

Perdeu o primeiro, quando se isolou, negando a importância da pandemia, criticando o trabalho de governadores e prefeitos. Uma nova oportunidade de liderança e alinhamento se abriria para ele, no processo de volta às atividades. Compete ao presidente unir governadores e prefeitos em torno de um detalhado plano de retomada.

Dois dias antes de Bolsonaro ir ao Congresso, Angela Merkel reuniu as lideranças regionais para definir e modular um plano de volta.

Ana Maria Machado - Lerdeza fatal

- O Globo

Podíamos ter distribuído a prosperidade quando crescíamos

Mário Henrique Simonsen ensinou que o sistema social menos imperfeito é o que sabe corrigir mais rápido seus erros. Chamava a atenção para um aspecto novo no mundo, lá nos anos 1970: não mais o grande a engolir o pequeno, mas o veloz a devorar o lerdo.

A pandemia escancara como viemos perdendo tempo pelos anos afora e mantendo esta desigualdade escandalosa. Nas reformas estruturais, por exemplo. Sempre adiadas e combatidas por corporativismos que impedem seu alcance na redistribuição de oportunidades. A eleitoral e a tributária empacaram. As que foram aprovadas, tímidas, sofreram com espertalhões garantidores de privilégios e enxertadores de jabutis.

Podíamos ter distribuído a prosperidade quando crescíamos. Agora a urgência do vírus exibe o abismo social acintoso. É inaceitável manter isenção fiscal para igrejas e empresários selecionados. Hipersalários para superfuncionários. Ou tolerar a inadimplência de ocupantes de imóveis da União (que chega a quase um bilhão de reais).

Cacá Diegues - Sonhos impossíveis

- O Globo

Às vezes, eu tenho quase certeza de que o presidente é um homem mau, que pratica a maldade social

O presidente Jair Bolsonaro não é mais apenas um trambolho em nossas vidas. Nesses meses de coronavírus, ele se tornou um pesadelo do qual está difícil acordar, ele não deixa. Assim que começamos a rir da desgraça que ele disse ou fez na semana passada, o presidente capricha na próxima besteira e não nos deixa esquecer a importância que ele tem, pelo que ele é, em nossas vidas. De minha parte, esbarro sempre nessa ideia de que ele foi eleito democraticamente, dentro das regras democráticas do país. Só nos resta, portanto, esperar pacientes e atentos pelos dois anos e meio que faltam para que ele complete seu mandato. A não ser que congressistas e juízes nos apareçam com motivos sérios e legais, para que ele sofra um impedimento. Mas não sei se um terceiro impeachment, em tão pouco espaço de tempo, fará bem ao país. Não sei.

Nunca vivi período político tão insuportável como este. Mesmo durante a ditadura militar, que durou 21 anos, nós sempre alimentamos alguma esperança e a fluida sensação, inventada talvez por necessidades psíquicas, de que o pior já tinha passado. E ainda havia, muito de vez em quando, inesperados sinais de que alguma coisa, afinal de contas, marchava em boa direção. Como foi, por exemplo, o tratamento dado ao cinema, durante o governo do general Ernesto Geisel, promovido pelo ministro Reis Velloso. Era como se o país estivesse ocupado por quem não devia; mas a nação estava lá, esperando que um dia a tomássemos nos braços.

Entrevista | Batalha das narrativas

Para Karoline Postel-Vinay, especialista em narrativas nas relações internacionais do Instituto de Estudos Políticos de Paris, a política 'tem horror à zona vaga das incertezas'

Fernando Eichenberg, especial para O Globo

PARIS – Diante das incertezas científicas que cercam a pandemia da Covid-19, multiplicam-se as narrativas políticas que buscam, por necessidade ou oportunidade, conferir coerência ao enfrentamento da crise, observa a cientista política Karoline Postel-Vinay. Especialista no estudo de narrativas nas relações internacionais, tema de seu próximo ensaio, a analista do Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences-Po) afirma que a política “tem horror à zona vaga de incertezas”, terreno no qual não sobrevive.

No caos mundial provocado pelo coronavírus, governos nacionais, organismos internacionais e movimentos de opinião criam seus próprios discursos, em uma “batalha de influências” que, segundo prevê, será ainda mais acirrada no período pós-crise.

Qual a diferença entre as narrativas políticas por necessidade e por oportunidade nesta crise pandêmica?

A necessidade ocorre quando há políticas públicas a serem aplicadas, porque a saúde é um setor soberano, e os governos nacionais são os primeiros a terem de agir. As organizações internacionais também, como o Banco Mundial ou a União Europeia (UE), mas não estão linha de frente. A Organização Mundial da Saúde (OMS) não aplica políticas públicas, envia mensagens e recomendações. Existe a necessidade de uma aplicação de políticas públicas, com coerência, enquanto ainda não se têm todos os dados científicos e há grandes zonas de incertezas.
A oportunidade é quando já existe uma mensagem política que se quer desenvolver ainda mais, e esta situação de crise é uma oportunidade para promover certas narrativas, que não são totalmente novas. Penso que mais nos aproximarmos de um fim da crise, mais estes momentos de oportunidade vão se desenvolver. Já se vê isso nos debates em torno de como será o mundo no pós-crise. Na França, o presidente Emmanuel Macron já abriu a via para isso ao dizer que sairemos transformados desta crise, “eu em primeiro”. E quando se diz que o mundo será diferente, evidentemente se está completamente na mise-en-scène narrativa do pós-crise, não no dado científico.

As narrativas, segundo sua análise, se sustentam menos em uma verdade do que em uma plausibilidade.

A noção de plausibilidade é de Roland Barthes, que a usou para falar de narrativas em um sentido mais filosófico-literário nos anos 1970. O filósofo Paul Ricoeur e outros também desenvolveram toda uma teoria da narrativa. É o meu tema nas relações internacionais, e o utilizo no contexto político. Os teóricos da narrativa disseram que cada indivíduo é confrontado a um conjunto de acontecimentos e dados, e tenta dar um sentido geral a tudo. E a isso se acrescentam as crenças de suas sociedades. Hoje, estamos em uma zona vaga de incertezas, a começar pelos epidemiologistas. E não se faz política com incertezas. A política tem horror deste vazio e desta zona vaga, não sobrevive neste terreno. Então é preciso dar um sentido. Quando se deve administrar um espaço nacional – e também internacional -, se é obrigado a habitar esta zona, preenchê-la. É a própria natureza da política que leva a isso. Qual a verdade do grande debate atual saúde x economia? É preciso organizar uma narrativa que vá produzir algo plausível, que tenha um sentido, seja coerente. Há várias dimensões nesta crise.

Ricardo Noblat - O direito do distinto público de conhecer melhor quem o governa

- Blog do Noblat | Veja

Mostre o vídeo, Celso de Mello

Há muito mais a ser provado pelo vídeo da reunião ministerial de 22 de abril último do que somente a denúncia feita pelo ex-ministro da Justiça Sérgio Moro de que o presidente Jair Bolsonaro ameaçou demiti-lo se não trocasse o superintendente da Polícia Federal no Rio.

Bolsonaro queria também a troca do superintendente da Polícia Federal em Pernambuco, sabe-se lá por quê. Mas foi por meio de mensagem remetida a Moro em grupo de WhatsApp que ele tratou do assunto. Quanto a troca no Rio, ela favoreceria sua família em apuros com a Justiça.

É verdade, por exemplo, que o Ernesto Araújo, o sagaz ministro das Relações Exteriores, disse na reunião que o Covid-19 fora criado em laboratório para que a China pudesse depois dominar o mundo? E que batizou-o de “comunavírus”, provocando uma gargalhada de Bolsonaro?

A China, mas não somente ela, tem interesse em conferir se isso de fato aconteceu. Maior parceiro comercial do Brasil, a China anda agastada com o governo Bolsonaro desde que o deputado Eduardo, um diplomata nato e às vezes incompreendido, acusou-a de ter fabricado o vírus.

*Marcus André Melo - Weak strongman

- Folha de S. Paulo

Por que Bolsonaro fez pouco caso da pandemia?

A resposta canônica de líderes iliberais frente à pandemia é apontar a magnitude da ameaça como justificativa para a concentração de poder. O caso exemplar é o de Viktor Orbán na Hungria, que governa virtualmente por decreto.

Bolsonaro, Trump, e Johnson (este mais bufão que iliberal), no entanto, fizeram pouco caso dela.

Este paradoxo pode ser explicado pelo fato de que os dois últimos depararam-se com ameaças —impeachment e Brexit— que precediam a pandemia. Contavam com maiorias parlamentares disciplinadas: Trump foi inocentado no Senado, onde tem maioria; apenas um senador de seu partido (Mitt Romney) votou a favor. Contudo deparavam-se com checks and balances robustos e opinião pública ativa.

Bolsonaro é liderança iliberal hiperminoritária, o que é um oxímoro. Mas a contradição desfaz-se quando se examina as condições excepcionais de sua ascensão: a formação de uma maioria negativa que o rejeitava menos que o rival. Sua crescente vulnerabilidade explica a aliança com o centrão. Ela fortalece seu escudo legislativo (em equilíbrio instável), mas piora a popularidade. Ele também se depara com instituições de controle que adquiriram densidade.

*Celso Rocha de Barros - Bolsonaro é o centrão armado

- Folha de S. Paulo

Presidente está comprando o centrão para aprovar pautas autoritárias e, sobretudo, para evitar o impeachment

O ex-deputado Roberto Jefferson postou uma foto em que carrega um fuzil e se diz pronto para defender o Brasil do comunismo sob as ordens de Jair Bolsonaro.

Sem querer, produziu a melhor síntese do bolsonarismo até agora: o bolsonarismo é o momento em que a corrupção brasileira passou do furto ao assalto à mão armada.

Não foi, a propósito, o primeiro contato do ex-deputado com a extrema direita. Vamos lá, tente adivinhar, o que foi que Roberto Jefferson fez antes com a extrema direita? Resposta no próximo parágrafo.

Você acertou, ele roubou da extrema direita. Em 19 de março de 2010, Jefferson publicou um artigo na seção Tendências/Debates deste jornal, em que argumentava que era a ideologia esquerdista que fazia o PT roubar. Não se sabe que ideologia o inspirou nesse caso, mas o fato é que o artigo era roubado: era plágio de um artigo de Olavo de Carvalho, que escreveu à Folha no dia seguinte reclamando. Jefferson colocou a culpa em “um antigo colaborador”.

O centrão, a propósito, sempre teve uma facção armada, a bancada da bala.

Vinicius Mota - Depois da catástrofe

- Folha de S. Paulo

Pandemia desafia intuição humana, premia paciência e catapulta valor da vacina

A Guerra Fria suscitou pesadelos de aniquilação nuclear e estimulou especulações sobre como seria a vida na Terra após a detonação das ogivas do apocalipse.

A pandemia da Covid-19 não chega perto do que teria sido aquele drama, mas, como poucos acontecimentos na história recente, ela risca no chão de todos os rincões do planeta um antes e um depois.

E com o que se parece, até aqui, o saldo do “dia seguinte” a essa transformação global? Com a vista ainda embaçada pela fumaça opaca e a chuva escura, eis alguns esboços grosseiros:

1. Fomos castigados pelas armadilhas da matemática. Quando cada infectado transmite o vírus a 4 pessoas num período de 14 dias, menos de quatro meses separam o caso mil do 90 milhões. Não há intuição humana capaz de captar adequadamente tamanha disparada.

Leandro Colon - O jogo Bolsonaro x Moro é político

- Folha de S. Paulo

Se o presidente cometeu crime, é problema da PGR; à mesa agora está uma série de elementos políticos graves

Há um movimento em Brasília de desqualificação do depoimento de Sergio Moro à Polícia Federal.

Críticas vêm de advogados de enrolados com a Lava Jato, de parlamentares que integram um Congresso pouco simpático ao ex-juiz e de magistrados de tribunais superiores que nunca morreram de amores por ele.

Os ataques do Planalto à oitiva não contam, afinal Jair Bolsonaro é o alvo dela. O entorno de Augusto Aras, escolhido por Bolsonaro para chefiar a Procuradoria-Geral da República, tem diminuído nos bastidores a importância do relato à polícia.

É fato que Moro frustrou quem esperava algo bombástico. Não foi assim. Não houve um petardo desconcertante em Bolsonaro. Se o presidente cometeu crime, é um problema da PGR e do STF identificá-lo. À mesa agora está uma série de elementos políticos bem graves.

Fernando Collor sofreu impeachment em 1992 e foi absolvido pelo Supremo. Dilma Rousseff foi retirada do Palácio do Planalto em 2016 com base nas pedaladas fiscais, mas pouco sofreu na esfera penal.

*Ruy Castro - Mesas atoalhadas

- Folha de S. Paulo

Os endereços da história, eternos na sua fragilidade, ameaçados pelo coronavírus

O Bar Luiz, restaurante alemão da rua da Carioca, já tinha dois anos em 1889 quando caiu a Monarquia. Sua strudel pode ter alimentado muitas conspirações republicanas. Nos séculos seguintes, ele atravessou o bota-abaixo do prefeito Pereira Passos, a gripe espanhola, duas guerras mundiais (com a Alemanha como vilã e pondo à prova o amor do carioca pelo seu chope), a Revolução de 1930, duas ditaduras, as obras do metrô (que arrasaram o Centro da cidade) e dezenas de planos econômicos, inclusive um confisco que drenou o dinheiro em circulação. O Bar Luiz sobreviveu a tudo isso. Mas não sabe se, aos 133 anos, sobreviverá ao coronavírus.

Essa crônica da resistência foi levantada há dias pela repórter Raphaela Ribas no Globo, citando também o Café Lamas, ainda mais antigo, 146 anos, e mais histórico. O Lamas está tentando compensar com um serviço de entregas a quebra de 75% no faturamento. O Bar Luiz, já combalido pela ganância do dono do imóvel, um banco, está fechado. O Rio sabe o peso desses endereços em sua memória.

*Bruno Carazza - O powerpoint, os tweets e os guarda-costas

- Valor Econômico

Na aventura autoritária de Bolsonaro, não há projeto de país

Ao longo das últimas semanas Bolsonaro e seus seguidores têm flertado com uma quebra institucional. A presença do presidente em manifestações pedindo a intervenção militar e um novo AI-5, a intimidação ao Supremo Tribunal Federal (STF) com uma visita inesperada escoltado por representantes da elite industrial, os ataques reiterados à imprensa, a demissão de seus ministros civis com maior apoio popular e a nomeação de militares da ativa em toda a Esplanada dos Ministérios, a cooptação da base parlamentar mais fisiológica, a interferência na Polícia Federal, o incitamento de suas milícias virtuais para que invadam as ruas em meio às recomendações de isolamento social - são muitos os movimentos na direção de uma solução autoritária para a crise criada por sua própria incompetência gerencial.

Aqui e ali, nas duas bolhas que dividem o país, ressurgem comparações entre o momento que atravessamos e o clima que levou ao golpe de 1964. Sem dúvida a tática de Bolsonaro de se cercar de militares, das forças políticas mais conservadoras e de parte da elite empresarial para testar os limites de nosso regime republicano guarda semelhanças com o que aconteceu no início dos anos 1960. No entanto, três episódios ocorridos nas últimas semanas ilustram o vazio dessa aliança militar, política e empresarial que Bolsonaro pretende construir em torno de seu projeto autoritário de poder.

Alex Ribeiro - Corte de juro com sabor de aperto

- Valor Econômico

Banco Central gora parece menos preocupado com as condições financeiras

Até alguns economistas e operadores do mercado que defendiam cortes mais agressivos de juros reconhecem, de forma reservada, que a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) da semana passada não proporcionou todos os benefícios esperados. Em muitos aspectos, teve o sabor de aperto nas condições financeiras. Faltou, para eles, comunicar melhor a estratégia de política monetária.

O Banco Central havia sinalizado, em conversas fechadas com participantes do mercado, a intenção de cortar os juros em 0,75 ponto percentual, por isso as apostas inicialmente se concentravam em um movimento dessa magnitude. Depois da saída do governo do ministro da Justiça, Sergio Moro, as chances ficaram divididas entre 0,75 ponto e 0,5 ponto. Muitos achavam que o BC, que até então vinha se mostrando conservador, não iria tomar riscos excessivos num ambiente mais incerto.

Mas, ao final, a decisão do Banco Central foi bem mais ousada: cortou 0,75 ponto e sinalizou que caminha para fazer outro corte na mesma magnitude na próxima reunião, de junho. Na prática, encomendou um corte de 1,5 ponto percentual, embora de forma envergonhada.

Mais do que a decisão em si, especialistas do mercado veem uma mudança na postura do Banco Central. Até a reunião de março, o comitê estava muito preocupado com o risco de que cortes de juros fossem contraproducentes, levando a um aperto nas condições financeiras. O comunicado da reunião da semana passada exclui essas preocupações, que constavam na versão do documento de março. “É algo que parece ter sido superado dentro do BC”, diz um gestor de fundos de investimento multimercado. Sem essa amarra, em tese não há limites para a queda dos juros, dentro da lógica do sistema de metas para a inflação.

*Ricardo Abramovay - Lições da pandemia para a crise climática

- Valor Econômico

Ao contrário do coronavírus, as emissões de gases de efeito estufa não respeitam o fechamento de fronteiras

A “Eu sabia que havia cem casos de coronavírus na França e estava para viajar àquele país. Eu sabia também que a evolução da doença era exponencial. Eu nem considerei o fato de que se a taxa de infecção estivesse dobrando a cada três dias, em um mês, o número inicial de infectados seria multiplicado por mil. Tudo isso está além de nossa compreensão intuitiva. Inclusive da minha”.

O depoimento à revista New Yorker seria trivial, não fosse o fato de que ele vem de ninguém menos que Daniel Kahneman, psicólogo, autor de “Rápido e Devagar” e contemplado com o Nobel de Economia em 2002, por mostrar o quanto nossos comportamentos distanciam-se da imagem canônica do homem econômico racional. Seu trabalho inspirou as pesquisas de importante vertente do pensamento social contemporâneo, voltada ao estudo da maneira como as pessoas se comportam diante do risco.

Um de seus mais importantes discípulos, Paul Slovic, abriu caminho a estudos que buscam explicar as bases psicológicas a partir das quais nos relacionamos com os riscos e sobretudo com os riscos resultantes de tecnologias industriais. No que se refere ao coronavírus, Slovic, ilustra o crescimento exponencial mostrando que, segundo dados da Organização Mundial da Saúde, o tempo entre o primeiro caso da doença e a marca de cem mil atingidos foi de 67 dias. Outros cem mil casos foram registrados 11 dias depois. E levou apenas quatro dias para que mais uma leva de 100 mil pessoas adoecessem.

Entrevista | Marina Silva: ‘Presidente está esfacelando qualquer forma de ação conjunta’

Marina Silva (Rede), ex-ministra e ex-senadora

Ex-ministra critica ação de Bolsonaro durante crise, diz que governo aposta no caos e vê crime de responsabilidade

Vinícius Valfré | O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - O “e daí?” que o presidente Jair Bolsonaro deu como resposta, no início do mês, a uma pergunta sobre as mais de 5 mil mortes causadas pelo novo coronavírus até então, teve um significado especialmente amargo para a ex-ministra e ex-senadora Marina Silva (Rede) – ontem, foram confirmadads 11.123 vítimas fatais da doença. Na adolescência, no Acre, ela viu familiares e vizinhos perderem as vidas nas epidemias de sarampo e malária. Ela descreve “um sentimento triplo de tristeza, vergonha a indignação por ter um presidente que, em um momento como esse, é capaz de, em atitude de desrespeito e de falta de humanidade, dizer que não tem a ver com isso porque não faz milagre”, afirmou. Em entrevista concedida ao Estadão na semana passada, Marina Silva afirma ver crime de responsabilidade nas atitudes do presidente. Segundo ela, é preciso “sabedoria” para conduzir um eventual processo de afastamento do presidente sem fragilizar a saúde pública nem o socorro a quem mais precisa.

• Que lições a pandemia tem deixado para a atividade política?

A primeira coisa que é óbvia é a proteção da vida das pessoas. É o que temos de mais precioso, acima de projeto de poder, econômico, de protagonismos individuais. Tudo o que possa comprometer essa frágil estrutura de proteger as pessoas, de prevenir, atender, curar, amenizar sofrimentos… Nada disso deve fazer parte da política. Infelizmente, a gente não está vendo isso desse jeito. E o pior exemplo vem do próprio governo. Demite o ministro no meio da crise, dá comando dizendo que a economia é mais importante do que a vida, estimula o contágio, com ele próprio (Bolsonaro) saindo às ruas, e criando crises com governadores e prefeitos. O pior exemplo vem daquele que deveria estar agregando.

*Marco Aurélio Nogueira - Fazendo o que o mestre mandar

- O Estado de S. Paulo

Osmar Terra previu que o coronavírus seria leve no Brasil, com no máximo 800 óbitos. Agora, fala que o problema é sério. Mas continua a banalizar a situação: o que são 11 mil mortos perante a desgraça econômica que a quarentena produz?

O deputado Osmar Terra (MDB-RS) tem 70 anos, é médico, formado pela UFRJ. Na juventude, andou pelo PCdoB e pela ala esquerda do PMDB. Chegou a fazer campanha pela reforma sanitária e pelo SUS. Foi prefeito de Santa Rosa e secretário da Saúde no Rio Grande do Sul. Virou ministro do Desenvolvimento Social no governo de Michel Temer.

Apesar disso, não é propriamente um quadro brilhante. Mexe-se e articula bem, pelo que dizem. Foi ganhando projeção e se tornou estrela de primeira grandeza quando Bolsonaro assumiu. Tornou-se reacionário assumido, ampliando a pauta conservadora que foi modelando ao longo da carreira. Durante dois meses, passou pelo ministério da Cidadania do novo governo, terminando por ser substituído por Ônix Lorenzoni sem nem ter esquentado a cadeira.

No sábado à noite, participou de um debate na GloboNews com o ex-ministro Mandetta e o senador Humberto Costa (PT-PE). Uma bancada de médicos, propícia a uma discussão de alto nível.

*Denis Lerrer Rosenfield - Responsabilidade militar

- O Estado de S.Paulo

Uma situação, diria, patológica: os filhos do presidente atacando e mandando em generais!

O presidente Bolsonaro, ao assumir, manteve uma política de confronto incessante com seus adversários, como se todo aquele que a ele se opusesse fosse um inimigo a ser abatido. Progressivamente, à maneira de Tânatos, o deus da morte na mitologia grega (editorial do Estado de 25/4), ou a pulsão de morte segundo Freud, fez a destruição reger as relações políticas. Amigos e inimigos passaram a caracterizar suas posições, ambos constituindo uma definição volúvel segundo as circunstâncias.

De inimigos objetivos da campanha (Lula e o PT) passou o mandatário para os políticos em geral, para o “sistema”, para os velhos amigos tornados inimigos, como generais do mais alto prestígio, e, enfim, as próprias instituições democráticas, como o Supremo Tribunal e o Legislativo. O resultado foi o isolamento presidencial, recluso em sua própria família, recorrendo, em manifestação recente, a um suposto apoio das Forças Armadas ao seu governo.

Ora, as Forças Armadas devem obediência exclusivamente à Constituição e à defesa nacional. Constituem uma instituição de Estado, não estão a serviço de nenhum governo. Note-se que desde a redemocratização do País, também por elas liderada, juntamente com os adversários de então, como o MDB, e aliados, como o novo PFL, foram o sustentáculo deste mais longo período de democracia no Brasil.

Fábio Gallo - Redes de proteção social frente a dura realidade

- O Estado de S.Paulo

Realmente os tempos são outros. Os dias de hoje trazem tanto notícias muito boas, como muito ruins. Até os pessimistas estão em dúvida de como enxergar a realidade.

Quem diria que chegaríamos a juros básicos no Brasil em 3%, com taxa real de juros abaixo a 0,26% ao ano e inflação prevista abaixo de 1% para 2020. Até bem há pouco tempo acreditávamos que nosso país fosse ter taxas de baixas de inflação e juros, mas a perspectiva é que essa conjunção de fatores viesse para permitir o nosso desenvolvimento econômico e social. Que nossos dirigentes aproveitassem o momento para acertar as contas do país, déssemos um passo decisivo para o acerto das contas públicas, acabasse a farra fiscal, fim a certos privilégios e tudo que nos tornasse a nação que os brasileiros merecem – aquela que está sempre presente nos discursos, mas que nunca se torna realidade.

Mas, o fato é que não estamos fazendo a lição de casa. A condução do combate a pandemia, os desencontros entre as autoridades, a volta do fisiologismo, que nestas bandas adquire o título de “centrão”, entre outras atitudes, não trazem novo ânimo. Talvez seja a dura realidade se mostrando como tal. No entanto, essa realidade também permite observar atitudes nobres na direção da solidariedade, de união entre concorrentes e de instalação de uma rede de proteção social.

Raul Jungmann* - Polícia Federal: até a próxima crise?

- Capital Político (07.05.2020)

Está de volta ao debate público a questão se a Polícia Federal deve ou não ter autonomia plena. De um lado seus integrantes lutam para garanti-la, com o apoio de boa parte da opinião pública. De outro, políticos, Ministério Público e Judiciário, reclamam por controles mais eficazes.

Nos termos em que se desenvolve a discussão, ela é recorrente, polarizada e parcial, dado que a polícia judiciária federal já é autônoma de fato, ao longo do ciclo de atividades do processo penal; porém, com um controle externo frágil.

Ancorada constitucionalmente no Executivo, noves fora quando polícia administrativa, a PF tem um status único, pois sai integralmente da tutela do Ministério da Justiça e Segurança Pública e passa ao Judiciário quando por este requisitada. Daí que todos cobram do Ministro da pasta informações e controles que ele não pode atender, sob pena de incorrer em crime de obstrução de justiça.

Entendo que só será superada essa ambiguidade da PF se lhe for concedida uma autonomia de direito, associada a controles reais.

O que a mídia pensa - Editoriais

• Assombrações – Editorial | O Estado de S. Paulo

No Brasil sob a Presidência de Jair Bolsonaro, todos os que não devotam total lealdade ao governo são vistos não como opositores, mas como inimigos que almejam destruir o País

Estão bem longe da perfeição as instituições republicanas do Brasil. Não são poucos os exemplos de abusos ou omissões do Supremo Tribunal Federal ou de corrupção e irresponsabilidade do Congresso. Ainda assim, se o Brasil pretende permanecer uma democracia, é preciso lutar para aperfeiçoar e prestigiar esses pilares, e não sugerir, como fazem os bolsonaristas, que estaríamos melhor sem eles.

Do mesmo modo, a saúde da democracia se mede pelo vigor da oposição. Nenhum grupo no poder que se considere democrático pode tratar a oposição como se fosse uma ameaça existencial. No Brasil sob a Presidência de Jair Bolsonaro, contudo, todos os que não devotam total lealdade ao governo são vistos não como opositores, mas como inimigos que almejam destruir o País.

O bolsonarismo, como todo movimento de corte autoritário, vive de cevar fantasmas para atemorizar a sociedade. A todo momento, vozes muitas vezes autorizadas por Bolsonaro – quando não o presidente em pessoa – invocam das trevas imaginárias a assombração da volta do lulopetismo ao poder. Segundo esse discurso, quem contraria Bolsonaro – na imprensa, no Congresso e no Judiciário – faz parte de uma grande conspiração para ressuscitar a turma de Lula da Silva, o Belzebu do bolsonarismo.

Música | Gal Costa | Minha mãe / Oração para mãe Menininh

Poesia | Charles Baudelaire - A uma passante

A rua, em torno, era ensurdecedora vaia.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão vaidosa
Erguendo e balançando a barra alva da saia;
Pernas de estátua, era fidalga, ágil e fina.
Eu bebia, como um basbaque extravagante,
No tempestuoso céu do seu olhar distante,
A doçura que encanta e o prazer que assassina.
Brilho… e a noite depois! – Fugitiva beldade
De um olhar que me fez nascer segunda vez,
Não mais te hei de rever senão na eternidade?
Longe daqui! tarde demais! nunca talvez!
Pois não sabes de mim, não sei que fim levaste,
Tu que eu teria amado, ó tu que o adivinhaste!

domingo, 10 de maio de 2020

Merval Pereira - Luvas de pelica

- O Globo

Bolsonaro não realizou o churrasco devido à péssima repercussão do gesto de indiferença à morte

A decretação pelo Congresso e Supremo Tribunal Federal de luto oficial por três dias por termos atingido a fatídica marca de mais de 10 mil mortos devido à Covid-19 é o segundo tapa com luva de pelica que o presidente Bolsonaro recebe esta semana. Enquanto isso, ele andava de jet ski no Lago Paranoá.

O primeiro desferiu o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Dias Toffoli, que se portou com altivez diante da afronta que o presidente fez ao praticamente invadir a sede do STF para pressioná-lo pelo fim do isolamento, justamente no dia em que o país registrava mais de 700 mortes por dia e chegava ao número macabro de 10 mil mortos, indiferentes para o presidente.

Toffoli salientou o bem que o isolamento social tinha trazido ao país, reduzindo o número de mortes, e sugeriu com enorme presença de espírito que o governo coordenasse uma ação conjunta de diversos ministérios para traçar planos de combate à Covid-19 juntamente com Estados e Municípios que, pela Constituição, são os responsáveis pelas ações regionais.

Bolsonaro, como sempre, fez aquela exibição para tirar de seu colo os mortos que seu egocentrismo provocou. Os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, e o do Senado, Davi Alcolumbre, fizeram o que os que dirigem o país sem olhar apenas seus umbigos devem fazer em momentos de comoção nacional.

Jarbas Vasconcelos* - Juízo, presidente!

- O Globo

Trabalhar hoje pensando em eleições é uma falta de respeito com a população

O presidente Bolsonaro, se tiver juízo e a mínima noção de realidade, deve ter a grandeza em oferecer uma trégua em seus arroubos descompensados para que possamos focar energia no que realmente interessa. Para que possamos trabalhar em ações e estratégias inteligentes para minimizar os duros impactos causados pelo coronavírus na saúde, no emprego e na renda dos brasileiros.

A tendência é que a situação atual da pandemia em nosso país piore nos próximos dias. As posições ideológicas, de parte a parte, devem ficar de lado. Mais do que insensível, é de uma irresponsabilidade sem tamanho a preocupação político-eleitoral que estamos vendo por aqueles que foram escolhidos para representar e defender o nosso povo já tão sofrido e necessitado. É de dar nojo essa negociação rasteira em beira de calçada, onde o presidente oferece empresas e instituições em troca de apoio político, como vem ocorrendo com o chamado centrão.

Cármen Lúcia* - Medos e esperanças

- O Globo

'O vírus não teme o mundo. Mas o mundo, esse morre de medo da doença. Com razão'

“Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços.
Não cantaremos o ódio, porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e
nosso companheiro...”
(Carlos Drummond de Andrade)

Medo faz parte. Vive-se com medo tantas vezes! É parte da experiência. Vai-se superando. Afinal, notava o Rosa, o que a vida pede é coragem. Dribla aqui, supera-se ali, sabendo sempre ser melhor viver sem a sensação de nó no estômago. Medo é alerta e proteção quando ajuda na sobrevivência. É sofrimento e desagrado quando imobiliza e infelicita. Medo da morte, medos na vida. Medo do dia de amanhã. Medo de não ter amanhã. Medo de não ter o almoço amanhã. Medo de guerra. Medo de desemprego. Medo do novo emprego. Tanto medo oferecido, esgueirando-se, olhando para a gente sem... medo.

Ajeitamos modo de vida para ignorar o medo. Ser mais forte que ele. Deixá-lo de lado. Passarmos ao largo e seguirmos como seres destemidos. Não participaremos do Congresso Internacional do Medo, a que se referia Drummond.

E vem o anúncio de uma pandemia. Isolem-se! Antes, era juntem-se. Agora sussurram: escondam-se! Isolamento é forma cabulosa de esconder-se do vírus. Ou da morte.

O vírus não teme o mundo. Mas o mundo, esse morre de medo da doença. Com razão. Moléstia danada de ruim! Rápida, traiçoeira, fatal milhares de vezes.

Com o isolamento para-se o trabalho, despede-se o emprego, aumenta o medo. Dinheiro encurta, bens diminuem, que será amanhã? Nunca se soube bem, mas o amanhã virou o hoje insabido.

Junte-se a esse escuro de tempo revolto a sombra incômoda de incertezas outras, águas turbulentas a envolver-nos em raios e trovões varando noites de escuro denso.

Bernardo Mello Franco - Aflições da Casa-Grande

- O Globo

Em Belém, o prefeito tira as domésticas do ‘lockdown’. Em Brasília, lobistas cobram a volta da produção. Em SP, um bilionário garante: o Brasil ‘está bem’

Há 120 anos, Joaquim Nabuco profetizou: “A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil”.

Cleonice Gonçalves, 63 anos, foi a primeira vítima do coronavírus no Estado do Rio. Empregada doméstica desde os 13, trabalhava num apartamento no Alto Leblon. A patroa voltou da Itália com sintomas da Covid-19, mas não quis dispensá-la do serviço. Ao contrair a doença, a diarista foi despachada de táxi para Miguel Pereira, a 120 quilômetros dali. Morreu no dia seguinte, num hospital municipal.

O prefeito de Belém, Zenaldo Coutinho, incluiu o trabalho das domésticas entre as “atividades essenciais”. Com isso, faxineiras, lavadeiras, cozinheiras e babás poderão ser convocadas no período de lockdown. Segundo o tucano, a medida beneficiará quem “precisa ter alguém em casa”. A capital do Pará não tem mais vaga nos hospitais, mas os ricos encontraram uma alternativa. Passaram a fretar “UTIs aéreas”, que decolam para São Paulo por até R$ 200 mil.

Ricardo Noblat - Um presidente indiferente à morte de 10 mil brasileiros

- Blog do Noblat | Veja

Bolsonaro diverte-se esquiando no lago de Brasília

Jair Bolsonaro voltou a dizer no fim de semana que o país vive “uma neurose” com a pandemia do coronavírus e que 70% dos brasileiros serão infectados porque “não tem como”. Ora, haveria como, sim, se o governo que ele encabeça tivesse tomado providências para tal.

Mas para argumentar, digamos que não houvesse. Que fosse verdade que 70% dos povos do mundo obrigatoriamente serão contaminadas. Bolsonaro ainda não entendeu que nenhum sistema de saúde é planejado para atender 70% das pessoas em tão pouco tempo?

Foi o que aconteceu na Itália, Espanha e outros países europeus onde o sistema de saúde entrou em colapso e morreu mais gente do que deveria. É também o que está acontecendo em partes dos Estados Unidos e na maioria dos Estados do Brasil.

Por que as autoridades médicas, não só daqui, tanto falam que é preciso retardar a curva de crescimento do coronavírus? Justamente por isso. Quanto mais devagar ela suba, mais o sistema poderá atender pessoas em hospitais e outras unidades de socorro. E não é só o virus que mata.

O problema de Bolsonaro é um defeito de fabricação? Ele tem neurônios a menos que o impedem de descodificar o que escuta, uma vez que ler ele não gosta? Neurônios podem faltar, é o que se deve concluir por seus atos bizarros e comportamento em geral.

Vera Magalhães - Babás fardadas

- O Estado de S.Paulo

Militares no governo apequenam papel que vinham tendo desde redemocratização

Era sabido que o ingresso dos militares no governo Jair Bolsonaro, com papel político central e presença em praticamente todas as áreas da administração, seria um marco histórico, para o bem ou para o mal. A narrativa de que os papéis da instituição e de seus integrantes (da ativa ou da reserva) não se confundem já era falsa em tempos de normalidade democrática e sem uma emergência de saúde pública e econômica instalada.

Na atual conjuntura, em que o presidente afronta o bom senso, as regras sanitárias, as decisões judiciais, os Poderes e a própria Constituição dia sim, outro também, sem descansar nem nos fins de semana, a presença dos generais em postos de comando apequena o papel que as Forças Armadas, disciplinadamente, vinham cumprindo desde a redemocratização: o de zelar pela ordem constitucional.

Esses generais se sentiram afrontados por terem sido arrolados como testemunhas num inquérito que investiga se Bolsonaro cometeu graves violações a essa mesma Constituição ao exigir de Sergio Moro controle da Polícia Federal com fins inconfessáveis.

Eliane Cantanhêde - Além do churrasco

- O Estado de S.Paulo

Polícia Federal, Forças Armadas e Itamaraty cercados de dúvidas e na boca do povo

Dos ministérios da Educação e do Meio Ambiente, nem se fala mais, mas três instituições historicamente respeitadas e admiradas andam na boca do povo: Polícia Federal, Forças Armadas e Itamaraty. Dúvidas e temor de ingerência na PF, risco de imagem e contaminação política nas FA, uma política externa que atrai perplexidade e crítica mundo afora.

Jogada no centro de mais uma crise política, num país que viveu impeachment duas vezes em três décadas, a PF tem dificuldade de entender o que está acontecendo. O delegado Maurício Valeixo, uma referência, quase unanimidade, foi demitido. Alexandre Ramagem foi impedido de assumir pelo Supremo. Rolando Alexandre de Souza fez as escolhas certas e ia bem, até que, na sexta-feira, foi chamado ao Planalto e o governo tentou novamente emplacar Ramagem.

Os acertos de Rolando desagradam ao presidente Jair Bolsonaro? Essa pergunta não quer calar na PF, onde a percepção é de que está em curso um processo de enfraquecimento do novo diretor-geral, visto agora como “tampão”, achando que tem uma autonomia que na verdade não tem. O foco é a Superintendência do Rio.

Rolando nomeou para o Rio o delegado Tácio Muzzi, elogiado pelos seus pares e bom conhecedor da praça, onde trabalhou com os antecessores Ricardo Saadi e Carlos Henrique – justamente com quem Bolsonaro implica. Saadi, aliás, está na lista de depoentes desta semana sobre as acusações do ex-ministro Sérgio Moro ao presidente. Logo, o que paira na PF é: até quando Rolando Alexandre fica? E Muzzi? E para que novas trocas?

Elio Gaspari - Um vírus velho pegou a medicina do Rio

- O Globo / Folha de S. Paulo

Epidemia expôs a ruína da medicina pública do estado

A epidemia expôs a ruína da medicina pública do Rio. Enquanto os governos abrem hospitais de campanha e seus hierarcas dão entrevistas, a cidade tem cerca de 1.500 leitos vazios. Mais de mil deles estão em hospitais federais e universitários. Estão vazios porque as instituições foram sucateadas (e sucatearam-se) em termos de equipamentos e recursos humanos.

O governo do município ofereceu mil vagas para médicos com salários de R$ 4.411 a R$ 11 mil por jornadas de 12 a 30 horas semanais. Apareceram muitos currículos, mas os interessados chegam num ritmo de pinga-pinga.

O Hospital Universitário da UFRJ, no Fundão, tem 200 leitos, ganhou 60 outros e, destes, 50 estão vazios. Ele foi construído sonhando ser o melhor do Brasil. O Hospital dos Servidores do Estado (federal), que já foi o melhor, está com 130 leitos vazios.

Essa desgraça aconteceu por razões compreensíveis e também por motivos irracionais. Se o município oferece mil vagas temporárias e elas ainda não foram preenchidas, os médicos têm seus motivos, ora porque querem ganhar o que acham justo, ora porque não pretendem fazer biscates. Os motivos irracionais aparecem quando se vê o caso dos hospitais universitários federais. Durante o governo de Dilma Rousseff foi criada a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares, a Ebserh, e ela contrata celetistas, nada a ver com biscates. A UFRJ recusou-se a aderir às suas normas. Eram muitos os argumentos, mas o que robusteceu as militâncias foi a obrigação de bater ponto. Num debate dessa questão houve tapas e cusparadas.

Dorrit Harazim – Melancolia

- O Globo

Haverá quem indague onde esteve a oposição a Jair Bolsonaro este tempo todo

O ensaísta radicado na Califórnia Dustin Illingworth acerta em cheio quando observa que melancolia é uma condição incompatível com o coronavírus. A realidade crua do nosso planeta infectado, com cadáveres que se empilham entre os vivos, não dá espaço ao que o britânico Robert Burton, em seu clássico do século 17 sobre o tema, definiu como “um tipo de loucura sem febre, tendo como companheiros o temor e a tristeza sem nenhuma razão aparente”. Com a Covid-19 em marcha pelo mundo, a melancolia foi deslocada por variantes menos românticas, como a ansiedade, o pânico, a depressão. É possível que no futuro venhamos a ter saudade do tempo em que foi possível sofrer só de melancolia, esse fundamento da condição humana.

Por ora não dá. Pelo menos não no Brasil, que encerra uma semana particularmente disfuncional, caótica e desconcertante. A hora, agora, é de grita, mesmo que seja apenas para se sentir vivo e humano.

Míriam Leitão - O mal avança nas sombras

- O Globo

Riscos ao meio ambiente e aos direitos indígenas aumentam enquanto o país está concentrado na luta contra a pandemia do novo coronavírus

Na calada desta nossa noite em que a dor da pandemia se soma às ameaças do presidente Jair Bolsonaro à democracia, outras áreas correm extremo perigo. Em abril, o desmatamento na Amazônia foi de 406 km2, 64% a mais do que no ano passado, segundo o Deter. Nos quatro primeiros meses, a alta foi de 55,5%. Portarias, MPs, instruções normativas dão forma ao projeto de perdoar grileiros e enfraquecer órgãos ambientais. Terras indígenas são ameaçadas e seus líderes correm riscos. O governo conta com as atenções do país concentradas na crise da saúde para avançar com o projeto de reduzir direitos indígenas e legitimar o ataque ao meio ambiente.

Em mais uma GLO na Amazônia, os militares estão sendo escalados para conter o que tem sido estimulado pelo próprio governo. A operação das Forças Armadas cria uma situação difícil. O Ibama, que já é cerceado, passa a ser subordinado aos militares. Seus quadros técnicos terão que seguir ordens de oficiais que não têm a mesma qualificação e experiência no combate ao desmatamento. Isso num momento em que os servidores que cumprem a lei na fiscalização são punidos. Os que destroem equipamentos, que é a arma mais poderosa para combater o crime, são exonerados.

Janio de Freitas – O impedimento do impeachment

- Folha de S. Paulo

Desde o começo do mandato, são dezenas de motivos suficientes para embasar o processo

Bolsonaro não poderia ter chegado ao primeiro semestre do seu mandato de figuração presidencial. Isso, com boa vontade. A rigor, nem ao primeiro trimestre, sendo já contra a segurança e a vida os seus primeiros atos e pregações.

De lá para cá, são dezenas de motivos suficientes para embasar processo de impeachment. Alguns geraram pedidos de inquérito lançados, todos, ao fosso das gavetas no Congresso e no Judiciário. Mas não pelo ônus de um processo de afastamento. Nem nem pela concentração de atividades, que não existe, contra a pandemia.

Como regra geral, as propostas justificadas de impeachment são descartadas, pelas ditas autoridades competentes, por conveniências pessoais, descaso com a população e com o próprio país, autoproteções de partidos e do Judiciário, barganhas, enfim, poucas vezes por sensatez e espírito público. Exemplo definitivo foi o do (im)possível impeachment pela provada compra a dinheiro, inclusive com confissão gravada, da aprovação de segundo mandato para Fernando Henrique Cardoso. No caso de Bolsonaro, porém, há uma peculiaridade.

Bruno Boghossian - Bolsonaro errou todas

- Folha de S. Paulo

Previsões furadas e palpites sem fundamento provam que a palavra do presidente não vale nada

Em 17 de março, Jair Bolsonaro disse que a Itália sofria com o coronavírus por causa da quantidade de habitantes idosos no país. “São muito mais sensíveis, morre mais gente”, afirmou. Ele sugeriu que os brasileiros, portanto, não deveriam se preocupar com a pandemia.

O presidente errou. Embora seja mais grave para os mais velhos, a Covid-19 matou proporcionalmente mais jovens no Brasil do que em alguns outros países. Entre os italianos, só 5% das vítimas tinham menos de 60 anos. Por aqui, esse percentual é de 30%, segundo os últimos dados do Ministério da Saúde.

Hélio Schwartsman - Voltamos ao normal

- Folha de S. Paulo

Fenômenos como Jair Bolsonaro são só manifestação paroxística dessa enfermidade coletiva

“Quando as coisas vão voltar ao normal?” é a pergunta que não quer calar. A palavra “normal” é traiçoeira, já que encerra tanto uma dimensão moral, designando algo nas proximidades de “aceitável”, como uma mais estatística, quando assume o significado de “corriqueiro”. Se nos centrarmos na segunda acepção, a resposta é: “acabamos de voltar”.

Doenças não apenas são uma constante na história da humanidade como também constituem uma das principais forças a modular a evolução das espécies. Elas estão por trás de algumas das mais dramáticas transformações da vida no planeta, como o advento da reprodução sexuada.

Se há uma parcial exceção a essa regra são as últimas sete ou oito décadas, quando uma feliz conjunção de desdobramentos da ciência —a difusão do tratamento de água e esgoto, das vacinas e de agentes antimicrobianos— fez com que os países desenvolvidos experimentassem a sensação de que as doenças infecciosas haviam sido derrotadas.

Affonso Celso Pastore - O interesse individual e o bem comum

- O Estado de S. Paulo

Para um presidente populista de direita, um número enorme de mortes é apenas estatística

Em visita ao CDPP em 2018, o professor Robert Pindik do MIT deu uma palestra sobre o custo social do carbono. Emissões de carbono levam ao aquecimento global, e um aumento de 2 graus na temperatura do planeta acarreta custos gigantescos: regiões férteis tornam-se desertos e o aumento do nível do mar alaga cidades litorâneas.

A forma de evitar tal ocorrência é obrigar todos os países a cobrarem um imposto sobre as emissões. Por que tem de ser cobrado de todos os países? Se apenas um deles tributasse as indústrias que queimam carvão, cairia nesse país o retorno privado dos investimentos nos produtos que utilizam o carvão, as fábricas mudariam para outro país que não tributa as emissões, e a poluição mundial continuaria aumentando.

No primeiro capítulo do seu livro Economics for the Common Good, Jan Tirole, o ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 2014, começa discutindo as relações entre a economia e a sociedade, entre o benefício privado e o “bem comum”, usando o exemplo do custo social do carbono. Seu tema é a diferença de motivação na busca do lucro privado e na busca do bem-estar de todos.

Rolf Kuntz* - O lobby da morte na incursão ao Supremo

- O Estado de S.Paulo

Bolsonaro defende reabertura, mas o governo falha até na ajuda já anunciada

O lobby da morte cruzou a Praça dos Três Poderes, na quinta-feira, na marcha do presidente Jair Bolsonaro e de representantes da indústria até o Supremo Tribunal Federal (STF). Numa visita-surpresa, o presidente da República foi pressionar o chefe do Poder Judiciário em busca de apoio a uma atabalhoada reabertura da economia. Exibiu de novo seu desprezo pela vida dos brasileiros e pela ciência médica, dessa vez com apoio, talvez involuntário em alguns casos, de porta-vozes do capital privado. No mesmo dia seria anunciada a morte de mais 610 pessoas, com o total de óbitos elevado a 9.146. No Estado de São Paulo, a extensão da quarentena até 31 de maio, anunciada no dia seguinte, marcou o reconhecimento de um quadro ainda muito adverso e com muito risco de vida. Mas sobra a pergunta: qual a importância da vida, quando a prioridade presidencial é buscar apoio, proteger a si e aos seus de investigações muito inconvenientes e cuidar da reeleição em 2022?

Bolsonaro discursou no STF sem olhar o anfitrião, enquanto a cena era transmitida, também sem aviso, por iniciativa do Executivo. Foi mais uma baixaria bolsonariana, mas com uma novidade notável: a presença de coadjuvantes de elite. O presidente do Supremo, Antonio Dias Toffoli, deu a resposta cabível e em tom civilizado: o isolamento social é a melhor defesa contra a doença, até agora, é preciso dar atenção à ciência e, enfim, cabe ao governo federal buscar entendimento com os governos estaduais e municipais para planejar a próxima etapa.

A tentativa de repartir com o Judiciário a responsabilidade pela reabertura fracassou. O presidente Bolsonaro poderia, ouvindo o ministro Dias Toffoli, ter aprendido algo sobre Presidência e governo. Sairia pelo menos com esse lucro. Mas esses temas permanecem fora de suas preocupações.

Pedro S. Malan* - Saltos no escuro

- O Estado de S.Paulo

A superação desta crise – de saúde, econômica, social – exige engenho, arte e serenidade

“Com Jânio no poder, o Brasil dá um salto no escuro”, registrou premonitoriamente ao final de 1960 Carlos Castelo Branco, o mais influente jornalista político de sua geração, a propósito da eleição de Jânio Quadros. Como é sabido, o próprio Jânio deu o seu salto no escuro em agosto de 1961, ao que tudo indica, esperando voltar por demanda do povo e/ou das Forças Armadas. A História nunca se repete, mas por vezes rima, com frequência ensina e, de quando em vez, a muitos desatina.

A chegada do coronavírus, com sua exponencial velocidade de disseminação e as exigências que impôs à nossa limitada capacidade hospitalar, representa um tipo de salto no escuro com dor, sofrimento e angústia, especialmente para os mais vulneráveis, que são maioria. A ideologia negativista e o achismo multiplicam, também exponencialmente, custos humanos e sociais da crise, e tornam ainda mais assustador esse salto no escuro.

Pressão estrutural por gastos públicos foi o título comum a uma série de três artigos que publiquei neste espaço entre março e maio de 2017. Em meio a uma pandemia, o aumento expressivo de gastos e o endividamento público são inevitáveis para salvar vidas e mitigar os efeitos da parada súbita da oferta, da demanda e de suas consequências sobre pessoas e empresas. É também fundamental, embora menos consensual, evitar que se tomem agora decisões de gastos que assumam depois caráter permanente.

Vinicius Torres Freire – De que está morrendo a economia?

- Folha de S. Paulo

País está sem diagnóstico e plano para conter o vírus da depressão econômica

A subnotificação de casos e mortes por Covid-19 se tornou assunto corriqueiro no Brasil, assim como a escassez de testes e a falta de planos racionais do relaxar o distanciamento social. Fala-se menos ou quase nada da subnotificação da ruína econômica, da falta de diagnósticos sobre o desastre nas empresas e nos empregos, assim como um plano de contenção da crise e de reativação do país.

No momento, tudo se passa como se o governo federal, em particular, tivesse feito o que pode (ou o que quer) quanto as medidas para atenuar a catástrofe. Quanto ao futuro, por ora o que se sabe de planos é “business as usual”. Espera-se para ver o que vai dar. Quem sobreviver verá. Empresas morrem, é assim o mercado, diz o ministro Paulo Guedes (Economia).

Isto é, prevê-se apenas a retomada das “reformas”, manutenção das regras fiscais e contenção de despesas logo em 2021.

A melhoria da regulação do investimento e um bom plano de concessões atrairiam dinheiro privado para grandes projetos de infraestrutura. Apesar das promessas desde 2017, tal coisa não ocorreu: nem regulação significativamente melhor, nem projetos bastantes, nem carradas de investimento privado, em infraestrutura ou em qualquer outra parte.

No entanto, é fácil perceber que a economia estará em situação muitíssimo pior do que nos anos de quase estagnação de 2017 a 2019 (e como seria este 2020, sem epidemia), de crescimento em torno de 1% ao ano.

O que a mídia pensa - Editoriais

• A marcha da destruição – Editorial | O Estado de S. Paulo

Bolsonaro pode agora acrescentar mais um aos seus adversários: a comunidade médica internacional

Há poucos dias o Imperial College de Londres divulgou um dos cálculos mais horripilantes sobre a marcha da destruição do vírus: entre 48 países, o Brasil tem a maior taxa de transmissão – 2,81 para cada infectado. A favorecer o inimigo, o País tem muitos agravantes, como falta de testes, má distribuição de UTIs por regiões e por classes, subnotificações, déficit de saneamento básico ou a densidade das favelas, às vezes com três ou mais pessoas de gerações diversas ocupando o mesmo cômodo. Ainda assim, “a maior ameaça à resposta do Brasil à covid-19 talvez seja o seu presidente, Jair Bolsonaro”. O alerta é tanto mais grave por ter sido lançado por alguém que não pode sequer remotamente endossar o figurino de “comunista” ou qualquer outro chavão conspiratório do presidente, mas pela revista científica de medicina e saúde pública possivelmente mais reputada do mundo, a Lancet, em editorial exclusivamente dedicado à marcha da destruição de Bolsonaro.