terça-feira, 9 de julho de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Voto útil barrou extrema direita, mas enfraqueceu Macron

O Globo

Estratégia funcionou para deter avanço do RN. Persiste, porém, incerteza sobre o futuro na França

A estratégia do voto útil, que uniu legendas da centro-direita à extrema esquerda nas eleições legislativas da França, conseguiu barrar a vitória do Reunião Nacional (RN), de extrema direita. Com um comparecimento eleitoral recorde de 67%, os franceses mais uma vez impuseram um limite à ascensão ao poder do partido extremista, que saíra vitorioso no primeiro turno. O RN registrou um crescimento histórico e obteve 143 das 577 cadeiras da Assembleia Nacional — ou 25%, percentual que só havia superado no segundo turno de eleições presidenciais —, mas ficou longe do primeiro lugar e da maioria absoluta que pareciam a seu alcance.

Ainda que tenham se dissipado os temores sobre uma vitória do RN, ainda persiste a ansiedade sobre o futuro. Nenhum grupo obteve a maioria necessária para formar um governo. A coalizão mais votada, do esquerdista Nova Frente Popular (NFP), somou 182 deputados. Mas trata-de de um grupo heterogêneo. Fazem parte dele a legenda de extrema esquerda França Insubmissa (FI), com 74 deputados desse total, os socialistas, com 59, os verdes, comunistas e outros partidos, com 47. Em segundo lugar ficou o grupo de centro do presidente Emmanuel Macron, com 168 deputados. Em terceiro, o RN.

Pedro Cafardo - Real foi um plano genial, mas não perfeito

Valor Econômico

Justas homenagens sobre os 30 anos da estabilização monetária pecaram pela falta de crítica aos problemas que o plano não conseguiu resolver

O país comemorou nas últimas semanas os 30 anos do Plano Real, que livrou os brasileiros da hiperinflação. Foram justas as comemorações e corretos os inúmeros elogios ao grupo de jovens economistas que estruturaram o plano, hoje todos com cabelos brancos.

Justas e apropriadas foram também as homenagens ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, na época ministro da Fazenda e braço firme de sustentação do programa perante o governo do então presidente Itamar Franco.

Até o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um dos críticos do plano naquela época, visitou Fernando Henrique, hoje com 93 anos, num implícito reconhecimento de sua posição equivocada 30 anos atrás.

Quem viveu aqueles anos terríveis em que as remarcações eram contínuas e os salários não acompanhavam a corrida dos preços tem a obrigação de testemunhar a genialidade do modelo que promoveu a estabilização monetária no país. Aquilo ressuscitou o Brasil.

Andrea Jubé - Lula testa novo bordão para evangélicos

Valor Econômico

Aposta agora é no uso da palavra ‘família’

Sem alarde, enquanto as atenções voltavam-se para suas declarações sobre o equilíbrio fiscal, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva começou a testar, há poucos dias, uma nova estratégia para tentar melhorar a interlocução com a população evangélica. Esse público representa cerca de um terço dos brasileiros e aderiu em massa ao bolsonarismo.

“Se tem uma coisa que eu aprendi com a [minha mãe] dona Lindu foi responsabilidade fiscal, cuidar do meu pagamento, cuidar do meu salário, cuidar da minha família”, discursou Lula na sexta-feira (5), na inauguração de novo prédio da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em Osasco (SP). “E hoje a minha família é o Brasil”, exaltou.

Carlos Andreazza - Orçamento secreto imbrochável

O Estado de S. Paulo

De Bolsonaro a Lula, sempre com Lira e Alcolumbre, Parlamentarismo orçamentário vigente não perde a energia

Imbrochável mesmo – com “tesão de 20 anos” – é o Parlamentarismo orçamentário vigente. De Bolsonaro a Lula, sempre com Lira e Alcolumbre, sem perder a energia. Aula de transição e continuidade.

Marca das gestões dessa rapaziada à frente do Congresso? A institucionalização do orçamento secreto, ora já sob a terceira fachada. O Parlamento administrador de fundos orçamentários crescentes sobre cujos usos pervertidos não tem qualquer responsabilidade.

Atenção ao que se arma. As regulamentações da reforma tributária como objeto circunstancial para os negócios. A instrumentalização das pressas a todo vapor. Tem de aprovar antes do recesso. Corrida de dez dias. Emboladas as jorrações dos bilhões em emendas e dos lobbies pela cesta básica – imposto do pecado para os outros pecadores. Ninguém reclamará agora do regime de urgências. É pela boa causa.

Rubens Barbosa - Uma política externa para o mundo atual

O Estado de S. Paulo

A visão de que estava havendo a restauração de uma política externa ativa e altiva minimizou ou ignorou as mudanças pelas quais o Brasil, a América do Sul e o mundo estão atravessando

O Brasil voltou. O presidente Lula da Silva, no início de seu governo, repetiu essa afirmação como o recomeço da política externa depois de um período, no governo anterior, em que as atitudes e posições brasileiras isolaram o País e o então Brasil foi visto como um pária no cenário internacional. A visão de que estava havendo a restauração de uma política externa ativa e altiva, como caracterizada nos dois primeiros mandatos, minimizou ou ignorou as mudanças e transformações pelas quais o Brasil, a região sul-americana e o mundo estão atravessando. Sem falar nos desafios e nos riscos para perseguir as novas oportunidades que estão se abrindo ao País.

Martin Wolf - As escolhas difíceis de Keir Starmer no Reino Unido

Financial Times / Valor Econômico

O desafio para o Partido Trabalhista não é apenas governar bem, mas restaurar a confiança ao fazê-lo

Keir Starmer conquistou uma enorme maioria parlamentar com um apoio surpreendentemente frágil. O Partido Trabalhista obteve apenas 34% dos votos. A mudança no apoio aos conservadores desde sua grande vitória de 2019 também demonstra a inconstância extrema do eleitorado.

Talvez o mais perturbador seja o fato de um novo relatório do National Centre for Social Research afirmar que “a confiança nos governos nunca esteve tão baixa”. Os detalhes são preocupantes: “45% dos participantes ‘quase nunca’ acredita que os governos britânicos de qualquer partido colocam as necessidades da nação acima dos interesses de seus próprios partidos; 58% ‘quase nunca' acreditam que os políticos de qualquer partido no Reino Unido dizem a verdade quando se encontram em uma situação difícil; e 71% acreditam que a economia está pior por causa do Brexit, a principal política do governo conservador”.

Merval Pereira - Longa negociação

O Globo

A França escapou de um governo de extrema direita, mas está às voltas com um Parlamento fragmentado, o que torna o cenário político indefinido

A vitória da esquerda na França e no Reino Unido mostrou que o presidente Lula sabe em teoria o que fazer politicamente para enfrentar a extrema direita brasileira, encarnada em Bolsonaro, embora sua prática tenha se mostrado ineficiente até agora. Tanto para montar uma coalizão partidária viável, quanto para colocar em ação um governo de união democrática.

Lula disse que os resultados eleitorais reforçam a importância do diálogo entre os segmentos progressistas, “em defesa da democracia e da justiça social”. O presidente classificou de “demonstração de grandeza e maturidade das forças políticas da França que se uniram contra o extremismo nas eleições legislativas”.

Joel Pinheiro da Fonseca - Democracia e moderação salvaram a França

Folha de S. Paulo

Será preciso mostrar à sociedade que a direita nacionalista não tem respostas para os problemas

Macron e todos os que acreditam numa sociedade aberta e plural respiram aliviados com o mau resultado do Reunião Nacional nas eleições legislativas francesas. Foi —é preciso lembrar— o melhor resultado de sua história, mas ficou aquém da esperada maior bancada e ainda mais de uma maioria de parlamentares.

Apesar disso, não parece que o discurso nacionalista, anti-imigração e anti-integração global (ou, no caso da UE, continental) vá desaparecer. Ele segue forte e, se seus adversários não conseguirem entregar resultados e narrativas mais persuasivas, crescente. Marine Le Pen declarou que sua vitória foi "apenas postergada". Está nas mãos de Macron e da coalizão entre esquerda e centro enterrar ou cumprir essa profecia.

Dora Kramer - A direita se prepara

Folha de S. Paulo

Já a esquerda dá uma relaxada, talvez por não achar que deva maiores explicações ao eleitorado

Obediente à dinâmica da comparação mútua, Jair Bolsonaro (PL) se inspira no exemplo de Luiz Inácio da Silva (PT) para fazer de conta que poderá ser candidato a presidente em 2026.

Tudo é possível, embora seja altamente improvável como se viu em 2018, quando a candidatura de Fernando Haddad (PT) foi registrada na última hora.

No entanto, o dado concreto não conta nessa história relatada sob os auspícios da ideia de manter esperançosa a militância de direita acomodada no guarda-chuva do que se chama de bolsonarismo.

Hélio Schwartsman - Cordão sanitário

Folha de S. Paulo

Aliança entre esquerdistas e centristas na França barra ainda que momentaneamente avanço da ultradireita

O "cordon sanitaire" funcionou mais uma vez. O partido de ultradireita francês Reunião Nacional (RN), que saíra à frente no primeiro turno das eleições legislativas, foi bloqueado por uma aliança de esquerdistas e centristas e acabou ficando em terceiro lugar. Nos distritos em que a disputa se dava entre três ou mais candidatos (no sistema francês, todos os que obtêm mais de 12,5% dos votos passam para o segundo turno), aqueles que estavam em pior situação abandonaram a corrida, facilitando a escolha do eleitor que desejava barrar a RN.

Alvaro Costa e Silva - Bolsonaro adota estilo 'roubei sim, e daí?'

Folha de S. Paulo

Indiciamento no caso das joias atrapalha candidatos do capitão

Se em São Paulo a disputa prossegue embolada, repetindo-se o cenário das últimas eleições presidenciais, com Ricardo Nunes e Guilherme Boulos cabeça a cabeça, no Rio o bolsonarismo caminha para o abismo. Caso nada mude até outubro, desenha-se, mais do que uma derrota, uma lavada histórica em seu próprio berço de nascimento.

O Datafolha espanta: Eduardo Paes, aliado de Lula, tem 53% das intenções de voto, muitas das quais de bolsonaristas. Alexandre Ramagem aparece em terceiro, com 7%, perdendo para Tarcísio Motta, do PSOL, com 9%. Para se ter uma ideia da mudança de humor dos cariocas, em 2020 Marcelo Crivella, tido e havido como um dos piores prefeitos da cidade, conseguiu ir para o segundo turno contra Paes.

Ricardo José de Azevedo Marinho - Paixão pelo Possível

Blog Voto Positivo

A compostura política não deve ser confundida com a social, que, embora aparente ser menos importante para o futuro das sociedades, carrega um papel sobejo. A compostura social refere-se às regras de boas maneiras, à ideia de bom gosto e às normas de comportamento social que começam a ser estabelecidas no século XV e que são bem descritas pelo mestre da história dos costumes Norbert Elías (1897-1990) e às quais o grande filósofo Erasmo de Rotterdam (1466-1536), que deixando fluir por um momento seu grande gênio, dedicou em 1530 um pequeno livro que fez muito sucesso a época, De civilitate morum puerilium (Da civilidade pueril), um livro curioso e divertido aos nosso olhos, em que desenvolve o conceito de civilidade também caro ao saudoso Emmanuel Le Roy Ladurie (1920-2023), um conjunto de bons costumes válido para se comportar na vida e que opera para toda a sociedade.

Aylê-Salassié Filgueiras Quintão* - Apropriação privada e liberdade de expressão

Toda essa polêmica aberta pelos políticos, em tempos pré-eleitorais, sobre a velada intenção de privatizar as praias brasileiras, espaço de descanso, diversão e lazer de quase 100 milhões de brasileiros, provoca uma boa mobilização. Faz-me lembrar do esquecido artista plástico Ricardo Saunders, que desencadeou, em   Florianópolis, uma campanha, de denúncia contra a apropriação particular de quase sessenta praias da Ilha. Foram ocupadas pelas imobiliárias, entre 1960 e 1970, entusiasmadas com a enorme atração que exerciam sobre os argentinos. Em São Paulo já surgiam os primeiros condomínios privados.

Saunders, de origem paraense, morava em Brasília, mas casara-se com a pintora catarinense, Vera Sabino, e vivia agora em Florianópolis. Era encantado com a paisagem da Ilha. Durante três anos caminhou solitário pelo seu entorno, carregando cavaletes, tintas e pincéis, tentando recompor, em telas, a paisagem original daquelas belíssimas praias, protegidas como   terrenos de Marinha.  Seus quadros desapareceram rapidamente. 

Raul Jungmann - Imposto é obstáculo à transição energética

O Globo

O caminho para uma economia de baixo carbono é impossível sem a ampliação da eletrificação

A mineração brasileira tem papel estratégico na transição energética do mundo e pode contribuir para que o país se torne seu principal protagonista. O caminho para uma economia de baixo carbono é impossível sem ampliar a eletrificação, seja por meio de baterias, aerogeradores ou placas solares. Tudo isso exige minerais críticos e estratégicos, como lítio, nióbio, terras-raras e cobre. O minério de ferro, de que nosso país é um dos maiores produtores mundiais, é estratégico para a descarbonização do planeta não apenas na produção dos equipamentos mencionados, mas também como insumo primordial para o aço verde, que será viável a partir do hidrogênio verde, usado como substituto do coque (um produto fóssil) no alto-forno siderúrgico.

Luiz Carlos Azedo - Tudo começou com Luís XIV: "O Estado sou eu"

Correio Braziliense

Na Presidência, Bolsonaro comportou-se como se fosse a personificação do Estado, imaginou que os presentes que recebeu na Arábia Saudita fariam parte do seu patrimônio pessoal

A frase L'État c'est moi, no original em francês, é atribuída ao Rei Luís XIV (1638-1715), também conhecido por Rei-Sol, que governou a França e Navarra entre 1643 e 1715. É a síntese do absolutismo, no qual a centralização do poder na figura do rei possibilitou a consolidação dos Estados nacionais, em aliança com a burguesia comercial, que seria fundamental para a expansão europeia e o desenvolvimento do mercantilismo. A oração completa é je suis la Loi, je suis l'État; l'État c'est moi (eu sou a lei, eu sou o Estado; o Estado sou eu!). Na monarquia absolutista, o rei controlava a segurança, as contas do governo, as alianças internacionais, o Exército, a Marinha e o espaço público.

Míriam Leitão - Os detalhes que chocam e revelam

O Globo

O farto relatório da PF mostra que o ex-presidente Bolsonaro não só sabia, mas coordenou todo esquema de venda das joias

O ex-presidente Jair Bolsonaro sabia em minúcias de todo o esquema da venda das joias que pertenciam ao patrimônio público, a ponto de comemorar com o notório “Selva”, quando o seu então ajudante de ordens enviou o link do leilão. Ele recebeu em mãos e fracionada, diretamente do general Mauro Lourena Cid, a quantia de US$ 68 mil. A Polícia Federal trouxe fartos documentos, diálogos, trocas de mensagens e evidências para sustentar o pedido de indiciamento de todos os 12 envolvidos neste escândalo. As câmaras da Receita Federal mostraram como se tentou entrar furtivamente com presentes oficiais. A saída das joias também foi na surdina. O dinheiro da venda dos bens públicos, provavelmente, foi o que sustentou os gastos do ex-presidente no exterior, dado que ele não movimentou as próprias contas. Portanto foi feito em proveito próprio.

Poesia | O constante diálogo, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Pecado Capital , Paulinho da Viola

 

segunda-feira, 8 de julho de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Adiamento do PNE expõe dificuldade do Brasil na educação

O Globo

Incapacidade de traçar metas para o futuro é tão grave quanto não ter cumprido as traçadas no passado

A Câmara aprovou na semana passada a prorrogação do atual Plano Nacional de Educação (PNE) até 31 de dezembro de 2025 (ele expirou em 26 de junho). A decisão, tomada em comum acordo com o governo, é menos deletéria que a proposta original de estendê-lo até 2028. Mas não se pode dizer que seja positiva. As diretrizes traçadas dez anos atrás, quando a realidade educacional no Brasil era outra, ainda valerão por um ano e meio. A dificuldade de traçar novas metas é sintoma da dificuldade do Executivo e do Legislativo para cuidar da agenda de um setor prioritário.

A execução do plano atual, que atravessou quatro governos — Dilma Rousseff, Michel Temer, Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva — se revelou um fracasso. Nenhuma das 20 metas estabelecidas em 2014 foi alcançada. Um balanço feito pela Campanha Nacional pelo Direito à Educação mostrou que, de 38 indicadores, não mais que quatro foram atingidos. O Ministério da Educação sustenta que, na média geral, a execução de cada um dos objetivos foi de 77%. Mas isso não atenua o fiasco. Seria razoável não cumprir todas as metas. Não atingir nenhuma é injustificável.

Bruno Carazza - O mapa da mina da eleição municipal

Valor Econômico

Distribuição de recursos do fundão revela as estratégias de cada partido nas eleições municipais

Recife, São Paulo, Vitória, Rio de Janeiro, São Gonçalo, Contagem, Guarulhos, Fortaleza, Salvador e Feira de Santana. Na eleição de 2020, o Partido dos Trabalhadores (PT) aplicou R$ 39,4 milhões nas campanhas a prefeito dessas dez cidades - o equivalente a 20% do valor gasto pelo partido (R$ 196,6 milhões) em todas as candidaturas para prefeituras e câmaras de vereadores nos mais de cinco mil municípios brasileiros.

A taxa de aproveitamento desse investimento foi bastante baixa naquele ano. Dos dez candidatos com os maiores aportes petistas, apenas Marília Campos, de Contagem-MG, se elegeu. Marília Arraes (Recife), João Coser (Vitória), Dimas Gadelha (São Gonçalo), Elói Pietá (Guarulhos) e Zé Neto (Feira de Santana) tombaram no segundo turno; os demais (Jilmar Tatto, Benedita da Silva, Luizianne Lins e Major Denice) nem lá chegaram.

Fernando Gabeira - Os alarmantes ventos do norte

O Globo

Temo sobretudo pela intensidade das mudanças climáticas. Negacionistas podem voltar ao poder num grande país

O Sudoeste é um vento de chuva, aprendi no Rio. Se pudesse aplicar esse ensinamento à política, diria que os ventos anunciam mau tempo, furacões e tempestades no planeta. É fácil senti-los soprando nos Estados Unidos, com o fiasco de Biden no debate e a consciência crescente de que ele perdeu a capacidade cognitiva para governar o país de novo.

Isso aumenta as chances de Trump num momento em que a Suprema Corte chega a uma decisão aterradora. Decidiu que Trump tem imunidade parcial em processos a que responde. A sentença foi criticada pela juíza Sonia Sotomayor: “O presidente é, agora, um rei acima da lei”. Acusado de vários crimes, ele pode assumir a Presidência blindado pela própria Corte.

Demétrio Magnoli - Metamorfoses da direita

O Globo

Partido de Marine chegou ao limiar do poder, acabando barrado no turno final

Nos dois lados do Atlântico Norte, a direita tradicional experimenta crises profundas. A interpretação habitual coloca ênfase na ascensão de partidos da extrema direita. Mas a tendência principal é outra: a ocupação do espaço eleitoral da direita democrática e conservadora por uma “nova direita” organizada ao redor do nacionalismo.

O fenômeno manifesta-se nos Estados Unidos pela conversão do Partido Republicano num “partido de Trump”. Desde 2016, o movimento Make America Great Again (MAGA) tomou de assalto a antiga fortaleza republicana. O instrumento da conquista foi o sistema de primárias, pelo qual uma base militante minoritária tem a prerrogativa de selecionar as candidaturas às eleições gerais.

Dani Rodrik e Thomas Frickel* - Do Consenso de Washington ao de Berlim

Valor Econômico

Enfrentamos agora uma escolha entre uma reação populista protecionista, com todos os conflitos que isso implica, e um novo conjunto de políticas que atendem às preocupações das pessoas

As mudanças de paradigma no pensamento econômico dominante geralmente acompanham crises que exigem novas respostas, como ocorreu depois da estagflação - baixo crescimento e inflação elevada - ter atingido as economias avançadas na década de 1970. E pode estar acontecendo novamente, à medida que as democracias liberais confrontam uma onda de desconfiança popular na sua capacidade de servir aos seus cidadãos e enfrentar as múltiplas crises - que vão das alterações climáticas às insuportáveis desigualdades e aos grandes conflitos globais - que ameaçam o nosso futuro.

As consequências podem agora ser vistas nos Estados Unidos, onde o ex-presidente Donald Trump tem boas chances de vencer as eleições presidenciais de novembro. Da mesma forma, um governo de extrema direita poderia assumir o poder na França após as antecipadas próximas eleições. Para evitar políticas populistas perigosas que exploram a raiva dos eleitores e para evitar grandes danos à humanidade e ao planeta, temos de abordar urgentemente as profundas causas do ressentimento das pessoas.

Assis Moreira - A situação na França e a instabilidade global

Valor Econômico

A extrema-direita não chega ao poder agora, mas amplia sua presença na paisagem política francesa

A esquerda e os centristas conseguiram bloquear o acesso da extrema-direita ao poder na França na eleição de domingo, numa enorme reviravolta em uma semana de campanha. A questão agora é se vão conseguir realmente agir para evitar que essa mesma extrema-direita de Marina Le Pen consiga ganhar a eleição presidencial de 2027.

O Reunião Nacional, o partido da extrema-direita, não chega ao poder agora, mas aumentou bastante seu número de deputados na Assembleia Nacional e assume de vez um espaço inescapável na cena política francesa.

O partido não conseguiu a vitória desenhada no primeiro turno, em razão da mobilização da enorme frente republicana, mas está mais potente e reconfigurado, na linha da extrema-direita implantada na Itália, na Hungria, nos país escandinavos. Sem falar do avanço dos neo nazistas na Alemanha.

A Nova Frente Popular, uma coalizão que vai da extrema-esquerda à social-democracia, ganhou graças também a votos de eleitores de direita com valores republicanos - ou seja, a esquerda obteve votos, e muitos, de quem não queria a extrema-direita.

Humberto Saccomandi - Esquerda e centro vencem na França, mas conseguirão governar juntos?

Valor Econômico

Coligação da Nova Frente Popular (NFP) já é heterogênea, e deverá governar com o bloco centrista Juntos, liderado pelo presidente Emmanuel Macron

A aposta do presidente Emmanuel Macron, de antecipar eleições para conter o avanço da extrema direita na França, deu certo afinal. Mas resultou num Parlamento sem maioria e extremamente fragmentado. E levará, possivelmente, a um novo governo fraco, que terá dificuldade de adotar políticas coerentes e de enfrentar desafios impopulares, como reduzir o déficit público, que é uma prioridade na economia.

A coligação Nova Frente Popular (NFP), que terá a maior bancada na Assembleia Nacional, é composta por cinco partidos, que vão do centro-esquerda (socialistas e verdes) até a extrema-esquerda (comunistas, França Insubmissa e anticapitalistas). Essa coligação, em si já heterogênea, deverá governar com o bloco centrista Juntos, liderado por Macron, e que também é formado por cinco partidos, que vão do centro-direita ao centro-esquerda.

Vagner Gomes de Souza - Croissant com Pão de Queijo

Blog Voto Positivo

Escrever no “calor da hora” em que se faz a contagem dos números de assentos das eleições legislativas francesas é uma lição para aqueles que gostam de exercer a análise de conjuntura. Em 72 horas, o Labour Party (após mais de uma década no isolamento do “culto a identidade” de uma nostalgia com temperos pós-modernos) renasceu como se fosse fênix numa vitória eleitoral com um programa “saquarema” (centralizador nas decisões políticas) para enfrentar o desafio de uma Inglaterra pós-Brexit.

Tamanho resultado deve ter movido às decisões de uma juventude globalizada e liberal a ir as urnas na França. A costura da “grande política” se fez pela via da renúncia de nomes em favor de quem estivesse em condições de vencer a candidatura da extrema-direita. Havia uma aposta das forças do populismo reacionário de que a abstenção seria sua vantagem diante da expectativa de um eleitor de esquerda que não votaria numa candidatura pró-Macron. Todavia, os avanços da desconfiança na legitimidade democrática não foram suficientes diante do desafio de evitar um “mal maior”. Assim, os sucessores da Frente Nacional em aliança com os herdeiros de uma “centro direita” prisioneira do extremismo acabaram em terceiro lugar no número de assentos.

Sérgio Abranches - Não é a extrema-direita que ganha, os que estão aí é que perdem

Correio Braziliense / O Estado de Minas

É o fracasso dos velhos modelos de política e das velhas soluções de políticas públicas, em descompasso crescente com as necessidades do povo

O segundo turno na França, neste domingo, foi a maior surpresa de todas, disse o colunista político Alan Duhamel. O líder da extrema-direita, Jordan Bardella, viu a vitória escorrer pelos dedos como pérolas de mercúrio após ter ganhado o primeiro turno. Reagiu raivosamente, “venceu a aliança da desonra”. Mas a única desonra foi para seu grupo. A coalizão da esquerda decidiu se unir à centro-direita de Macron, numa aliança republicana raríssima para derrotar a extrema-direita, renunciando às candidaturas menos competitivas, e foi a mais votada. Macron tem uma chance de ouro, oferecer o cargo de primeiro-ministro à Nova Frente Popular para uma coabitação republicana, na qual ele cuidaria da política europeia e global e a esquerda trataria de encontrar soluções domésticas para os problemas do povo. Seria um desafio para ambos, assegurar a estabilidade da coabitação e encontrar uma fórmula de consenso para a migração.

Carlos Pereira - Por que Lula recuou?

O Estado de S. Paulo

O presidencialismo multipartidário reduz liberdade para que um presidente se comporte de forma populista

As forças do mercado levaram rapidamente o presidente Lula a recuar da sua sanha populista de confronto com o Banco Central. Mas o que a maioria das pessoas não percebe é que o próprio sistema presidencialista multipartidário brasileiro cria enormes constrangimentos que reduzem os graus de liberdade de qualquer governante de desviar de uma crença que se torna dominante.

É economicamente e politicamente proibitivo desviar do equilíbrio macroeconômico que emergiu do Plano Real. Atores políticos, agentes econômicos e cidadãos desenvolveram fortes preferências pela estabilidade macroeconômica. Os anos intermináveis de hiperinflação e os seguidos planos que frustraram as expectativas de domá-la de forma sustentável geraram uma verdadeira aversão na sociedade ao descontrole dos preços.

Marcus André Melo - Lideranças e partidos

Folha de S. Paulo

Bolsonaro ascendeu rejeitando a velha política, mas se submeteu a ela quando sua agenda malograva

Jordan Bardella condicionou sua entronização como primeiro-ministro à obtenção de uma maioria absoluta por seu partido no Parlamento francês. Ao que Marine Le Pen abrandou afirmando que apenas formaria uma coalizão se pudesse "governar". Lideranças radicais rejeitam coalizões e tem arroubos majoritários. Apresentam-se como líderes majoritários, mesmo quando não o são. E formar coalizões significa barganhar, que é a essência da atividade parlamentar.

A França utiliza distritos uninominais e o número efetivo de partidos políticos é maior (3.7) que no Reino Unido (2.3) ou EUA (2.0) devido à existência de segundo turno. Trata-se de um multipartidarismo mínimo onde ainda há incentivos para uma competição pela mediana de preferências do eleitorado. Isto cria fortes incentivos para Le Pen desradicalizar seu programa. O que vem fazendo. Idem Giorgia Meloni. Tais incentivos são universais: veja-se a trajetória de Keir Starmer, que levou seu rival à esquerda, Jeremy Corbyn, a ser expulso do partido trabalhista.

Poesia - Soneto do amor total, de Vinicius de Moraes

Música | Clara Nunes - Juízo final (Nelson Cavaquinho)

 

domingo, 7 de julho de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Nova reforma da Previdência se tornou inadiável

O Globo

Estudos constatam explosão de benefícios, déficit crescente e um sistema insustentável

Passados cinco anos da última reforma da Previdência, está clara a urgência de outra. É preciso examinar pontos que passaram por correções suaves ou não foram alterados. É o caso da diferença na idade de aposentadoria de homens e mulheres, dos regimes especiais de servidores públicos, da aposentadoria rural ou dos benefícios assistenciais. A indexação de reajustes ao salário mínimo — que consumirá com o tempo todos os ganhos fiscais da última reforma — contribuiu para chamar a atenção para os desequilíbrios previdenciários. Mas, em razão da inexorável realidade demográfica, eles são maiores e mais profundos.

Um novo estudo de pesquisadores do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) demonstra o tamanho do problema. No início deste século, o regime do INSS que atende aos trabalhadores da iniciativa privada (RGPS) arrecadava receitas equivalentes a 84,7% das despesas. De lá para cá, o buraco só fez aumentar e, no ano passado, a arrecadação foi de apenas 65,9% dos gastos. Buscar o equilíbrio aumentando somente a alíquota de contribuição é irrealista. Atualmente, o empregado paga entre 7,5% e 14% do salário. Pelas estimativas do estudo, para custear o RGPS, a alíquota deveria ser de 36%. Um sistema com déficit progressivo é, por definição, insustentável.

Merval Pereira - Centro, volver

O Globo

O avanço da direita no Brasil e no mundo deve-se, na visão de muitos, à troca da ação da esquerda no campo social, priorizando atualmente temas identitários aos cuidados do cotidiano do eleitorado

Muitos de nós no Brasil estamos acostumados, nos últimos anos, a anular o voto ou a votar no “menos pior”, geralmente escolhendo um dos candidatos para evitar que o outro vença. Acaba que não temos projeto de país, políticas de longo prazo são exceções, como o equilíbrio fiscal do Plano Real ou o Bolsa Família. Este, por sinal, é um dos melhores exemplos de como uma política de Estado pode se desenvolver por governos de partidos diferentes, mas com visões coincidentes em alguns campos.

O Bolsa Família nasceu da união de vários projetos sociais iniciados em governos do PSDB, com o mesmo objetivo. Tornou-se política irremovível até mesmo com a ajuda do governo Bolsonaro, que nada tem a ver com a social-democracia que une PT e tucanos. A força eleitoral do Bolsa Família substituiu um projeto político que pretendia usar o mecanismo para dar poder a lideranças fora da política partidária, pois os prefeitos não teriam o controle do cadastro.

A ideia de Frei Beto, um dos principais assessores de Lula em seu primeiro governo, era usar o Bolsa Família como moeda de troca com as lideranças populares locais, criando um poder paralelo ao estamento político tradicional. Foi acusado de querer criar comitês soviéticos no interior do Brasil, especialmente com o embrião do Bolsa Família, o fracassado Fome Zero. Foi Patrus Ananias, então ministro de Desenvolvimento Social, quem vislumbrou o poder eleitoral do Bolsa Família, que voltou a ser controlado pelos prefeitos e garante até hoje a supremacia petista no nordeste brasileiro.

Míriam Leitão - A grande batalha é a democrática

O Globo

A agenda nociva da extrema direita em questões vitais, como o meio ambiente, mostra que os dilemas do mundo atual só serão enfrentados na democracia

A grande batalha, aqui e no mundo, neste momento da História, é a democrática. Esquerda e centro que não entenderem isso perderão, com reflexos na vida do planeta. A direita moderada que relativizar seus valores e se aproximar da extrema direita, por conveniência ou cálculo político, estará fortalecendo a corrente antidemocrática que avança em vários países. Só na democracia será possível enfrentar os difíceis dilemas do mundo como o extremo climático, a inclusão dos mais vulneráveis, a adaptação da educação à revolução tecnológica. A agenda dos extremistas de direita negligencia todas as questões vitais e ainda ameaça o pacto social que nos levou à democracia.

Os exemplos estão em toda a parte. Os franceses da esquerda e do centro têm hoje a chance de, unidos, vencerem a extrema-direita. Nos Estados Unidos, pior do que as demonstrações de fragilidade de Joe Biden, que parecem evidentes, é a falha da institucionalidade americana da qual eles tanto se orgulhavam. Nos últimos dias, Donald Trump colheu mais frutos dessa fraqueza da democracia e avançou para o seu objetivo. O sistema eleitoral, pensado pelos pais fundadores, é indireto e menos democrático do que o de outros países. Por outro lado, prometia blindar o sistema contra aventureiros. Foi assaltado por um aventureiro e quase sucumbiu. Agora aceita correr risco de novo.

Luiz Carlos Azedo - Progressistas, liberais, conservadores e as "mentes naufragadas"

Correio Braziliense /Estado de Minas

A nostalgia do passado é um fenômeno muito amplo, que afeta a extrema-direita e a extrema-esquerda, os fundamentalistas cristãos e os marxistas ortodoxos

O professor Mark Lilla é especialista em história intelectual, principalmente do pensamento político e religioso do Ocidente. Desde 2007, leciona Humanidades na Universidade de Columbia e colabora, regularmente, para o “New York Review of Books” e o “New York Times”. É autor, entre outros livros, de “A mente imprudente – Os intelectuais na atividade política”, que traz um perfil de pensadores que fecharam os olhos ao autoritarismo, à brutalidade e ao terrorismo de Estado; e “A mente naufragada – Sobre o espírito reacionário”, que apresenta o reacionário não como um conservador, mas como uma figura tão radical e moderna quanto o revolucionário.

Em 2016, Lilla criticou duramente o Partido Democrata ao analisar a vitória de Donald Trump, na qual questionou a fixação democrata pela questão da diversidade, pois o partido tornara-se um mero porta-voz dos grupos minoritários que não conversavam entre si. Na época, destacou que Bill Clinton e Barack Obama fizeram bons governos, mas isso não bastou para responder aos anseios e inquietações da maioria dos eleitores norte-americanos, diante de um processo inexorável de mudanças que gera muitas incertezas sobre o futuro individual.

É aí que os progressistas, focados nos direitos das minorias, e os liberais, cujas bandeiras já não dão respostas aos novos problemas, cederam espaço para o saudosismo de um passado imaginário. É um fenômeno que aparece com muita força na Europa e na América Latina. Aqui no Brasil, também. Hoje, por exemplo, teremos um grande encontro da extrema-direita em Balneário Camboriú (SC), com a presença do presidente da Argentina, Jair Milei, e do ex-presidente Jair Bolsonaro. Lilla examina esse fenômeno desde a eleição de Trump.

Bernardo Mello Franco - Avalanche na ilha

O Globo

Eleições britânica devolveu poder aos trabalhistas e puniu Partido Conservador por apostas no Brexit e na redução do Estado

Foi uma avalanche, como dizem os britânicos. Depois de 14 anos na oposição, o Partido Trabalhista festejou uma vitória histórica no Reino Unido. A centro-esquerda voltou ao poder com uma supermaioria. Conquistou 412 cadeiras, quase dois terços da Câmara dos Comuns.

As manchetes parecem sugerir que a ilha se pintou de vermelho. Não foi bem assim. Apesar do triunfo, os trabalhistas receberam 500 mil votos a menos que na última eleição. O que definiu o resultado foi a derrocada do Partido Conservador, de direita. Sua votação despencou de 44% para 24% em cinco anos.

A bancada conservadora encolheu de 372 para 121 cadeiras — pior desempenho em quase dois séculos. Ao admitir a derrota, o primeiro-ministro Rishi Sunak reconheceu que os britânicos estavam com raiva de seu partido. “Sinto muito”, desculpou-se, no discurso de despedida.

Dorrit Harazim - Férias no Rio

O Globo

Eliana é negra. Já encostaram uma arma em sua cabeça quando retornava de uma festa com um amigo branco

Pano rápido #1. Quarta-feira, início de noite, bairro de Ipanema, Zona Sul do Rio de Janeiro. Cinco meninos entre 13 e 14 anos — três negros e dois brancos — voltam de uma pelada. Estão de férias, mãos abanando. Nem mochila levam. Vestem o clássico traje conforto (camiseta/bermuda/chinelo de dedo). Uma câmera de segurança mostra o grupo atravessando a rua. Param na portaria do prédio em que reside um deles. Ele entra. Dez segundos depois (sim, 10 segundos), uma viatura policial irrompe na cena. Zunindo, com as portas já escancaradas, o carro atravessa a pista, e dele saem dois policiais de armas apontadas para os meninos na calçada. Três deles, negros, são abordados com truculência, obrigados a ficar de costas com mãos na parede. O quarto adolescente recebe tratamento diferente — ele é branco. O porteiro de prédio a tudo assiste. Não interrompe seus afazeres. Motoristas e pedestres também não. Vida que segue.

A história terminaria aqui. Ou melhor, talvez terminasse alhures e muito mal para os “suspeitos”. Por sorte, o amiguinho branco consegue falar: os três meninos negros são filhos de diplomatas estrangeiros, vieram de Brasília a passeio. Dois são filhos dos embaixadores do Gabão e de Burkina Faso, o terceiro é filho de uma assistente do embaixador do Canadá. Forma-se uma encrenca diplomática, o Itamaraty pede desculpas formais aos pais dos jovens e cobra uma “apuração rigorosa” do governo do Rio de Janeiro. Que “fundada suspeita”, além da conhecida filtragem racial, teria levado os PMs à truculência tão gratuita? A Ouvidoria da Polícia Militar do Rio de Janeiro informa “aos que se sentiram ofendidos” que devem “formalizar suas denúncias”.

Eliane Cantanhêde - Aos ‘amigos’, tudo

O Estado de S. Paulo

Troca-troca: entra a Comissão de Mortos e Desaparecidos, sai da pauta a previdência dos militares

Depois de longa negociação, Planalto e Forças Armadas (FA), com mediação da Defesa, chegaram a um acordo que pode não ser o melhor, mas é o mais conveniente: o governo reabre a Comissão de Mortos e Desaparecidos e não se fala mais em mudança na previdência dos militares – pelo menos, por ora. Remexer o passado, com os implicados já na reserva ou mortos, é uma coisa; mexer no presente, com todos os interessados vivos e na ativa, é muito mais complicado.

Parecer da Defesa, de 2023, já era a favor da recriação da comissão, mas, antes de embarcar para a China, na sexta-feira, o comandante do Exército, general Tomás Paiva, disse à coluna que é preciso distinguir a Comissão de Mortos e Desaparecidos, criada no primeiro ano de governo de Fernando Henrique, da Comissão da Verdade, que vigorou nos anos de Dilma Rousseff. A que está de volta é a de FHC.