Flávio reedita mentira do pai sobre modelo de votação
Por Folha de S. Paulo
Senador espalha desinformação sobre as urnas
eletrônicas e depois nega ter atacado o sistema eleitoral
O padrão é tão previsível que seria cômico,
não representasse risco à democracia; campanha do pré-candidato enfrenta
problemas em série
Desde que foi ungido pelo pai, preso por
tentativa de golpe de Estado, como sucessor na disputa presidencial deste ano,
o senador Flávio
Bolsonaro (PL-RJ) demonstra
fidelidade aos preceitos de seu clã.
O padrão, que
inclui mentira e dissimulação, é tão previsível que seria cômico,
não fosse um perigo para a democracia, que o primogênito do apenado Jair
Bolsonaro repetisse as estocadas do ex-presidente contra o
sistema de votação eletrônica do país.
Ainda assim, não causa espanto que Flávio tenha copiado o seu progenitor ao chamar um grupo de embaixadores para espalhar mentiras sobre as urnas.
Ele disse que os aparelhos são os mesmos
usados na suspeita Venezuela, deixando no ar a ideia de que são fraudulentos. A
fabricante em questão não tem relação com os equipamentos.
Flávio mais uma vez incidiu na dissimulação,
que tem sido corriqueira na sua caminhada eleitoral, e negou ter atacado todo o
sistema, buscando vacinar-se contra eventuais punições.
Um discurso para desacreditar as urnas,
também diante de representantes estrangeiros, de seu pai em 2022 serviu de base
para um processo que o tornou inelegível. A precaução do filho mais velho para
evitar o mesmo desfecho do progenitor é óbvia.
Flávio já divagou
nesta Folha sobre o "uso da força" se a
Justiça derrubar a anistia que pretende conceder ao pai, caso seja eleito; em
abril, levantou dúvidas sobre a integridade do sistema eleitoral em evento
ligado ao trumpismo nos Estados
Unidos.
A relação com o ecossistema de desinformação
de Donald Trump foi
evidenciada com a exortação aos embaixadores para que seus países enviassem
observadores para supostamente garantir a lisura do pleito brasileiro, como se
isso não ocorresse sempre. Em 2022, foram cerca de 150 credenciados a
acompanhar o processo.
Trump acaba de lançar mão de tática
semelhante, ao acusar a China de manipular a disputa que perdeu em 2020 para
tentar questionar previamente a provável derrota que amargará no pleito
legislativo de novembro.
Flávio sente o calor das dificuldades. Sua
campanha enfrenta problemas em série, a começar pela relação, ainda longe de
explicada, que manteve com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e a rixa com a
madrasta Michelle.
Como cereja do bolo, veio o novo tarifaço de
Trump. Ou "Tariflávio", como batizado nas redes sociais, dada a
movimentação explícita do irmão Eduardo e seus comparsas para tentar ver o
Brasil punido pelo americano.
Flávio tentou se descolar da medida, até
porque ela fortalece Lula,
que já havia capitalizado o discurso da soberania nacional durante o tarifaço
de 2025. O petista já incorporou a retórica anti-Trump à campanha.
Não parece casual, portanto, o isolamento
político do senador, que não tem conseguido atrair aliados nem sequer para
compor a chapa presidencial, a ser ratificada no próximo sábado (25).
Emendas põem em risco investimentos no SUS
Por Folha de S. Paulo
Verbas parlamentares, que carecem de
critérios técnicos, financiam parcela crescente da saúde pública
Entre os municípios com até 10 mil
habitantes, as emendas nem sempre beneficiaram aqueles com menor capacidade de
custear o SUS
Nos últimos anos, o Congresso
Nacional ampliou seu
controle sobre o Orçamento por meio das emendas parlamentares,
em geral executadas sem transparência nem critérios técnicos.
Na saúde,
boletim do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (Ieps), divulgado na
terça-feira (21), mostra que 22% dos R$ 10,3 bilhões destinados a investimentos
no SUS em
2024 vieram de emendas. Trata-se de recursos voltados à ampliação ou
modernização da estrutura do sistema, como obras e aquisição de equipamentos.
A Atenção Primária à Saúde (APS) é a porta de
entrada do SUS e responde por serviços essenciais, como vacinação, pré-natal,
controle da hipertensão e do diabetes e visitas domiciliares.
Segundo o Ieps, 65,7% dos
itens financiados por emendas individuais na APS em 2025
(62.788 de um total de 95.598) pertencem à categoria "Infraestrutura e
Material de Escritório", que inclui cadeiras, computadores e aparelhos de
ar-condicionado.
Equipamentos médicos de baixo custo, como eletrocardiógrafos e aparelhos de ultrassom, representam 27,9%.
Dos R$ 491 milhões destinados à APS, 23% (R$
113,9 milhões) foram para infraestrutura, 12% (R$ 58,8 milhões) para
equipamentos médicos de baixo custo e mais da metade (R$ 263,5 milhões)
concentrou-se na compra de veículos.
O estudo ressalta que não é possível
verificar se esses recursos estão sendo distribuídos de acordo com as
necessidades dos municípios. Os dados, contudo, sugerem carência de
infraestrutura básica e levantam dúvidas sobre se investimentos em equipamentos
clínicos essenciais estão sendo preteridos.
Também merecem atenção as disparidades
regionais. Entre os municípios do Norte e do Nordeste, mais dependentes da
União, 63% e 59%, respectivamente, receberam emendas. No Centro-Oeste (85%), no
Sul (76%) e no Sudeste (73%), as proporções foram maiores.
A pesquisa verificou ainda que, entre os
municípios com até 10 mil habitantes, as emendas nem sempre beneficiaram os
mais pobres ou aqueles com menor capacidade de financiar o SUS. Parte dos recursos
foi destinada a cidades que já apresentavam gasto relativamente elevado com
recursos próprios.
Além de moralizar o uso das emendas parlamentares, é indispensável que a distribuição das verbas para a saúde seja orientada por diagnósticos das necessidades locais, e não pela conveniência política.
Ação em São Paulo aponta caminho contra o
crime
Por O Globo
Ênfase em inteligência ajuda a combater
lavagem de dinheiro do PCC e indicar elo entre suspeitos e policiais
A repressão ao crime organizado em São Paulo
tem se especializado numa estratégia que deveria servir de modelo ao restante
do país. Forças-tarefas centram seus esforços em inteligência financeira para
seguir os passos dos recursos obtidos pelo crime, identificar como se espalham
pela economia e desbaratar sistemas usados em lavagem de dinheiro e suborno
policial. O último exemplo é a operação desfechada pelo Grupo de Atuação
Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público
paulista, na terça-feira, contra um grupo suspeito de atuar em favor do
Primeiro Comando da Capital (PCC) e de
participar dos chamados tribunais do crime. Nos relatórios da Promotoria,
coronéis da PM paulista foram citados por suposta ligação com os investigados.
Nas mensagens encontradas pelos
investigadores, os suspeitos falam abertamente em “troca de TED por vivo”. O
dinheiro do crime, “o vivo”, era entregue ao grupo, que retornava com
transferências bancárias usando empresas de fachada para dar aparência lícita
às operações. Uma cabeleireira aparece como dona de uma companhia de importação
e exportação de produtos, e uma moradora de conjunto habitacional na Região
Metropolitana de São Paulo como dona de empresa de e-commerce com faturamento
acima do plausível.
Mirar nas estruturas de lavagem de dinheiro e
de subornos, como faz o Gaeco, tem potencial muito maior de causar prejuízos e
transtornos às facções. Quando a repressão se resume aos criminosos no varejo
das drogas, o número de prisões pode aumentar, mas os sistemas que permitem o
fluxo do dinheiro e a corrupção policial seguem intactos. Os “soldados” do
crime são substituídos rapidamente, e tudo segue igual. É preciso atuar nas
duas pontas.
Dois suspeitos, Meire Poza e Leonardo
Meirelles, nomes conhecidos na Operação Lava-Jato, foram também investigados em
março, em ação de uma força-tarefa do Gaeco, da Polícia Federal e da
Corregedoria Geral que apura esquema de corrupção na Polícia Civil de São
Paulo. Policiais são suspeitos de obstruir investigações ou deflagrar ações em
troca de dinheiro. Como fica demonstrado, os problemas da segurança pública em
São Paulo vão além do aumento de mortes em intervenções policiais.
No material recolhido pelos investigadores
para a operação desta semana, há registros em que aparecem os coronéis da PM
paulista Luiz Carlos Pereira Martins e José Augusto Coutinho,
ex-comandante-geral e ex-chefe da Rota, que foi para a reserva em abril, após
investigação sobre policiais que trabalhavam para empresa de ônibus ligada ao
PCC. A suspeita é que os dois mantinham relação próxima com operadores do
esquema.
Não há como barrar o crescimento das facções
sem investigar indícios de irregularidades ou crimes por parte de policiais e
desmontar os sistemas financeiros usados para dissimular a origem ilícita dos
lucros do crime. Por isso a estratégia usada em São Paulo e outros estados deve
ser copiada. Além de montar forças-tarefas, é necessária uma mudança de
cultura. A métrica para avaliar avanços não pode ser apenas o número de presos
ou de drogas apreendidas, mas a quantidade de esquemas de lavagem de dinheiro
desbaratados.
Problemas da Embrapa não se resumem à falta
de orçamento
Por O Globo
Com Brasil perto de ser o maior exportador
agrícola, empresa precisa de mais foco estratégico para manter relevância
Espinha dorsal da conversão do Brasil em
grande produtor agrícola, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
(Embrapa) passa por um período de inflexão. Desde a década de 1970, quando a
estatal foi criada, a produtividade da agricultura brasileira mais que dobrou.
Mas perdas de eficiência, falta de foco e orçamento em queda ameaçam sua
capacidade de continuar servindo de base tecnológica para a expansão do agronegócio
justamente quando o Brasil se posiciona para ultrapassar os Estados Unidos e se
tornar o maior exportador de produtos agrícolas do mundo.
A empresa padece da mesma distorção que
existe em outras áreas do setor público: ter um plano de carreira muito curto,
em que o pesquisador leva apenas de dez a 15 anos para atingir o topo. Tal
arranjo termina desincentivando o trabalho na inovação. Essa estrutura também
dificulta a contratação de especialistas em análises de grandes bases de dados
e em inteligência artificial (IA). Além disso, a Embrapa precisa de um sistema
de avaliação de desempenho mais eficaz. Algumas dessas conclusões fazem parte
do relatório “Embrapa entre o legado, o futuro e as transformações
necessárias”, produzido pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em
Políticas Públicas Estratégicas e Desenvolvimento.
O estudo chama a atenção para a falta de
recursos. O orçamento total de manutenção dos laboratórios, de campos
experimentais e infraestrutura caiu de R$ 633 milhões em 2011 para R$ 299
milhões no ano passado. Nas verbas destinadas às pesquisas, a redução foi mais
drástica: de R$ 400 milhões em 2010 para apenas R$ 65 milhões em 2024. Mas
engana-se quem diz que o problema se resume a dinheiro. A Embrapa precisa de mais
foco estratégico. A diversificação que no passado permitiu avanços em várias
áreas é hoje um problema por diluir recursos. É preciso diminuir o escopo. A
descentralização carece de coordenação adequada. Também não há uma estratégia
definida para o uso de tecnologias como a IA. Material não falta. Glaucia Maria
Pastore, pesquisadora da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp, diz
que a Embrapa tem o maior banco de sementes da América Latina e um dos maiores
do mundo. Seu banco genético vegetal conta com quase 126 mil amostras de mais
de 1.200 espécies.
Um estudo recente feito por pesquisadores do Banco Interamericano de Desenvolvimento, MIT e as universidades Princeton e Notre Dame analisou a trajetória da Embrapa desde 1973. A conclusão é que a empresa fez um trabalho exemplar na adaptação de sementes ao tipo de solo do país e no desenvolvimento de técnicas de cultivo, entre outros projetos bem-sucedidos. Por isso é possível dividir a história da agricultura no Brasil entre antes e depois da Embrapa. No cultivo de milho, trigo e arroz, registra o estudo, a produtividade praticamente não se alterara entre 1950 e 1970. Na cana-de-açúcar, era metade da americana. Para garantir que a Embrapa continue contribuindo, é preciso fazer um ajuste estrutural e aumentar o orçamento.
Quem sai aos seus não degenera
Por O Estado de S. Paulo
Tal como o pai, Flávio Bolsonaro mente sobre
urnas eletrônicas diante de diplomatas estrangeiros, provando que o golpismo
une uma família que não admite que pode perder eleições
O golpismo é a herança que Jair Bolsonaro
transmitiu em vida para seu primogênito. Anteontem, diante de diplomatas
estrangeiros, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) reencenou a farsa da suposta
insegurança de nosso sistema eleitoral, uma das práticas que consagraram seu
pai como a maior ameaça à democracia brasileira na Nova República.
Durante o encontro em Brasília, que reuniu
representantes de mais de 40 países, além de autoridades da União Europeia e da
Liga dos Estados Árabes, o candidato à Presidência pediu o envio da “maior
quantidade de observadores possível” para as eleições de outubro, afirmando que
as urnas eletrônicas usadas no Brasil teriam “a mesma origem” dos equipamentos
usados na Venezuela: a empresa Smartmatic, citada em um documento da CIA sobre
uma suposta fraude eleitoral ocorrida no país vizinho em 2012. É mentira.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já
afirmou por escrito – e categoricamente – que equipamentos ou softwares da
Smartmatic, ou de qualquer empresa estrangeira, jamais foram usados em eleições
no País. Todo o material foi concebido, produzido e gerido inteiramente pelo
TSE, com tecnologia nacional auditável por partidos políticos, especialistas e
órgãos de fiscalização do Brasil e do exterior. Jamais foi encontrada evidência
de fraude em qualquer das eleições realizadas desde 1996 por meio eletrônico. O
Brasil, ao contrário, é referência internacional em rapidez e segurança
eleitoral, precisamente em razão dos sistemas de votação e apuração que Flávio,
como pastiche do pai, acusa, sem provas, de serem passíveis de violações.
Nada aqui é por acaso. Flávio conhece bem o
manual do golpista moderno: lança dúvidas no ar, insinua que forças ocultas estão
atuando para melar as eleições, para logo em seguida negar que esteja fazendo
qualquer acusação. “Não estou questionando o sistema de votação brasileiro”,
disse o senador, explicando que somente, ora vejam, aludia a um relatório da
CIA. Não é difícil perceber a malícia. Bolsonaro também jamais assumiu
abertamente as suspeitas que adorava espalhar. Para os golpistas, basta semear
a dúvida – matéria-prima das teorias da conspiração que animam esses
liberticidas.
Flávio é tépido como democrata, mas não deixa
de ser lamentável o fato de que um cidadão que pretende liderar a Nação minta
com tanto desassombro. O senador chegou a afirmar que Bolsonaro está preso por
ter se reunido com embaixadores, em 2022, apenas para expressar “preocupação”
com a segurança eleitoral. Convenientemente, o filho omite que a condenação do
pai a mais de 27 anos de prisão, em caráter definitivo, decorreu de uma
tentativa de golpe de Estado, e não daquela reunião – da qual adveio a
inelegibilidade do ex-presidente, por abuso de poder político.
Com intervalo de poucos dias, o discurso
golpista de Flávio ecoa o de Donald Trump, de mesmo teor, feito em rede
nacional nos EUA, no qual o presidente americano voltou a alegar, mais uma vez
sem provas, que a vitória de Joe Biden, em 2020, foi fraudada. Para
autoritários como Trump e os Bolsonaros a verdade dos fatos é irrelevante:
basta semear a dúvida para deslegitimar, no futuro, um resultado eleitoral
desfavorável a eles. Eis o espírito de uma família que, a despeito de ter feito
da política eleitoral um bem-sucedido empreendimento comercial, jamais admitirá
a possibilidade de perder uma eleição limpa.
O ataque de Flávio às urnas eletrônicas não é
deslize. É mais um ato de irresignação com o Estado Democrático de Direito.
Lembremos que, em entrevista à Folha de
S.Paulo, em junho do ano passado, o senador já havia admitido que
um candidato à Presidência apoiado por seu pai teria de, necessariamente,
garantir o cumprimento de um eventual indulto a Jair Bolsonaro, “mesmo que” o
Supremo Tribunal Federal o considerasse inconstitucional. Indagado sobre a
hipótese de ser este, de fato, o destino dado ao indulto pela Corte, Flávio
admitiu abertamente o “uso da força”. Precisa mais?
É exasperante que, em 2026, ainda tenhamos de
dedicar energia ao desmentido de falácias sobre as urnas eletrônicas.
Postulantes à chefia de Estado e de governo deveriam estar debruçados sobre os
problemas reais que o Brasil tem de enfrentar. A lisura das eleições nunca foi
um deles.
O novo tarifaço de Trump
Por O Estado de S. Paulo
Trump contorna restrições da Suprema Corte e
cria novos pretextos para taxar o mundo, a começar por Brasil e Canadá, países
de sua ‘esfera de influência’. O objetivo é atingir a China
Após punir produtos brasileiros com uma nova
tarifa de importação de 25%, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump,
agora partiu para cima do Canadá, vizinho e tradicional parceiro comercial.
Trump assinou decretos que impõem uma draconiana sobretaxa de 50% sobre
produtos canadenses como vinhos, equipamentos e máquinas elétricas a partir de
19 de agosto.
Nem o timing nem os alvos iniciais das novas
sanções de Trump são aleatórios. Em resposta à decisão de fevereiro da Suprema
Corte, que derrubou o tarifaço instituído no início de 2025, a gestão do
republicano lançou mão da Seção 122 da Lei de Comércio de 1974 para restaurar a
chamada tarifa-base de 10% sobre importações.
Mas as sobretaxas baseadas na Seção 122
expiram nesta sexta-feira, a menos que o Congresso americano as renove, o que
parece improvável. Por isso, o governo Trump agora se vale de outros pretextos para
escalar a batalha de poder com a própria Suprema Corte e, ao mesmo tempo,
pressionar ainda mais as nações que Washington entende estarem sob sua “esfera
de influência”, como o Brasil e o Canadá.
Enquanto no caso brasileiro
instrumentalizou-se investigação com base na Seção 301 da Lei de Comércio, a
nova sobretaxa contra o Canadá tem por base uma disposição tarifária de 1930,
que permite ao presidente impor tarifas de até 50% quando outro país discrimina
produtos americanos. Até hoje tal dispositivo jamais havia sido usado.
Mais uma vez, não se trata de casualidade. O
Canadá sofre ameaças de punição severa no exato momento em que México e Estados
Unidos retomam negociações sobre o USMCA, o pacto comercial regional que mantêm
com os canadenses desde 2020.
No início de julho, Trump decidiu que não
renovaria o acordo. Agora, os americanos sentam-se à mesa apenas com os
mexicanos, numa tentativa clara de arrancar concessões ao mesmo tempo em que o
outro parceiro, o Canadá, não só não está presente nas negociações, como é
especialmente ameaçado – a tarifa de 50% incidirá até sobre produtos canadenses
enquadrados no USMCA e hoje, portanto, isentos.
Por mais que o tarifaço seja ilegal, como já
reconheceu a Suprema Corte, ou impopular, já que quem realmente paga o imposto
de importação é o consumidor americano, Trump não vai desistir.
Não importa que, para justificar o
injustificável, ele precise apelar até para a fumaça dos incêndios florestais
canadenses que chega aos Estados Unidos, ou ignorar solenemente que a relação
comercial com o Brasil é superavitária para seu país. Como bem observou o
professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) Matias Spektor em entrevista
ao Estadão,
Trump está mais preocupado em manter sua influência na região – que,
reconheça-se, no atual governo americano é tratada sem nenhum disfarce como
quintal americano. “O Brasil ainda é o grande parceiro comercial da China na
esfera de influência que o Trump quer restaurar na América Latina”, afirma
Spektor.
Vale lembrar ainda que o presidente dos Estados
Unidos acabou reaproximando, inadvertidamente, o Canadá da China. Trump tanto
agrediu o Canadá, a quem enxerga como um Estado americano, que o país vizinho
recentemente fechou acordo para importar carros elétricos chineses.
É nesse contexto, de batalha interna contra
as instituições americanas e externa contra a China, que Trump retoma sua
cruzada protecionista. Como a disputa direta com os chineses é pesada para os
Estados Unidos, Trump tenta enfraquecer o poderio da China nas Américas.
Isso não significa, porém, que países como
Brasil e Canadá não possam negociar. Embora haja a perspectiva de que tarifas
adicionais ainda sejam anunciadas pelos americanos para um conjunto bem mais
amplo de países, o escopo delas tem sido bem mais reduzido que o das que foram
impostas no ano passado. Trump tem um teste eleitoral em novembro e sabe que
não pode aumentar ainda mais o custo de vida dos americanos.
Do lado de quem está sendo punido, é preciso
resistir também à tentação natural de retaliar medidas que não fazem sentido
algum. Trump ladra, mas seguirá negociando porque os Estados Unidos ainda têm
instituições fortes e porque mesmo Brasil e Canadá têm algum poder de barganha.
Ortega rasga a fantasia
Por O Estado de S. Paulo
Ditador desiste de fingir respeito à
democracia. Silêncio de Lula é ensurdecedor
O presidente Daniel Ortega anunciou que seus
adversários jamais voltarão ao governo da Nicarágua pelas urnas: “Aqui não
voltará a haver eleições”. Com isso, não inaugurou uma ditadura, apenas decidiu
parar de fingir que a Nicarágua é democrática.
Após retornar à presidência pelo voto, em
2007, o extremista de esquerda chutou a escada e desmantelou o arcabouço
democrático. Subordinou tribunais, manipulou regras eleitorais e reprimiu
protestos. Antes da eleição de 2021, encarcerou pré-candidatos da oposição.
Desde então, a perseguição avançou contra empresários, estudantes, jornalistas,
religiosos e antigos correligionários. Milhares foram exilados. O fim das
eleições consuma uma obra construída metodicamente.
Há uma ironia especialmente degradante em
oficializar o golpe no aniversário da insurreição que derrubou a família
Somoza, em 1979. A revolução sandinista que prometia libertar a Nicarágua de
uma dinastia cimentou outra. A mulher de Ortega, Rosario Murillo, foi elevada a
“copresidente”, os filhos ocupam posições de influência e o Estado foi
subvertido em patrimônio político do clã. A proscrição das urnas talvez proteja
o regime no presente, mas deve tornar a sucessão mais dependente da truculência
e mais sujeita a rupturas.
Ortega espera que esse futuro interesse pouco
ao resto do mundo. China e Rússia oferecem apoio sem perguntas inconvenientes.
Os Estados Unidos perderam influência, as democracias latino-americanas se
dividem segundo afinidades ideológicas e outras crises disputam a atenção
internacional. O tirano mostra fraqueza, não força, ao temer até uma eleição
fraudulenta dentro de casa, mas comporta-se com audácia diante do exterior
porque espera que a indignação logo se dissipe.
O governo brasileiro é cúmplice nesse
cálculo. Lula já comparou a longevidade de seu amigo Ortega no poder à das
premiês Angela Merkel e Margaret Thatcher, como se fossem coisas equivalentes.
O próprio nicaraguense encarregou-se de demolir o argumento. Aquelas líderes
permaneceram no poder enquanto obtiveram o consentimento dos eleitores; Ortega
acaba de proclamar que jamais tolerará um veredicto adverso. O silêncio
gritante do lulopetismo comprova sua hipocrisia: a democracia é tratada como
detalhe inconveniente sempre que é seviciada pelos “companheiros” em Caracas,
Havana ou Moscou.
A comunidade internacional não deveria
limitar-se a divulgar notas de repúdio. Cabe coordenar pressão máxima sobre os
bens e negócios da família governante, suas empresas de fachada e os operadores
civis, policiais e judiciais da repressão. Essas medidas precisam preservar
remessas, ajuda humanitária e proteção aos exilados, além de apoiar jornalistas
e organizações nicaraguenses que ainda documentam os crimes do regime.
Até autocratas costumam conservar eleições de fachada porque reconhecem no voto uma fonte de legitimidade que não conseguem substituir inteiramente. Ortega resolveu dispensá-las para entregar o país à própria família. Se essa ruptura não tiver consequências, sua lição será ouvida muito além da Nicarágua: já se pode negar abertamente aos cidadãos o direito de mudar o governo sem pagar por isso.
Brasil tem que se preparar para enfrentar o
‘super’ El Niño
Por Valor Econômico
O padrão dos nossos governos, federal e locais, tem sido de correr atrás do prejuízo em vez de investir em prevenção e adaptação
O El Niño mal começou e já vem gerando
alertas de chuvas intensas e ventos no Sul do país. Apesar de uma sequência de
eventos extremos recentes - as secas históricas no Pantanal (2021) e na
Amazônia (2023-2024) e as enchentes recordes no Rio Grande do Sul (2024) - o
Brasil continua despreparado para enfrentar fenômenos meteorológicos de grande
volume ou intensidade, cada vez mais frequentes, alimentados pelo aquecimento
global. Nos últimos dois anos, pouco se avançou em ações de prevenção e
adaptação à nova realidade climática, e o país corre o risco de repetir novas
cenas trágicas de seca no Norte/Nordeste e chuvas/enchentes no Sul, diante de
um El Niño com potencial de se tornar o mais forte em mais de 100 anos.
Infelizmente, o padrão brasileiro tem sido
correr atrás do prejuízo em vez de agir na prevenção a desastres. Dados do
Painel de Gestão de Riscos e Desastres do Tribunal de Contas da União (TCU)
mostram que entre 2012 e 2026, a União gastou cerca de R$ 21,54 bilhões na
resposta a desastres e reconstrução, enquanto o investimento em ações
preventivas foi de apenas R$ 6,8 bilhões. Além disso, o TCU apontou falhas na
política de prevenção, como a falta de monitoramento e de avaliação das ações,
mapeamento insuficiente de áreas de risco e a existência de 37% de obras
inacabadas ou paralisadas.
Uma lei federal 14.904, de 27 de junho de
2024, determina que os municípios devem planejar sua adaptação à mudança do
clima, incluindo a preparação para eventos extremos cada vez mais recorrentes.
Apesar de estarem na linha de frente dos impactos climáticos, uma grande
maioria das cidades brasileiras continua despreparada para enfrentar eventos
extremos. Dois anos depois de promulgada a lei, duas em cada três cidades do
país - cerca de 66% - têm baixa ou baixíssima capacidade de se adaptar a
eventos extremos provocados pelo excesso de chuvas, segundo aponta a plataforma
AdaptaBrasil (Folha, 11/6).
E as chuvas extremas estão entre os
principais efeitos colaterais do El Niño, um evento climático natural
caracterizado pelo aquecimento acima da média das águas do oceano Pacífico na
região da linha do Equador e que afeta os padrões climáticos em todo o mundo.
No Brasil, o El Niño altera as correntes de vento e canaliza a umidade da Amazônia
para o Sul do país, intensificando as precipitações na região. As enchentes de
2023 e 2024 no Rio Grande do Sul ocorreram sob a vigência de um forte El Niño,
e as previsões são de um evento ainda mais intenso neste ano. A mais recente
atualização do Centro de Previsão Climática da Administração Nacional Oceânica
e Atmosférica (NOAA) dos EUA (19/7) aponta 81% de chance de um El Niño “muito
forte” entre outubro e dezembro, quando o sistema atinge o seu auge.
Em um país de dimensões continentais, o El Niño
intensifica extremos climáticos cada vez mais recorrentes, como secas
extraordinárias no Norte e no Nordeste e ondas de calor no Sudeste e no
Centro-Oeste. A urbanização caótica brasileira, com frequente ocupação de áreas
de risco, especialmente pelas camadas mais pobres e vulneráveis da população,
combinada com uma infraestrutura muitas vezes insuficiente - em especial nas
regiões do Norte e Nordeste - amplifica as desigualdades internas e torna os
centros urbanos especialmente suscetíveis aos eventos climáticos extremos.
Apesar disso, a preparação dos municípios
anda em ritmo lento, evidenciando o desafio de fazer avançar políticas públicas
cruciais em um sistema federalista, principalmente quando sua implementação
depende de vários órgãos governamentais. Os governos municipais se defendem das
críticas no despreparo argumentando que Brasília não pode simplesmente
transferir a responsabilidade, impor uma obrigação sem olhar a realidade local,
sem garantir capacidade técnica e recursos. De fato, o sucesso de uma política
pública depende da adequação de seu desenho às capacidades locais existentes ou
que ative a melhoria/desenvolvimento dessas capacidades.
No entanto, mesmo considerando as
desigualdades nas capacidades locais para elaborar um plano de adaptação às
mudanças climáticas, isso não exime os governos municipais da responsabilidade
no caso de perdas de vidas, propriedade e produção decorrentes do risco de
eventos extremos exaustivamente sinalizados pelos cientistas. Os prefeitos se
esquecem de que o outro lado do federalismo brasileiro é que os municípios têm
autonomia política e constitucional, que lhes permitem aprovar leis e gerenciar
suas contas, tendo o poder de decidir a alocação de recursos de impostos locais
para implementação de políticas públicas.
Entre 2013 e 2024, a Confederação Nacional dos Municípios contabilizou R$ 458 bilhões em perdas só com enxurradas e inundações. As chuvas de 2024 no Rio Grande do Sul custaram mais de R$ 90 bilhões e afetaram a vida de mais de 5,5 milhões de pessoas. Os dois anos de secas intensas na Amazônia causaram prejuízo de quase de R$ 2 bilhões e atingiram mais de 630 mil pessoas apenas no Estado do Amazonas. É preciso romper o ciclo de inação e parar de somente correr atrás do prejuízo.
As duas faces da Copa do Mundo
Por Correio Braziliense
A Copa pode crescer, conquistar novos
mercados e alcançar dimensões cada vez maiores, mas não pode perder a
capacidade de fazer milhões de pessoas se reconhecerem dentro de uma mesma
história
A Copa de 2026 terminou com a Espanha campeã,
mas o principal legado da 23ª edição, em 96 anos de história, vai muito além do
resultado esportivo. A maior edição da história do torneio consolidou o futebol
como linguagem universal e também revelou, de forma inédita, como o
Mundial se tornou um espaço de disputa política, econômica e diplomática.
Dentro das quatro linhas, a Espanha ofereceu
uma das principais lições da Copa. O título não nasceu do acaso nem apenas do
talento individual. Foi consequência de um projeto coletivo de longo prazo, com
uma identidade construída desde as categorias de base. Fora do campo, o Mundial
expôs contradições. Teve três sedes, mas um centro de poder. Os Estados Unidos
concentraram os principais palcos, a maior exposição internacional, a econômica
e os momentos decisivos.
A cerimônia de premiação produziu uma cena
simbólica dessa realidade. A imagem de Donald Trump ao lado da taça, em posição
de destaque, enquanto os demais líderes dos países-sede — México e Canadá —
apareciam em segundo plano, reforçou a percepção de um evento no qual esporte e
política compartilharam o mesmo palco.
A geopolítica também entrou em campo. As
dificuldades logísticas enfrentadas pela seleção iraniana, obrigada a
administrar deslocamentos extraordinários entre México e EUA em razão das
restrições diplomáticas, mostraram que decisões de Estado passaram a interferir
diretamente na rotina da competição.
Essa transformação não começou em 2026. As
últimas edições mostram como o Mundial passou a refletir as tensões de seu
tempo. A África do Sul recebeu, em 2010, a primeira Copa do continente
africano, carregada de simbolismo e debates sobre legado. O Brasil de 2014
conviveu com manifestações populares e questionamentos sobre prioridades
nacionais. A Rússia de 2018 organizou o torneio em meio a tensões
internacionais. O Catar de 2022 enfrentou críticas relacionadas aos direitos
humanos e às condições de trabalho dos migrantes. Em 2026, imigração,
fronteiras e relações diplomáticas também fizeram parte da agenda.
A Copa tornou-se um espelho do mundo em que é
disputada. E o reflexo também apareceu na economia. A Fifa alcançou patamares
financeiros históricos, impulsionada por contratos comerciais, direitos de
transmissão, hospitalidade e novas formas de exploração do evento. A
aproximação com a lógica americana de entretenimento esportivo ficou evidente
no show do intervalo da final, inspirado no modelo do Super Bowl.
O crescimento do negócio — passando a
disputar espaço na indústria global do entretenimento — também inflou o debate
sobre o acesso dos torcedores comuns, divididos entre o número recorde de 48
seleções. Esse é o principal dilema deixado por 2026. A democratização
promovida dentro das quatro linhas passou a conviver com um acesso cada vez
mais seletivo fora delas, impulsionado por ingressos de alto custo,
hospitalidade premium e experiências corporativas.
O futebol continua sendo capaz de emocionar,
aproximar culturas e criar histórias universais. A Espanha comprovou isso ao
conquistar o mundo com uma geração construída a partir de ideias e trabalho.
Mas o Mundial também mostrou que a bola agora convive com interesses políticos,
econômicos e estratégicos que disputam espaço ao seu redor.
A Fifa administra um dos maiores negócios do
planeta. Os governos enxergam uma poderosa vitrine. As empresas encontram novas
oportunidades. Mas a alma da Copa do Mundo continuará dependendo daquele que
sempre esteve no centro da história: o torcedor.
A Copa pode crescer, conquistar novos mercados e alcançar dimensões cada vez maiores, mas não deve perder a capacidade de fazer milhões de pessoas se reconhecerem dentro de uma mesma história. No fim, é isso que transforma um jogo de futebol em um acontecimento mundial. É esse patrimônio que a Fifa tem o dever de preservar.
Urnas eletrônicas novamente sob ataque
Por O Povo (CE)
Justiça Eleitoral e o Ministério Público devem
ficar atentos para que os candidatos se comportem nos limites estabelecidos
pelas leis que regulamentam as eleições
O pré-candidato a presidente da República,
Flávio Bolsonaro (PT), emulou o pai ao criticar as urnas eletrônicas em uma
reunião de embaixadores estrangeiros realizada na terça-feira, em
Brasília. Ele, porém, optou por uma linguagem escorregadia, ressalvando que não
punha em dúvida o sistema eleitoral, mas suas palavras e o contexto do discurso
deixaram evidentes qual era o seu alvo.
Da mesma forma que Jair Bolsonaro, Flávio
usou informações falsas em seu discurso, como dizer que as urnas
fabricadas pela empresa venezuelana Smartmatic — supostamente envolvidas em
fraude na eleição na Venezuela em 2012 —, também teriam sido utilizadas em
votação no Brasil. Esse boato já havia sido desmentido em 2022 pelo Tribunal
Superior Eleitoral (TSE).
Durante o evento Discutindo o Brasil,
promovido pela agência Novo Selo Comunicação e pelo The Brazilian Report,
o pré-candidato pediu aos embaixadores que seus países enviassem "a maior
quantidade de observadores possíveis" no período de votação. Segundo
Flávio, isso propiciaria eleições "mais seguras e transparentes. Apesar de
sua fala indicar o contrário, o filho de Jair Bolsonaro disse que não estava
"questionando o sistema de votação brasileiro".
A questão é que Flávio reivindica o que o
Brasil já possui: um sistema eleitoral reconhecido internacionalmente
como um dos mais seguros e precisos do mundo. Desde o início do uso das urnas
eletrônicas, em 1996, até hoje ninguém conseguiu encontrar uma única falha que
pusesse em dúvida a integridade do resultado eleitoral.
Flávio parece ter abandonado a persona
de moderado para voltar à "raiz" do bolsonarismo, para
consolidar a sua liderança nos setores mais radicalizados do movimento. Isso
inclui testar os limites da legislação que rege as eleições e intensificar
ataques às instituições, especialmente ao Judiciário.
O contexto indica que a pré-campanha
bolsonarista está completamente desestruturada, ao ponto de o presidente do
PL, Valdemar Costa Neto confessar que Flávio "não estava
preparado para ser candidato" a presidente da República quando foi
escolhido para representar o partido nas eleições.
Mas a pergunta é, se a exemplo do pai,
condenado por abuso de poder político e uso indevido dos meios de
comunicação, ficando inelegível por oito anos, o mesmo poderá acontecer com
Flávio? Há diferenças entre os dois casos.
Na época, Bolsonaro era presidente da
República, e fez uso da estrutura estatal, inclusive os meios de
comunicação oficiais, com objetivo eleitoral. Flávio foi a um evento para o
qual foi convidado, sem mobilizar recursos públicos. Além disso, ele ainda não
é candidato oficialmente. Portanto, a interpretação dos fatos caberá aos
ministros, se o caso chegar à Justiça eleitoral.
De qualquer modo, a Justiça Eleitoral e o Ministério Público devem ficar atentos para que os candidatos se comportem nos limites estabelecidos pelas leis que regulamentam as eleições.

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