quinta-feira, 23 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Flávio reedita mentira do pai sobre modelo de votação

Por Folha de S. Paulo

Senador espalha desinformação sobre as urnas eletrônicas e depois nega ter atacado o sistema eleitoral

O padrão é tão previsível que seria cômico, não representasse risco à democracia; campanha do pré-candidato enfrenta problemas em série

Desde que foi ungido pelo pai, preso por tentativa de golpe de Estado, como sucessor na disputa presidencial deste ano, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) demonstra fidelidade aos preceitos de seu clã.

O padrão, que inclui mentira e dissimulação, é tão previsível que seria cômico, não fosse um perigo para a democracia, que o primogênito do apenado Jair Bolsonaro repetisse as estocadas do ex-presidente contra o sistema de votação eletrônica do país.

Ainda assim, não causa espanto que Flávio tenha copiado o seu progenitor ao chamar um grupo de embaixadores para espalhar mentiras sobre as urnas.

Ele disse que os aparelhos são os mesmos usados na suspeita Venezuela, deixando no ar a ideia de que são fraudulentos. A fabricante em questão não tem relação com os equipamentos.

Flávio mais uma vez incidiu na dissimulação, que tem sido corriqueira na sua caminhada eleitoral, e negou ter atacado todo o sistema, buscando vacinar-se contra eventuais punições.

Um discurso para desacreditar as urnas, também diante de representantes estrangeiros, de seu pai em 2022 serviu de base para um processo que o tornou inelegível. A precaução do filho mais velho para evitar o mesmo desfecho do progenitor é óbvia.

Flávio já divagou nesta Folha sobre o "uso da força" se a Justiça derrubar a anistia que pretende conceder ao pai, caso seja eleito; em abril, levantou dúvidas sobre a integridade do sistema eleitoral em evento ligado ao trumpismo nos Estados Unidos.

A relação com o ecossistema de desinformação de Donald Trump foi evidenciada com a exortação aos embaixadores para que seus países enviassem observadores para supostamente garantir a lisura do pleito brasileiro, como se isso não ocorresse sempre. Em 2022, foram cerca de 150 credenciados a acompanhar o processo.

Trump acaba de lançar mão de tática semelhante, ao acusar a China de manipular a disputa que perdeu em 2020 para tentar questionar previamente a provável derrota que amargará no pleito legislativo de novembro.

Flávio sente o calor das dificuldades. Sua campanha enfrenta problemas em série, a começar pela relação, ainda longe de explicada, que manteve com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e a rixa com a madrasta Michelle.

Como cereja do bolo, veio o novo tarifaço de Trump. Ou "Tariflávio", como batizado nas redes sociais, dada a movimentação explícita do irmão Eduardo e seus comparsas para tentar ver o Brasil punido pelo americano.

Flávio tentou se descolar da medida, até porque ela fortalece Lula, que já havia capitalizado o discurso da soberania nacional durante o tarifaço de 2025. O petista já incorporou a retórica anti-Trump à campanha.

Não parece casual, portanto, o isolamento político do senador, que não tem conseguido atrair aliados nem sequer para compor a chapa presidencial, a ser ratificada no próximo sábado (25).

Emendas põem em risco investimentos no SUS

Por Folha de S. Paulo

Verbas parlamentares, que carecem de critérios técnicos, financiam parcela crescente da saúde pública

Entre os municípios com até 10 mil habitantes, as emendas nem sempre beneficiaram aqueles com menor capacidade de custear o SUS

Nos últimos anos, o Congresso Nacional ampliou seu controle sobre o Orçamento por meio das emendas parlamentares, em geral executadas sem transparência nem critérios técnicos.

Na saúde, boletim do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (Ieps), divulgado na terça-feira (21), mostra que 22% dos R$ 10,3 bilhões destinados a investimentos no SUS em 2024 vieram de emendas. Trata-se de recursos voltados à ampliação ou modernização da estrutura do sistema, como obras e aquisição de equipamentos.

A Atenção Primária à Saúde (APS) é a porta de entrada do SUS e responde por serviços essenciais, como vacinação, pré-natal, controle da hipertensão e do diabetes e visitas domiciliares.

Segundo o Ieps, 65,7% dos itens financiados por emendas individuais na APS em 2025 (62.788 de um total de 95.598) pertencem à categoria "Infraestrutura e Material de Escritório", que inclui cadeiras, computadores e aparelhos de ar-condicionado.

Equipamentos médicos de baixo custo, como eletrocardiógrafos e aparelhos de ultrassom, representam 27,9%.

Dos R$ 491 milhões destinados à APS, 23% (R$ 113,9 milhões) foram para infraestrutura, 12% (R$ 58,8 milhões) para equipamentos médicos de baixo custo e mais da metade (R$ 263,5 milhões) concentrou-se na compra de veículos.

O estudo ressalta que não é possível verificar se esses recursos estão sendo distribuídos de acordo com as necessidades dos municípios. Os dados, contudo, sugerem carência de infraestrutura básica e levantam dúvidas sobre se investimentos em equipamentos clínicos essenciais estão sendo preteridos.

Também merecem atenção as disparidades regionais. Entre os municípios do Norte e do Nordeste, mais dependentes da União, 63% e 59%, respectivamente, receberam emendas. No Centro-Oeste (85%), no Sul (76%) e no Sudeste (73%), as proporções foram maiores.

A pesquisa verificou ainda que, entre os municípios com até 10 mil habitantes, as emendas nem sempre beneficiaram os mais pobres ou aqueles com menor capacidade de financiar o SUS. Parte dos recursos foi destinada a cidades que já apresentavam gasto relativamente elevado com recursos próprios.

Além de moralizar o uso das emendas parlamentares, é indispensável que a distribuição das verbas para a saúde seja orientada por diagnósticos das necessidades locais, e não pela conveniência política.

Ação em São Paulo aponta caminho contra o crime

Por O Globo

Ênfase em inteligência ajuda a combater lavagem de dinheiro do PCC e indicar elo entre suspeitos e policiais

A repressão ao crime organizado em São Paulo tem se especializado numa estratégia que deveria servir de modelo ao restante do país. Forças-tarefas centram seus esforços em inteligência financeira para seguir os passos dos recursos obtidos pelo crime, identificar como se espalham pela economia e desbaratar sistemas usados em lavagem de dinheiro e suborno policial. O último exemplo é a operação desfechada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público paulista, na terça-feira, contra um grupo suspeito de atuar em favor do Primeiro Comando da Capital (PCC) e de participar dos chamados tribunais do crime. Nos relatórios da Promotoria, coronéis da PM paulista foram citados por suposta ligação com os investigados.

Nas mensagens encontradas pelos investigadores, os suspeitos falam abertamente em “troca de TED por vivo”. O dinheiro do crime, “o vivo”, era entregue ao grupo, que retornava com transferências bancárias usando empresas de fachada para dar aparência lícita às operações. Uma cabeleireira aparece como dona de uma companhia de importação e exportação de produtos, e uma moradora de conjunto habitacional na Região Metropolitana de São Paulo como dona de empresa de e-commerce com faturamento acima do plausível.

Mirar nas estruturas de lavagem de dinheiro e de subornos, como faz o Gaeco, tem potencial muito maior de causar prejuízos e transtornos às facções. Quando a repressão se resume aos criminosos no varejo das drogas, o número de prisões pode aumentar, mas os sistemas que permitem o fluxo do dinheiro e a corrupção policial seguem intactos. Os “soldados” do crime são substituídos rapidamente, e tudo segue igual. É preciso atuar nas duas pontas.

Dois suspeitos, Meire Poza e Leonardo Meirelles, nomes conhecidos na Operação Lava-Jato, foram também investigados em março, em ação de uma força-tarefa do Gaeco, da Polícia Federal e da Corregedoria Geral que apura esquema de corrupção na Polícia Civil de São Paulo. Policiais são suspeitos de obstruir investigações ou deflagrar ações em troca de dinheiro. Como fica demonstrado, os problemas da segurança pública em São Paulo vão além do aumento de mortes em intervenções policiais.

No material recolhido pelos investigadores para a operação desta semana, há registros em que aparecem os coronéis da PM paulista Luiz Carlos Pereira Martins e José Augusto Coutinho, ex-comandante-geral e ex-chefe da Rota, que foi para a reserva em abril, após investigação sobre policiais que trabalhavam para empresa de ônibus ligada ao PCC. A suspeita é que os dois mantinham relação próxima com operadores do esquema.

Não há como barrar o crescimento das facções sem investigar indícios de irregularidades ou crimes por parte de policiais e desmontar os sistemas financeiros usados para dissimular a origem ilícita dos lucros do crime. Por isso a estratégia usada em São Paulo e outros estados deve ser copiada. Além de montar forças-tarefas, é necessária uma mudança de cultura. A métrica para avaliar avanços não pode ser apenas o número de presos ou de drogas apreendidas, mas a quantidade de esquemas de lavagem de dinheiro desbaratados.

Problemas da Embrapa não se resumem à falta de orçamento

Por O Globo

Com Brasil perto de ser o maior exportador agrícola, empresa precisa de mais foco estratégico para manter relevância

Espinha dorsal da conversão do Brasil em grande produtor agrícola, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) passa por um período de inflexão. Desde a década de 1970, quando a estatal foi criada, a produtividade da agricultura brasileira mais que dobrou. Mas perdas de eficiência, falta de foco e orçamento em queda ameaçam sua capacidade de continuar servindo de base tecnológica para a expansão do agronegócio justamente quando o Brasil se posiciona para ultrapassar os Estados Unidos e se tornar o maior exportador de produtos agrícolas do mundo.

A empresa padece da mesma distorção que existe em outras áreas do setor público: ter um plano de carreira muito curto, em que o pesquisador leva apenas de dez a 15 anos para atingir o topo. Tal arranjo termina desincentivando o trabalho na inovação. Essa estrutura também dificulta a contratação de especialistas em análises de grandes bases de dados e em inteligência artificial (IA). Além disso, a Embrapa precisa de um sistema de avaliação de desempenho mais eficaz. Algumas dessas conclusões fazem parte do relatório “Embrapa entre o legado, o futuro e as transformações necessárias”, produzido pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Políticas Públicas Estratégicas e Desenvolvimento.

O estudo chama a atenção para a falta de recursos. O orçamento total de manutenção dos laboratórios, de campos experimentais e infraestrutura caiu de R$ 633 milhões em 2011 para R$ 299 milhões no ano passado. Nas verbas destinadas às pesquisas, a redução foi mais drástica: de R$ 400 milhões em 2010 para apenas R$ 65 milhões em 2024. Mas engana-se quem diz que o problema se resume a dinheiro. A Embrapa precisa de mais foco estratégico. A diversificação que no passado permitiu avanços em várias áreas é hoje um problema por diluir recursos. É preciso diminuir o escopo. A descentralização carece de coordenação adequada. Também não há uma estratégia definida para o uso de tecnologias como a IA. Material não falta. Glaucia Maria Pastore, pesquisadora da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp, diz que a Embrapa tem o maior banco de sementes da América Latina e um dos maiores do mundo. Seu banco genético vegetal conta com quase 126 mil amostras de mais de 1.200 espécies.

Um estudo recente feito por pesquisadores do Banco Interamericano de Desenvolvimento, MIT e as universidades Princeton e Notre Dame analisou a trajetória da Embrapa desde 1973. A conclusão é que a empresa fez um trabalho exemplar na adaptação de sementes ao tipo de solo do país e no desenvolvimento de técnicas de cultivo, entre outros projetos bem-sucedidos. Por isso é possível dividir a história da agricultura no Brasil entre antes e depois da Embrapa. No cultivo de milho, trigo e arroz, registra o estudo, a produtividade praticamente não se alterara entre 1950 e 1970. Na cana-de-açúcar, era metade da americana. Para garantir que a Embrapa continue contribuindo, é preciso fazer um ajuste estrutural e aumentar o orçamento.

Quem sai aos seus não degenera

Por O Estado de S. Paulo

Tal como o pai, Flávio Bolsonaro mente sobre urnas eletrônicas diante de diplomatas estrangeiros, provando que o golpismo une uma família que não admite que pode perder eleições

O golpismo é a herança que Jair Bolsonaro transmitiu em vida para seu primogênito. Anteontem, diante de diplomatas estrangeiros, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) reencenou a farsa da suposta insegurança de nosso sistema eleitoral, uma das práticas que consagraram seu pai como a maior ameaça à democracia brasileira na Nova República.

Durante o encontro em Brasília, que reuniu representantes de mais de 40 países, além de autoridades da União Europeia e da Liga dos Estados Árabes, o candidato à Presidência pediu o envio da “maior quantidade de observadores possível” para as eleições de outubro, afirmando que as urnas eletrônicas usadas no Brasil teriam “a mesma origem” dos equipamentos usados na Venezuela: a empresa Smartmatic, citada em um documento da CIA sobre uma suposta fraude eleitoral ocorrida no país vizinho em 2012. É mentira.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já afirmou por escrito – e categoricamente – que equipamentos ou softwares da Smartmatic, ou de qualquer empresa estrangeira, jamais foram usados em eleições no País. Todo o material foi concebido, produzido e gerido inteiramente pelo TSE, com tecnologia nacional auditável por partidos políticos, especialistas e órgãos de fiscalização do Brasil e do exterior. Jamais foi encontrada evidência de fraude em qualquer das eleições realizadas desde 1996 por meio eletrônico. O Brasil, ao contrário, é referência internacional em rapidez e segurança eleitoral, precisamente em razão dos sistemas de votação e apuração que Flávio, como pastiche do pai, acusa, sem provas, de serem passíveis de violações.

Nada aqui é por acaso. Flávio conhece bem o manual do golpista moderno: lança dúvidas no ar, insinua que forças ocultas estão atuando para melar as eleições, para logo em seguida negar que esteja fazendo qualquer acusação. “Não estou questionando o sistema de votação brasileiro”, disse o senador, explicando que somente, ora vejam, aludia a um relatório da CIA. Não é difícil perceber a malícia. Bolsonaro também jamais assumiu abertamente as suspeitas que adorava espalhar. Para os golpistas, basta semear a dúvida – matéria-prima das teorias da conspiração que animam esses liberticidas.

Flávio é tépido como democrata, mas não deixa de ser lamentável o fato de que um cidadão que pretende liderar a Nação minta com tanto desassombro. O senador chegou a afirmar que Bolsonaro está preso por ter se reunido com embaixadores, em 2022, apenas para expressar “preocupação” com a segurança eleitoral. Convenientemente, o filho omite que a condenação do pai a mais de 27 anos de prisão, em caráter definitivo, decorreu de uma tentativa de golpe de Estado, e não daquela reunião – da qual adveio a inelegibilidade do ex-presidente, por abuso de poder político.

Com intervalo de poucos dias, o discurso golpista de Flávio ecoa o de Donald Trump, de mesmo teor, feito em rede nacional nos EUA, no qual o presidente americano voltou a alegar, mais uma vez sem provas, que a vitória de Joe Biden, em 2020, foi fraudada. Para autoritários como Trump e os Bolsonaros a verdade dos fatos é irrelevante: basta semear a dúvida para deslegitimar, no futuro, um resultado eleitoral desfavorável a eles. Eis o espírito de uma família que, a despeito de ter feito da política eleitoral um bem-sucedido empreendimento comercial, jamais admitirá a possibilidade de perder uma eleição limpa.

O ataque de Flávio às urnas eletrônicas não é deslize. É mais um ato de irresignação com o Estado Democrático de Direito. Lembremos que, em entrevista à Folha de S.Paulo, em junho do ano passado, o senador já havia admitido que um candidato à Presidência apoiado por seu pai teria de, necessariamente, garantir o cumprimento de um eventual indulto a Jair Bolsonaro, “mesmo que” o Supremo Tribunal Federal o considerasse inconstitucional. Indagado sobre a hipótese de ser este, de fato, o destino dado ao indulto pela Corte, Flávio admitiu abertamente o “uso da força”. Precisa mais?

É exasperante que, em 2026, ainda tenhamos de dedicar energia ao desmentido de falácias sobre as urnas eletrônicas. Postulantes à chefia de Estado e de governo deveriam estar debruçados sobre os problemas reais que o Brasil tem de enfrentar. A lisura das eleições nunca foi um deles.

O novo tarifaço de Trump

Por O Estado de S. Paulo

Trump contorna restrições da Suprema Corte e cria novos pretextos para taxar o mundo, a começar por Brasil e Canadá, países de sua ‘esfera de influência’. O objetivo é atingir a China

Após punir produtos brasileiros com uma nova tarifa de importação de 25%, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, agora partiu para cima do Canadá, vizinho e tradicional parceiro comercial. Trump assinou decretos que impõem uma draconiana sobretaxa de 50% sobre produtos canadenses como vinhos, equipamentos e máquinas elétricas a partir de 19 de agosto.

Nem o timing nem os alvos iniciais das novas sanções de Trump são aleatórios. Em resposta à decisão de fevereiro da Suprema Corte, que derrubou o tarifaço instituído no início de 2025, a gestão do republicano lançou mão da Seção 122 da Lei de Comércio de 1974 para restaurar a chamada tarifa-base de 10% sobre importações.

Mas as sobretaxas baseadas na Seção 122 expiram nesta sexta-feira, a menos que o Congresso americano as renove, o que parece improvável. Por isso, o governo Trump agora se vale de outros pretextos para escalar a batalha de poder com a própria Suprema Corte e, ao mesmo tempo, pressionar ainda mais as nações que Washington entende estarem sob sua “esfera de influência”, como o Brasil e o Canadá.

Enquanto no caso brasileiro instrumentalizou-se investigação com base na Seção 301 da Lei de Comércio, a nova sobretaxa contra o Canadá tem por base uma disposição tarifária de 1930, que permite ao presidente impor tarifas de até 50% quando outro país discrimina produtos americanos. Até hoje tal dispositivo jamais havia sido usado.

Mais uma vez, não se trata de casualidade. O Canadá sofre ameaças de punição severa no exato momento em que México e Estados Unidos retomam negociações sobre o USMCA, o pacto comercial regional que mantêm com os canadenses desde 2020.

No início de julho, Trump decidiu que não renovaria o acordo. Agora, os americanos sentam-se à mesa apenas com os mexicanos, numa tentativa clara de arrancar concessões ao mesmo tempo em que o outro parceiro, o Canadá, não só não está presente nas negociações, como é especialmente ameaçado – a tarifa de 50% incidirá até sobre produtos canadenses enquadrados no USMCA e hoje, portanto, isentos.

Por mais que o tarifaço seja ilegal, como já reconheceu a Suprema Corte, ou impopular, já que quem realmente paga o imposto de importação é o consumidor americano, Trump não vai desistir.

Não importa que, para justificar o injustificável, ele precise apelar até para a fumaça dos incêndios florestais canadenses que chega aos Estados Unidos, ou ignorar solenemente que a relação comercial com o Brasil é superavitária para seu país. Como bem observou o professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) Matias Spektor em entrevista ao Estadão, Trump está mais preocupado em manter sua influência na região – que, reconheça-se, no atual governo americano é tratada sem nenhum disfarce como quintal americano. “O Brasil ainda é o grande parceiro comercial da China na esfera de influência que o Trump quer restaurar na América Latina”, afirma Spektor.

Vale lembrar ainda que o presidente dos Estados Unidos acabou reaproximando, inadvertidamente, o Canadá da China. Trump tanto agrediu o Canadá, a quem enxerga como um Estado americano, que o país vizinho recentemente fechou acordo para importar carros elétricos chineses.

É nesse contexto, de batalha interna contra as instituições americanas e externa contra a China, que Trump retoma sua cruzada protecionista. Como a disputa direta com os chineses é pesada para os Estados Unidos, Trump tenta enfraquecer o poderio da China nas Américas.

Isso não significa, porém, que países como Brasil e Canadá não possam negociar. Embora haja a perspectiva de que tarifas adicionais ainda sejam anunciadas pelos americanos para um conjunto bem mais amplo de países, o escopo delas tem sido bem mais reduzido que o das que foram impostas no ano passado. Trump tem um teste eleitoral em novembro e sabe que não pode aumentar ainda mais o custo de vida dos americanos.

Do lado de quem está sendo punido, é preciso resistir também à tentação natural de retaliar medidas que não fazem sentido algum. Trump ladra, mas seguirá negociando porque os Estados Unidos ainda têm instituições fortes e porque mesmo Brasil e Canadá têm algum poder de barganha.

Ortega rasga a fantasia

Por O Estado de S. Paulo

Ditador desiste de fingir respeito à democracia. Silêncio de Lula é ensurdecedor

O presidente Daniel Ortega anunciou que seus adversários jamais voltarão ao governo da Nicarágua pelas urnas: “Aqui não voltará a haver eleições”. Com isso, não inaugurou uma ditadura, apenas decidiu parar de fingir que a Nicarágua é democrática.

Após retornar à presidência pelo voto, em 2007, o extremista de esquerda chutou a escada e desmantelou o arcabouço democrático. Subordinou tribunais, manipulou regras eleitorais e reprimiu protestos. Antes da eleição de 2021, encarcerou pré-candidatos da oposição. Desde então, a perseguição avançou contra empresários, estudantes, jornalistas, religiosos e antigos correligionários. Milhares foram exilados. O fim das eleições consuma uma obra construída metodicamente.

Há uma ironia especialmente degradante em oficializar o golpe no aniversário da insurreição que derrubou a família Somoza, em 1979. A revolução sandinista que prometia libertar a Nicarágua de uma dinastia cimentou outra. A mulher de Ortega, Rosario Murillo, foi elevada a “copresidente”, os filhos ocupam posições de influência e o Estado foi subvertido em patrimônio político do clã. A proscrição das urnas talvez proteja o regime no presente, mas deve tornar a sucessão mais dependente da truculência e mais sujeita a rupturas.

Ortega espera que esse futuro interesse pouco ao resto do mundo. China e Rússia oferecem apoio sem perguntas inconvenientes. Os Estados Unidos perderam influência, as democracias latino-americanas se dividem segundo afinidades ideológicas e outras crises disputam a atenção internacional. O tirano mostra fraqueza, não força, ao temer até uma eleição fraudulenta dentro de casa, mas comporta-se com audácia diante do exterior porque espera que a indignação logo se dissipe.

O governo brasileiro é cúmplice nesse cálculo. Lula já comparou a longevidade de seu amigo Ortega no poder à das premiês Angela Merkel e Margaret Thatcher, como se fossem coisas equivalentes. O próprio nicaraguense encarregou-se de demolir o argumento. Aquelas líderes permaneceram no poder enquanto obtiveram o consentimento dos eleitores; Ortega acaba de proclamar que jamais tolerará um veredicto adverso. O silêncio gritante do lulopetismo comprova sua hipocrisia: a democracia é tratada como detalhe inconveniente sempre que é seviciada pelos “companheiros” em Caracas, Havana ou Moscou.

A comunidade internacional não deveria limitar-se a divulgar notas de repúdio. Cabe coordenar pressão máxima sobre os bens e negócios da família governante, suas empresas de fachada e os operadores civis, policiais e judiciais da repressão. Essas medidas precisam preservar remessas, ajuda humanitária e proteção aos exilados, além de apoiar jornalistas e organizações nicaraguenses que ainda documentam os crimes do regime.

Até autocratas costumam conservar eleições de fachada porque reconhecem no voto uma fonte de legitimidade que não conseguem substituir inteiramente. Ortega resolveu dispensá-las para entregar o país à própria família. Se essa ruptura não tiver consequências, sua lição será ouvida muito além da Nicarágua: já se pode negar abertamente aos cidadãos o direito de mudar o governo sem pagar por isso.

Brasil tem que se preparar para enfrentar o ‘super’ El Niño

Por Valor Econômico

O padrão dos nossos governos, federal e locais, tem sido de correr atrás do prejuízo em vez de investir em prevenção e adaptação

O El Niño mal começou e já vem gerando alertas de chuvas intensas e ventos no Sul do país. Apesar de uma sequência de eventos extremos recentes - as secas históricas no Pantanal (2021) e na Amazônia (2023-2024) e as enchentes recordes no Rio Grande do Sul (2024) - o Brasil continua despreparado para enfrentar fenômenos meteorológicos de grande volume ou intensidade, cada vez mais frequentes, alimentados pelo aquecimento global. Nos últimos dois anos, pouco se avançou em ações de prevenção e adaptação à nova realidade climática, e o país corre o risco de repetir novas cenas trágicas de seca no Norte/Nordeste e chuvas/enchentes no Sul, diante de um El Niño com potencial de se tornar o mais forte em mais de 100 anos.

Infelizmente, o padrão brasileiro tem sido correr atrás do prejuízo em vez de agir na prevenção a desastres. Dados do Painel de Gestão de Riscos e Desastres do Tribunal de Contas da União (TCU) mostram que entre 2012 e 2026, a União gastou cerca de R$ 21,54 bilhões na resposta a desastres e reconstrução, enquanto o investimento em ações preventivas foi de apenas R$ 6,8 bilhões. Além disso, o TCU apontou falhas na política de prevenção, como a falta de monitoramento e de avaliação das ações, mapeamento insuficiente de áreas de risco e a existência de 37% de obras inacabadas ou paralisadas.

Uma lei federal 14.904, de 27 de junho de 2024, determina que os municípios devem planejar sua adaptação à mudança do clima, incluindo a preparação para eventos extremos cada vez mais recorrentes. Apesar de estarem na linha de frente dos impactos climáticos, uma grande maioria das cidades brasileiras continua despreparada para enfrentar eventos extremos. Dois anos depois de promulgada a lei, duas em cada três cidades do país - cerca de 66% - têm baixa ou baixíssima capacidade de se adaptar a eventos extremos provocados pelo excesso de chuvas, segundo aponta a plataforma AdaptaBrasil (Folha, 11/6).

E as chuvas extremas estão entre os principais efeitos colaterais do El Niño, um evento climático natural caracterizado pelo aquecimento acima da média das águas do oceano Pacífico na região da linha do Equador e que afeta os padrões climáticos em todo o mundo. No Brasil, o El Niño altera as correntes de vento e canaliza a umidade da Amazônia para o Sul do país, intensificando as precipitações na região. As enchentes de 2023 e 2024 no Rio Grande do Sul ocorreram sob a vigência de um forte El Niño, e as previsões são de um evento ainda mais intenso neste ano. A mais recente atualização do Centro de Previsão Climática da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) dos EUA (19/7) aponta 81% de chance de um El Niño “muito forte” entre outubro e dezembro, quando o sistema atinge o seu auge.

Em um país de dimensões continentais, o El Niño intensifica extremos climáticos cada vez mais recorrentes, como secas extraordinárias no Norte e no Nordeste e ondas de calor no Sudeste e no Centro-Oeste. A urbanização caótica brasileira, com frequente ocupação de áreas de risco, especialmente pelas camadas mais pobres e vulneráveis da população, combinada com uma infraestrutura muitas vezes insuficiente - em especial nas regiões do Norte e Nordeste - amplifica as desigualdades internas e torna os centros urbanos especialmente suscetíveis aos eventos climáticos extremos.

Apesar disso, a preparação dos municípios anda em ritmo lento, evidenciando o desafio de fazer avançar políticas públicas cruciais em um sistema federalista, principalmente quando sua implementação depende de vários órgãos governamentais. Os governos municipais se defendem das críticas no despreparo argumentando que Brasília não pode simplesmente transferir a responsabilidade, impor uma obrigação sem olhar a realidade local, sem garantir capacidade técnica e recursos. De fato, o sucesso de uma política pública depende da adequação de seu desenho às capacidades locais existentes ou que ative a melhoria/desenvolvimento dessas capacidades.

No entanto, mesmo considerando as desigualdades nas capacidades locais para elaborar um plano de adaptação às mudanças climáticas, isso não exime os governos municipais da responsabilidade no caso de perdas de vidas, propriedade e produção decorrentes do risco de eventos extremos exaustivamente sinalizados pelos cientistas. Os prefeitos se esquecem de que o outro lado do federalismo brasileiro é que os municípios têm autonomia política e constitucional, que lhes permitem aprovar leis e gerenciar suas contas, tendo o poder de decidir a alocação de recursos de impostos locais para implementação de políticas públicas.

Entre 2013 e 2024, a Confederação Nacional dos Municípios contabilizou R$ 458 bilhões em perdas só com enxurradas e inundações. As chuvas de 2024 no Rio Grande do Sul custaram mais de R$ 90 bilhões e afetaram a vida de mais de 5,5 milhões de pessoas. Os dois anos de secas intensas na Amazônia causaram prejuízo de quase de R$ 2 bilhões e atingiram mais de 630 mil pessoas apenas no Estado do Amazonas. É preciso romper o ciclo de inação e parar de somente correr atrás do prejuízo.

As duas faces da Copa do Mundo

Por Correio Braziliense

A Copa pode crescer, conquistar novos mercados e alcançar dimensões cada vez maiores, mas não pode perder a capacidade de fazer milhões de pessoas se reconhecerem dentro de uma mesma história

A Copa de 2026 terminou com a Espanha campeã, mas o principal legado da 23ª edição, em 96 anos de história, vai muito além do resultado esportivo. A maior edição da história do torneio consolidou o futebol como linguagem universal e também revelou, de forma inédita, como o Mundial se tornou um espaço de disputa política, econômica e diplomática.

Dentro das quatro linhas, a Espanha ofereceu uma das principais lições da Copa. O título não nasceu do acaso nem apenas do talento individual. Foi consequência de um projeto coletivo de longo prazo, com uma identidade construída desde as categorias de base. Fora do campo, o Mundial expôs contradições. Teve três sedes, mas um centro de poder. Os Estados Unidos concentraram os principais palcos, a maior exposição internacional, a econômica e os momentos decisivos. 

A cerimônia de premiação produziu uma cena simbólica dessa realidade. A imagem de Donald Trump ao lado da taça, em posição de destaque, enquanto os demais líderes dos países-sede — México e Canadá — apareciam em segundo plano, reforçou a percepção de um evento no qual esporte e política compartilharam o mesmo palco. 

A geopolítica também entrou em campo. As dificuldades logísticas enfrentadas pela seleção iraniana, obrigada a administrar deslocamentos extraordinários entre México e EUA em razão das restrições diplomáticas, mostraram que decisões de Estado passaram a interferir diretamente na rotina da competição.

Essa transformação não começou em 2026. As últimas edições mostram como o Mundial passou a refletir as tensões de seu tempo. A África do Sul recebeu, em 2010, a primeira Copa do continente africano, carregada de simbolismo e debates sobre legado. O Brasil de 2014 conviveu com manifestações populares e questionamentos sobre prioridades nacionais. A Rússia de 2018 organizou o torneio em meio a tensões internacionais. O Catar de 2022 enfrentou críticas relacionadas aos direitos humanos e às condições de trabalho dos migrantes. Em 2026, imigração, fronteiras e relações diplomáticas também fizeram parte da agenda.

A Copa tornou-se um espelho do mundo em que é disputada. E o reflexo também apareceu na economia. A Fifa alcançou patamares financeiros históricos, impulsionada por contratos comerciais, direitos de transmissão, hospitalidade e novas formas de exploração do evento. A aproximação com a lógica americana de entretenimento esportivo ficou evidente no show do intervalo da final, inspirado no modelo do Super Bowl.

O crescimento do negócio — passando a disputar espaço na indústria global do entretenimento — também inflou o debate sobre o acesso dos torcedores comuns, divididos entre o número recorde de 48 seleções. Esse é o principal dilema deixado por 2026. A democratização promovida dentro das quatro linhas passou a conviver com um acesso cada vez mais seletivo fora delas, impulsionado por ingressos de alto custo, hospitalidade premium e experiências corporativas.

O futebol continua sendo capaz de emocionar, aproximar culturas e criar histórias universais. A Espanha comprovou isso ao conquistar o mundo com uma geração construída a partir de ideias e trabalho. Mas o Mundial também mostrou que a bola agora convive com interesses políticos, econômicos e estratégicos que disputam espaço ao seu redor.

A Fifa administra um dos maiores negócios do planeta. Os governos enxergam uma poderosa vitrine. As empresas encontram novas oportunidades. Mas a alma da Copa do Mundo continuará dependendo daquele que sempre esteve no centro da história: o torcedor.

A Copa pode crescer, conquistar novos mercados e alcançar dimensões cada vez maiores, mas não deve perder a capacidade de fazer milhões de pessoas se reconhecerem dentro de uma mesma história. No fim, é isso que transforma um jogo de futebol em um acontecimento mundial. É esse patrimônio que a Fifa tem o dever de preservar.

Urnas eletrônicas novamente sob ataque

Por O Povo (CE)

Justiça Eleitoral e o Ministério Público devem ficar atentos para que os candidatos se comportem nos limites estabelecidos pelas leis que regulamentam as eleições

O pré-candidato a presidente da República, Flávio Bolsonaro (PT), emulou o pai ao criticar as urnas eletrônicas em uma reunião de embaixadores estrangeiros realizada na terça-feira, em Brasília. Ele, porém, optou por uma linguagem escorregadia, ressalvando que não punha em dúvida o sistema eleitoral, mas suas palavras e o contexto do discurso deixaram evidentes qual era o seu alvo.

Da mesma forma que Jair Bolsonaro, Flávio usou informações falsas em seu discurso, como dizer que as urnas fabricadas pela empresa venezuelana Smartmatic — supostamente envolvidas em fraude na eleição na Venezuela em 2012 —, também teriam sido utilizadas em votação no Brasil. Esse boato já havia sido desmentido em 2022 pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Durante o evento Discutindo o Brasil, promovido pela agência Novo Selo Comunicação e pelo The Brazilian Report, o pré-candidato pediu aos embaixadores que seus países enviassem "a maior quantidade de observadores possíveis" no período de votação. Segundo Flávio, isso propiciaria eleições "mais seguras e transparentes. Apesar de sua fala indicar o contrário, o filho de Jair Bolsonaro disse que não estava "questionando o sistema de votação brasileiro".

A questão é que Flávio reivindica o que o Brasil já possui: um sistema eleitoral reconhecido internacionalmente como um dos mais seguros e precisos do mundo. Desde o início do uso das urnas eletrônicas, em 1996, até hoje ninguém conseguiu encontrar uma única falha que pusesse em dúvida a integridade do resultado eleitoral.

Flávio parece ter abandonado a persona de moderado para voltar à "raiz" do bolsonarismo, para consolidar a sua liderança nos setores mais radicalizados do movimento. Isso inclui testar os limites da legislação que rege as eleições e intensificar ataques às instituições, especialmente ao Judiciário.

O contexto indica que a pré-campanha bolsonarista está completamente desestruturada, ao ponto de o presidente do PL, Valdemar Costa Neto confessar que Flávio "não estava preparado para ser candidato" a presidente da República quando foi escolhido para representar o partido nas eleições.

Mas a pergunta é, se a exemplo do pai, condenado por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação, ficando inelegível por oito anos, o mesmo poderá acontecer com Flávio? Há diferenças entre os dois casos.

Na época, Bolsonaro era presidente da República, e fez uso da estrutura estatal, inclusive os meios de comunicação oficiais, com objetivo eleitoral. Flávio foi a um evento para o qual foi convidado, sem mobilizar recursos públicos. Além disso, ele ainda não é candidato oficialmente. Portanto, a interpretação dos fatos caberá aos ministros, se o caso chegar à Justiça eleitoral.

De qualquer modo, a Justiça Eleitoral e o Ministério Público devem ficar atentos para que os candidatos se comportem nos limites estabelecidos pelas leis que regulamentam as eleições.

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