O Estado de S. Paulo
Quando essas pessoas jurídicas esmorecem
diante das big techs e quando o leitor vira refém voluntário das plataformas,
algo da profissão, algo de muito precioso, vai se perdendo no passado
Primeiro capítulo: o samurai. No dia 25 de novembro de 1970, o escritor Yukio Mishima e outros quatro membros da milícia Tatenokai (sociedade do escudo) invadiram o quartel de Ichigaya, em Tóquio, e fizeram um refém: o comandante, Kanetoshi Mashita. Começou assim um dos acontecimentos mais dolorosos, traumáticos e incompreensíveis da história literária e política do país do Sol nascente.
A Tatenokai, fundada por Mishima em 1968, era
um grupo nacionalista que se opunha ao que entendia como ocidentalização indevida,
ou seja, o parlamentarismo nos moldes da democracia liberal, e lutava para
restaurar os valores tradicionais, com o poder absoluto centralizado na figura
divina do imperador. Ao tomar o quartel em Tóquio, os cinco militantes estavam
dispostos a vencer ou morrer. Ameaçando matar o refém, ordenaram que os
soldados fossem reunidos no pátio para ouvir o pronunciamento de seu líder. O
famoso autor japonês, que quatro meses antes tinha sido capa da revista
dominical do New York Times Magazine, tentou discursar e convencer a tropa a
desferir um golpe de Estado, mas foi um fiasco. Suas palavras receberam vaias,
sinais de descrença e de desprezo.
Diante do fracasso, Yukio Mishima, praticante
devotado das artes marciais japonesas, cometeu o seppuku (ou harakiri). Tinha
45 anos de idade. Com os joelhos no chão, sentado sobre os calcanhares, o
tronco reclinado à frente, abriu o abdômen com uma espada curta. Em seguida,
deveria ser decepado por um homem de confiança, com um só golpe de sabre.
Aconteceu, porém, que o executor errou a manobra e, emocionalmente abalado,
teve de ser substituído de última hora. Assim, o espetáculo, projetado para
seguir minuciosamente as etapas do suicídio ritual dos samurais, ganhou notas
de improviso descabido, eviscerante, inautêntico.
Foi uma cena fora de lugar e fora de tempo. A
era dos samurais tinha sido oficialmente extinta na década de 1870, durante a
Restauração Meiji. Mishima quis empreender uma viagem de volta na História, mas
não teria aonde chegar. Ninguém retorna ao que não existe mais.
Segundo capítulo: o passarinho de gaiola.
A moda já passou, mas quem foi criança no
Brasil das décadas de 1950, 1960, talvez até 1970, tem alta probabilidade de
ter convivido com gaiolas penduradas no alpendre. Curiós, bicudos, pintassilgos
e canarinhos, tratados a folhas de almeirão cultivado no quintal, alpiste
lustroso e gemas bem cozidas, faziam a sibilante trilha sonora da casa da
gente. Cativos, mas cheios de si, gorjeavam por horas, e era curioso, tinham a
habilidade de aprender uns com os outros. Gaiolas eram postas lado a lado para
fins de formação de quadros canoros.
Numa de suas crônicas imortais, O espalhador
de passarinhos (que depois virou nome de livro), o escritor Humberto Werneck
registra que as aves miúdas tinham até “sotaques” locais, com trinados que só
se ouviam numa única região. O canto de Araxá, por exemplo. Werneck lembra que
seu pai soltou um de seus melhores cantores pelo sertão mineiro, na esperança
de espalhar a arte pela natureza.
Hoje, cabe perguntar: posto para fora da
gaiola, largado no mato, o passarinho não se sentiria, digamos, meio demitido?
Ficou liberto ou ficou desamparado? Terceiro capítulo: o jornalista. Houve
jornalistas que, expelidos da redação, perderam a voz, a pose e o jeito.
Cantavam tão bonito quando tratados com almeirão do quintal. Depois, soltos por
aí, se desencontraram da embocadura. A pretexto da falta de leitores, deram
pela falta de si.
“Nunca invejei a liberdade do pássaro”,
escreveu Yukio Mishima no poema Ícaro, traduzido por Paulo Leminski. Talvez ele
invejasse outro pássaro, aquele protegido por grades diagramadas pelo esmero e
pelos ouvidos atentos do narcisismo ornitológico.
Os samurais desenvolveram um código de
conduta inflexível, que segue admirado até nossos dias. O Bushidô (caminho do
guerreiro), segundo o qual a morte honrosa é preferível à derrota humilhante,
fincou seus apoios em uma ética de coragem, esgrima e lealdade incondicional a
um senhor. Mesmo quando assumiram o controle do Estado, entre os séculos 12 e
19, no período conhecido como feudalismo japonês, eles entregavam sua lealdade
e sua vida a um senhor: o imperador.
Jornalistas também se fiam em códigos de
ética, uns mais vistosos, outros mais discretos. Há os exageradamente
declaratórios. Há os omissos. Há o cinismo. De vez em quando, encontramos
deontologias justas e genuinamente levadas a sério. Jornalistas também juram
lealdade a um senhor, ou a um senhor duplo: a verdade dos fatos e o direito à
informação. Mas, na prática, engaiolados em empresas, são leais às pessoas
jurídicas que lhes garantem o alpiste.
Agora, quando essas pessoas jurídicas
esmorecem diante das big techs e quando o leitor vira refém voluntário das
plataformas, algo da profissão, algo de muito precioso, vai se perdendo no
passado. Nessa hora hostil, vêm bater na porta da memória os samurais, tão
duros, e os passarinhos domesticados, tão indefesos, tão estridentes e tão
esquecidos.

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