O Estado de S. Paulo
Os problemas sérios de afirmação nacional não
estão na propaganda governista
O tarifaço americano está onde Lula (e todo
populista) gosta. No campo das frases fáceis, da indignação seletiva e de seu
intenso uso imediato como tática eleitoral no lugar de estratégia coerente de
longo prazo.
No uso tático da questão, Lula se utiliza do
presente que recebeu de adversários espetacularmente incompetentes. A ponto de
ignorarem um princípio universal de ciência política, o das fileiras que se
fecham até em torno de governos impopulares diante de agressão externa. E ainda
posam com um sorriso beócio ao lado do agressor.
Lula lançou uma ampla campanha de “defesa da soberania” na qual falta entender a qual soberania a propaganda governamental se refere. A clássica soberania não é ameaçada por ninguém vindo de fora (apesar de o Itamaraty supor isso), mas, sim, pela incapacidade do Estado brasileiro de controlar o próprio território – é o que acontece com o crime organizado na Amazônia.
Se a “manutenção da soberania” é a questão de
tarifas comerciais, então dificilmente pode-se falar de “soberania”. Cada país
faz o que julga apropriado nas relações comerciais e colhe os resultados do que
aplica. O Brasil é soberanamente protecionista há décadas e vítima de um
consenso típico do nosso patrimonialismo, segundo o qual o Estado existe para
proteger quem não consegue competir.
Se a defesa da soberania tem a ver com
Defesa, a situação é mais precária ainda. O Brasil é descrito como potência
média com escassa capacidade de projeção de poder, formulação elegante que mal
esconde nossa precária condição de indefesos. Já tivemos esboços de uma “base
industrial de defesa”, mas a indústria em geral no Brasil está recuando, e não
avançando.
Nesse sentido, deveriam ser considerados como
“limitadores de soberania” nossa tributação, insegurança jurídica, regulação,
baixa produtividade e juros sufocantes, que impedem desenvolvimento
sustentável. Por analogia, deveria ser considerado “mais soberania” o fato de o
Brasil estar a um pequeno passo de destronar os Estados Unidos como maior
exportador agrícola do planeta – resultado de inovação tecnológica,
qualificação e integração internacional.
Mesmo assim, a superpotência brasileira de
grãos e proteínas é vulnerável ao estrangulamento de insumos, às transformações
geopolíticas, à precária infraestrutura e, principalmente, às notórias
dificuldades de se desenvolver inteligência estratégica, ligando setor público
e privado num horizonte de tempo mais amplo.
É bem mais fácil defender a soberania de
bravata.

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