quinta-feira, 23 de julho de 2026

Qual soberania? Por William Waack

O Estado de S. Paulo

Os problemas sérios de afirmação nacional não estão na propaganda governista

O tarifaço americano está onde Lula (e todo populista) gosta. No campo das frases fáceis, da indignação seletiva e de seu intenso uso imediato como tática eleitoral no lugar de estratégia coerente de longo prazo.

No uso tático da questão, Lula se utiliza do presente que recebeu de adversários espetacularmente incompetentes. A ponto de ignorarem um princípio universal de ciência política, o das fileiras que se fecham até em torno de governos impopulares diante de agressão externa. E ainda posam com um sorriso beócio ao lado do agressor.

Lula lançou uma ampla campanha de “defesa da soberania” na qual falta entender a qual soberania a propaganda governamental se refere. A clássica soberania não é ameaçada por ninguém vindo de fora (apesar de o Itamaraty supor isso), mas, sim, pela incapacidade do Estado brasileiro de controlar o próprio território – é o que acontece com o crime organizado na Amazônia.

Se a “manutenção da soberania” é a questão de tarifas comerciais, então dificilmente pode-se falar de “soberania”. Cada país faz o que julga apropriado nas relações comerciais e colhe os resultados do que aplica. O Brasil é soberanamente protecionista há décadas e vítima de um consenso típico do nosso patrimonialismo, segundo o qual o Estado existe para proteger quem não consegue competir.

Se a defesa da soberania tem a ver com Defesa, a situação é mais precária ainda. O Brasil é descrito como potência média com escassa capacidade de projeção de poder, formulação elegante que mal esconde nossa precária condição de indefesos. Já tivemos esboços de uma “base industrial de defesa”, mas a indústria em geral no Brasil está recuando, e não avançando.

Nesse sentido, deveriam ser considerados como “limitadores de soberania” nossa tributação, insegurança jurídica, regulação, baixa produtividade e juros sufocantes, que impedem desenvolvimento sustentável. Por analogia, deveria ser considerado “mais soberania” o fato de o Brasil estar a um pequeno passo de destronar os Estados Unidos como maior exportador agrícola do planeta – resultado de inovação tecnológica, qualificação e integração internacional.

Mesmo assim, a superpotência brasileira de grãos e proteínas é vulnerável ao estrangulamento de insumos, às transformações geopolíticas, à precária infraestrutura e, principalmente, às notórias dificuldades de se desenvolver inteligência estratégica, ligando setor público e privado num horizonte de tempo mais amplo.

É bem mais fácil defender a soberania de bravata.

 

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