Valor Econômico
O problema já não é apenas produzir um
resultado primário melhor, mas limitar o crescimento automático do gasto,
reduzir os estímulos parafiscais, baixar o prêmio de risco e devolver eficácia
à política monetária
A situação das contas públicas do Brasil exige uma mudança significativa na política fiscal a partir de 2027, num ambiente econômico e político extremamente complexo. Há resistência a novos aumentos de impostos, o cenário externo é mais adverso, com juros globais mais altos, e as taxas internas na casa de 10% acima da inflação elevam os gastos financeiros do setor público e prejudicam famílias e empresas endividadas. O ajuste precisa ser amplo, focado nos gastos e liderado pelo Executivo, mas tem de contar com o Congresso e com o Judiciário. Visto de hoje, porém, parece improvável que uma agenda fiscal ambiciosa seja adotada pelo próximo presidente.
“O problema brasileiro já não é apenas
produzir um resultado primário melhor, mas sim reconstruir uma arquitetura
fiscal capaz de limitar o crescimento automático do gasto, reduzir os estímulos
parafiscais [que não passam pelo Orçamento], baixar o prêmio de risco e devolver
eficácia à política monetária”, resume estudo da ARX Investimentos, elaborado
pelo economista-chefe da gestora, Gabriel Leal de Barros, com Cléo Olimpio,
Matheus Caliano e Eric Fernandes. O resultado primário não inclui gastos com
juros.
“A carga tributária foi recomposta em
aproximadamente 2 pontos do PIB, a dívida bruta se aproxima de 85% do PIB, o
déficit nominal [que inclui gastos com juros] é de dois dígitos e o juro global
é estruturalmente mais alto”, dizem eles. “A estratégia de ajuste apoiada em
receita chegou perto de seu limite econômico e político.”
A sustentabilidade das contas públicas,
observam os economistas da ARX, “é gravemente afetada pela mecânica dos juros
nominais sobre o estoque da dívida pública”. Nos 12 meses até junho, os gastos
com juros do setor público alcançaram R$ 1,160 trilhão, ou 8,8% do PIB. A
fotografia fiscal, segundo o estudo, não é nada bonita, por combinar estoque,
fluxo e preço desfavoráveis.
“Em junho de 2026, a dívida bruta alcançou
81,9% do PIB, o déficit primário acumulado em 12 meses ficou em 1,2% do PIB, a
despesa nominal de juros atingiu 8,8% do PIB e o déficit nominal chegou a 10%
do PIB. Nossas projeções apontam para uma dívida de 83,5% do PIB no fim deste
ano. A dificuldade não está em um único indicador, mas na combinação de déficit
primário, juro elevado e dívida crescente.”
A composição do ajuste é essencial. “Medidas
de receita melhoram o caixa rapidamente e podem ajudar na transição, mas seu
efeito sobre o juro estrutural é limitado quando o mercado entende que o gasto
obrigatório continuará crescendo acima do PIB potencial”, advertem eles.
“Reformas fiscais que tratam de indexação, elegibilidade e progressões
funcionais produzem economia mais lenta, porém mudam a inclinação da despesa. É
essa alteração de trajetória, e não apenas o número do primeiro ano, que
interessa à parte longa da curva de juros”, diz o estudo.
Na visão de Barros, o ideal seria um ajuste
de 4 pontos percentuais do PIB do resultado primário até o fim do próximo
mandato, passando de um déficit hoje na casa de 1% do PIB no acumulado em 12
meses para um superávit de 3% do PIB em 2030. “O ajuste integral é o único
caminho de mudança de regime”, avalia ele, o que requer reforma administrativa,
desindexar benefícios previdenciários e assistenciais do salário mínimo,
desatrelar gastos de saúde e educação da receita, integrar benefícios sociais,
rever incentivos fiscais e retirar estímulos parafiscais, como a expansão do
crédito por bancos públicos e a utilização de fundos estatais. “O custo inicial
é atividade mais fraca; o benefício é reduzir simultaneamente o primário
necessário [para estabilizar e reduzir a dívida], o juro real e o risco de
inflação. Apenas nesse cenário, fiscal e monetário operam em harmonia”, afirma
o estudo.
O relatório vê como possíveis outros quatro
cenários: o ajuste precário, o insuficiente, o quadro sem consolidação e o de
ruptura. “O cenário-base é o ajuste insuficiente; o melhor caso plausível é o
ajuste precário”, avaliam os economistas da ARX. “A política tende a produzir
medidas graduais, negociadas e permeadas por exceções. Reformas de gasto
obrigatório enfrentam grupos organizados e exigem convicção e capital político
elevado”, diz o estudo. “Já medidas de receita ou contenções temporárias de
gasto oferecem resultado imediato e menor conflito distributivo aparente. Essa
assimetria política explica por que o cenário economicamente desejável não é o
mais provável.” No caso do ajuste precário, a melhora do resultado primário
seria de 2 a 2,5 pontos do PIB; no insuficiente, de 0,8 a 1,5 ponto do PIB.
Ex-diretor da Instituição Fiscal Independente
(IFI), Barros diz que o ajuste integral é improvável pelas condições da
economia política corrente. “Além do desarranjo econômico, é imperativo
resgatar a efetiva harmonia entre os Poderes e o fim de privilégios, o que
legitimaria a adoção de medidas duras junto à sociedade; e, adicionalmente, há
a imoralidade que muitas situações representam, notadamente o descumprimento
constitucional do teto remuneratório do serviço público”, afirma Barros.
“Sem o enfrentamento rigoroso dos gastos
obrigatórios e a contenção dos mecanismos parafiscais, o país corre o risco de
ingressar na dominância fiscal, reduzindo significativamente a capacidade da
taxa Selic de conter a inflação”, nota o estudo, referindo-se à situação em que
o agravamento do desequilíbrio fiscal leva a um ponto em que elevar os juros faz
os índices de preços subirem, em vez de caírem. Altas da Selic deterioram a
situação fiscal, aumentando a aversão ao risco e pressionando o câmbio, o que
alimenta a inflação. É um risco que pode ser evitado, mas requer uma resposta
fiscal firme.
Para os economistas da ARX, há uma diferença
entre dominância fiscal fraca e plena. “Na forma fraca, o BC mantém a taxa de
juro necessária, mas enfrenta custo crescente e desinflação mais lenta. Na
forma plena, a trajetória da dívida condiciona diretamente a decisão monetária:
cortes ocorrem antes da reancoragem [das expectativas], medidas regulatórias
tentam conter o custo financeiro e o ajuste migra para câmbio e inflação.”
Mesmo a forma mais fraca, por óbvio, é altamente indesejável.

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