segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Diversidade perde força no mundo corporativo, por Preto Zezé

O Globo

Empresa não existe para fazer justiça, mas para dar lucro, e convicção moral é terreno que nunca foi dela

A ideia de diversidade dos defensores da causa entrou numa encruzilhada. Empresa não existe para fazer justiça, mas para dar lucro, e convicção moral é terreno que nunca foi dela. Não é acusação, é constatação. Nos conselhos de empresas e marcas de que participo, sempre busquei outro caminho: diversidade na prateleira do investimento. E, se render, parte do lucro volta para reinvestir.

Em 2025, 53% das companhias do S&P 100, as cem maiores da Bolsa americana, mudaram a forma de registrar a diversidade nos relatórios. Poucas encerraram as ações. Levaram a supervisão para a governança e baixaram a visibilidade quando virou custo político. Ninguém tira do relatório o que dá lucro.

A Parada do Orgulho de São Paulo foi de 11 patrocinadores em 2025 para quatro na edição de 30 anos. A Marcha do Orgulho Trans não aconteceu, por falta de patrocínio. O primeiro corte caiu sobre quem tem menos poder de barganha.

Sempre achei frágil o discurso da diversidade e fui mal compreendido por isso. Ou talvez atrapalhasse a venda da narrativa. A palavra virou pacote: mulher, pessoa preta, pessoa com deficiência, pessoa LGBTQIA+, periferia, como se fosse uma experiência só. Não é. Cada trajetória tem demanda, obstáculo e solução próprios. Empacotar não é ofensa, é reflexo da imprecisão. Na vida social das causas, isso é fácil de administrar. Numa empresa, imprecisão na gestão custa caro.

No setor público e no privado, causa não pode virar departamento. Este serve para pontuar: a nota da empresa, a posição na Bolsa, o mercado internacional. No público, a boa foto para o gestor e o cargo no conselho para o representante. A causa se perde em representatividade sem força política, decorativa e sazonal, sem perenidade na cultura corporativa nem continuidade no ambiente estatal. Nada obriga o processo a chegar a salário, promoção, orçamento, contrato e sociedade.

Se é para funcionar na lógica do negócio, que entremos no plano de negócio. Se dou audiência, quero parte da receita. Da mesma forma, se aumento o consumo e se atraio investimento, quero parte da receita. Se elejo mandato, quero poder político e caneta com orçamento. Quero ser contratado como serviço e contabilizado como investimento. E, se o discurso político que cita nossas causas for sério, que apareça na divisão dos fundos eleitorais e nos cargos de gestão. Se garanto receita, quero parte do lucro para reinvestir. Repito: não sou gasto. Sou investimento.

A marca faz campanha com corpo preto e da favela, mas contrata a produtora de sempre e paga ao criador menos que ao influenciador de bairro nobre de mesmo alcance. A favela é locação, não fornecedora. Coadjuvante da própria história.

O valor é gerado num lugar e realizado noutro. Na economia criativa, setor que mais vende a própria pluralidade, pessoas negras são 42% da força de trabalho, ante 55% do mercado nacional, e ali homem branco ganha R$ 7,1 mil, mulher preta R$ 2,2 mil. A renda não acompanhou o trabalho.

O máximo que ocorre é uma onda George Floyd, e todo mundo vira antirracista até ela passar ou até a próxima tragédia. Talvez seja hora de dizer bye bye. Não para a diversidade, fato da vida brasileira, mas para a palavra que junta gente diferente numa caixa só e para a caixa que só serve de nota em planilha. Fica o que muda quem decide, quem fornece, quem lucra, quem governa e quem reinveste. A diversidade não precisa estar na moda, e sim no plano de negócio e no orçamento.

 

Nenhum comentário: