Valor Econômico
Só uma notícia bombástica ou a possibilidade de vitória em primeiro turno de um dos candidatos podem despertar o eleitor da apatia desta campanha
No sábado (29) começou o horário eleitoral
gratuito no rádio e na TV dos candidatos à Presidência da República. Numa
campanha que parece ter começado há meses, mas que ao mesmo tempo não engrenou,
a propaganda eleitoral é o ato que faltava para sentirmos o clima de eleição.
Será?
Além de atingir dezenas de milhões de pessoas que assistem à TV aberta e ouvem rádio, o horário eleitoral também serve para gerar conteúdo para as redes sociais dos candidatos. Mas, pelo visto, a repercussão continua limitada.
No dia da estreia, a equipe de Lula publicou
no Instagram um corte anunciando a sua primeira inserção. Quase 24 horas
depois, a postagem tinha alcançado apenas 8.500 encaminhamentos e 12.200
comentários. Publicada pouco tempo depois na mesma rede, uma foto de Flávio
Bolsonaro segurando uma imagem do pai com a faixa presidencial tinha atingido
12,1 mil compartilhamentos e 7,4 mil manifestações escritas no post. São números
baixos de interação para o total de seguidores desses políticos: 14,9 milhões
do petista e 11,4 milhões no perfil do candidato do PL.
Em 30 de julho, Lula compareceu ao videocast
Inteligência Ltda. para uma entrevista de duas horas. Até o momento, a
publicação contabiliza 1,2 milhão de visualizações no YouTube. Uma semana
depois, em 7 de agosto, Flávio Bolsonaro foi o convidado de outro programa de sucesso
na rede, o Market Makers. Com o mesmo tempo de duração, a conversa registra 239
mil views.
Há quatro anos, Lula e Jair Bolsonaro
protagonizaram uma intensa disputa nas redes sociais com alternância de
recordes de políticos nesse tipo de programa. Segundo notícias da época, em
dezembro de 2021 (bem antes, portanto, do início do pleito) Lula atingiu 292
mil acessos simultâneos ao aparecer no Podpah. Bolsonaro deu o troco no Flow,
em 8 de agosto de 2022, nas vésperas do início oficial da corrida eleitoral:
550 mil pessoas acompanharam ao vivo uma entrevista que durou mais de cinco
horas. No intervalo de 48 horas, quase dez milhões de interessados haviam
acessado a íntegra da conversa no YouTube.
No auge do segundo turno e com a batalha dos
videocasts instaurada, em 18 de outubro de 2022 o petista atraiu mais de um
milhão de pessoas conectadas ao vivo no mesmo programa. Dois dias depois, Jair
Bolsonaro mobilizou um público de 1,75 milhão de espectadores simultâneos na
sua entrevista ao vivo no Inteligência Ltda.
A explicação para o aparente desinteresse na
campanha eleitoral deste ano pode estar na cristalização dos polos lulista e
bolsonarista entre os eleitores brasileiros. Está é a terceira ocasião em que
Lula e Bolsonaro se encontram direta ou indiretamente nas urnas, e desta vez
não há nenhuma opção à esquerda e aparentemente ninguém no pelotão de nanicos à
direita tem chances de decolar.
De acordo com a última pesquisa Quaest, a
intenção de voto em Lula no primeiro turno está no mesmo patamar de dezembro
passado (39%). Ao longo de todo o ano, Lula oscilou entre um mínimo de 36% e um
máximo de 40%.
Enquanto isso, Flávio Bolsonaro subiu de 23%
em dezembro de 2025 para 30% atualmente; nesse percurso, o máximo que atingiu
foi 33%. Os demais concorrentes, por sua vez, somaram entre 17% (dez/25) e 13%
em agosto. Como as principais alternativas a Lula e Bolsonaro são de direita,
as candidaturas anti-Lula contam com um teto que variou entre 40% e 46% das
intenções de voto.
Entre os dois lados, os determinados a anular,
votar em branco ou se abster caíram de 16% para 8% desde o fim de 2025. Já os
indecisos subiram de 5% para 10%.
Há, portanto, uma parcela significativa de
18% do eleitorado que pode ser mobilizada para, inclusive, decidir a disputa no
primeiro turno - e os dois lados têm chances de liquidar a fatura em 4 de
outubro, como vêm alertando, há algum tempo, Cila Schulman e Maurício Moura do
instituto de pesquisas Ideia.
A briga pelo “50% mais um” dos votos válidos
que daria vitória a Lula ou a Flávio Bolsonaro já no primeiro turno depende i)
da taxa de comparecimento às urnas, ii) da rejeição e medos que cada um desses
nomes provoca no eleitor pendular e, finalmente, iii) da força do movimento a
favor do voto útil, principalmente no campo da direita.
Logo, a campanha deste ano só vai esquentar à
medida que a possibilidade de resolução da eleição em primeiro turno se tornar
mais concreta. Mas isso dificilmente ocorrerá antes dos dias que antecederem a
votação.
Até lá, seguiremos em compasso de espera. De
um lado, Lula se esquiva de participar de debates para não virar o alvo único
dos ataques do pelotão de adversários de direita. Enquanto isso, Flávio
Bolsonaro também não quer se expor e ficar frente a frente com concorrentes que
podem lhe roubar votos preciosos no seu próprio eleitorado.
A política brasileira, porém, sempre reserva
fortes emoções para a reta final da votação. Neste ano em particular, com as
investigações sobre o Banco Master de Daniel Vorcaro e a fraude do Careca do
INSS correndo em paralelo, conteúdos explosivos ainda podem fazer esta campanha
finalmente despertar o interesse dos brasileiros.

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