Folha de S. Paulo
Crise do STF não é obra de uma maçã podre,
mas de facções judiciais que transformaram prerrogativas processuais em
instrumentos de proteção recíproca
De alvo do retrocesso democrático, o
Judiciário converteu-se em agente da erosão institucional
Há algum tempo inverti o título da obra
clássica de Alexander Bickel, "The Least Dangerous Branch", para
advertir que o Supremo havia se tornado o poder mais perigoso da República. Em outras colunas, recorri à
imagem das "facções judiciais" e mob lawyers. O escândalo atual mostra que não eram apenas
figuras de linguagem.
O problema do STF não se resume a uma maçã podre. Quando duas ou três maçãs estão comprometidas, elas formam maiorias em turmas e podem integrar maiorias no plenário. Como o tribunal é um órgão coletivo, desvios individuais passam a contaminar suas decisões institucionais.
No Brasil, a tarefa é hercúlea porque a maçã
não está isolada. Formou-se um sistema de proteção recíproca que combina
monocratismo, distribuição fortuita de relatorias, decisões sobre colegas,
sigilos reiterados e capacidade de formar maiorias defensivas. No STF, alianças
defensivas não impediram a reiterada prática de autoblindagem individual quando
alguma suspeita recai sobre membros da corte. Pelo contrário, a autoblindagem
se dá de forma aberta pela manutenção de relatorias de processos nos quais o
próprio relator está citado.
Assim, combinam-se estratégias individuais e
"faccionais". Toffoli manteve a relatoria mesmo depois de virem a
público suas conexões com o universo do Master. A crise levou à sua saída e ao
sorteio de novo relator. A resposta, contudo, não demorou: na sequência, uma
decisão monocrática de Gilmar Mendes anulou a quebra dos sigilos bancário e
fiscal do Fundo Arleen, aprovada pela CPI do Crime Organizado. Ligado à Reag, o fundo havia
adquirido participação no resort da família Toffoli.
A proteção conta ainda com pontos de veto
externos. O principal é o presidente do Senado, que pode impedir qualquer
acusação contra ministros de avançar. O bloqueio parlamentar não é exercido num
vácuo: lideranças legislativas também aparecem cercadas por denúncias e
interesses no escândalo do Master. A CPI sobre o banco foi obstruída por
vetos no Congresso, mas também por decisões do próprio Supremo.
Suprema ironia: não houve instalação de CPI
em um dos maiores escândalos de corrupção da história da república. A separação
de Poderes deu lugar a uma rede de sobrevivência compartilhada. Uma espécie de
omertà institucional?
A literatura sobre retrocesso democrático
foca cortes que se tornam a longa manus do Executivo. O Brasil revela uma modalidade
distinta, também presente na Europa do leste: a degradação endógena, por
práticas informais e/ou não republicanas, como analisado por Sipulova e
Kosar em artigo no German Law Journal.
A erosão não chega ao Judiciário de fora para
dentro. Nasce dentro dele.
Esse equilíbrio perverso, contudo, parece ter
sido rompido. A janela de oportunidade aqui resultou da concentração
aparentemente fortuita de relatorias decisivas em um outsider (Mendonça), não vinculado à facção defensiva, e um presidente (Fachin) cuja inação escalou a crise aberta. A reação desmedida
da facção acabou expondo o próprio sistema de proteção. Proponho ao leitor um
experimento contrafactual: o que teria ocorrido se o relator e o presidente da
corte fossem outros ministros?

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