Washington post / O Estado de S. Paulo
Presidente parece ordenar que governo
certifique formalmente como fato algo que não é verdade
Em dois anos, Trump converteu os EUA na economia avançada mais protecionista do mundo
Para quem achava que a Suprema Corte havia
posto fim à obsessão de Donald Trump por tarifas, é melhor repensar. Em
fevereiro, ela derrubou as tarifas abrangentes do Dia da Libertação,
determinando que o presidente não possuía poderes de emergência para tributar
importações de quase todos os países do mundo. A resposta de Trump foi
vasculhar os códigos legais em busca de formas incomuns, obscuras e talvez
ilegais de restabelecer tarifas semelhantes.
Primeiro veio uma tarifa global temporária. Quando ela expirou, ele impôs tarifas de 10% a 12,5% sobre 60 economias alegando práticas comerciais desleais. No caso do Canadá, Trump recorreu à Seção 338 da Lei Tarifária Smoot-Hawley de 1930, uma disposição nunca invocada até então.
Para essas tarifas, a justificativa é o
suposto trabalho forçado. O governo declarou que países que vão do Camboja à
Noruega não conseguiram impedir a entrada em seus mercados de produtos
fabricados com trabalho forçado, e essa falha sobrecarrega o comércio
americano. A acusação é tão espúria que revelou o jogo. É quase certo que ela
foi inventada porque a Casa Branca precisava de um pretexto para subverter o
espírito da decisão da Suprema Corte.
Isso vai além da simples manipulação
política. O presidente parece estar ordenando que o governo dos EUA certifique
formalmente como fato algo que sabe não ser verdade. Os órgãos governamentais
são obrigados a publicar conclusões, elaborar argumentos jurídicos e conferir a
autoridade do Estado a uma falsidade fabricada com o objetivo de contornar a Suprema
Corte.
CORRUPÇÃO. É assim que as instituições são corrompidas: primeiro, pede-se que distorçam a verdade; depois, que atestem a mentira. E então as mentiras se tornam rotina, de modo que ninguém mais as considera incomuns. Esse é o caminho para o mundo de Orwell.
Aliás, a Walk Free, ONG de direitos humanos
que elabora o Índice Global de Escravidão, estima que os EUA importam
anualmente US$ 169,6 bilhões em mercadorias que correm o risco de terem sido
produzidas com trabalho forçado – de longe o maior total entre os países do
G-20. Isso não prova que a fiscalização americana seja pior do que a de todos
os países que Trump tem como alvo. Mas faz com que a posição moral do governo
pareça ainda mais absurda.
Os argumentos econômicos contra as tarifas
ficam mais sólidos à medida que os números são divulgados. Os gastos com a
construção no setor manufatureiro, que dispararam durante o governo Biden e
atingiram um pico de US$ 250 bilhões em taxa anual em setembro de 2024, caíram
para US$ 175 bilhões em maio. O número de empregos no setor manufatureiro
diminuiu em 75 mil postos desde a volta de Trump. A produção industrial
aumentou, mas os ganhos estão concentrados na manufatura avançada e na
inteligência artificial, refletindo investimentos planejados antes de Trump
assumir.
LÓGICA INVERSA. Considere o caso de Greg Fraley, sobre quem a Câmara de Comércio escreveu há alguns meses. Ele ajuda a administrar a Falco, pequena empresa do Arizona que fabrica peças de alumínio para aeronaves comerciais. Esse é o tipo de negócio que Trump diz querer ajudar: uma fábrica americana que emprega trabalhadores americanos.
Os custos com alumínio da Falco aumentaram
72%. A empresa não pode simplesmente comprar metal americano; a produção
nacional atende apenas cerca de metade da demanda dos EUA e grande parte dessa
produção não está disponível no mercado aberto.
Assim, a Falco continua importando alumínio,
paga a tarifa e absorve o prejuízo. Ela congelou as contratações, permitiu que
sua força de trabalho diminuísse em 20% por meio de rotatividade natural,
recorreu às reservas de caixa e adicionou uma “sobretaxa tarifária” às faturas
dos clientes, segundo Fraley.
Enquanto isso, Trump dobrou a tarifa sobre o
alumínio importado para 50% e ofereceu aos produtores um desconto caso construíssem
fundições nos EUA. A Rio Tinto, uma das maiores produtoras mundiais de
alumínio, recusou a oferta. Assim, a tarifa alcançou uma tríplice consequência:
custos mais altos para um fabricante americano, menos empregos e menos
investimentos no país, e nenhuma nova fundição do produtor estrangeiro que se
pretendia atrair.
A lógica está de cabeça para baixo. A
fundição de alumínio representa apenas uma pequena fração dos empregos do setor
de alumínio nos EUA. A grande maioria está na reciclagem e nos setores
intermediários e de transformação, que convertem o metal em peças para
aeronaves, carros, latas, maquinário e materiais de construção. Trump está
protegendo a minúscula fatia do setor de produção, tributando a base industrial
muito maior que depende dela e emprega muito mais.
Por oito décadas, os EUA lideraram o mundo rumo a mercados abertos e ao livre comércio. Em apenas dois anos, Trump transformou o país na economia avançada mais protecionista do mundo. O resultado não foi um renascimento da indústria manufatureira. Foram preços mais altos, investimentos mais fracos, menos empregos na indústria e um governo cada vez mais disposto a transformar falsidades em política oficial para defender um credo econômico fracassado.

Um comentário:
Trump, o grande Mentiroso!
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