sábado, 5 de setembro de 2026

A crise avança, por José Casado

Veja

Moraes e Toffoli ficam expostos em 400 páginas da PF sobre a rede do Master em Brasília

Numa noite de verão houve uma reunião reservada no Supremo Tribunal Federal. Nove juízes se trancaram numa sala com José Antonio Dias Toffoli, até então responsável pelo processo sobre fraudes financeiras bilionárias no Banco Master.

Havia sido revelado que, três anos antes, um agente de negócios do banco comprara um hotel da família Dias Toffoli em Marília, a 430 quilômetros de São Paulo. Criou-se um impasse quando o chefe da Polícia Federal, aparentemente com o aval do presidente da República, apresentou ao presidente do STF um pedido de remoção do juiz relator do caso Master.

Do lado de fora, às vezes ouviam-se gritos: “Abro as minhas contas bancárias! Mas, estou avisando, eu não vou abrir sozinho”. E, também, os apelos de Cármen Lúcia: “Todo taxista que eu pego fala mal do Supremo, a população está contra o Supremo… Olha, eu tenho confiança em você, mas estamos numa crise de institucionalidade e é preciso pensarmos na institucionalidade…”.

O juiz André Mendonça concordou sobre o diagnóstico da crise, conforme a reconstituição feita pelo portal Poder360. Ressalvou não ter visto nenhum delito de Dias Toffoli como pretendia o relatório policial. “Tem aí essa questão dos (convites para) eventos, mas, se for considerada, todos nós somos suspeitos de tudo…”

Aquela quinta-feira, 12 de fevereiro, véspera de Carnaval, terminou com um novo relator do caso Master. Passaram-se seis meses e o que já era ruim piorou.

A crise avança como rio de enchente pela Praça dos Três Poderes, em Brasília, a menos de quatro semanas do primeiro turno das eleições. Aos olhos dos eleitores, informam as pesquisas, prevalece a percepção de aumento da corrupção com patrocínio e beneficiários políticos no Judiciário, no governo e no Congresso.

É evidente a degradação na credibilidade institucional. Ganha realce no gradual descrédito do Judiciário, como demonstra o Índice de Confiança Social da Ipsos no histórico da última década e meia. Ecoa no protocolo do Senado, onde tem aparecido um pedido de destituição de juiz do Supremo a cada três semanas.

“Moraes e Toffoli ficam expostos em 400 páginas da PF sobre a rede do Master em Brasília”

Foram oitenta requerimentos nos últimos 44 meses. Somam 109, se contados o estoque (29) dos anos 2021 e 2022, basicamente motivado pela intervenção do tribunal na política de saúde pública para impedir o pandemônio negacionista esboçado na pandemia.

Os campeões de pedidos de impeachment (67 desde 2023) são Alexandre de Moraes (com 38), Gilmar Mendes (11), José Antonio Dias Toffoli (10) e Flávio Dino (8).

Moraes e Toffoli são protagonistas em dois relatórios policiais que somam 400 páginas nos autos sobre a rede de influência do Banco Master em Brasília. Desse volume, 188 páginas detalham o relacionamento de Moraes e família com o antigo dono do Master, Daniel Vorcaro.

“Não é normal”, disse o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, ao confirmar a quantidade inédita de pedidos impeachment de juízes do Supremo. Anormal, também, são os quase noventa casos de senadores, deputados federais e funcionários públicos graduados acusados em inquéritos à espera de decisão no STF.

É síntese da liquefação política. Cresce a desconfiança pública sobre o conluio da oligarquia estatal emergente, como define Joaquim Falcão em A Oligarquia dos Poderes e a Crise da Democracia.

O Supremo está emaranhado no próprio enredo de atropelos da Constituição durante a última década e meia, desde a Operação Lava-Jato até os casos do INSS e do Banco Master. Fraturou-se em público no confronto aberto entre os juízes Mendonça, relator do caso Master, e Moraes, personagem do inquérito.

O condimento dos inquéritos sobre proteções políticas às trapaças nas aposentadorias e no mercado financeiro está nos interesses particulares dos candidatos mais destacados nas pesquisas eleitorais: Lula tem um dos filhos sob investigação em caso de tráfico de influência; e Flávio Bolsonaro já confessou ter recebido dezenas de milhões de reais em transações obscuras com o antigo dono do banco das fraudes, que completou cinco meses em prisão preventiva.

Quase sete em cada dez eleitores acham que os casos do INSS e do Master prejudicam Lula e Flávio Bolsonaro na disputa pela Presidência da República.

É sinal de que a crise institucional, protagonizada pelos que deveriam evitá-la, continuará avançando como rio de enchente na direção dos próximos governo e Congresso, com o auxílio luxuoso do Supremo.

Publicado em VEJA de 4 de setembro de 2026, edição nº 3011

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