CartaCapital
Mendonça instala uma crise no STF de olho na
demolição da República
O Supremo Tribunal Federal foi arrastado para sua maior tormenta por dois de seus integrantes: André Mendonça e Alexandre de Moraes. Agora cabe ao presidente da Corte, Edson Fachin, decidir se o capítulo mais agudo da crise terá um desfecho diante das câmeras de tevê ou se a solução será outra. Mendonça investigou Moraes às escondidas no caso Master e botou na praça todas as informações recebidas da Polícia Federal. Moraes está encrencado até o pescoço, graças à relação com Daniel Vorcaro, dono do finado banco. Ao ligar o ventilador na direção do colega, Mendonça praticamente exigiu que o STF realize uma sessão aberta para decidir o futuro do desafeto. Detalhe: Moraes assumirá o comando do Supremo daqui a um ano, se sobreviver até lá. Para o trivial Fachin, o tribunal vive um momento de “especial gravidade” e tanto a atuação de Mendonça quanto os indícios contra Moraes exigem resposta. Daí sua promessa de anunciar nos próximos dias “as medidas cabíveis e necessárias”, conforme declarou em nota pública. Uma saída que preserve “a integridade do Supremo”, “a autoridade de suas decisões” e “a confiança da sociedade na instituição”.
Ao partir para cima de Moraes, Mendonça
incendiou a oposição às vésperas do Dia da Pátria, data que o bolsonarismo usou em outras ocasiões para malhar o Supremo e pretende
repetir a dose neste ano. Muitas campanhas direitistas ao Senado, casa com
poder para cassar ministros das altas Cortes, se escoram no discurso anti-STF.
Não só o tribunal está em jogo, a eleição presidencial também. A guerra contra
Moraes é o ápice de uma atuação de Mendonça a favor do clã Bolsonaro nas
investigações sobre falcatruas do Master e sobre descontos indevidos em
aposentadorias do INSS. O ministro deve a vaga no STF a Jair Bolsonaro,
condenado a 27 anos de cadeia por tentativa de golpe em um processo conduzido
por Moraes. “É o mais ideológico” da Corte, anota um colega. Enquanto poupa
Flávio Bolsonaro no inquérito sobre o filme Dark Horse, um capítulo do
escândalo do Master, o “terrivelmente evangélico” parece empenhado em
transformar Vorcaro em herói com uma delação premiada contra o lulismo. Uma
forma de jogar no colo do governo um escândalo majoritariamente do Centrão e
dos bolsonaristas, vide, entre outras, a participação decisiva dos
ex-governadores Cláudio Castro, do Rio de Janeiro, e Ibaneis Rocha, do Distrito
Federal, e do senador Ciro Nogueira, ex-ministro de Bolsonaro.
No fim de agosto, o gabinete de Mendonça
recebeu Vorcaro, preso preventivamente desde março. Tomou-lhe um depoimento, a
pedido do advogado de defesa. Uma das afirmações do interrogado foi de que topa acusar
“pessoas do núcleo do atual governo”. A íntegra do depoimento foi vazada na
quinta-feira 3. É o método lavajatista a pleno vapor a um mês da eleição.
Busca-se pressionar as autoridades, via mídia, para que aceitem a delação de
Vorcaro, alguém disposto a passar o Brasil a limpo. O relatório da PF sobre as
relações de Moraes com Vorcaro dá plausibilidade à tese de que o banqueiro tem
muito a falar.
Vorcaro foi preso duas vezes a pedido da PF e
não conseguiu convencê-la a aceitar uma delação, nem teve mais sorte com a
Procuradoria-Geral da República. Segundo fontes policiais, ele propôs um acordo
inaceitável: reabrir o Master e pagar ao longo de anos, não de cara, uma multa
de 40 bilhões de reais. Autorizada pelo Banco Central a funcionar no primeiro
ano de Jair Bolsonaro, a instituição de Vorcaro foi fechada pelo BC no dia da
primeira prisão dele, em novembro passado. A PF prepara-se para concluir as
apurações principais do caso e incriminá-lo por gestão fraudulenta. Aí caberá à
PGR acusá-lo, ou não, na Justiça. Um relatório do BC de outubro de 2025 aponta
um golpe de 12 bilhões de reais do Master, com a venda ao BRB, banco estatal de
Brasília, de uma carteira de crédito fajuta. É a maior fraude financeira da
história brasileira.
O objetivo final da vandalização do STF
parece ser atribuir ao governo Lula a exclusiva responsabilidade pelo escândalo
do Banco Master
A delação de um parceiro de Vorcaro tem tudo
para piorar a situação do banqueiro e para tornar mais improvável um acordo de
delação. José Carlos Mansur é o dono de um fundo, a Reag, que o Master usava
para lavar dinheiro. A Reag também se prestava à lavanderia do PCC. Os negócios
com o Master injetaram recursos em uma empresa, a Super Empreendimentos, que
depois compraria uma casa em Brasília onde seria instalado o QG de Vorcaro. Até
2024, a Super era dirigida por um cunhado do banqueiro, Fabiano Zettel. Na
eleição de 2022, Zettel foi um dos maiores financiadores de Bolsonaro, 3
milhões de reais. A delação de Mansur acaba de ser selada com o Ministério
Público. Cabe a Mendonça, relator do caso Master, homologá-la. Idem com outra
colaboração premiada encaminhada, conforme O Globo. E esta atinge envolvidos
com o filme Dark Horse, a cinebiografia de Bolsonaro bancada por Vorcaro.
O delator, neste caso, é Antônio Carlos
Freixo Júnior, alvo em janeiro de uma batida da PF. Conhecido como “mineiro”,
fazia chegar aos Estados Unidos os repasses de Vorcaro para o filme. Em 5 de
fevereiro do ano passado, Vorcaro e Zettel trocaram mensagens sobre a produção
e o patrocínio, conforme revelado, em maio, pelo Intercept Brasil. Zettel
dizia que a área de câmbio do Master estava “criando caso”. Vorcaro autorizou
“mandar a grana”, por meio de “quem paga lá fora”. Zettel perguntou se poderia
pedir ao “Minas” para enviar, ou seja, a Freixo Jr. À época, Eduardo Bolsonaro
já havia se autoexilado no Texas, a fim de conspirar para que o governo Trump
impusesse medidas prejudiciais ao Brasil, na esperança de livrar o pai da
cadeia. Convertido em réu no STF por “coação no curso do processo”, foi
condenado a quatro anos em um processo relatado por Moraes. A delação de
“mineiro” é uma chance de descobrir se Vorcaro pagou o complô de Eduardo.
Fontes da PF são céticas quanto ao auxílio do governo norte-americano no
rastreio da verba depositada no Heavengate, o fundo localizado nos EUA que era
o destino dos recursos transferidos por Vorcaro. Motivo do ceticismo: os laços
do bolsonarismo com o trumpismo.
Em setembro de 2025, o Heavengate recebeu um
extra de 1,6 milhão de dólares de Vorcaro, de acordo com um relatório do Coaf,
o órgão federal de combate à lavagem de dinheiro, revelado pela revista Piauí.
Na semana anterior, Flávio Bolsonaro havia cobrado o banqueiro. “Apesar de você
ter dado a liberdade, Daniel, de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar
te cobrando, tá?”, dizia o senador. “É porque tá num momento muito decisivo
aqui do filme, e como tem muita parcela pra trás, cara, tá todo mundo tenso.” O
senador insiste que a relação entre Vorcaro e o filme só envolve dinheiro
privado, ou seja, nada antiético. Será? Ao chegar à beira do abismo, em 2024, o
Master lambuzou-se em verba pública para tentar se safar. O fundo de pensão dos
servidores do Rio injetou cerca de 3 bilhões de reais no banco, na gestão
Castro. E o BRB, 12 bilhões, sob Ibaneis. Karina Ferreira da Gama, a dona
da produtora do filme, a GoUp, pede para ser investigada sob supervisão do
Mendonça. Idem o deputado Mário Frias, do PL, secretário de Cultura no governo
Bolsonaro, roteirista da cinebiografia do capitão e autor do envio de dinheiro
de emendas parlamentares a uma ONG de Gama. Essa ONG, o Instituto Conhecer
Brasil, é alvo da Polícia Civil de São Paulo por causa de um contrato de 108
milhões de reais com a prefeitura paulistana. O delegado Antônio Carlos Munuera
Silveira vê “consistentes suspeitas” de que o acordo serviu para bancar Dark
Horse. Daí os advogados da produtora acionarem Mendonça para que ele retire de
São Paulo a investigação e puxe para si em Brasília. Frias é alvo de um
inquérito no Supremo, aos cuidados de Flávio Dino, por ter financiado o
instituto com emenda parlamentar. Seu advogado pediu a Fachin que transfira o
inquérito para Mendonça. Tanto o deputado quanto Gama parecem, digamos, confiar
em Mendonça.
Quando o assunto é Dark Horse, o filho
“Zero Um” não tem do que reclamar do “terrivelmente evangélico”. O processo não
tem gerado notícias. Há, porém, um recurso no Supremo capaz de fazer tudo
passar às mãos de outro magistrado. Após a divulgação do áudio de Flávio a
Vorcaro, o deputado Lindbergh Farias, do PT, requereu ao STF uma nova
investigação do senador. A solicitação foi a Moraes, pois, à época, o ministro
era o relator da ação penal de “coação” contra Eduardo. Moraes não aceitou a
relatoria e remeteu a bola a Fachin. Este entendeu que o tema se relacionava ao
caso Master e mandou o pedido a Mendonça. Cabe a este liberar o recurso para o
plenário do Supremo resolver a controvérsia sobre a relatoria.
Depois de expor a relação de Vorcaro com
Moraes, o gabinete de Mendonça tornou pública a proposta do banqueiro de
delatar “pessoas do núcleo do atual governo”
Por que Moraes se esquivou de supervisionar o
processo sobre Dark Horse? Segundo informações em Brasília, o juiz não
queria entrar na berlinda associado a Vorcaro. O relatório encomendado por
Mendonça a delegados da PF do caso Master explica o receio. Moraes e o
banqueiro estiveram juntos várias vezes desde o fim de 2023. O que falaram nas
conversas não se sabe. Mas as trocas de mensagens escritas entre eles são
comprometedoras para Moraes, mesmo que a PF tenha conseguido descobrir apenas o
que Vorcaro dizia. Os dois usavam um método peculiar nas mensagens. Em vez de
escreverem o texto no WhatsApp, redigiam no aplicativo “bloco de notas”,
faziam uma foto da “nota”, a enviavam ao outro e em seguida a apagavam do
WhatsApp, forma de não deixar rastros. O que Vorcaro não sabia é que as fotos
ficavam armazenadas em um lugar oculto no celular, e foi a esse “esconderijo”
que a PF chegou ao apreender o telefone dele em novembro.
Ao se observarem as mensagens em conjunto e
cotejá-las com os acontecimentos, a conclusão inescapável é de que Vorcaro
contratou o escritório da esposa de Moraes para ter serviços prestados pelo
próprio togado. E que o combinado foi entregue. Descobrir a existência de
investigações policiais e de medidas judiciais contra o Master era uma das
missões do juiz. Procurar autoridades que pudessem salvar a pele do banco e de
seu dono era outra. O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, o presidente do
Banco Central, Gabriel Galípolo, e o procurador-geral, Paulo Gonet, parecem ter
sido acionados por Moraes. Dois deles, afirma uma autoridade em Brasília,
receberam mensagens de Moraes nas quais o ministro dizia que Vorcaro era
“sério”. Situação que configura, em tese, crimes como advocacia administrativa,
favorecimento pessoal, tráfico de influência e obstrução de Justiça.
O primeiro contrato de Vorcaro com o
escritório de Viviane Barci de Moraes ocorreu em janeiro de 2024. Em 30 de
dezembro de 2023, o banqueiro e o ministro haviam se encontrado na estância
turística de Campos do Jordão, no que parece ter sido o tête-à-tête inicial. A
reunião tinha sido intermediada por Fábio Faria, ex-ministro de Bolsonaro. Foi
Faria quem passou o telefone do togado a Vorcaro durante os preparativos do
encontro. Duas semanas após a reunião, Moraes examinou o contrato que a esposa
selaria com o banqueiro. Há registro de que ele alterou o documento antes da
assinatura. O acordo era de 3 milhões de reais mensais, por três anos. Outro,
de 50 milhões, a ser pago com cotas de empresas proprietárias de um helicóptero
e de um avião, foi celebrado em maio de 2025.
O ano passado marcou a ruína do Master.
Vorcaro foi preso pela PF pela primeira vez na noite de 17 de novembro, uma
segunda-feira, no aeroporto de Guarulhos, quando estava prestes a embarcar para
o exterior. Na antevéspera, 15 de novembro, um sábado, ele havia procurado
Moraes. Em uma das mensagens, dizia: “Que loucura, bem na semana que estou
resolvendo tudo. Aquele mesmo juiz Ricardo? E o Galípolo, tá sabendo?
Conseguimos fazer algo? Acha que na segunda já tenho que estar fora?” No minuto
seguinte, prosseguiu: “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei?”.
No meio do tiroteio, veio à tona que o
ministro Mendonça também manteve contatos com Daniel Vorcaro
As mensagens resumem a natureza da relação
entre os dois e delineiam o papel do magistrado. “Juiz Ricardo” é Ricardo
Soares Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília, autor da decisão sobre a prisão
preventiva de novembro, fato desconhecido na ocasião das mensagens. Galípolo é
o presidente do BC. Paulo é Gonet, o procurador-geral. E Andrei, o diretor da
PF. Em 16 de novembro, Vorcaro e Moraes acertaram uma reunião às 2 da tarde. Depois
dela, o primeiro escreveu ao segundo: “Se o Andrei conseguir atrasar pra outra
semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar
isso se achar possível”. Não houve atraso. A PF o algemou no dia seguinte e
desde então resiste às suas propostas de delação. Em uma das últimas mensagens
a Moraes no dia da prisão, ele indagou: “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia
ou bloquear?” Por “bloquear”, leia-se “melar” a operação policial a caminho.
Mendonça tornou público o relatório encomendado
à PF e assinou um despacho no qual afirma que o “caminho inevitável” é o
plenário do Supremo decidir “de forma pública e transparente, em sessão
presencial” o que fazer. Tradução: se Moraes será investigado. É mais uma
tacada do tipo lavajatista, de usar a opinião pública para pressionar o
Judiciário, ao estilo de Sergio Moro, cuja postura Mendonça tem mimetizado ao
orientar a mira da PF nos inquéritos do Master e do INSS. A correlação de
forças no Supremo não permite antecipar o desfecho, na hipótese de julgamento
plenário. A realização ou não dessa sessão depende de Fachin.
Gonet pediu ao tribunal a anulação do
relatório policial encomendado por Mendonça. Segundo ele, há duas nulidades por
trás do documento. Uma é que o juiz abriu uma investigação por conta própria,
sem ser provocado pela PF ou pelo Ministério Público. A outra é que a produção
do relatório deveria ter sido discutida no plenário do STF. Há um complicador
na posição do procurador. Ele próprio é atingido pelo relatório policial. Além
das citações a seu nome em conversas entre Vorcaro e Moraes, aparece como
alguém das relações do banqueiro. A ponte entre eles era o advogado Ciro Rocha
Soares, que intermediou um convite para Gonet participar de um evento jurídico
em Londres, em 2025, organizado por Moraes e patrocinado por Vorcaro. O
banqueiro topava bancar as despesas do procurador-geral e de um filho dele,
Pedro Gonet. O evento, cuja primeira edição aconteceu em 2024, foi cancelado.
Soares foi intermediário de um encontro de
Mendonça com Vorcaro, em março do ano passado, época em que o caso Master ainda
não tinha vindo à tona, conforme revelado pelo jornalista Paulo Motoryn. A
reunião ocorreu na sede do instituto do juiz, o Iter, em São Paulo. O Iter é um
flanco exposto do togado, por causa de contratos com órgãos públicos. Um deles:
1,2 milhão de reais pagos por um consórcio municipal paulista, o Cioste,
presidido por um prefeito que injetou dinheiro no Master na hora do aperto do
banco, conforme revelado, em abril, por CartaCapital. O acordo foi feito quatro
meses após a conversa de Mendonça e Vorcaro. Outro contrato chamativo: 518 mil
reais com a Secretaria de Segurança Pública do Rio, de maio passado. Cláudio
Castro, governador do estado até janeiro, é investigado no escândalo do Master.
A PF pediu uma batida contra ele, e Mendonça autorizou justamente em maio. Não
permitiu, porém, que fosse vasculhado o escritório de advocacia de Castro, onde
o ex-governador guardaria documentos incriminadores.
E a política diante do maremoto? Flávio Bolsonaro
pede a renúncia de Moraes, outros opositores querem o impeachment do juiz via
Senado. Quem tem o poder de abrir o processo de cassação é o presidente da
Casa, Davi Alcolumbre. Na quarta-feira 2, o senador comentou no plenário: “Todo
mundo esqueceu que pediram 130 milhões para a mesma pessoa, para fazer um
filme, e agora o culpado só é o ministro Alexandre de Moraes”. Foi uma alusão à
cobrança de Flávio a Vorcaro. “A maior aliança da República hoje é do Davi com
o Alexandre”, afirma um ministro de Lula. O juiz promoveu a reconciliação do
senador com o presidente da República, ao oferecer um jantar no início de
agosto. O petista conversou com alguns magistrados do Supremo nos últimos dias
e está decidido a lavar as mãos no entrevero. O coordenador da campanha à
reeleição, Edinho Silva, divulgou um vídeo após falar com Lula. Nele diz que “o
sistema apodreceu” e que “ninguém está acima da lei, seja cidadão comum, um
governante, um parlamentar, ou até um integrante do Poder Judiciário”.
A conferir se o lavajatismo vai triunfar mais
uma vez.
Publicado na edição n° 1429 de CartaCapital, em 09 de setembro de 2026.

Nenhum comentário:
Postar um comentário