Veja
Vivemos uma guerra de trincheiras, entre gases tóxicos e artilharia
O que há em comum entre as guerras na Ucrânia
e no Irã e a crise institucional de Brasília? O fato de que ninguém sabe como e
quando vão terminar. Vivemos uma guerra de trincheiras na qual os soldados vão
e voltam entre gases tóxicos e fogo de artilharia, como na I Guerra Mundial. Os
avanços são medidos em escassos metros, mas o tiroteio é intenso.
Voltando à nossa novela, no fim de agosto a questão de Lulinha e Roberta Luchsinger dominou a pauta. Já na abertura de setembro, a suspensão do sigilo dos diálogos de Daniel Vorcaro desestabilizou uma Brasília já desestabilizada. Nem vale a pena citar rumores e boatos, já que, em tempos de crise, a verdade sempre anda escoltada por muitas mentiras, como disse certa vez Winston Churchill.
No campo de batalha, há muitos lados em
disputa, e todos perseguem o mesmo objetivo: amenizar sobre si os efeitos dos
escândalos do Banco Master e do INSS. Nessa lógica, os
fatos a serem vazados ou divulgados podem ser selecionados com o timing
adequado, e a forma de divulgação, cuidadosamente preparada.
“O cidadão que conclui que todos são iguais se torna cínico. E o cinismo é o adubo dos aventureiros”
Sem sair condenando a torto e a direito, é
claro que existem atitudes de autoridades inaceitáveis sob qualquer ângulo. Mas
o cerne da questão não está em esconder ou mostrar. Está em investigar e trazer
a público o que importa. Os movimentos oficiais não batem com o que emerge na
imprensa porque existe um jogo de sombras em curso. Quando todos têm o que
esconder, ninguém tem interesse na luz plena.
O peculiar é que nunca, verdadeiramente
nunca, um escândalo atingiu todos os recantos institucionais e políticos do
país. Não há pilar poupado nesta República tropical. Num salve-se quem puder, o
governo Lula procura
se afastar do STF em gesto de profunda ingratidão: sem a Suprema Corte, muitas
de suas medidas, algumas até arbitrárias, não teriam vingado. As patas do
Master estão solidamente pousadas sobre o PT da Bahia, sobre setores do Centrão
e, de quebra, sobre o bolsonarismo com a questão do filme Dark Horse. E o
Judiciário, em crise sobre o que e quem julgar.
As consequências eleitorais já se desenham: a
eleição está indefinida. O favoritismo de Lula escorre por suas mãos: a desaprovação
do governo, segundo a AtlasIntel, beira 53%. As peripécias de Lulinha o atingem
em profundidade e são inaceitáveis até para os petistas mais
empedernidos. Flávio
Bolsonaro luta com um tema menor para o bolsonarismo, mas
potencialmente fatal junto aos indecisos. Com os dois polos contaminados,
abre-se espaço para o imprevisível.
Candidaturas antissistema ganham oxigênio, a
abstenção tende a crescer e o voto de protesto pode arbitrar 2026. Um pleito
decidido pelo ressentimento, e não pelo projeto, produz mandatos fracos e
governabilidade precária. Cada capítulo do escândalo corrói ainda mais a
confiança nas instituições e na própria política. O cidadão que conclui que
todos são iguais não se torna exigente: se torna cínico. E o cinismo é o adubo
dos aventureiros. A normalização do escândalo é a antessala da apatia
democrática. A cidadania atônita espera que a lavagem das escadarias do poder
não demore décadas. No Bonfim, a purificação é anual. Na República, ainda não
há data marcada.
Publicado em VEJA de 4 de setembro de 2026, edição nº 3011

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