Por mais que seja um tribunal com papel único, o de interpretar e julgar a constituição, um documento eminentemente político, o STF continua a ser um tribunal e, portanto, limitado pelas normas jurídicas
Quando pensarmos em realizar a Justiça, o modo de fazer as coisas importa tanto quanto o resultado. Por isso temos o processo judicial: ele organiza o caminho que seguiremos até se decidir se alguém é culpado ou inocente, e qual a pena justa em caso de responsabilidade. É para assegurar tal equilíbrio que o Judiciário existe em uma democracia saudável; é por isso que os juízes precisam ser decorosos e imparciais, e é em razão desse ideal que advogados e demais atores da justiça são tão ocupados em discutir formalidades.
Começo com essa digressão sobre o processo
porque o caos instaurado no STF nesta semana foi sobretudo causado
pela completa subversão das formalidades impostas pela lei em benefício de
interesses particulares e, no mais das vezes, político-partidários. Essa é uma
das heranças mais nefastas do lavajatismo: o uso estratégico do processo judicial para
provocar desgastes, perseguir adversários, viabilizar projetos, alcançar
interesses pessoais em detrimento do bom resultado de um caso sob análise.
Nesse mundo em que se faz tudo menos Justiça, o modo de fazer importa pouco: o que
se almeja é certo resultado, custe o que custar. Na crise atual, pode custar a
própria respeitabilidade do tribunal como um todo.
Não estou me referindo a um ministro
específico do STF. O personalismo excessivo, a busca pelos holofotes, a
confusão entre público e privado são observáveis no comportamento de um número
importante de magistrados da corte. Essa ala, expressiva em número e poderosa
em influência, costuma neutralizar qualquer iniciativa moralizante dos outros
pares, que o diga o presidente do STF, Edson Fachin, incapaz de exercer
autoridade para contenção da desordem, por ser refém de um colegiado indócil ao
regimento.
A saída para a crise do STF passa pela
recuperação do cuidado com as formalidades, quando temos mais Direito e
menos Política na orientação de seus trabalhos. Por mais que seja um tribunal
com papel único, o de interpretar e julgar a constituição, um documento
eminentemente político, o STF continua a ser um tribunal e, portanto, limitado
pelas normas jurídicas, precisa julgar conforme e através do Direito, e não
atuar como um player partidário equivalente ao que vemos nos outros dois
poderes. Mais do que isso: juízes não são heróis, são agentes da lei, precisam
obedecer a limites e prestar contas de seus atos.
Juízes devem obedecer ao processo,
restringir-se à sua competência processual, ter suas decisões submetidas a
recurso, respeitar a colegialidade. Inquéritos precisam ser conduzidos por
quem de direito, com isenção e seriedade. Só um retorno aos ritos e às
formalidades que oferecem segurança protegerá o STF de alguns de seus
ministros.
*Doutora em Direito (USP) e professora da Universidade Federal do Ceará

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