domingo, 6 de setembro de 2026

Ao som de Xandão e Lulinha, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Com foco em Vorcaro, o prejudicado era Flávio; em Xandão, passa a ser Lula

O resultado da crise sem precedentes no Supremo, devastador para o humor nacional e a já frágil confiança nas instituições, atinge as eleições. Sem programas de governo, com propostas reais e factíveis, a base de eleitores e eleitoras para votar é o mar de lama e a nociva sensação de que “são todos iguais, ninguém presta, não temos para onde correr”. Daí os dois dígitos do outsider Augusto Cury.

O escândalo bilionário do onipresente Daniel Vorcaro atinge direita, esquerda e principalmente Flávio Bolsonaro, que se jogou na rede ao pedir a bagatela de R$ 130 milhões para o “irmão” banqueiro. Mas, ao destroçar a reputação do ministro Alexandre de Moraes e rachar de vez o STF, o caso respinga sobre o presidente Lula.

O estrago contra Flávio já foi feito e, até surgirem novas revelações, atingiu o teto. Se há ainda estrago a ser feito é contra Lula, que não é suspeito de envolvimento direto com Vorcaro, como Flávio, mas embolouse com Moraes, como se fossem aliados, do mesmo time.

Ao se meter no julgamento da trama do golpe, Lula reforçou o discurso bolsonarista de “motivação política” e acaba de cometer a imprudência de negociar com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, na casa de Moraes. Ministro do STF em campanha política?

O time de Moraes inclui Gilmar Mendes, Dias Toffoli e o próprio Alcolumbre. Como dizer que Lula não faz parte? Logo, o fator Xandão ameaça Lula e exatamente quando sua vantagem sobre Flávio evoluiu para empate no segundo turno e já não é impossível que as duas linhas se cruzem, com Flávio à frente.

Moraes não explica o contrato de R$ 131 milhões, jato Legacy, helicóptero e cartão de crédito com limite de R$ 300 mil para os filhos. Muito menos, as 51 mensagens de Vorcaro em que fica óbvio que passava informações sigilosas e agia para tentar salvá-lo, tanto da prisão quanto da liquidação do Master.

Assim, o ministro ataca o relator do caso Master, André Mendonça, até com rascunho sem timbre, assinatura ou qualquer valor, o que revela desespero e foi descartado por Edson Fachin. O antes todo-poderoso Xandão está nos estertores e se permite arrastar o STF com ele, transformando-se, de defensor, em ameaça à democracia.

Com o foco do escândalo em Vorcaro, o principal prejudicado na campanha era seu “irmão” Flávio. Quando esse foco desvia para Moraes, perdido em movimentos primários e descoordenados, quem tende a pagar o pato é Lula.

Xandão e Lulinha são os maiores riscos a um quarto mandato para Lula e, portanto, os maiores cabos eleitorais de Flávio, segundo a campanha petista, “o pior dos Bolsonaro”.

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