O Estado de S. Paulo
Nova política amplia risco de interferência em um país em caso de derrota de um aliado de Trump
Os pilares do plano de Donald Trump para a Venezuela sugerem um potencial padrão para a América Latina: coerção militar, pacto de sustentação do governo, expropriação de riquezas e ausência de compliance. O alinhamento de líderes políticos da região, incluindo do Brasil, à estratégia americana cria o risco de retrocesso institucional, econômico e geopolítico.
O acordo, endossado com entusiasmo pela
presidente interina Delcy Rodríguez, estipula que 20% do petróleo venezuelano
será entregue a preço de custo aos EUA, que podem exercer preferência na compra
dos outros 80%. O plano abrange a exploração de 65 bilhões de barris – o
equivalente a quase dois anos de todo o petróleo consumido pelo mundo.
O contrato é brindado à North American Blue
Energy Partners (Nabep), com sede em Barbados, cujo dono, o venezuelano
Alejandro Betancourt, cresceu como empresário sob Hugo Chávez e Nicolás Maduro,
com contratos públicos de geração de energia. Trata-se de um “bolichico”, como
são chamados os jovens homens de negócio que gravitam em torno do regime
bolivariano.
Significa que, em vez de levar para a Venezuela as regras de governança que os EUA ajudaram a criar, Trump está aderindo ao clientelismo chavista. Como os eleitores venezuelanos dificilmente aceitariam essa expropriação neocolonialista, Trump explicou na semana passada que “a Venezuela não está pronta para eleições”.
Antes de capturar Maduro no início do ano,
Trump lhe enviou emissários com o recado de que poderiam negociar sua
permanência no poder em troca desse tipo de transação. O então ditador não
aceitou. Delcy, então vice, apresentouse como alternativa – até para não ter o
mesmo fim.
A estratégia combinou a designação de
narcotraficantes como terroristas, a identificação de Maduro como “líder” do
crime organizado, a intimidação por meio dos bombardeios de lanchas no Caribe e
no Pacífico, o bloqueio naval e a captura do ditador.
Presidentes recém-eleitos e líderes de
oposição conservadores na região, incluindo no Brasil, alinham-se com a
estratégia de Trump de aplicar a força militar contra o crime organizado e
submeter a exportação de minerais críticos e outras matériasprimas estratégicas
ao monopólio dos EUA, a título de conter a influência chinesa.
Além das implicações econômicas, existe o risco de os EUA interferirem em um país em caso de derrota eleitoral de um aliado de Trump para um crítico desses arranjos, que colocasse em risco contratos lucrativos para os americanos. Como nos anos 60.

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