quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Crise no STF cria raro clima de união nacional, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

A cobrança por correção no Supremo faz diferentes segmentos sociais falarem um mesmo idioma

Adiar o enfrentamento da chaga não anula o fato de que metade da corte está sob algum tipo de suspeição

São raros os momentos em que a sociedade em seus diferentes segmentos se mostra unânime frente a questões de ordem institucional e/ou a problemas que afetem a vida da coletividade.

Anos atrás, vimos unidade no anseio pela retomada do regime democrático e assistimos de novo coesão nacional no apoio ao combate à inflação.

Agora, vemos personalidades dos mundos jurídico, empresarial, cultural, político e brasileiros ditos comuns —donos da nobre credencial de cidadãos— juntos na expectativa de que o Supremo Tribunal Federal aplique aos seus os critérios da legalidade válidos para todos, de modo a não perder a legitimidade para julgar quem ou o que quer seja.

Inédito é que tal união ocorra justamente em período eleitoral e ainda mais numa quadra de categórica divisão do país entre duas forças políticas. Cisão que em boa medida se reflete no ambiente idealmente imparcial do STF.

Sintomático, portanto, que no clima de acirramento político-eleitoral os diferentes grupos sociais falem o mesmo idioma nos seguintes tópicos: perplexidade diante do desarranjo que assola a corte; repulsa a condutas de magistrados; demanda pela adoção dos melhores procedimentos de correção; uma enorme desconfiança de que o tribunal vai decepcionar e procurar alguma forma de acomodação.

Dessa coincidência de visões na opinião pública depreende-se que não estamos diante de algo que possa se confundir com a disputa eleitoral em curso.

Fazer essa junção é deslocar para outro campo o cerne do assunto em tela: a contaminação da corte suprema de Justiça por práticas questionáveis, quando não ilícitas, que precisam ser passadas a limpo.

Adiar o enfrentamento dessa chaga para depois do pleito não fará desaparecer o fato de que hoje temos metade da corte sob algum tipo de desconfiança.

A mais grave recai sobre o ministro Alexandre de Moraes, que não terá autoridade para daqui a um ano assumir a presidência do Supremo se não estiver acima de qualquer suspeita.

 

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