O Globo
Ministros travam guerra para proteger aliados, não para preservar a instituição
Leviano. Mentiroso. Golpista. Sem noção.
Pixuleco eleitoral. Os insultos foram disparados no plenário do Supremo
Tribunal Federal. Por mais de sete horas, ministros atacaram ministros, em
guerra transmitida ao vivo pela TV.
O presidente Edson Fachin imaginou que a sessão de ontem pudesse dar início a um processo de depuração. Deu-se outra coisa: o tribunal expôs suas vísceras e nada decidiu sobre o pedido para investigar o ministro Alexandre de Moraes. As suspeitas sobre André Mendonça também ficaram intocadas. Por decisão de Fachin, foram deixadas para a semana que vem, sem garantia de solução.
O presidente abriu os trabalhos com um apelo
à serenidade. “A divergência é legítima. O confronto pessoal, não”, pontificou.
Belas palavras, mas era difícil esperar que fossem convencer alguém a baixar as
armas.
Para as duas alas que disputam o controle do
Supremo, a duelo entre Moraes e Mendonça virou uma luta por sobrevivência.
Nessa lógica, proteger aliados parece mais importante do que preservar a
instituição.
Moraes foi defendido por três escudeiros:
Flávio Dino, Gilmar Mendes e Cristiano Zanin. Mendonça contava com o apoio de
Luiz Fux e Kassio Nunes Marques, que se enfraqueceram com as menções a seus
filhos no celular de Daniel Vorcaro. Sem tropa, Fachin assistiu à pancadaria de
braços cruzados.
O caso de Kassio não surpreendeu ninguém, mas
agravou o descrédito da Corte. O ministro foi exposto em diálogos sobre
viagens, valores e “meninas”. Seu filho Kevin, jovem prodígio da advocacia,
apareceu ao lado da anotação “500 mil mês”. Kassio negou irregularidades,
declarou-se impedido e pediu para sair.
Moraes adotou a tática de trocar a defesa
pelo ataque. Não esclareceu as mensagens de Vorcaro e o contrato milionário da
mulher, mas voltou a acusar Mendonça de estar a serviço do bolsonarismo. O
relator do caso Master tentou engrossar a voz, mas não conseguiu explicar por
que blindou aliados no tribunal e escondeu o inquérito contra Flávio Bolsonaro.
O pedido de vista de Dino interrompeu o
julgamento sem estancar a crise no Supremo. Em meio à barafunda, Fachin fez um
desabafo sobre os ofícios “hemorrágicos” que se avolumam em seu gabinete. Pelo
que se viu ontem, a sangria vai continuar.

Nenhum comentário:
Postar um comentário