“Em tempos de incertezas costuma-se citar Gramsci quando não se sabe o que dizer. Em particular, sua célebre assertiva de que a velha ordem já não existe e a nova ainda está para nascer. O que pressupõe a necessidade de uma nova ordem depois da crise.
Mas não se contempla a hipótese do caos.
Aposta-se no surgimento dessa nova ordem de uma nova política que substitua a
obsoleta democracia liberal que, manifestamente, está caindo aos pedaços em
todo o mundo, porque deixa de existir no único lugar em que pode perdurar: a
mente dos cidadãos.
A crise dessa velha ordem política está
adotando múltiplas formas. A subversão das instituições democráticas por
caudilhos narcisistas que se apossam das molas do poder a partir da repugnância
das pessoas com a podridão institucional e a injustiça social; a manipulação
midiática das esperanças frustradas por encantadores de serpentes; a renovação
aparente e transitória da representação política através da cooptação dos
projetos de mudança; a consolidação de máfias no poder e de teocracias
fundamentalistas, aproveitando as estratégias geopolíticas dos poderes
mundiais; a pura e simples volta à brutalidade irrestrita do Estado em boa
parte do mundo, da Rússia à China, da África neocolonial aos neofascismos do
Leste Europeu e às marés ditatoriais na América Latina.”
*Manuel Castells, sociólogo espanhol.
“Ruptura”, Editora Zahar, Rio de Janeiro, 2018.
Texto Publicado na Folha de S. Paulo / Ilustríssima, 10/6/2018

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