Revista Será?
A vitória da AfD (Alternative für Deutschland), partido de extrema direita, nas últimas eleições no Estado da Saxônia-Anhalt despertou grande inquietação mundial ao confirmar a força política de um partido de inspiração nazista na Alemanha. A Saxônia-Anhalt é um dos menores Estados alemães, com apenas 2,1 milhões de habitantes, o equivalente a 2,5% da população do país. Mesmo assim, a ascensão da AfD assusta, especialmente porque, em se tratando da Alemanha, desperta também o fantasma do nazismo, de triste memória.
Com 43,8% dos votos nessas eleições
estaduais, o partido necessita de apenas mais três assentos no parlamento local
para assumir o governo da Saxônia-Anhalt. Para isso, pode contar apenas com o
apoio do BSW (Bündnis Sahra Wagenknecht), que conseguiu 5,3% dos votos.
Trata-se de um estranho partido, formado a partir de uma dissidência do Die
Linke (A Esquerda), que combina uma concepção de esquerda na economia —
salários mais altos, fortalecimento da previdência e do Estado de bem-estar
social e taxação de grandes fortunas — com o populismo antiwoke, a crítica à política
ambiental e posições direitistas semelhantes às da AfD: rejeição à imigração,
euroceticismo e defesa de uma aliança com a Rússia.
O resultado dessa eleição na Saxônia-Anhalt
confirma a força da direita nos cinco Estados que formavam a antiga Alemanha
Oriental e que, apesar dos investimentos na privatização e na modernização
dessa parte do país a partir da reunificação, continuam sendo os mais pobres e
apresentando os mais baixos salários médios da Alemanha.
A AfD obtém suas maiores votações
precisamente nesses Estados, que também estão entre os menos populosos (à
exceção de Saarland e das cidades-Estado de Hamburgo e Bremen) e apresentam os
menores PIBs per capita da
Alemanha. Ao comparar a distribuição dos votos na AfD nas eleições de 2025 para
o Bundestag (parlamento alemão), nas quais o partido alcançou 20,8% dos votos,
com o PIB per capita dos
Estados, percebe-se uma correlação inversa: quanto menor o PIB per capita, maior o percentual de
votos para o partido de extrema direita (ver gráfico).
Fonte: Elaborado com base em dados do Gemini.
Por outro lado, embora uma das principais
bandeiras da AfD seja a restrição à imigração, os cinco Estados em que o
partido consegue a maior adesão eleitoral têm os menores percentuais de
estrangeiros na população. Neles, os estrangeiros representam menos de 7% dos
habitantes, percentual quase insignificante quando comparado aos 19% de Hesse e
aos 16% da Renânia do Norte-Westfália, para não falar de Berlim, onde chegam a
23%. Na realidade, esses Estados se caracterizam mais pela emigração do que,
propriamente, pela imigração. Desde a reunificação, milhões de alemães
orientais emigraram para a parte ocidental do país, em geral jovens
qualificados em busca de oportunidades. Deve-se considerar, de qualquer forma,
que o relativo isolamento da Alemanha Oriental limitou o contato da região com
estrangeiros e com outras culturas, à exceção do contato com imigrantes da
parte oriental do bloco soviético.
O que pode explicar esse predomínio da
extrema direita nesses Estados, incluindo sua inclinação para uma aliança com a
Rússia? Os cidadãos alemães da antiga Alemanha Oriental devem sentir
ressentimento precisamente por serem a parte pobre de um país muito rico, além
de frustração diante das promessas de prosperidade associadas à reunificação e
à incorporação ao capitalismo ascendente da Alemanha Ocidental. Para se ter uma
ideia dessa frustração com as promessas do capitalismo, nessas eleições
estaduais, 61% dos operários e mais da metade dos trabalhadores autônomos
votaram na AfD (Euronews,
07/09/2026).
A população dos Estados a leste da Alemanha
não tinha o nível de renda e a modernidade de que dispõe agora, como parte da
Alemanha unificada, mas deve se sentir entre os perdedores da reunificação e da
globalização. Na antiga Alemanha Oriental, os alemães não tinham liberdade — o
país tinha um dos regimes mais autoritários do bloco soviético —, mas talvez
sentissem ordem, estabilidade, segurança e previsibilidade. Não que a Alemanha
seja um país instável e inseguro, mas enfrenta grandes incertezas e padece das
dificuldades econômicas e políticas comuns às democracias no mundo
contemporâneo.
Os cidadãos da antiga Alemanha Oriental
deviam se comparar mais com os habitantes dos países do bloco soviético do que
com os da Alemanha Ocidental, que devia ser vista como outro país, sob outro
regime — o capitalismo liberal, demonizado pela propaganda e pela Guerra Fria
—, inacessível do outro lado do muro. Na época, a República Democrática da
Alemanha, como era chamada, era uma das nações mais bem-sucedidas do bloco
soviético. Até a reunificação, os Estados da antiga Alemanha Oriental eram a
parte rica de um aglomerado de países que gravitavam em torno da União Soviética.
Agora, são a parte pobre de um país muito rico.
Parece razoável considerar, ainda, que, além
da decepção e do ressentimento com os alemães ricos, os eleitores da extrema
direita (AfD) são motivados pelo saudosismo do velho regime autoritário e
estatizado — resquício do stalinismo —, desmantelado em 1989. Como um sintoma
de ligação com o passado, a AfD rejeita, em seu programa, o apoio da Alemanha à
Ucrânia, invadida pela Rússia, e defende o ensino de russo nas escolas alemãs.
Se assumir o governo da Saxônia-Anhalt, provavelmente implantará essa
modalidade de ensino de língua estrangeira. A vitória da ultradireita alemã,
vale a pena acrescentar, foi saudada com entusiasmo pelo presidente Vladimir
Putin.
E, em se tratando da Alemanha, não é estranho
que esse saudosismo de um regime autoritário desperte também o fantasma do
nazismo, com o antissemitismo alimentando a rejeição à imigração. O partido de
extrema direita defende uma reformulação do currículo escolar para reduzir a
presença da “cultura da memória”, centrada nos crimes do período nazista, e
promover, em seu lugar, eras de “sucesso”. A grande votação obtida pela AfD
entre os jovens na Saxônia-Anhalt — 42% dos eleitores de 18 a 24 anos — pode
invalidar a hipótese de saudosismo ou, ao contrário, indicar a seletividade da
memória das novas gerações, que minimizariam a ditadura violenta e o desastre
humano do nazismo. Entre os eleitores mais velhos, acima de 70 anos, a extrema
direita teve a menor votação, mas foi na faixa de 35 a 49 anos que o partido encontrou
a maior adesão: 52% votaram na AfD.
Apesar de se tratar de uma eleição num pequeno Estado da Alemanha, o resultado é preocupante, na medida em que confirma o crescimento da extrema direita no conjunto do país e demonstra a fragilidade da liderança do chanceler alemão, Friedrich Merz. Além disso, a ascensão da AfD anima as forças de direita na Europa e reforça o euroceticismo e a xenofobia, especialmente na França, na Itália e na Espanha, países onde a direita já é forte e que têm eleições previstas para os próximos anos. Do outro lado do Atlântico, não custa lembrar, Donald Trump aposta na fragmentação da Europa e no fortalecimento da direita mundial.
*Economista com mestrado em sociologia, foi jornalista da Deutsche Welle (de 1975/1979) e correspondente da IstoÉ na Alemanha (1977) e professor titular da FCAP/UPE (de 1982/2014).

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