segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Por salário de R$ 545, Dilma decide corrigir tabela do IR

Governo espera que reajuste, de 4,5%, ajude a vencer resistência de aliados

Se aplicado, percentual irá elevar a faixa de isenção do imposto de R$ 1.499 para R$ 1.566; centrais queriam mais

Ana Flor

Na semana em que tenta emplacar no Congresso o salário mínimo de R$ 545, o governo decidiu que irá corrigir em 4,5% a tabela do Imposto de Renda para 2011.

O reajuste da tabela significa que o trabalhador vai pagar menos imposto (veja quadro ao lado).

Em outras palavras, o governo aceita arrecadar menos para evitar o impacto nas contas de um mínimo acima dos R$ 545 -o salário é base para o pagamento de aposentadorias pelo INSS.

A votação do mínimo, marcada para quarta-feira, será o primeiro teste de fidelidade da base aliada do governo de Dilma Rousseff. Com a correção da tabela, o Planalto avalia que poderá convencer parte da base descontente com os R$ 545. As centrais, que defendiam uma correção do IR em 6,46%, não têm seu pleito atendido integralmente, mas conseguem manter uma regra que deixou de valer no ano passado.

As correções da tabela do IR em 4,5% ao ano de 2007 a 2010 foram adotadas após acordo para impedir que a reposição salarial pela inflação fosse tributada. O acordo não valia para 2011.

O anúncio será feito após a votação do mínimo e está condicionado à aprovação do valor proposto.

Se o percentual for confirmado, a faixa de isenção do IR passará de R$ 1.499 para R$ 1.566.

Estudos mostram que a defasagem na tabela do IR de 1995 até 2010 é de 64,1%.

Há duas semanas, na única vez em que respondeu sobre o tema, a presidente Dilma Rousseff já havia sinalizado concordar com um reajuste da tabela do IR com base no centro da meta inflacionária de 2011 -de 4,5%.

SURPRESAS

Além de PSDB e DEM, uma das principais resistências ao mínimo de R$ 545 é o presidente da Força Sindical, deputado Paulo Pereira da Silva, do PDT, partido aliado.

Publicamente, Paulinho e a oposição defendem valores acima de R$ 580, mas já falam em aceitar R$ 560 propostos pelo DEM. Segundo o líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza, o valor desejado pelo governo de R$ 545 deve vencer "sem surpresas".

Ontem, o cálculo de governistas era de que pelo menos 270 deputados votarão a favor da proposta -é necessário a maioria simples dos presentes.

Segundo a estimativa, em torno de cem deputados da base seriam "infiéis".Líderes do PT e PMDB prometem que suas bancadas votarão com o governo, apesar de muitos parlamentares simpatizarem com os R$ 560.

Além do argumento de que os R$ 545 seguem uma política de ganho real no governo Dilma, outro recurso utilizado para convencer os deputados é o pleito dos prefeitos, que afirmam não poder arcar com aumento do mínimo tão grande neste ano.

Na semana passada, o governo endureceu o discurso com os deputados de sua própria base ao chamar antecipadamente de "dissidentes" os que votarem contra o valor de R$ 545.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Relator do PT torce por antecipação do aumento de 2012

Escolhido pelo governo como relator do projeto de lei que reajusta o salário mínimo na Câmara, o deputado Vicentinho (PT) diz "torcer" por um acordo que permita a antecipação de parte do aumento previsto para 2012.

O governo quer aumentar o mínimo para R$ 545 neste ano e manter a regra atual (inflação mais a variação do PIB de dois anos antes), o que elevaria o salário a pelo menos R$ 613 em 2012.

É o que prevê o projeto de lei sobre a política de reajustes do mínimo, enviada pelo Planalto ao Congresso.

"Se houvesse uma negociação no sentido de antecipar uma parte do reajuste do ano que vem, seria bom", disse o deputado.

Vicentinho afirma, no entanto, que a antecipação do aumento só entrará em seu relatório se houver acordo.

"Estou torcendo. Quem negocia não sou eu, são as centrais e o governo", afirmou o relator, ex-sindicalista escolhido para ser mais um interlocutor com os deputados descontentes das centrais sindicais.

A nova proposta articulada pelo deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), presidente da Força Sindical, é de um salário mínimo de R$ 560. Os R$ 15 que ultrapassam a intenção do governo seriam pagos como adiantamento do reajuste de 2012.

Vicentinho classifica os próximos dias, até a votação na quarta-feira, como "de intensa negociação".

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Governo exige fidelidade da base e prevê vitória folgada na votação do mínimo

Planalto espera que proposta de R$ 545 seja aprovada por pelo menos 350 votos

Gerson Camarotti e Regina Alvarez

BRASÍLIA. Tratada como o primeiro grande teste político do governo Dilma, a votação do projeto de lei que fixa o salário mínimo em R$ 545 para 2011, prevista para quarta-feira, é o foco das atenções do governo esta semana.

O Palácio do Planalto está irredutível na disposição de manter este valor do mínimo e as bases do acordo fechado comas centrais sindicais, ainda no governo Lula. Segundo assessores diretos, Dilma vai determinar , na reunião de coordenação política de hoje, que seus articuladores no Congresso exijam fidelidade dos aliados para garantir a aprovação do projeto nesses moldes, sem ceder aos apelos das centrais sindicais, que defendem um mínimo de R$ 560 em 2011. A presidente quer usar essa votação como um termômetro para medir a dimensão real de sua base parlamentar e contar os infiéis.

Esse critério será adotado, inclusive, na distribuição dos cargos do segundo escalão. Estrategicamente, a partilha política dos cargos só será feita depois da votação. Avaliação feita no fim de semana por integrantes do Palácio do Planalto indicava um risco mínimo de derrota na votação do projeto. Alguns assessores arriscaram prever “chance zero” de um recuo no valor de R$ 545, na votação de quarta-feira. Como um projeto de lei é aprovado por maioria simples — metade mais um dos parlamentares presentes — o governo avalia que precisará pouco mais de 230 votos para garantir o valor do mínimo. E a contabilidade feita ontem indicava que 350 votos estão garantidos. — Não tem plano B.

O governo vai fazer o “teste de resistência de material” para saber a consistência da base aliada. Não há motivo para descontentamento da base, porque só agora começará a divisão dos cargos de segundo escalão— disse o líder do PT, deputado Paulo Teixeira (SP), completando: — O endurecimento do governo com o mínimo de R$ 545 sinaliza uma linha de austeridade que começou com o corte de gastos públicos para combater a inflação. O risco inflacionário será um dos argumentos usados pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, e pelo secretário-executivo da Fazenda, Nelson Barbosa, nos encontros, amanhã, com as bancadas na Câmara dos Deputados. Ao mesmo tempo, a pasta de Relações Institucionais iniciou uma mobilização junto a prefeitos preocupados com as contas municipais, caso o mínimo suba para R$ 560. A ordem no Palácio do Planalto é ganhar a batalha como apoio da opinião pública e, com isso, isolar as centrais sindicais. O governo advertiu que, num cenário de valor superior a R$545 para o mínimo, os cortes no Orçamento teriam que ser ampliados. Esse alerta teria o efeito psicológico de assustar ainda mais os aliados.

Por outro lado, as centrais sindicais e a oposição também estão fortemente mobilizadas para a batalha do mínimo esta semana no Congresso. E esperam contar com a adesão de parlamentares descontentes da base aliada. O próprio governo já identificou um clima de grande insatisfação na base, não apenas pelos cortes nas emendas parlamentares, mastambém pelo atraso na distribuição dos cargos do segundo escalão. Diante disso, alguns partidos como PSB e PCdoB já estudam a possibilidade de fechar questão a favor de um valor maior para o salário mínimo. Mas é a bancada do PMDB, em queda de braço com o Planalto pelos cargos de segundo escalão, que está na mira palaciana. A estratégia é acompanhar o comportamento dos aliados nas votações nominais.

Apesar do rolo compressor do governo, as centrais sindicais apostam em uma virada com a ajuda da oposição e dos insatisfeitos da base governista. Para o deputado Paulo Pereira, o Paulinho da Força (PDT-SP), que preside a Força Sindical, há uma chance de acordo, se o risco de derrota do governo em plenário aumentar: — O governo está com muito problema. Háinsatisfação generalizada com os cortes das emendas, além da demora para nomeação de cargos. E isso pode ajudar na mobilização pelo mínimo de R$ 560.

Relator do projeto diz que ainda torce por um novo acordo

Já o deputado Vicentinho (PT-SP), relator do projeto do mínimo, disse que defenderá os R$ 545,mas isso não impede que torça por um novo acordo entre governo e centrais para antecipar parte do reajuste previsto para o mínimo no ano que vem. — Vou representar o projeto da presidente e da bancada do PT, no caso, o acordo atual de R$ 545, mas isso não significa que não torça por um novo acordo para que melhore. Muita coisa pode acontecer até quarta-feira — disse:—Acordo é para ser cumprido. Como atual, tivemos 53% de aumento real em quatro anos. Mas nenhum acordo é quebrado com um novo acordo.

FONTE: O GLOBO

MPs de Lula complicam governo Dilma

A presidente Dilma Rousseff terá que administrar uma herança pesada do governo Lula no Congresso: 21 medidas provisórias, muitas aumentando gastos e criando cargos, na contramão das medidas de austeridade do governo.

Medidas provisórias editadas no governo Lula se chocam com orientação para cortar gastos

Cristiane Jungblut e Isabel Braga

BRASÍLIA - A presidente Dilma Rousseff recebeu uma pesada e antiga herança do governo Lula no Congresso Nacional. Entre as 24 medidas provisórias que tramitam na Câmara e no Senado, 21 foram editadas no governo passado, sendo que dez estão trancando a pauta de votações da Câmara. Muitas dessas medidas vão na contramão do corte de R$ 50 bilhões anunciado na semana passada, pois implicam na criação de cargos e no aumento dos gastos públicos. Aliados acreditam que o Congresso votará até maio propostas antigas, anão ser que se use a janela inaugurada agora por Dilma para enviar por projeto a matéria que trata do salário mínimo.

O temor é que a janela, criada na gestão do ex-presidente da Câmara e hoje vice-presidente Michel Temer, uma vez aberta, sirva para os parlamentares colocarem projetos explosivos em votação. Uma das MPs que poderá gerar polêmica na votação, inclusive entre integrantes da base aliada, é a que cria a Autoridade Pública Olímpica (APO), ratificando o protocolo assinado entre União, o estado do Rio de Janeiro e o município do Rio, que cria o consórcio de ação para garantir a preparação e realização das Olimpíadas de 2016. A MP cria 484 cargos em comissão.
Entres eles, 184 com salários que variam de R$ 18 mil e 22,1 mil. A oposição está pronta para bombardear a criação demais cargos federais e a falta de fiscalização da estrutura.Mas a MP também provoca briga na base aliada. O cargo a ser criado é pleiteado pelo PCdoB, mas Dilma pretende nomear o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles, justamente para dar maior visibilidade e garantir o cumprimento dos prazos das obras.

Na herança de Lula também há uma MP que cria uma empresa para administrar hospitais universitários, ligada ao Ministério da Educação. A empresa será administrada por um conselho de administração e uma diretoria executiva. A MP estabelece que a empresa terá sede em Brasília,mas poderá manter escritórios, representações, dependência e filiais em outros estados. Para que a empresa seja implantada, autoriza a contratação, por tempo limitado e sem licitação, de pessoal técnico e administrativo, até que seja feito concurso público. A oposição vai apontar, além do aumento de gastos, a inconstitucionalidade da medida, alegando que fere a autonomia universitária.

Variedade de temas abre brecha para emendas

O governo Dilma Rousseff também deverá enfrentar problemas com a bancada ambientalista na votação de MP que, entre outras coisas, institui o Regime Especial de Incentivos para o Desenvolvimento de Usinas Nucleares (Renuclear). Antes mesmo de conseguir no Congresso a autorização para a instalação de usinas, o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, já oferece incentivos, na tentativa de induzir investimentos nesse tipo de energia. Já há estados brigando para sediar as novas usinas. A mesma MP que institui o Renuclear trata de outros 12 temas diferentes.Mesmo caso da MP 513/10, com oito assuntos distintos. Isso sempre abre margem para a apresentação de emendas por parte dos parlamentares, quepoderão aumentar gastos públicos, os chamados “jabutis”.

Na lista de MPs do governo passado, estão ainda a liberação de crédito para o BNDES. Sobrou para o governo Dilma uma dívida de R$ 30 bilhões pela concessão de novo crédito ao BNDES, para aumentar a participação do banco na capitalização da Petrobras. Outra MP autoriza a União, a critério do Ministério da Fazenda, a emprestar até R$ 20 bilhões ao BN- DES para o uso em financiamentos do projeto do Trem de Alta Velocidade, que ligará os municípios do Rio e de Campinas (SP). A primeira MP da lista, a 501, deverá causar constrangimentos ao governo. Isso porque ela sofreu emendas no Senado, voltando para a Câmara, impostas justamente pelo líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR).

O líder do governo na Câmara, deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), admitiu que não será fácil se livrar das MPs, mas argumentou que elas fazem parte do processo de governar e da vida do Legislativo. — Vai ser difícil —- disse Vaccarezza, sobre o trabalho de limpar a pauta. Semana passada, a presidente Dilma deu demonstrações de que não quer ficar refém de assuntos do governo passado. Dilma recorreu a uma manobra para enviar ao Congresso o projeto que trata da correção do salário mínimo, permitindo que ele passe à frente das MPs que trancam a pauta.
O Palácio do Planalto espera que o presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), agilize as votações. Semana passada, a primeira com votações na Casa, foram votadas duas MPs, sem maiores problemas.

FONTE: O GLOBO

Militares egípcios dissolvem Parlamento e anunciam eleição

A junta militar, à qual o presidente deposto Hosni Mubarak transferiu seus poderes na sexta-feira, atendeu a uma das demandas dos manifestantes e anunciou a dissolução do Legislativo, desmoralizado por denúncias de fraude e com 95% das cadeiras atribuídas ao Partido Nacional Democrático, do governo. O conselho diz que ficará no poder durante seis meses ou até a realização do pleito presidencial, originalmente previsto para setembro. Afirmou ainda que a reforma da Constituição, a ser conduzida por juristas para garantir eleições justas e liberdades civis, será submetida a referendo popular.

Militares dissolvem Parlamento e suspendem Constituição no Egito

Conselho das Forças Armadas assegura que governará o país por seis meses, até a entrega do poder aos vencedores da próxima eleição

Lourival Sant’Anna

O Conselho Supremo das Forças Armadas anunciou ontem que ficará no poder no Egito durante seis meses, ou até a realização de eleição presidencial - originalmente prevista para setembro -, a dissolução do Parlamento e a suspensão da Constituição.

A junta, à qual o presidente deposto Hosni Mubarak transferiu seus poderes na sexta-feira, atendeu a uma das demandas dos manifestantes ao anunciar a dissolução do Legislativo eleito em dezembro - desmoralizado por denúncias de fraude, com 95% das cadeiras atribuídas ao Partido Nacional Democrático, do governo. O conselho disse ainda que a reforma da Constituição, a ser conduzida por juristas, para garantir eleições justas e liberdades civis, será submetida a referendo popular.

Quanto à suspensão das leis de emergência impostas por Mubarak em 1981, outra reivindicação do movimento pró-democracia iniciado no dia 25, o comunicado das Forças Armadas disse que ela ocorrerá quando "acabarem as atuais circunstâncias". O comunicado não deu detalhes, mas se referia à permanência de manifestantes - ainda que apenas algumas centenas - na Praça Tahrir, no centro do Cairo, e principalmente à dissolução na prática da polícia, que desapareceu das ruas na primeira semana de protestos.

De acordo com o novo ministro do Interior, Mahmoud Wagdy, apenas 35% do efetivo policial voltou ao trabalho. Nas ruas do Cairo, a maior parte da polícia visível é de trânsito. Os policiais são detestados pela população por sua brutalidade. O espancamento até a morte de Khaled Said, de 28 anos, em Alexandria, em junho, foi o desencadeador dos protestos do dia 25, Dia da Polícia no Egito. Um grupo de policiais reuniu-se ontem na frente do Ministério do Interior, exigindo melhores salários. O ministro - como todo o gabinete nomeado dia 29 por Mubarak, na tentativa de aplacar os protestos - pediu "o rápido retorno dos policiais ao dever", lembrando que 13 mil criminosos foram soltos das prisões - último ato da polícia, para provocar o caos, antes de desaparecer das ruas.

Integrantes da Polícia do Exército, com boinas vermelhas, e soldados regulares entraram em confronto ontem de manhã com manifestantes que se recusavam a liberar o trânsito nas ruas que cruzam a Praça Tahrir. Segundo testemunhas, cerca de 50 pessoas foram presas. No final da manhã, os manifestantes relutantemente recuaram para as calçadas ou voltaram para casa, enquanto os carros trafegavam pelo importante ponto de intersecção no centro do Cairo pela primeira vez em 19 dias.

Os manifestantes renitentes dizem que permanecerão na praça até que o Exército cumpra a sua promessa de conduzir o país à democracia. Muitos voluntários chegaram à praça com um estado de ânimo muito diferente: o de limpar a área. Embora voluntários tenham recolhido o lixo durante as quase três semanas de ocupação, havia muito entulho dos acampamentos e restos de cartazes e comida para remover. Muitos trouxeram vassouras e pás, e varriam as calçadas meticulosamente, como se estivessem em casa. Outros trouxeram pincéis e tinta preta e branca e pintaram os meios-fios. Mais lojas e escritórios abriram ontem do que na véspera, mas a maioria permanece fechada na região central do Cairo.

O diplomata Mohamed ElBaradei, uma das principais figuras da oposição, exortou os militares a convocar rapidamente líderes civis para discutir a transição. "Precisamos de uma pesada participação dos civis", disse ele à rede de TV CNN. "O Exército não pode dirigir o espetáculo."

Atendendo à junta militar, que pediu que a equipe do governo deposto administrasse o país até a formação de novo gabinete, os ministros se reuniram ontem pela primeira vez sem o enorme retrato a óleo de Mubarak que ocupava boa parte de uma parede de sua sala. O primeiro-ministro Ahmed Shafik disse que o gabinete se reportará ao Conselho Supremo: "Não há mudança no método de trabalho. As coisas estão completamente estáveis."

Shafik admitiu que, "se necessário", o gabinete pedirá o congelamento dos bens de Mubarak no exterior, mas que isso ainda não foi feito. O presidente e seus dois filhos são acusados de ter formado uma fortuna de US$ 70 bilhões, intermediando todos os negócios importantes no Egito. Eles teriam propriedades na Califórnia, em Londres e noutras cidades europeias. O primeiro-ministro acredita que Mubarak esteja no balneário egípcio de Sharm El-Sheikh, no Mar Vermelho. Ele não é visto em público desde a transmissão de seu pronunciamento gravado, na noite de quinta-feira, no qual disse que não renunciaria.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Italianas protestam contra escândalo sexual de Berlusconi

Foto: L'Unità
Catherine Hornby

ROMA (Reuters) - As mulheres italianas fizeram protestos em todo o país neste domingo, enfurecidas pelo escândalo sexual do primeiro-ministro Silvio Berlusconi, que dizem ter ferido sua dignidade e reforçado estereótipos de gênero ultrapassados.

Milhares de manifestantes marcharam em Nápoles e Palermo, portando cartazes pedindo a renúncia de Berlusconi e gritando frases como "A Itália não é um bordel", como mostraram imagens de televisão.

Organizados através de uma petição na Internet, os protestos refletem a crescente revolta das mulheres com o premiê, que em breve pode enfrentar um julgamento por conta de um escândalo de prostituição em um país onde as mulheres de classe média são parte significativa de seu eleitorado.

Lideradas por atrizes, políticas e outras mulheres de destaque, as marchas acontecem em mais de 200 cidades por toda a nação eminentemente católica ainda neste domingo. Protestos também foram planejados em outros países, dos Estados Unidos à Grécia.

"Estamos pedindo a todas as mulheres que defendam o valor de nossa dignidade, e perguntando aos homens: se não agora, quando?", disseram organizadoras no site do protesto.

Na quarta-feira, promotores entraram com um pedido para julgar Berlusconi, acusando-o de pagar por sexo com uma dançarina de clube noturno quando ela era menor de idade, o que é ilegal na Itália.

O político de 74 anos afirmou que as acusações eram "repugnantes e grosseiras" e disse que a promotoria de Milão age com "objetivos subversivos" para atingi-lo.

O escândalo reacendeu clamores da oposição para que Berlusconi renuncie, enquanto ele se agarra ao poder após uma cisão no partido governista PDL no ano passado.

Berlusconi sobreviveu a escândalos sexuais no passado e muitas de suas apoiadoras parecem indiferentes pelo caso mais recente, denunciando o que veem como um ardil puritano e de motivações políticas.

Muitas delas participaram de passeatas pró-Berlusconi nesta semana para mostrar seu apoio.

"Nós o apoiamos de todo coração", disse Stella Falcetta com lágrimas nos olhos em uma manifestação em Milão na sexta-feira. "Porque, como ele diz, o amor vence o ódio."

O presidente Giorgio Napolitano alertou que a tensão política está muito alta e disse a Berlusconi em uma reunião no mesmo dia que a Itália corre o risco de enfrentar novas eleições como resultado.

Vazamentos da investigação aparecem nos jornais há semanas, com referências a pilhas de dinheiro, conversas sobre jogos sexuais e presentes que mulheres recebem após participar de festas na vila de Berlusconi.

As participantes dos protestos dizem que a imagem das mulheres como objetos sexuais afetou as relações entre os gêneros e disseminou uma cultura na qual as mulheres enxergam a exploração de sua beleza como o único caminho para o sucesso.

"Peitos grandes, cintura fina, e sempre disponível: isso se tornou quase uma ditadura, porque a televisão, os jornais só mostram este modelo de mulher", disse Lorella Zanardo, autora de "Il Corpo Delle Donne", livro sobre a imagem da mulher na mídia.

"A imagem da mulher forte e emancipada luta para emergir aqui, mesmo a Itália estando cheia de mulheres assim."

FONTE: O GLOBO

João Bosco & Guinga

Medo:: Graziela Melo

Se arrastam
os dias,
às vezes!

Outras,
loucos,
se vão!

E vem
o medo
da morte

E
se esconde
no coração!!!

Manhã bela!
Nuvens
tímidas

Me ofuscam
os raios
do sol!!!

Das árvores,
o doce
gemido

do canto
do rouxinol!!!


Rio de Janeiro, 11/02/2011

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Reflexão do dia – Senador Aloysio Nunes

Lula sobre mensalão, na festa do PT: 'Quando um companheiro nosso tiver problema, na dúvida, a gente tem que estar com o companheiro da gente'. Faltou Lula dizer que, quando se descobre que um companheiro é culpado, deve-se passar a mão na cabeça dele e perdoá-lo imediatamente.

Senador Aloysio Nunes, Twitter, 11 fevereiro. 2011.

Junta egípcia promete passar poder a civis e garante acordos com Israel

Conselho militar tranquiliza população e comunidade internacional; alguns ex-ministros são proibidos de deixar o país sem autorização

Lourival Sant’Anna

O comando das Forças Armadas do Egito divulgou ontem um comunicado reafirmando seu compromisso de realizar a transição para um governo civil eleito democraticamente. O comunicado diz também que o Conselho Supremo das Forças Armadas - a quem o presidente Hosni Mubarak entregou o poder na sexta-feira - pediu ao gabinete que continue administrando o país até que um novo governo de transição seja formado.

Na declaração direcionada para tranquilizar tanto a sociedade egípcia quanto os vizinhos da região, o Conselho proibiu a saída do país de autoridades do antigo governo sem sua autorização e prometeu honrar todos os acordos internacionais vigentes, incluindo o pacto de paz com Israel, firmado em 1979. Em Jerusalém, o premiê israelense, Binyamin Netanyahu saudou o comunicado.

Vários ex-ministros, incluindo o do Interior, Habib El-Adly, e membros do Partido Nacional Democrático, do governo, como o bilionário Ahmed Ezz, estão sendo investigados por corrupção e abuso de autoridade.

O paradeiro do próprio Mubarak parecia incerto ontem. Na sexta-feira, um funcionário do partido informou que ele tinha ido com a mulher, Suzanne, para Sharm El-Sheikh, um balneário egípcio no Mar Vermelho. Mas ontem havia rumores de que ele teria ido para o Golfo Pérsico ou para a Europa.

Seu filho, Gamal, que supostamente estava sendo preparado para sucedê-lo antes de os protestos eclodirem no dia 25, parece estar em Londres, onde a família tem negócios.

Mubarak e os filhos são acusados de terem desviado US$ 70 bilhões em dinheiro público. Virtualmente todo negócio importante no Egito tinha de passar pela família.

O Exército mudou ontem o início do toque de recolher, das 20 horas para a meia-noite, indo até as 6 horas do dia seguinte. Os militares começaram a remover as barreiras que fechavam os acessos à Praça Tahrir, epicentro da revolta que derrubou o presidente, no poder havia 30 anos.

Voluntários recolhiam o lixo e retiravam as tendas nas quais milhares de manifestantes acamparam durante os 18 dias de protestos. Mas milhares de pessoas ainda permaneciam ontem na praça. A maior parte celebrava a "vitória da revolução". Outra parte disse que continuaria lá para ver se os militares cumpririam realmente a sua promessa.

"Estamos aqui para ver se vai haver mesmo mudanças", disse Khaled Salah, de 22 anos, dono de uma pequena loja de celulares, fechada desde o dia 25. "Tenho medo de que sejam só palavras, e não mudanças de fato."

Fawzy Gohar, de 22 anos, estudante de comércio na Universidade Zagazig, disse que continuará na praça porque não quer que os militares continuem governando o país, que desde a revolução de 1952 que derrubou a monarquia tem tido presidentes militares. "Gosto de Amr Moussa", declarou Gohar, referindo-se ao ex-chanceler de Mubarak e secretário-geral da Liga Árabe, que apoiou os protestos contra o regime desde o começo.

"Estou muito feliz", disse Mourade Bibras, de 23 anos, estudante de pedagogia na Universidade Ain Shams, que comemorava a queda de Mubarak usando uma camisa da seleção brasileira. "Nós confiamos no Exército, mas vamos continuar na praça para garantir que sejam adotadas as medidas para melhorar a economia e a educação."

Depois de 18 dias em que os egípcios de diferentes classes sociais e filiações ideológicas se sentiram unidos, muitos pareciam resistir à ideia de voltar a suas vidas de antes. Todos os líderes e analistas políticos ouvidos pelo Estado disseram acreditar que o Exército fará a transição democrática, e não há sinais de divisão na cúpula militar.

"Confio no Exército", disse Abdel Haleem Kandeel, dirigente do movimento pró-democracia Kefaya (Basta!), fundado em 2004. "O comando mantém-se sempre unido e se move em bloco, seja quando apoiou Mubarak, quando retirou o apoio e agora na transição." De acordo com Ayman Nour, líder do partido de oposição Al-Ghad (O Amanhã), que enfrentou Mubarak na última eleição presidencial, em 2005, e depois ficou quatro anos preso, os comandantes estão unidos em torno do ministro da Defesa, marechal Mohamed Hussein Tantawi, que chefia o Conselho Supremo das Forças Armadas.

O gesto mais eloquente de respeito ao movimento pró-democracia partiu do comandante das Forças Armadas, general Sami Adnan, durante a leitura do comunicado na noite de sexta-feira, em que o Conselho assumiu os poderes deixados pelo presidente. Adnan bateu continência para o "espírito daqueles que se martirizaram, que sacrificaram suas almas pela liberdade e segurança de seu país", dando a entender que os militares e os manifestantes estavam do mesmo lado.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Grupo de oposição no Egito encerra protestos no Cairo, mas promete manifestações semanais

CAIRO - O principal grupo de jovens e opositores ao governo Hosni Mubarak no Egito decidiu encerrar os protestos na Praça Tahrir, no Cairo, onde se concentraram durante 18 dias até derrubarem o ditador. Os manifestantes afirmam, no entanto, que vão convocar manifestações semanais para pressionar os militares a realizar reformas democráticas. Ainda assim, outros prometeram continuar acampados na praça. A oposição segue sem uma clara liderança e não está toda unida.

Em dois comunicados, grupos à frente das manifestações cobraram a suspensão do estado de emergência que vigora desde 1981, quando Mubarak assumiu a Presidência. Eles também exigiam das Forças Armadas a libertação de presos políticos e a dissolução de cortes militares. O grupo que está por trás do "Comunicado Número 1" é composto por membros de partidos políticos, além de médicos, advogados e engenheiros, entre outros representantes da sociedade.

Os reformistas cobravam, ainda, que um conselho de transição com cinco integrantes - quatro civis e um militar - assumisse o controle do país até as próximas eleições. Eles também pediam liberdade de imprensa e de organização partidária.

À tarde, manifestantes anunciaram a criação de um conselho para defender o movimento e negociar com os militares. O grupo reuniria 20 pessoas, entre organizadores dos protestos, figuras importantes no país e líderes políticos de diferentes origens.

- O objetivo do Conselho de Curadores é manter diálogo com o Conselho Supremo e levar a revolução adiante para uma fase de transição - afirmou Khaled Abdel Qader Ouda, acadêmico ligado ao grupo. - O conselho terá autoridade para convocar protestos ou suspendê-los dependendo de como a situação se desenvolver.

Antes, as Forças Armadas, para as quais Mubarak passou o poder ao renunciar, divulgaram comunicado prometendo entregar o poder após as eleições, que, segundo a Constituição egípcia, devem acontecer dentro de dois meses. O Exército também afirmou que respeitará os acordos internacionais e, por enquanto, manterá o Gabinete de Mubarak. No fim da tarde, o chefe do conselho militar, Mohamed Hussein Tantawi, encontrou-se com ministros para acertar a volta do país à normalidade. Com o ministro do Interior, Mahmoud Wagdy, Tantawi tratou do retorno da polícia ao serviço o mais rapidamente possível. A polícia deixou as ruas nos primeiros dias da revolta contra Mubarak.

De acordo com autoridades aeroportuárias, integrantes do antigo e do novo governos só podem viajar dom autorização.

Barricadas são desmontadas na Praça Tahrir

A tranquilidade, as dúvidas e a esperança se misturam no Egito. Manifestantes que ainda estavam nas ruas pedem que Mubarak seja julgado e multiplicam os rumores de que ele teria deixado o país depois de sair do Cairo. A Praça Tahrir, símbolo dos protestos, começa a voltar à normalidade. Os militares começaram a desmontar barricadas e o povo se organiza para limpar o local.

No Parlamento, para onde os manifestantes se dirigiram nos últimos dias, já não há mais barricadas. O tráfego começa a voltar ao caos habitual. Apesar da sensação de vitória, egípcios não descartam a possibilidade de retomar os protestos caso o novo governo não cumpra com suas promessas de atender às demandas do povo.

FONTE: O GLOBO

Milhares de argelinos vão às ruas para pedir democracia

Milhares de pessoas desafiaram a proibição oficial de manifestações na capital argeliana e se reuniram no centro da cidade para exigir mudanças no regime de governo, um dia após protestos similares terem derrubado o presidente egípcio, Hosni Mubarak.

Policiais fortemente armados tentaram isolar a cidade de Argel, bloqueando ruas ao longo da rota da passeata e colocando barricadas do lado de fora da cidade para tentar impedir que ônibus lotados de manifestantes chegassem à capital. Apesar disso, milhares de pessoas foram para as ruas de Argel e entraram em confronto com a polícia.

Milhares de pessoas tomaram o centro de Argel aos gritos de "não à polícia" e "fora Bouteflika", uma referência ao mandatário argeliano, Abdelaziz Bouteflika, que está no poder desde 1999.

Ali Yahia Abdenour, que dirige a Liga Argeliana para Defesa dos Direitos Humanos, disse que 400 pessoas, dentre elas mulheres e jornalistas estrangeiros, foram presas durante as manifestações deste sábado, que acontecem um dia após uma revolta popular ter derrubado o regime autocrático do Egito. Abdenour, que tem 83 anos, foi cercado por forças de segurança, que tentaram convencê-lo a ir para casa.

A marcha surge em um momento delicado para Argélia. Uma revolta popular de 18 dias no Egito provocou a renúncia de Hosni Mubarak, semanas depois de o presidente tunisiano, Zine El Abidine Ben Ali, ter deixado o poder. O sucesso destas manifestações parece alimentar esperanças entre aqueles que buscam mudanças na Argélia, ainda que muitos temam qualquer perspectiva de violência após a guerra civil de 1990, que deixou 200 mil mortos.

Organizada pela Coordenação para Mudança Democrática na Argélia - um grupo formado por ativistas de direitos humanos, advogados, sindicalistas e outras categorias -, a marcha visa a pressionar por reformas que conduzam o país em direção à democracia.

O nível de tensão é alto no país de 35 milhões de habitantes, localizado no norte da África, desde a realização de cinco dias de protestos em janeiro contra a alta dos preços dos alimentos. Apesar de suas vastas reservas de gás, a Argélia é marcada por altos níveis de pobreza e desemprego. Alguns acreditam que o país pode ser o próximo a realizar protestos populares que já derrubaram dois líderes árabes em um mês.

De acordo com o estado de emergência, que já dura quase duas décadas no país, as manifestações são proibidas na capital, mas muitos ignoraram as advertências do governo. Um ativista disse que os protestos deste sábado são um marco.

"Esta manifestação é um sucesso porque há dez anos as pessoas não conseguem marchar por Argel e há uma certa barreira psicológica", disse Ali Rachedi, ex-presidente do partido Frente das Forças Socialistas. "O medo foi embora."

Os organizadores estimam que 28 mil integrantes das forças de segurança estavam nas ruas durante os protestos, que segundo eles atraiu 10 mil participantes. Já o governo diz que cerca de 1.500 pessoas participaram da marcha.

Said Sadi, presidente do partido opositor Reunião para Cultura e Democracia, disse que a quantidade de policiais destacados para o protesto mostra "o temor deste governo, que está em desespero". "Vamos continuar a nos manifestar e desafiar as autoridades até que caiam", prometeu Sadi.

FONTE: Associated Press.

Irã diz que não vai permitir manifestação da oposição

Um funcionário do Ministério do Interior iraniano disse neste sábado que o governo não vai permitir que a oposição realize uma manifestação em apoio aos levantes árabes ocorridos na Tunísia e no Egito. Membros do regime iraniano acreditam que a concentração é uma tentativa de realizar novos protestos contra o governo.

Os líderes opositores Mir Hossein Mousavi e Mehdi Karroubi haviam pedido permissão ao Ministério para realizar, na segunda-feira, uma demonstração de solidariedade aos povos da Tunísia e do Egito.

"Esses elementos estão perfeitamente cientes da natureza ilegal do pedido. Eles sabem que não daremos permissão para tumultos", disse Mehdi Alikhani Sadr, funcionário da divisão política do Ministério, segundo a agência de notícias Fars.

Permissão para "tumultos de incitadores" não será concedida, disse ele, referindo-se aos líderes opositores que funcionários do regime acusam de ter espalhado os protestos realizados após a controversa reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad em 2009.

Partidários do governo dizem que os líderes opositores querem usar a manifestação em apoio aos egípcios e tunisianos para demonstrarem sua insatisfação com o regime. Os protestos de 2009 deixaram dezenas de mortos, centenas de feridos e milhares foram detidos. Embora Teerã não permita que o movimento opositor realize manifestações, a oposição declarou seu apoio aos tunisianos e egípcios.

O próprio Ahmadinejad disse na sexta-feira que era um "direito" dos egípcios protestar contra o aliado dos Estados Unidos, Hosni Mubarak, horas antes de o presidente renunciar.

FONTE: AGÊNCIA ESTADO

Príncipe Mulay Hicham, do Marrocos, prega abertura política antes que seu país também seja sacudido por protestos

PARIS - O príncipe Mulay Hicham, de 46 anos e terceiro na linha de sucessão no trono do Marrocos, considera, em entrevista telefônica concedida em Paris, que a revolta que sacode o sul do Mediterrâneo chegará a seu país. Autor de artigos acadêmicos sobre o mundo árabe, o príncipe fundou, na Universidade de Princeton, o Instituto de Estudos Contemporâneos Transregionais do Oriente Médio, Norte da África e Ásia Central.

Apelidado de "Príncipe Vermelho" devido à sua campanha pela democratização do regime político marroquino, Hicham já criticou publicamente em diversas ocasiões a monarquia do país, e por isso, mantém uma tensa relação com seu primo, o rei Mohamed VI, no poder há dez anos. Ele acredita que o governo de seu primo tem a difícil tarefa de redinamizar a vida política do país antes que também o Marrocos passe pela revolta popular que se propaga no mundo árabe.

Afirmando que o mal-estar na região podia ser constatado já há muitos anos, o príncipe sublinha que os acontecimentos na Tunísia e no Egito derrubaram o muro simbólico do medo erguido na cabeça dos árabes e, por isso, Rabat precisa promover reformas antes que seja tarde. "A amplitude do poder monárquico desde a independência é incompatível com as novas reivindicações", afirma Mulay Hicham.

FONTE: O GLOBO

Obama saúda compromissos assumidos por militares no Egito

WASHINGTON (AP) - O presidente Barack Obama parabenizou os compromissos assumidos pelos novos governantes militares no Egito, que prometem entregar o poder a um governo civil eleito e cumprir um tratado de paz com Israel.

Nas ligações que fez para vários líderes estrangeiros, Obama reafirmou sua admiração pelo povo do Egito, que forçou a renúncia do antigo líder, Hosni Mubarak, após 18 dias de protestos. Obama se comprometeu a fornecer todo o apoio solicitado pelo Egito, incluindo apoio financeiro, de acordo com informações da Casa Branca.

Os militares assumiram o controle do país após a renúncia de Mubarak. Os pronunciamentos de sábado foram bem recebidos não só pelos EUA, também por Israel, cujos líderes estavam preocupados que as turbulências no Egito poderiam ameaçar o acordo de paz entre os dois países.

A Casa Branca disse que Obama conversou com três líderes mundiais neste sábado: o primeiro-ministro britânico, David Cameron; o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan; e o rei Abdullah da Jordânia, que também enfrenta protestos em seu país.

Autoridades dos EUA têm observado as manifestações na Jordânia e outros países do Oriente Médio. Obama disse aos líderes que ele acreditava que a democracia traria mais, não menos, estabilidade para a região.

FONTE: O GLOBO

Itália vive dia de manifestações contra Berlusconi

Foto L'UnitàProstestos acontecem em 30 cidades, como Turim, Veneza e Palermo

ROMA - Manifestantes em cerca de 30 cidades da Itália saem às ruas neste sábado para protestar contra o primeiro-ministro do país, Silvio Berlusconi, para quem a Procuradoria pediu indiciamento na Justiça devido ao escândalo sexual da garota Ruby.

Turim, Veneza e Palermo são algumas das cidades onde as ruas são palco de novos protestos convocados pelo movimento social do Povo Violeta ("Popolo Viola", em italiano), um dos mais críticos ao líder.

As maiores mobilizações civis estão previstas para Roma e Milão. Nesta última cidade, a manifestação está marcada para as 11h local (8h de Brasília) em frente ao Palácio de Justiça onde Berlusconi tem dois julgamentos e uma audiência pendentes, além do caso Ruby, no qual é acusado de abuso de poder e incitação à prostituição de menores.

Já na capital italiana, a concentração está convocada para as 16h (13h de Brasília) na Praça dos Santos Apóstolos. O mesmo horário é para quando estão marcadas mobilizações em cidades como Palermo, Pescara e L'Aquila.

Além das cidades italianas, os protestos contra Berlusconi convocados pelo Povo Violeta serão também realizados neste sábado em Amsterdã, Bruxelas, Londres, Nova York, Zurique (Suíça) e Manchester (Reino Unido).

"Estaremos diante das delegações do Governo e em muitos lugares simbólicos para afirmar nossa oposição ao presidente do Governo", indica o porta-voz do Povo Violeta, Gianfranco Mascia, em comunicado.

"Saímos às ruas para defender nossa amada Constituição, que nos protege dos abusos, tornando-nos iguais perante a lei. Saímos às ruas porque não compartilhamos das políticas da maioria governamental e da compra e venda de votos", acrescenta.

O caso Ruby se refere à garota marroquina Karima El Mahrug, conhecida como Ruby, que teria praticado serviços sexuais durante festas de Berlusconi, e o próprio premiê teria remunerado a garota por isso.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Valores universais:: Merval Pereira

As revoluções ocorridas na Tunísia e no Egito, para o ex-presidente de Portugal Jorge Sampaio, Alto Representante da ONU para a Aliança das Civilizações, são a melhor ilustração de que os direitos humanos, tal como a democracia, são valores universais e, como tais, devem prevalecer nos países árabes.

“O que vimos os seus povos reclamar? Liberdade, direitos e democracia”, comemora, para ressaltar: “Quem pretendia que as divisões entre o Norte e o Sul do Mediterrâneo eram clivagens de civilização tem nesses exemplos amais bela demonstração de que assim não é”. Jorge Sampaio destaca que “não vimos coptas (egípcios cujos ancestrais abraçaram o cristianismo,um dos principais grupos etno-religiosos do país) contra muçulmanos, nem condenações de religião alguma. Não vimos guerras entre etnias, nem raças, nem culturas, nem religiões. Vimos apenas homens e mulheres reivindicando liberdade, dignidade, justiça e democracia”.Em definitivo, diz ele, estamos perante direitos universais, “mas a verdade é que não se trata de bens exportáveis, a sua realização não obedece a um formato único. Ignorá-lo e pretender impô-los é a melhor forma de aliená-los”.

Para ele, “independentemente do quadro jurídico por que se pautará esta fase de transição até às eleições, importa que a sociedade civil se organize, que o espaço político se estruture também, de forma a que se criem as condições de um regime democrático pluralista”. Jorge Sampaio acha que, embora as chamadas redes sociais tenham sido fundamentais para a mobilização, estas só funcionaram “porque o descontentamento era partilhado por largas franjas da população, que se uniu para defender o que entendeu ser essencial para o seu futuro e o do país”. O ex-presidente de Portugal acha difícil imaginar que grupos islâmicos, como a Irmandade Muçulmana no Egito, não terão influência nas mudanças, mas diz que se deve, em primeiro lugar, “evitar o reflexo corrente da demonização”.

Importa também, ressalta, “evitar estereótipos que não traduzem devidamente a complexidade da realidade — éo caso da “Irmandade Muçulmana”, porque ninguém sabe bem a que corresponde hoje, como evoluiu nas últimas décadas e como se vai desenvolver agora num regime democrático”. Para Jorge Sampaio, o que importa é “ver como tal grupo se vai acomodar ao sistema partidário em que se baseia qualquer democracia pluralista”.


O mais importante, diz ele, “é criar condições de diálogo e concertação políticas que deverão prevalecer sobre a exclusão, que é sempre força de radicalização”. O Alto Representante daONU para a Aliança das Civilizações admite que haja o perigo de essas reivindicações desaguarem em governos radicais, como aconteceu no Irã depois da queda do Xá, “porque de momento a incerteza é grande e tudo permanece ainda em aberto. Mas não há nenhum determinismo, portanto cessemos de utilizar o medo como forma de condicionamento.

Cada país deve encontrar o seu caminho e a democracia não é de tamanho único”. Em vez de especularmos sobre os perigos, diz Jorge Sampaio, “importa cooperar com essas sociedades porque a democracia, o diálogo e o pluralismo também se aprendem. Importa utilizar todos os fóruns de cooperação — bilateral e multilateral — para fazer dessas revoluções democráticas um sucesso para os povos e a Humanidade”.

O ex-presidente de Portugal diz que essas sociedades “precisam de planos maciços de cooperação—não só econômica,mas também social e política, a nível governamental,mas também das sociedades civis — para que possam fazer a transição de uma forma pacífica e sustentada”. Ele acha que está em tempo de a União Europeia “realizar o sonho subjacente ao processo de Barcelona, mais tarde retomado pela União para o Mediterrâneo. A melhor forma de prevenir que essas reivindicações deságuem em governos radicais é fazer por eles o que a Europa e a perspectiva da integração europeia trouxe a Portugal e Espanha quando fizemos a nossa transição democrática”.

Sampaio comenta, a propósito da mudança de atuação dos Estados Unidos de Barack Obama na crise, que “em política externa é essencial não repetir erros. Tanto o Egito como os Estados Unidos são parceiros demasiado importantes, quer no plano das suas relações bilaterais quer no tabuleiro geopolítico-estratégico da região. A política da exclusão só ajuda o extremismo e a radicalização”. Por outro lado, diz ele, “está claro também que, para além do hardpower, é essencial investir em instrumentos de softpower e na capacitação acrescida das sociedades civis”.

Jorge Sampaio não tem dúvidas acerca da importância do acordo de paz entre o Egito e Israel ser crucial “não só para as duas partes, mas para toda a região e não só, pois é bem sabido que se existe alguma região globalizada é a do Médio Oriente”. Pela sua “excepcional e extrema importância”, ele acredita que o acordo fará parte “dos pilares da fase de transição, por um lado, e que, depois das eleições, a democracia egípcia o saberá preservar como pedra basilar da sua política externa”. Mas Sampaio acredita que este processo de democratização do Egito “é tão excepcional”, que qualquer democracia —em especial a israelense — “deveria também pesar o impacto de expressar a sua solidariedade para com o povo egípcio, com gestos de semelhante excepcionalidade”.

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Na abertura da coluna de ontem, ficou sobrando um “que” na primeira frase. A correta é: “O fato de, durante os vários dias que duraram as manifestações no Egito, até o fecho com a renúncia do ditador Hosni Mubarak, não ter havido nem bandeias de outros países queimadas, nem slogans que não fossem relacionados com as reivindicações nacionais, é ‘inédito e muito significativo’ para Jorge Sampaio, ex-presidente de Portugal e atual Alto Representante das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações”.

FONTE: O GLOBO

O Egito e seus dois mistérios:: Clóvis Rossi

A manchete desta Folha de sábado capturou em apenas duas linhas, com rara felicidade, 30 anos de história: "Em 18 dias de protestos, egípcios derrubam ditador de 3 décadas".

O título embute duas questões que eu pelo menos não consegui responder, por mais que tenha me dedicado com toda a paixão à conjuntura desde a eclosão da revolta na Tunísia, a mãe de todas elas.

Primeira questão: por que agora, depois de 30 anos? Na verdade, muito mais de 30 anos. Para ficar só no Egito, apenas no século 19 houve algo que se poderia chamar de democracia, mesmo assim com muita liberdade poética.

Nem havia agora a pressão, adicional à falta de democracia, de uma situação econômica dramática. Ao contrário, o país vem crescendo à média de 5%, mais do que a média brasileira dos últimos oito anos de glorificação do governante.

Claro que o crescimento é terrivelmente mal distribuído, mas essa é uma característica eterna nos países periféricos e que começa a contaminar os desenvolvidos.

Por que então, de repente, as massas saem às ruas e nela ficam 18 dias ininterruptos, até ganhar?

Segunda questão: foram os egípcios, assim anonimamente, que derrubaram o ditador? Não havia aiatolás a instigá-los, como no Irã de 1979, especialmente uma figura mitológica como Khomeini. Não havia igrejas protestantes a dar-lhes abrigo, como no início dos protestos na então Alemanha Oriental. Não havia um sindicato Solidariedade a desafiar a institucionalidade comunista como na Polônia.

Talvez - e forçando a mão - a única similitude seja entre o jornalista Camille Desmoulins, arengando à massa até a tomada da Bastilha, em 1789, e Wael Ghonim, o executivo do Google iniciando a convocação dos protestos no Egito.

O fato é que o Egito - 2011 representa um tremendo desafio para jornalistas e historiadores.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Em boa hora:: Míriam Leitão

A hora é boa para analisar com visão estratégica a relação com os Estados Unidos, deixando de lado as birras do último governo e tendo uma atitude mais madura. Eles são e por muito tempo serão o maior mercado do mundo. Em quatro anos, o Brasil saiu de um superávit comercial de US$ 10 bilhões para um déficit de US$ 7,7 bilhões com os americanos. O que aconteceu?

Alguém pode dizer que é o câmbio valorizado do Brasil. Resposta insuficiente, por várias razões. O mundo tem superávit com os Estados Unidos e nós um déficit crescente. Eles eram, anos atrás, perto de um quarto da nossa corrente de comércio; hoje, representam menos de 10%. A boa razão dessa queda é que o Brasil aumentou a venda para outros mercados do mundo, diversificando mais o destino de nossas exportações.

Mas esse encolhimento é também fruto do descaso —e até implicância ideológica —que o Brasil dedicou aos Estados Unidos nos últimos anos. É boa hora para analisar toda a relação com os norte-americanos porque o presidente Barack Obama está vindo, o secretário do Tesouro, Timothy Geithner, acabou de vir em viagem preparatória, um novo governo começa no Brasil, e a virada da balança comercial tem números expressivos demais para serem ignorados.

Anos atrás, os Estado Unidos propuseram a criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) Se aquele bloco seria bom ou não, é difícil dizer hoje, por que é uma espécie de acordo Porcina — foi, sem nunca ter sido. Só se saberia se ele seria bom se tivesse havido uma negociação. O Brasil copresidente da negociação com os EUA de um acordofez o que pôde, e com mau modos, para bloquear a negociação bem no seu início. A ideia de nos amarrar nu ma região de livre comércio com a maior economia do mundo talvez fosse mesmo uma má proposta,mas o Brasil teria que saber qual era o lance seguinte. E não soube Poderia ter tentado um acordo bilateral de comércio que fosse bom para as duas maiores economias das Américas. Em algumas áreas, as economias competem entre s como na produção de certa commodities, em outras, são complementares.

O desleixo com que foi deixada a relação com os Estados Unidos tinha um elemento estranho à diplomacia brasileira. Ela sempre foi, com raras exceções, independente e altiva. Sempre soube quando dizer “não” às pressões de Washington, mesmo no governo militar . Mas nos últimos anos entramos em brigas inúteis. De que nos serve, por exemplo, ecoar os gritos demagógicos de Hugo Chávez contra o “imperialismo” americano, se a Venezuela continua tendo nos Estados Unidos um enorme parceiro comercial? De que nos serve apoiar o programa nuclear como Irã, afiançando que ele é pacífico como o nosso, passando um recibo de ingenuidade ao mundo?

Bastava no caso do Irã manter uma boa relação, já que ele é nosso parceiro comercial, mas avalizar uma política nuclear cheia de perigosas ambiguidades é um equívoco. De que nos serve embirrar contra a solução encontrada para o impasse de Honduras?O Brasil estava certo quando ficou contra o golpe, errou quando passou a ser o protetor de Manuel Zelaya e deixou que a embaixada fosse usada como seu escritório político. De qualquer maneira, quando houve a eleição, o período presidencial de Zelaya já havia terminado. Mas o Brasil ainda não reconhece o governo de Honduras e com isso criamos situações embaraçosas do tipo “ou ele ou nós”, cada vez que se pensa em uma reunião dos países das Américas. Está na hora de avaliar todo o comércio com osEstados Unidos, passando raios X sobre oportunidades, contenciosos, cooperação e interesses para saber o que vamos propor nestas semanas em que se prepara avinda do presidente americano. Na diplomacia, quase tudo se conversa de véspera, por isso, a hora é esta.

Na política internacional, temos que avaliar melhor onde os conflitos com os Estados Unidos são inevitáveis e quais as brigas que eram apenas demonstrações infantis de independência. Não precisamos provar independência; sempre fomos independentes. Nossa política externa nunca foi caudatária. A diplomacia brasileira tem habilidade e esperteza suficientes para saber a diferença de uma briga realmente boa e as que são inúteis.O Brasil quer e merece ter uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU, mas não deve depositar tudo nesse altar. Essa é uma grande divergência com os Estados Unidos. A eles, interessa manter o mesmo núcleo de países no Conselho formatado para um mundo que já foi transformado pela emergência de potências médias importantes, entre elas, o Brasil.O tempo corre anosso favor,mas atitudes estouvadas enfraqueceram a nossa posição.

Na diplomacia, o parceiro estratégico muda dependendo do tema. Brasil e Estados Unidos estão mais próximos em alguns temas e em posições opostas em outros. Portanto, é preciso reencontrar o caminho desse diálogo nos pontos em que os dois países se aproximam. A ideia de que o Brasil deve se alinhar à China contra os países desenvolvidos não faz sentido em várias questões. Na guerra cambial, tanto o dólar quanto o iuan estão desvalorizados, com a diferença de que a moeda chinesa é controlada, e o dólar reage a um excesso de emissão. Mas os dois países criam problemas para ao Brasil. Na luta contra as emissões dos gases de efeito estufa, nosso maior parceiro deveria ser a Europa, que há anos persegue seus cortes de emissão, e não a China, que é a maior emissora, ou os Estados Unidos, o maior emissor per capita e que não assinou o Protocolo de Kioto. É esse pragmatismo inteligente que precisa voltar a vigorar na diplomacia brasileira.

FONTE: O GLOBO

Lenta e gradual. Segura?:: Eliane Cantanhêde

O Egito vive uma festa histórica, depois de mais de 10 milhões irem às ruas para derrubar o ditador Hosni Mubarak, que, em 30 anos, empobreceu dramaticamente a população e enriqueceu constrangedoramente a própria família.

Depois da festa, vem a ressaca e começa a acomodação de forças políticas e a definição do cronograma da redemocratização. Uma fase de divisões, conflitos, dissidências.

Na expectativa mais otimista, a Junta Militar e as oposições vão se unir para tirar o país da lama e do atraso, convocar eleições e articular uma constituinte. Mas... as Forças Armadas apoiavam no regime que caiu, e as oposições estão divididas em 14 partidos e agremiações, aí incluída a Irmandade Islâmica. Obter consenso de grupos tão heterogêneos e tão reprimidos durante tanto tempo não vai ser fácil.

Para quem prevê um destino a la Turquia, militarizada, ou a la Irã, teocrático, o embaixador Cesário Melantonio avisa que não é bem assim. Há nove anos e meio na região e há mais de três no Cairo, ele antes serviu exatamente nesses dois países. As diferenças são, antes de tudo, ancestrais: os três são muçulmanos, mas o Egito é árabe, a Turquia, otomana, e o Irã, persa.

Mas, se é para seguir exemplos, melhor que seja a Turquia, democrática e 27ª economia do mundo, enquanto o Egito é a 82ª, com metade da renda per capita. Já o Irã é xiita, confuso, mistura política e religião. O Egito é sunita, que separa.

Os próprios agentes das revoluções foram e agiram de formas bem diferentes. No Irã, os aiatolás assumiram. Na Turquia, os militares participaram da transição. No Egito, dois terços da população têm menos de 30 anos e metade tem internet, além de celular. Lutam não por teocracia, mas sim liberdade, crescimento e justiça social.

Apesar das naturais dificuldades do início, ou reinício, o processo no líder Egito é positivo e deve ter um efeito saneador no mundo árabe. As ditaduras que se cuidem.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Não subestimar a justa indignação:: Luiz Carlos Bresser-Pereira

Desde que começaram as revoluções por ora vitoriosas na Tunísia e no Egito deixaram "em situação embaraçosa" os Estados Unidos e a França, e seus intelectuais "ficaram confusos". Não é difícil compreender o embaraço dos grandes países.

Embora façam um discurso em defesa da democracia, acusem de forma indignada dirigentes nacionalistas de países que não seriam democráticos mas que atendem às condições mínimas da definição de democracia, e não hesitem em apoiar movimentos de direita que tentam derrubá-los pela força, não obstante tudo isso, apoiam de forma integral governos abertamente ditatoriais e corruptos, mas que se portam de forma "amiga" em relação a seus interesses de curto prazo.

Quanto à "confusão" de seus intelectuais, foi um artigo em Le Monde (6.fev.2011) que a acentuou referindo-se a intelectuais de direita na França como Bernard-Henri Lévy, para quem "a situação seria muito complexa", ou Olivier Mongin que declara: "mais vale um Ben Ali que um Bin Laden".

No fundo, diz o jornal, "a revolução iraniana está em todas as mentes". E, portanto, para se evitar uma possível ditadura islâmica e, portanto, nacionalista, se apoia uma ditadura corrupta e dependente.

Em primeiro lugar, não há qualquer razão de ordem democrática ou de ordem moral para essa opção.

Por que uma ditadura corrupta e dependente é melhor para seu povo do que uma ditadura islâmica?

Segundo, não há razão para se colocar o problema da Tunísia ou do Egito nesses termos.

Existe sempre o risco de uma revolução nacionalista islâmica, mas esse risco só aumentará e se tornará real se os países ricos insistirem em pensar em termos dessas duas alternativas radicais, e, a partir daí, continuarem a optar pela ditadura corrupta e dependente.

Egito e Tunísia já não são países estritamente pobres, mas, ao contrário de países como o Brasil ou como a Índia, não realizaram ainda sua revolução capitalista, não contam com uma classe empresarial ampla, uma classe média diversificada, e um Estado capaz de defender os interesses nacionais.

É disto que esses países precisam, é isto o que os jovens que lideram essas duas revoluções com ajuda da Internet reivindicam.

Eles tiveram acesso à educação, mas a administração dependente e incapaz de suas economias não promove o desenvolvimento econômico necessário para que eles tenham empregos e salários decentes ou então oportunidade de se tornarem empresários.

Estes objetivos conflitam com a lógica imperialista, que sempre foi a de se aliar às elites dependentes e aos governos corruptos das colônias. Mas será que essa é a melhor estratégia?

ORIENTE MÉDIO

Em relação aos países pobres, acredito que ainda dê bons resultados. Mas a era dos impérios está terminando.

Foi isso o que mostraram os países do Leste Europeu em 1989; é isto que estão dizendo os países do Oriente Médio em 2011.

A revolução agora não é tão decisiva como foi aquela, porque os países do Oriente Médio são menos desenvolvidos, e porque os impérios do Ocidente não estão tão debilitados como estava o soviético.

Mas é um equívoco subestimar a justa indignação e a determinação desses povos de alcançarem e autonomia nacional e a democracia.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

O que pensa a mídia

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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Herança fical de Lula limita o começo do governo Dilma

Corte de R$ 50 bi no Orçamento é o preço do aumento de gastos no passado A situação das contas públicas e os gastos elevados do governo anterior são o maior problema econômico da presidente Dilma Rousseff neste início de mandato - uma herança fiscal deixada pro seu antecessor, e mentor, o ex-presidente Lula. O quadro fiscal preocupante exigirá um aperto inédito de R$ 50 bilhões no Orçamento. Outros problemas são a inflação e a taxa de juros em alta, além de um orçamento engessado por despesas permanentes com pessoal. De 2003 a 2010, os gasto públicos cresceram R$ 282 bilhões, e 78,4% disso foram no segundo mandato de Lula. Outro alerta é para a dificuldade de ampliar investimentos. "É preciso sobrar mais dinheiro para investimentos. Tem de começar pelo ajuste fiscal", afirma Alcides Leite, especialista em contas públicas. Por outro lado, no governo Lula melhoram as taxas de emprego e renda e o acesso ao crédito.

A conta que sobrou para Dilma

Estudo mostra que gastos aumentaram R$ 282 bi no governo Lula; 78,4% no segundo mandato

Regina Alvarez e Patrícia Duarte

O quadro fiscal preocupante, que exigirá um aperto inédito de R$ 50 bilhões nos gastos públicos este ano, é parte da herança deixada para a presidente Dilma Rousseff pelo antecessor e mentor Luiz Inácio Lula da Silva. A farra de gastos no segundo mandato de Lula tem um preço, que já começou a ser pago pelo atual governo. A herança inclui inflação e taxa de juros em alta, uma carga tributária abusiva, um Orçamento engessado por despesas permanentes com pessoal, benefícios previdenciários e a impossibilidade de ampliar os investimentos. Estudo do economista Fernando Montero, da Convenção Corretora, mostra que os gastos cresceram R$ 282 bilhões no governo anterior (descontada a inflação): 78,4% desse aumento ocorreu no segundo mandato.

Só entre 2006 e 2010, as despesas do governo federal aumentaram R$ 221 bilhões, o que evidencia a guinada na política fiscal acentuada nos dois últimos anos de mandato, quando a crise global ofereceu ao governo uma justificativa para ampliar os gastos.

—O aumento da carga tributária, combinado com o crescimento do PIB ( Produto Interno Bruto) e a redução do superávit primário deram ao governo Lula um poder enorme para gastar — observa Montero.

Especialistas apontam a situação das contas públicas e os elevados gastos herdados do governo anterior como o maior problema econômico de Dilma neste início de mandato.

O cenário desfavorável na área fiscal influencia negativamente outras variáveis, como inflação e os juros—, embora, no caso dos preços, fatores externos também exerçam forte pressão, como a alta das commodities no mercado internacional.

Alcides Leite, especialista em contas públicas e professor da Trevisan, frisa que o aumento dos gastos correntes nos últimos anos, acima da expansão do PIB, impediu uma expansão mais robusta dos investimentos. E lembra que uma oferta maior de bens e serviços poderia minimizar a pressão inflacionária. Sem os investimentos, o país sente os efeitos no bolso, com preços maiores, já que a demanda continua bastante aquecida pela melhora de renda da população.

— É preciso sobrar mais dinheiro para investimentos. E tem de começar pelo ajuste fiscal (corte nos gastos de custeio) — recomenda.

Inflação voltou a preocupar em 2010

O corte de R$ 50 bilhões anunciado semana passada pelo governo é um primeiro passo, na visão do especialista, desde que os investimentos sejam preservados.

A curva de inflação no segundo mandato de Lula esteve sempre e malta,mas começou a preocupar em 2010, quando fechou em 5,91%, bem acima do centro da meta fixada pelo governo (4,5%). Entre as razões dessa escalada está o aquecimento da economia, turbinada pelo aumento dos gastos do governo no ano eleitoral. Para 2011, a previsão é de inflação de 5,66%. Por isso, o Banco Central voltou a elevar a taxa básica de juros em janeiro, após cinco meses, para 11,25% ao ano. E deve continuar puxando a Selic para cima, até que a inflação esteja sob controle. O processo encarece as linhas de crédito, inibindo o consumo, com reflexos sobre o crescimento da economia.

Leite acha que o governo Lula teve um bom comportamento na área fiscal até a crise internacional de 2008 e 2009, quando as contas se deterioraram. De 2003 a 2008, o superávit primário (economia feita pelo setor público para pagamento de juros) praticamente dobrou, chegando a R$ 101,696 bilhões e as metas foram cumpridas.

Em 2009, a meta não foi alcançada, mas os especialistas aceitam a justificativa do governo que adotou medidas anticíclicas para enfrentar acrise internacional, como a isenção de Imposto sobre Produtos Industrializados de automóveis Em 2010, o governo se valeu de truques e artifícios para turbinar as receitas, abrindo espaço para a ampliação dos gastos do Orçamento.
Na capitalização da Petrobras, fez uma manobra contábil que garantiu ao caixa um reforço de R$ 32 bilhões. Ainda assim, não conseguiu cumprir a meta de superávit primário pela segunda vezconsecutiva. Economizou o equivalente a 2,78% do PIB, quando precisava chegar a 3,1%. Dilma herdou uma carga tributária recorde equivalente a 34,4%do PIB, e, no primeiro ano de mandato, não terá como promover qualquer tipo de desoneração, como planejava. O aperto fiscal, imposto pelo crescimento excessivo dos gastos correntes no governo anterior , impede Dilma de qualquer ação para melhorar o sistema tributário do país e a vida das empresas.

—Baixar imposto é exercício fácil, mas o governo precisa fechar as contas.

Por isso, não pode abrir mão de arrecadação. Só quando houver redução de gastos, poderá se desenhar uma reforma tributária — diz o tributarista Ilan Gorin.
FONTE: O GLOBO

Os números azuis do legado lulista

Acesso ao crédito e aumento da renda estão entre as conquistas do ex-presidente

Patrícia Duarte e Regina Alvarez


BRASÍLIA. Se, pelo lado fiscal, a presidente Dilma Rousseff ainda deve viver alguns pesadelos, a herança deixada pelo seu companheiro de partido e ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em outras esferas é bem-vinda. Quando se olha para taxas de emprego e renda, acesso ao crédito e até o próprio crescimento econômico, os resultados são animadores. O mercado de crédito na Era Lula (2003/2010) mais do que quintuplicou, ultrapassando a barreira de R$ 1 trilhão e chegando próximo a 50% do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos no país).

Um dos principais motivos para esse salto foi a criação do crédito consignado, com desconto em folha de pagamento, que abriu caminho para que muitas pessoas —aposentados e pensionistas em primeiro lugar —- pudessem ter linhas de financiamento bem mais baratas. O acesso ao crédito foi impulsionado também porque, ao longo dos últimos anos, a taxa de desemprego do país foi perdendo força. Em janeiro de 2003, quando assumiu, Lula lidava com um índice de 11,2% e o reduziu para 9,3%,quatro anos depois. O grande movimento aconteceu em seu segundo mandato, fechando dezembro passado com o menor patamar da História: 5,3%, segundo dados do IBGE, levando em conta seis regiões metropolitanas.

Renda média do brasileiro teve crescimento de 22,2%

Nesse período, a renda média real do brasileiro — já descontada a inflação do período —- passou de R$ 1,293 mil mensais, em janeiro de 2003, para R$ 1,580 mil no fim de 2010. O crescimento registrado foi de 22,20%. Dilma também está trabalhando com uma economia com crescimento robusto, o que é bom para continuar gerando mais emprego e renda. Logo no início do governo Lula, a expansão do PIB foi um pouco acima de 1% e, ao longo dos anos seguintes, foi mantendo uma trajetória de alta. A exceção ficou para 2009, ano marcado por uma forte crise internacional. Em 2010, especialistas egoverno acreditam que a atividade tenha crescido mais de 7% e, para este ano, há avaliações que vão até 5% — patamar considerado alto se comparado com o resto do mundo, na casa de 3%.

FONTE O GLOBO

Dilma e os erros do passado :: Suely Caldas

Quando os ministros Antonio Palocci e Paulo Bernardo propuseram um plano de corte gradual nos gastos do governo até zerar o déficit público nominal, a então ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, desqualificou a ideia, acusando-a de "rudimentar". Dilma ganhou a briga e o plano, o lixo. Cinco anos depois, no papel de presidente, e Palocci, no de seu principal ministro, Dilma começa a gestão efetuando um corte de R$ 50 bilhões no Orçamento do governo. Se em 2005 concordasse com a proposta de Palocci, muito provavelmente o desequilíbrio fiscal seria hoje uma página virada e Dilma estaria cuidando de planejar investimentos em vez de cortá-los.

Mas a trajetória de crescimento econômico seria a mesma? Difícil prever com exatidão um futuro que não aconteceu. Mas o quadro econômico da época era favorável, o mundo surfava numa onda de crescimento que sustentou a expansão do PIB no País por pelo menos três ou quatro anos. Ou seja, mais do que o mercado interno, a economia externa garantiu o aumento de produção nesse período. Portanto, cortes de despesas do governo pouco afetariam o desempenho econômico. O plano Palocci/Bernardo veio num momento raro na história, uma oportunidade ímpar para o País resolver seu dilema fiscal que, desde a ditadura militar, impede a queda dos juros, expande a dívida pública e cria riscos ao crescimento contínuo e sustentado.

Às vezes a vida impõe lições que só aprendemos depois do erro. No governo passado, Dilma errou. Por inexperiência? Provavelmente. Por arroubos ideológicos? Certamente menos. Embora trouxesse na bagagem um modelo de ação em que o Estado não apenas regula, mas interfere, ocupa espaços que não deve e nem a ele cabem. Por vezes confundiu funções de Estado com de governo. Caso das agências reguladoras.

Em 2003, Dilma rejeitava a ideia de dar às agências autonomia de ação e decisão, caracterizando-as como funções típicas de Estado. Enfraqueceu-as e transferiu suas atribuições para os ministérios. Não entendeu que para bem servir a população as agências precisam estar longe de onde atuam os políticos, propondo suas barganhas e favores. Mas ela aprendeu com o erro. Tanto que, no discurso da vitória, garantiu: "As agências reguladoras terão todo meu respaldo para atuar com determinação e autonomia". Dilma hoje é diferente da arrojada e estreante ministra de Minas e Energia do passado. E, aparentemente, sem traumas ideológicos.

Embora esse corte de R$ 50 bilhões (6,1%) seja maior do que o de 2003 (5,13%), o mercado financeiro olhou atravessado e a desconfiança refletiu-se no mercado futuro de juros, que subiu em vez de cair. Diferentemente do corte de 2003 - anunciado por Palocci e Mantega (esse, ministro do Planejamento na época) e recebido com confiança, até susto. E por que agora não?

Entre outras razões, o desempenho de Mantega em relação aos indicadores econômicos de 2010 deixou sequelas. Afinal, ele passou o ano inteiro insistindo em que a meta cheia de superávit primário seria rigorosamente cumprida - e não o foi. Recorreu a maquiagens grosseiras (empréstimos ao BNDES e capitalização da Petrobrás) para engrossar a receita, desmoralizando o contorcionismo matemático do governo. E, finalmente, deixou correrem livremente os exagerados gastos eleitorais de Lula. Se o ministro é o mesmo, como confiar?

Os analistas esperam o detalhamento dos cortes - prometido para a próxima semana - para uma avaliação mais segura do futuro. Oxalá a descrença seja desfeita. Mas, se o ministro aparecer com novo empréstimo ao BNDES, transformando débito em crédito, não há como recuperar a confiança.

Na quarta-feira, Mantega deu três alternativas de destino à eventual sobra, caso a receita fiscal engorde a meta definida. Nenhuma delas contempla pagar o principal e reduzir o estoque da dívida pública. Se assumisse com seriedade tal compromisso, poderia abrir caminho para restabelecer a credibilidade. E daria uma chance à presidente Dilma de corrigir o erro cometido em 2005.

Jornalista e professora da PUC-Rio

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Vice-presidencialismo:: Dora Kramer

Michel Temer não é exatamente o vice-presidente dos sonhos do PMDB: sua atuação está alguns tons abaixo do que desejariam seus correligionários mais afeitos ao jogo pesado da pressão direta sobre a Presidência da República.

Talvez atue também alguns tons acima do que seria o esperado pelo PT ou qualquer outro partido que detenha o poder, porque foge ao figurino tradicional da invisibilidade do cargo e inaugura o ativismo vice-presidencial.

Presidente da Câmara duas vezes, presidente do PMDB de direito por quase uma década e, de fato, ainda no posto, Temer não "desencarnou" do passado. Investido na nova função há pouco mais de 40 dias, nada indica que pretenda desencarnar.

Sentado em seu gabinete no anexo 2 do Palácio do Planalto - onde além das visitas protocolares sempre reinou a mais absoluta calmaria - na tarde em geral inútil de quinta-feira à tarde, Temer discorre sobre a estratégia governista para a votação do valor do salário mínimo e tropeça no ato falho: "Quando o projeto chegar aqui...", começa, logo interrompido pela lembrança de que "aqui" na realidade é "lá", na Câmara.

"Tenho saudade daquela agitação, daquela bagunça organizada, do entra e sai." A contar pela agenda daquela dia, razão nenhuma para nostalgia: minutos antes haviam saído dali os ministros Antonio Palocci e Luiz Sérgio e os líderes do PMDB na Câmara e no Senado para fechar um armistício com base na divisão de cargos do segundo escalão federal.

Tudo em paz? "Enquanto houver espaços em disputa, os partidos vão lutar. Não podemos é deixar que o conflito seja permanente", diz, revelando uma de suas funções: administrador de distúrbios na "base".

Outra: regimentalista da plantão. Foi dele a ideia de mandar o reajuste do mínimo por projeto de lei e não por medida provisória, recorrendo a uma interpretação da própria autoria quando presidente da Câmara, segundo a qual assuntos que não possam ser tratados em MPs não trancam a pauta.

Incluiu-se, então, no projeto de lei um dispositivo de natureza penal relativo a dívidas com a Receita que se enquadra naquele caso e tudo resolvido. "Por medida provisória a vigência seria imediata, mas como o mínimo entraria na fila atrás de outras 22 medidas, o governo ficaria uns três meses sendo contestado pelas centrais sindicais."

E já que o governo desistiu de patrocinar a reforma política, o vice-presidente aproveita a brecha para, "em caráter pessoal", articular uma proposta de reforma política a ser apresentada à Câmara talvez já nesta semana.

É uma adaptação ampliada do voto distrital: considera-se o Estado todo um distrito e se elegem os mais votados levando em conta o número de cadeiras à disposição. Por exemplo, em São Paulo são 70 vagas e, portanto, se elegeriam os 70 candidatos mais votados.

Temer já recebeu naquele gabinete do anexo 2 o presidente da OAB, Ophir Cavalcanti, e conseguiu convencê-lo de que a mudança, além de firmar a supremacia do princípio da maioria, tem outras vantagens: "Reduz o número de candidatos, acaba com as coligações, diminui o número de partidos e estabelece um sistema mais facilmente compreendido pelo eleitor."

Enquanto cuida de manter ativa a agenda nacional, Michel Temer não descuida das questões partidárias locais: dissolveu os diretórios do PMDB de São Paulo depois da morte de Orestes Quércia e assumiu o controle.

Aguarda a filiação do prefeito Gilberto Kassab, com quem tem mantido conversas frequentes, mas avisa que isso não significa cessão de poderes. "Kassab poderá ser um parceiro no comando da sucessão municipal, mas não o comandante porque o PMDB não aceitaria."

Portanto, uma das condições impostas pelo prefeito está fora de cogitação. E a outra, apoiar José Serra em caso de futura candidatura?

"Kassab será muito bem recebido, mas quem decide sobre alianças e candidaturas é o partido." Quer dizer, a chefia não está disponível.

Egito. O povo quando quer e se empenha, ganha sempre.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Tensão marca convívio entre grupo de Marina e ''velho PV''

Aliados da ex-senadora veem desinteresse na promoção de mudanças pela cúpula, que identifica precipitação nas propostas

Antes de Marina Silva filiar-se ao PV, no ano passado, ficaram acertadas duas mudanças internas com a cúpula do partido. A primeira seria a reformulação do programa, o que aconteceu antes da eleição, com o intuito de destacar a questão da sustentabilidade como eixo de ação política. A segunda, que seria a reestruturação interna, com o objetivo de democratizar a vida partidária, ainda não aconteceu e está provocando mal-estar entre as duas principais forças do PV.

De um lado, pessoas ligadas ao grupo que desembarcou no partido com Marina identificam lentidão e desinteresse no encaminhamento das mudanças. Querem aproveitar o sucesso eleitoral do ano passado para promover filiações e desencadear um processo de renovação dos cargos de direção - destinado a estancar um resistente fisiologismo partidário, principalmente nos Estados. Na outra ponta, militantes próximos ao presidente verde, deputado José Luiz Penna (SP), veem precipitação nas propostas de democratização e dizem temer que o partido afunde no assembleísmo.

Uma das formas encontradas para reduzir a tensão será um seminário sobre democracia partidária, organizado pela Fundação Verde Herbert Daniel, vinculada ao partido. A data ainda não foi definida, mas o evento deve ocorrer até o fim de março, antecedendo o palco decisivo, a convenção nacional, prevista para alguma data entre maio e junho.

As lideranças do partido negam o mal-estar. "Não existe tensão. Tudo aponta para o mesmo rumo. As diferenças são apenas de metodologia", diz Penna.

Segundo o vice-presidente, deputado Alfredo Sirkis (RJ), os debates ainda nem começaram: "A executiva nem se reuniu. A proposta é de mudança, porque, após 20 milhões de votos, não se pode agir como se nada tivesse acontecido."

Ainda segundo Sirkis, é impossível prever se o debate será tranquilo. De um lado, observa, pesa na discussão que os milhões de votos não foram para o PV, mas para Marina; de outro, partidos não gostam de mudar: "São conservadores por natureza."

Em São Paulo, o presidente do diretório estadual, Maurício Brusadin, diz que a dúvida maior envolve a forma de mudança: "Eu defendo um período de transição entre a estrutura atual e a abertura."

Marina quer o arejamento da estrutura, na qual a maior parte dos diretórios estaduais são escolhidos diretamente pela presidência nacional e se eternizam no posto. Mas admite que as mudanças não podiam ser feitas no ano passado por causa das eleições. Ela também ameniza o tom do debate ao afirmar que sem a legenda do PV não teria os votos que teve.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Marina: ''Não farei oposição pela oposição''

Marina Silva, ex-senadora pelo PV-AC: Ex-senadora diz que os seus 20 milhões de votos devem ser vistos como um "legado", algo a ser "apropriado por todos"

Roldão Arruda

Afastada há doze dias do Senado, Marina Silva já definiu suas próximas tarefas. No plano político, a tarefa imediata será o debate sobre a reorganização interna de seu partido, o PV. Pessoalmente prepara-se para ganhar a vida dando aulas e palestras, uma vez que se recusa a ganhar salário do partido. Na entrevista abaixo, ela fala sobre o governo Dilma Rousseff, partidos e o risco de, após o sucesso eleitoral do ano passado, cair no esquecimento político.

A senhora saiu da eleição com quase 20 milhões de votos. Como acha que vai manter essa herança, agora que ficou sem tribuna no Senado e cargo no governo? Outros candidatos que ficaram em terceiro lugar, como Heloísa Helena e Ciro Gomes, acabaram relegados a planos secundários. Não teme a maldição do terceiro lugar?

Em política, a pior maldição é querer aprisionar o sucesso. Quem tenta fazer isso se torna prisioneiro dele e não consegue mais fazer as coisas com abertura criativa e espírito de novidade. A ação política é sempre um processo vivo, único. Se tentar aprisionar o sucesso, que já é passado, aí sim, vai viver a maldição. Vamos viver o daqui para a frente como um momento novo. Eu me vejo como alguém que deu uma contribuição: estou dizendo para o PV, o PT, o PSDB e outros partidos, assim como para o governo e o movimento socioambiental, que os 20 milhões de votos dados a uma candidatura identificada com a questão da sustentabilidade têm de ser vistos como um legado, algo que pode ser apropriado por todos (diferentemente da herança, que pressupõe um espólio).

O que fazer com esse legado?

É preciso trabalhar para transformá-lo em mobilização social, em sustentabilidade política, para as transformações que o Brasil precisa. Isso é algo a ser feito pelo PV e, espero, também pelos demais partidos.

Essa não é a bandeira do PV?

Transformar a bandeira da sustentabilidade em bandeira de um só partido é a senha para torná-la inviável. Se alguém tentar aprisionar esse desafio de forma exclusivista é porque não leu adequadamente o que está acontecendo no mundo, com o grande desafio das mudanças climáticas. Acho que podemos estabelecer pontos programáticos entre os partidos.

A senhora já disse que sua campanha foi carregada por forças vivas da sociedade. Acha que os partidos estão preparados para dialogar com essas forças?

Os partidos precisam se atualizar. E não estou falando apenas da estrutura formal. Falo principalmente da superestrutura, da necessidade de discutir política, propostas, projetos. A maioria dos partidos, e o PT não é diferente, adotou modelos convencionais e hoje discute o poder pelo poder. O debate em torno de ideias e propostas, que deveria alavancar o processo, como o motor de popa do barco, vai se tornando cada vez mais secundário. O que fica na popa é a disputa pelo poder. A discussão programática para esses partidos é apenas a cenoura que está na frente, na proa.

O PV passa por um processo de debate sobre reestruturação e democratização interna.

O grande desafio do PV é se atualizar e fazer jus ao que experimentamos na campanha, com a mobilização da sociedade por uma nova forma de fazer política. E não há forma nova que não seja radicalmente democrática. O movimento por democratização acontece porque política é como o vinho novo, que não pode estar em odre velho.

A senhora fará parte do bloco de oposição ao governo?

As pessoas estão cansadas da ideia de oposição por oposição e situação por situação. Querem ver oposição àquilo que devemos nos opor, como a corrupção, mau uso do dinheiro público, exclusivismos, falta de democracia. Mas também querem apoio às boas políticas para a saúde, educação, segurança, meio ambiente, assim como o aprofundamento da democracia - por meio de uma reforma política. Não se alcança convergência em tudo, mas é possível encontros a partir de princípios éticos e valores duradouros.

Como avalia o início do governo Dilma?

É cedo para avaliações. A presidenta, como ela gosta de ser chamada, está no começo. Boa parte das ações já estava em curso e parte da equipe veio do governo anterior: algumas peças do xadrez trocaram de lugar, mas são as mesmas. Temos que dar um tempo para ela firmar seu estilo, botar sua equipe em campo. Sinceramente, estou torcendo para que dê certo. Não vou olhar com miopia para o que foi dito na eleição.

Como viu a prioridade que ela deu à erradicação da pobreza?

É um grande desafio e espero que seja levado a cabo. Eu acho que o grande esforço deve ser para fazer a transição do Bolsa Família para o que eu chamo de programas sociais de terceira geração, com inclusão produtiva, bem suportada por programas de educação.

A senhora já cobrou mais iniciativa no debate sobre o projeto de lei de mudança do Código Florestal apresentado pelo deputado Aldo Rebelo (PC do B).

O projeto é um retrocesso inominável. Gostaria que governo fizesse um debate semelhante ao que fizemos am relação à lei de gestão de florestas públicas, envolvendo empresas, ONGs, comunidade científica, setores do governo. No final, o projeto de lei enviado ao Congresso enfrentou pouca resistência.

Como ignorar a campanha do agronegócio, capitaneado pela senadora Kátia Abreu (DEM), a favor do projeto?

Existem agronegócios e agronegócios. Tem um pessoal fazendo um movimento interessante, fora da velha agenda reativa dos que querem debelar conquistas da Constituição de 1988. Durante a campanha conversei com o Marcos Jank, da Unica (União da Indústria da Cana-de-açúcar), e senti abertura para um diálogo propositivo. É preciso abrir espaço para essas novas lideranças.