Folha de S. Paulo
Relatório da Oxfam expõe como se concentra a
riqueza no Brasil
O 1% no topo controla sozinho 37,3% de toda
riqueza patrimonial declarada no país
Não fui eu que escrevi isso primeiro, foi
Machado de Assis, ou melhor, o Brás
Cubas. "Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não
fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas,
coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto."
Na divina comédia da burguesia à brasileira –rentista e pouco produtiva— que é Memórias Póstumas, Machado expõe as contradições do andar de cima da sociedade brasileira, de ideias liberais e renda escrava. Por isso, a atriz Fernanda Torres recomendou para que se entenda o Brasil a leitura do clássico machadiano combinada com a dos ensaios de Roberto Schwarz sobre Machado.
No campo da economia política, a ficção se
torna tragédia. Nesta quarta-feira (19), a organização de direitos
humanos Oxfam Brasil lançou um relatório que revela como vive
o topo da pirâmide social do país. Intitulado "Um Retrato das
Desigualdades Brasileiras: Poder, Privilégio e a Captura da Democracia", o
documento traz importantes contribuições para o debate sobre desigualdade.
Quando se diz que a elite não compra pão com
seu suor, trata-se de uma descrição factual: enquanto os mais pobres obtêm sua
renda do trabalho –tributável, visível e regulada— os mais ricos obtêm de
formas diversas de ganhos de capital –menos tributada e mais nebulosa. O 1%
(renda mensal a partir de 34,7mil) no topo controla sozinho 37,3% de toda
riqueza patrimonial declarada no país, metade dela do capital; enquanto a
alíquota efetiva de imposto de renda do 0,01% (renda mensal a partir de R$
855,5mil) mais rico é de 4,6%.
Poder econômico se reflete em poder político
codificado –para usar um termo de Katharina Pistor— em formas jurídicas por
meio de manobras legais para se blindar da tributação e permitir a sucessão
patrimonial. A pesquisa da Oxfam mostra estas engrenagens da desigualdade,
inclusive pela influência desproporcional sobre políticos e, portanto, sobre a
produção e aplicação de leis.
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Enquanto a periferia parcela o pão com seu
suor e com juros –como lembra Kaué
Lopes no livro "Parcelado"– o andar de cima come brioches com o
trabalho alheio.

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