O Globo
A ida a esse tipo de confronto deveria ser
tratada com mais cerimônia por aqueles que dependem da boa vontade de quem vota
Ser candidato numa eleição significa cumprir algumas obrigações básicas, principalmente quando a candidatura é para inquilino da Presidência da República. Entre os deveres não previstos em lei, está participar de debates. Trata-se não só de demonstração de respeito, mas de evidente obrigação moral com o eleitor. Por isso a ida a esse tipo de confronto deveria ser tratada com mais cerimônia por aqueles que dependem da boa vontade de quem vota para chegar ao poder.
Na eleição deste ano, a campanha de Lula
anunciou que ele não deverá participar do primeiro debate na TV, promovido pela
Band. Flávio Bolsonaro aproveitou para pegar carona e também não deverá ir.
Alguns candidatos a governador, líderes em seus estados, seguiram a mesma
receita. Uma vergonha do ponto de vista histórico — o debate televisionado
entre os governadores, em 1982, ainda durante o regime militar, foi pioneiro,
uma vez que os confrontos estavam até então suspensos pela Lei Falcão.
A lógica do Q.G. petista é a mesma que
norteia o PL. No confronto com os demais candidatos, Lula é a principal
vidraça. Está no poder, é o líder nas pesquisas, e os principais adversários
são da direita. Na ausência de Lula, a vidraça é Flávio. Ele se torna alvo dos
demais candidatos, que tentarão usá-lo como escada para ser mais conhecidos e
abocanhar, assim, parte de seu eleitorado de direita.
O raciocínio não está errado. É fato que Lula
ocupa a pole position dos alvos, e Flávio é o P2 (segunda posição no grid). O
compromisso deles, no entanto, não deveria ser com a autopreservação, mas sim
com o debate de ideias típico de democracias consolidadas, por mais duro e,
muitas vezes, abaixo da linha da cintura que esses confrontos sejam — daí as
regras e punições acordadas pelas equipes antes.
Os candidatos veem participar nos debates
como principal risco — e não faltar a eles. Desde a redemocratização, todos os
principais candidatos a presidente já deram cano nos confrontos televisivos,
prática que não vem de agora. Na eleição de 1960, a TV Tupi tentou inovar com
um debate entre os presidenciáveis, mas Jânio Quadros acabou arranjando um
compromisso no Nordeste para faltar.
Nos Estados Unidos, que difundiram o
confronto nacional na televisão, com Nixon versus Kennedy em 1960, faltar a um
debate ainda é exceção. Os debates por lá só não ocorreram em 1964, 1968 e
1972. Tudo bem que, no geral, são apenas dois candidatos, republicanos e democratas
(raramente entra um independente). Mas, mesmo correndo risco de ser engolidos
pelos adversários, todos se submeteram ao confronto, em maior ou menor grau.
Que o digam Nixon no embate contra Kennedy (e olha que o republicano foi a
quatro debates), Carter versus Reagan (que jantou o democrata com a célebre
pergunta sobre a vida estar melhor ou pior que quatro anos antes) e até Biden
(cuja candidatura foi ceifada em 2024 depois de uma atuação constrangedora no
debate contra Trump).
A participação em debates deveria ser parte
inegociável da agenda dos candidatos numa eleição. Quer disputar, então tem de
debater. O Brasil foi normalizando o W.O. nos confrontos, e os líderes nas
pesquisas ficaram à vontade para dar o cano no eleitor — muitas vezes, sem nem
se dar ao trabalho de fazer um R.S.V.P.

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