quinta-feira, 10 de maio de 2012

Cabral gastou R$ 7.000 em dois dias de agenda oficial em Paris

Em visita, governador foi fotografado em festa com empresários

Italo Nogueira

RIO - O governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), gastou mais de R$ 7.000 em diárias na missão a Paris em setembro de 2009, quando foi fotografado confraternizando com empresários, entre eles Fernando Cavendish, então dono da Delta Construções.

Sua agenda oficial só registra compromissos em dois dias da visita à cidade. Para justificar os gastos, sua assessoria, em nova versão, alega agora que o peemedebista chegou três dias antes à França para se preparar.

Quando esteve na capital francesa também por dois dias no ano passado, de 31 de maio a 1º de junho, ele gastou R$ 2.035 em diárias, em valores atualizados. Se forem contados os dois dias de eventos, a média de 2009 alcança mais que o triplo deste valor.

Os dados foram levantados pelo deputado estadual Luiz Paulo (PSDB) no sistema de acompanhamento orçamentário do Estado, a partir de levantamento da Folha na Secretaria de Fazenda.

Questionada sobre o gasto, a assessoria do governador afirmou que as diárias referentes à missão de Paris em 2009 referem-se a cinco, e não a dois dias de viagem.

Segundo a nova versão oficial, Cabral embarcou no dia 10 para se preparar com o presidente do COB (Comitê Olímpico Brasileiro), Carlos Arthur Nuzman, para a apresentação da candidatura do Rio como sede da Olimpíada de 2016. O dirigente não foi localizado para confirmar.

É a primeira vez que tal compromisso é divulgado desde os primeiros questionamentos sobre a viagem a Paris, há uma semana. Na visita, o governador e quatro secretários foram fotografados confraternizando com empresários, entre eles Cavendish.

Até então, sua agenda só registrava atividades nos dias 14 e 15. Agora, a assessoria diz que os compromissos não foram informados por terem sido "agenda fechada". Na nova versão, as reuniões ocorreram numa sexta-feira e durante o fim de semana.

Recursos próprios

O sistema orçamentário não registra gastos de 13 missões. A assessoria de Cabral diz que duas foram a convite (Suíça, pelo COB, e Buenos Aires, pela província argentina). Diz ainda que dois compromissos foram custeados com recursos do governador (Colômbia e Estados Unidos).

Em nove casos, as diárias foram pagas com cartão corporativo do Estado, que foi criado no ano passado e não tem os gastos detalhados.

Segundo o governo, os secretários Sérgio Côrtes (Saúde), Wilson Carlos (Governo) e Júlio Lopes (Transportes) pagaram do próprio bolso a viagem a Paris.

Régis Fichtner (Casa Civil) recebeu R$ 4.256. A assessoria do governo informou que só poderia responder hoje se ele também participou de reuniões com o COB.

O Ministério Público pediu informações sobre as viagens de Cabral ao exterior.

Procurador pede dados sobre viagens

O procurador-geral de Justiça do Rio, Cláudio Lopes, solicitou ontem informações ao governo do Rio sobre as viagens de Sérgio Cabral ao exterior, para decidir se abrirá investigação sobre o caso. A Promotoria ainda não disse se o pedido questiona Cabral sobre viagens pessoais ao exterior.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Planalto tenta conter impulso do PT para investigar imprensa

Petistas estudam convocação de jornalista para depor na CPI sobre relacionamento com Carlinhos Cachoeira

Bancada do partido também defende quebra de sigilo de editor e convocação do dono da Editora Abril

BRASÍLIA - O Palácio do Planalto iniciou ontem uma operação para tentar arrefecer o ânimo dos petistas que querem usar a CPI do Cachoeira para investigar as relações do empresário com jornalistas e órgãos de imprensa.

Em reunião na noite de segunda-feira, a bancada do PT na CPI discutiu a proposta de convocação do jornalista Policarpo Júnior, redator-chefe da revista "Veja" em Brasília. A quebra do sigilo fiscal e bancário do jornalista também é defendida no partido.

O jornalista tinha em Cachoeira uma de suas fontes de informação e seu nome é mencionado em diversas conversas do empresário com integrantes de seu grupo, de acordo com escutas telefônicas feitas pela Polícia Federal nos últimos três anos.

Segundo o delegado Raul Souza, ouvido anteontem pela CPI, não há nas escutas nada que indique algo além da relação entre um repórter e uma fonte de informação.

As perguntas sobre o caso que os petistas fizeram ao delegado na sessão da CPI anteontem não foram relatadas à ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, responsável pela articulação do governo com o Congresso.

Ela só ficou sabendo das perguntas pelos jornais. A omissão dos parlamentares petistas causou desconforto no Palácio do Planalto.

Ontem, já era perceptível uma mudança de tom na bancada, especialmente no grupo ligado ao ex-ministro José Dirceu e ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Escalado para a interlocução entre os representantes do partido na CPI e o governo, o deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP) adotou um tom cauteloso.

"Acho que agora é cedo para a convocação [de Policarpo]", disse, contrastando com o clima da reunião de segunda à noite.

Aliados de Lula e Dirceu defendem o foco na imprensa por achar que assim conseguirão minar a credibilidade de reportagens que deram origem ao escândalo do mensalão, que pode ir a julgamento no Supremo Tribunal Federal neste ano. Dirceu é um dos réus do caso.

Ideli havia escalado o relator da CPI, Odair Cunha (PT-MG), para resistir à pressão, mas ele admite a interlocutores que o trabalho é difícil.

"Se for confirmada a existência de mais de 200 conversas entre Policarpo e o esquema, ele tem de ser convocado. O Roberto Civita, não", disse o líder do PT na Câmara, Jilmar Tatto (PT-SP), referindo-se ao dono da Editora Abril, que publica "Veja", cuja convocação é defendida por setores do PT.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Dilma dá diretoria do BB a ex-senador do PR

Iniciativa visa acabar com disputa por poder no banco e na Previ e ainda contempla um partido da base aliada

César Borges, que não tem mais mandato no Congresso, vai assumir vice-presidência de Governo do banco

Andreza Matais, Natuza Nery

BRASÍLIA - A presidente Dilma Rousseff decidiu indicar um político do PR para a cúpula do Banco do Brasil: o ex-senador Cesar Borges substituirá Ricardo Oliveira na vice-presidência de Governo do BB.

Ao convidar César Borges (BA), Dilma Rousseff contempla o PR, um partido insatisfeito com a perda de espaço no governo após denúncias de irregularidades no Ministério dos Transportes, que derrubaram o senador Alfredo Nascimento (PR-AM), no ano passado.

A troca inicia a dança de cadeiras deflagrada pelo Planalto para pôr fim à disputa de poder entre o comando do BB e a Previ, maior fundo de pensão da América Latina.

Ricardo Oliveira é apontado no governo como um dos responsáveis por alimentar a guerra entre o presidente do BB, Aldemir Bendine, e o chefe da Previ, Ricardo Flores. Bendine e Flores não se falam há mais de um ano.

Vazamento

Para o governo, foi Oliveira quem vazou informações à mídia sobre Allan Toledo, ex-vice-presidente do banco investigado por movimentação financeira atípica.

Toledo é ligado a Flores, e a notícia foi interpretada no Planalto como um ataque ao presidente da Previ.

Próximo ao ministro Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral da Presidência), foi Oliveira quem indicou Bendine para o cargo.

Ele não foi encontrado pela Folha ontem.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Serra tem 31% e Haddad, 3%, na primeira pesquisa Ibope

A cinco meses da eleição, o candidato José Serra (PSDB) lidera a corrida pela Prefeitura de São Paulo, com 31% das preferências, de acordo com a primeira pesquisa Ibope para a eleição municipal. Celso Russomanno (PRB) aparece em segundo lugar, com 16%, seguido de Netinho (PCdoB), com 8%, Soninha Francine (PPS), com 7%, Gabriel Chalita (PMDB), com 6%, e Paulinho da Força (PDT), com 5%. Fernando Haddad (PT), o único na lista que nunca disputou eleições, tem 3%. O levantamento ouviu 805 eleitores entre os dias 5 e 7 em pesquisa estimulada, na qual os eleitores declaram a preferência após ler a relação de candidatos

Ibope mostra Serra com 31% na capital; pré-campanhas ainda não surtem efeito

Tucano tem 15 pontos porcentuais sobre segundo colocado, Russomanno, do PRB; petista Haddad aparece com 3% das intenções de voto

Daniel Bramatti

O ex-governador José Serra tem 31% das intenções de voto para a Prefeitura de São Paulo, segundo a primeira pesquisa Ibope feita desde a entradado tucano na corrida eleitoral. O pré-candidato do PSDB está 15 pontos porcentuais à frente de Celso Russomanno (PRB), que aparece com 16%. A disputa pelo terceiro lugar está embolada: Netinho (PC do B, 8%), Soninha (PPS, 7%), Gabriel Chalita (PMDB, 6%) e Paulinho da Força (PDT, 5%) têm menos de três pontos de distância entre si – porcentual que equivale à margem de erro da pesquisa. O petista Fernando Haddad, o único da lista que nunca disputou eleições, tem apenas 3% das intenções de voto. Os números se referem à pesquisa estimulada, aquela na qual os eleitores declaram sua preferência depois de ler a relação de candidatos. Na consulta espontânea, Serra aparece com 11% – é o único com porcentual de dois dígitos. Apesar de os partidos terem antecipado na prática a campanha eleitoral, cujo início formal será apenas em julho, os paulistanos se mostram pouco empolgados com a sucessão e desinformados sobre ela. Quatro em cada cinco eleitores não conseguem indicar espontaneamente seu candidato.

A atual pesquisa do Ibope apresentou resultados semelhantes aos do instituto Datafolha, divulgados em março. Desde então, o quadro ficou praticamente inalterado, apesar do esforço dos partidos e pré-candidatos. Os principais nomes da disputa já contam com assessores de campanha e participam quase todos os dias de eventos nos quais buscam aparecer na mídia e conquistar eleitores – apesar de estarem formalmente proibidos de pedir votos até julho.

Obstáculos. Líder na pesquisa, Serra enfrenta um grau de rejeição superior ao seu porcentual de apoio. Nada menos do que 35% dos entrevistados pelo Ibope afirmam que não votariam nele de jeito nenhum. Haddad, pouco conhecido entre os eleitores, é rejeitado por 12%. O líder nesse quesito é Netinho (38%). Segundo colocado, Russomanno se beneficia do fato de ter um palanque informal em programas da TV Record, controlada pelo bispo Edir Macedo, da Igre-ja Universal do Reino de Deus, à qual o PRB também é ligado.

Segmentos. Serra é o líder isolado entre os eleitores de todas as faixas de renda, com exceção dos mais pobres. Entre os que ganham menos de um salário mínimo, o tucano tem 17% das preferências, o mesmo que Russomanno e quatro pontos a menos que Netinho – outro pré-candi-dato que se lançou na política após ganhar exposição em programas de televisão. Dividindo-se o eleitorado de acordo com o grau de escolaridade, Serra oscila pouco. Na faixa com formação superior, na qual atinge 32%, sua vantagem em relação aos adversários é mais folgada – Soninha (11%), Gabriel Chalita (10%), Russomanno (10%) e Haddad (7%) estão em-bolados a seguir. O Ibope ouviu 805 pessoas com mais de 16 anos em todas as regiões de São Paulo, entre os dias 5 e 7 deste mês. Não é possí vel comparar os resultados com os da pesquisa anterior do instituto, feita em dezembro do ano passado, porque na época o nome de Russomanno não foi incluído entre as opções apresentadas aos entrevistados.

"Partidos vão pesar", afirma ex-governador

O pré-candidato do PSDB, José Serra, afirmou ontem que o cenário retratado pela sondagem do Ibope é preliminar e que o peso dos partidos influenciará a eleição. "É muito cedo para comentar pesquisa. Vai ter muita exposição de todos os candida-tos. Os partidos vão pesar." Questionado sobre o porcentual de intenções de voto de Fernando Haddad (PT), Serra desconversou. "Eu até tenho vontade de comentar, mas não vou." O PT minimizou a estagnação do pré-candidato, apesar da intensiva agenda de compromissos na capital. "A pesquisa Ibope praticamente repete os números do Datafolha, de março, o que sugere que o eleitor ainda não está atento ao processo elei-toral", disse Haddad. O ex-deputado Celso Russomanno (PRB) comemorou a con- solidação na segunda posição. Para ele, a pré-candidatura ainda é pouco conhecida e precisa de divulgação: "A rejeição é baixa e não muda. Mas posso crescer." O pré-candidato do PMDB, Gabriel Chalita, que se apresenta como uma "terceira via", demonstrou otimismo. "A campanha não começou."

Bruno Boghossian, Daiene Cardoso e Felipe Frazão

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Inflação pelo IPCA triplica em abril e vai a 0,64%

A inflação oficial, medida pelo IPCA, triplicou de março para abril, passando de 0,21% para 0,64%. De acordo com o IBGE, a inflação de alimentos dobrou, mas cigarros, empregados domésticos e remédios, juntos, foram responsáveis por quase 40% do índice no mês. Em maio, os reajustes de energia elétrica, água e esgoto e táxi devem pressionar o IPCA

Inflação oficial, IPCA triplica em abril

Aumento do preço de cigarro, gastos com empregado doméstico e alta de remédios fazem indicador saltar de 0,21% em março para 0,64%

Daniela Amorim

RIO - A inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), disparou na passagem de março para abril. A taxa triplicou, saindo de 0,21% para 0,64% no período, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pesaram mais no bolso das famílias os gastos com o tradicional feijão com arroz e a farinha. A inflação de alimentos dobrou, mas o destaque ficou com três itens que, juntos, foram responsáveis por quase 40% da inflação no mês: cigarro, empregado doméstico e remédios. "No resultado de abril, nossa surpre-sa ficou por conta de fatores potuais, como um reajuste ligeiramente acima do esperado em cigarros e uma retomada da alta dos preços de automóveis usados", declarou Octavio de Barros, diretor de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco.

O reajuste nos preços do cigarro confirmou a expectativa de maior impacto em abril, seguido por empregados domésticos e remédios. Juntos, somaram 0,24 ponto porcentual, o equivalente a 38% do IPCA. Se por um lado as pressões de cigarros e remédios foram pontuais, a dos empregados domésticos é persistente. "O principal impacto nos serviços em abril foi de empregados domésticos, não apenas pelo aumento do salário mínimo, mas também pela maior oferta de vagas, que diminui o contingente de trabalhadores nessa área", disse Eulina Nunes dos Santos, coordenadora de Índices de Preços do IBGE. A inflação de serviços subiu de 0,52% para 0,76%. Os aumentos nos preços administrados ou monitorados também incomodaram, passando de 0,18% para 0,47%. Em maio, os reajustes das tarifas de energia elétrica, água e esgoto e táxi devem pressionar o IPCA. "Os serviços monitorados, na taxa acumulada no ano e em 12 meses, ainda estão abaixo do índice geral (IPCA). Isso significa que os serviços estão pressionando mais a inflação do que os monitorados", afirmou Eulina.

No mês, houve impacto ainda da valorização do dólar sobre o óleo de soja e o alho, mas também sobre os artigos de limpeza, os primeiros itens a refletir a transmissão do câmbio para o consumidor. "Em geral, quando o dólar começa a chegar aos preços ao consumidor, um dos primeiros itens que revelam esse efeito são os artigos de limpeza", disse Eulina, citando sabão em pó, detergente e desinfetante. A valorização do dólar também já contaminou o preço das carnes no atacado, segundo o aumento detectado pelo Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna, medido pela FGV. A alta deve ser repassada para o consumidor no IPCA de maio. "Em alguma hora, esses aumentos vão chegar ao varejo, não tem jeito", afirmou André Guilherme Pereira Perfeito, economista-chefe da Gradual
Investimentos. A expectativa para a inflação de maio é de desaceleração, mas ainda no nível de 0,5%. "O IPCA de maio virá menor do que o de abril com a saída da pressão de cigarro e remédios, mas não vai recuar mais porque os alimentos vão continuar acelerando", previu Luis Otávio Leal, economista-chefe do banco ABC Brasil.

Impacto. Eulina Nunes dos Santos coordenadora do IBGE: "Quando o dólar chega aos preços ao consumidor, um dos primeiros itens que revelam esse efeito são os artigos de limpeza"

Efeito. No mês, houve impacto ainda da valorização do dólar sobre o óleo de soja e alho, mas também sobre artigos de limpeza, como sabão em pó e detergente.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Inflação em alta pode afetar corte no juro

IPCA de abril teve impacto da alta do dólar e é um sinal de alerta para o governo de que é preciso desvalorizar o câmbio, dizem economistas

Márcia de Chiara

A aceleração da inflação oficial em abril e também das primeiras prévias deste mês de outros índices de custo de vida reverteu o cenário favorável para os preços do primeiro trimestre e fez acender o sinal de alerta em relação à inflação e à pretensão do governo de derrubar as taxas de juros, avaliam economistas.

"Há uma restrição ao movimento de redução de juros, que pode não ser sustentável. Dificilmente a inflação em 12 meses, hoje em 5,1%, ficará abaixo disso", diz a coordenadora técnica do Boletim Macro Ibre da Fundação Getúlio Vargas, Silva Matos.

A economista fez as contas e constatou que a inflação oficial em abril, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) do IBGE, foi fortemente influenciada pela valorização do câmbio, que impulsionou os preços dos produtos comercializáveis. Produtos comercializáveis são aqueles cujos preços sofrem diretamente o impacto do dólar, como alimentos processados e vestuário, por exemplo.

Silvia observa que, depois de dois meses seguidos de deflação, de -0,21% em fevereiro e de -0,08% em março, os preços dos produtos comercializáveis deram um salto em abril e subiram 0,55%. "Esse resultado reflete a valorização do dólar e as restrições às importações. Acendeu o sinal de alerta para a política de juros, se o câmbio continuar a se valorizar", diz a economista.

Fabio Silveira, sócio da RC Consultores, faz avaliação semelhante. Ele aponta a valorização do câmbio, que nos últimos 60 dias subiu cerca de 10% e que já tinha aparecido nos resultados dos índices gerais de preços (IGPs), como o principal fator de reaceleração da inflação em abril. Nas suas contas, 70% da alta de 0,64% do IPCA de abril vem do câmbio.

Silveira também considera o resultado da inflação de abril um sinal de alerta, só que para o governo ajustar a taxa de câmbio. "A pressão inflacionária pode retardar o declínio dos juros para 8% no final de 2012. O câmbio deve começar a ser desvalorizado agora", recomenda.

Serviços. Já para o economista da Tendências Consultoria Integrada, Tiago Curado, a alta do IPCA de abril reflete elevações pontuais de preços, como a dos cigarros, medicamentos e vestuário, e a reaceleração dos preços dos serviços. "Não tivemos tempo de observar o impacto do câmbio."

Para ele, o cenário inflacionário está "longe de ser considerado tranquilo". Ele destaca que a inflação deste ano não deve ser muito pressionada por causa dos bons resultados do primeiro trimestre. Mas, para o segundo trimestre, não é possível contar com desempenho semelhante Na opinião de Curado, "a política de redução de juros está inviabilizada pelo cenário inflacionário há algum tempo e o resultado do IPCA de abril aumenta o risco dessa política".

A reaceleração da inflação de serviços em abril fica clara nas contas de Silvia, da FGV. De janeiro a março, os preços dos serviços, excluindo passagens aéreas, tinham subido 2,86%. Em abril, o índice foi para 3,62%.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Para promotor, Celso Daniel queria ‘dar fim à corrupção’

Será esta a tese que a acusação usará hoje, no julgamento de cinco envolvidos no assassinato do ex-prefeito petista

O prefeito Celso Daniel (PT), de Santo André, foi executado a tiros em janeiro de 2002 porque decidiu dar fim a um esquema de corrupção em sua própria administração. Essa é a tese que o promotor Marcio Friggi de Carvalho vai sustentar no Tribunal do Júri de Itapecerica da Serra, onde hoje serão julgados cinco acusados pelo crime. O j ulgamento será presidido pelo juiz Antonio Augusto Galvão de França Hristov. Segundo o promotor, Daniel foi vítima de “encomenda mediante paga”.

O promotor afasta completamente a hipótese levantada pela Polícia Civil, de que o prefeito foi atacado por um bando de criminosos comuns, que o sequestraram para pedir resgate em dinheiro. Ele reafirma tese do Ministério Público, de que Daniel aceitava a corrupção em seu governo enquanto imaginava que dinheiro desviado ia para o caixa 2 do PT. “O prefeito conhecia o esquema de dinheiro para o caixa 2 de seu partido, para beneficiar o PT nas eleições, inclusive para a campanha do presidente Lula naquele ano”, afirma o promotor. “Ele estava de acordo. Aí descobriu que o dinheiro também servia para enriquecimento pessoal de integrantes do esquema.” O promotor relata que uma testemunha contou que Gilberto Carvalho, então assessor de Daniel na Prefeitura, “levava dinheiro do esquema de corrupção pessoalmente ao então presidente do PT, José Dirceu”. Carvalho, hoje secretário-geral da Presidência, é réu em ação civil por improbidade na Vara da Fazenda Pública de Santo André. Ele e Dirceu negam categoricamente envolvimento.

O principal suspeito, segundo a promotoria, é o empresário Sérgio Gomes da Silva, o Sérgio Sombra. Ele seria o mandante do assassinato e teria pago uma parcela de US$ 40 mil aos executores. Seu advogado, Roberto Podval, questiona no Supremo Tribunal Federal a legitimidade do Ministério Público para fazer investigações criminais. O júri de Sombra ainda não tem data. O primeiro julgamento do caso Celso Daniel, em novembro de 2010, levou à condenação de Marcos Roberto Bispo dos Santos, que pegou 18 anos de prisão. Hoje serão julgados outros cinco réus, entre eles o líder da quadrilha, Ivan Rodrigues da Silva, conhecido como Monstro. / F.M.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Nara Leão - Corcovado

Crime organizado:: Merval Pereira

O comentário do senador Pedro Taques, do PDT de Mato Grosso, de que o bicheiro Carlinhos Cachoeira já estava no terceiro estágio do crime organizado, buscando negócios legais, resume bem o estado de espírito dos parlamentares que participaram do depoimento teoricamente secreto do delegado da Polícia Federal (PF) Raul Alexandre Marques Souza na CPI.

Mesmo oriundo do Ministério Público, assim como Demóstenes, o senador Taques tem experiência de acompanhar esse tipo de ação criminosa e não estava fazendo um comentário leviano.

As investigações revelaram com uma profusão de detalhes as ligações de Cachoeira com praticamente todos os níveis de poder da República, sendo que tinha no bolso do colete pelo menos um senador - Demóstenes Torres, ex-DEM de Goiás, que o delegado classificou como o braço político da organização - e dois deputados federais - Carlos Leréia, do PSDB, e Sandes Júnior, do PP, ambos de Goiás.

Além do Congresso, o bicheiro tinha influência importante sobre pelo menos dois governadores, o tucano Marconi Perillo (Goiás) e o petista Agnelo Queiroz (Brasília).

A atuação do mafioso não se limitava a Goiás, seu estado natal, ou ao Centro-Oeste, como quis fazer crer num primeiro momento o relator petista, tentando circunscrever as investigações ao interesse de setores de seu partido.

Seu império se espalhava por todo o país, e há ainda a se provar sua participação na empreiteira Delta, de quem parece ser um sócio oculto.

É por esse caminho que um terceiro governador, o do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), pode vir a ser convocado para depor na CPI, mas até agora não há indicação de que sua relação promíscua com o empreiteiro dono da Delta, Fernando Cavendish, seja razão para tal convocação.

O vice-presidente Michel Temer tem razão ao afirmar que jantar com empreiteiros não é crime em si, mas pode indicar crimes praticados, já que se sabe, conforme nos ensinou Milton Friedman, que não existem jantares grátis, o que por si só já seria motivo para investigação, que neste primeiro estágio caberia ao Ministério Público ou à Assembleia Legislativa do Rio.

Há ainda a apurar informação não confirmada de que o bicheiro do Centro-Oeste estaria querendo entrar no mercado do Rio e teria se utilizado de canais especiais do empreiteiro Cavendish para realizar essa ampliação de seu negócio.

Se, no decorrer das investigações, ficar comprovado que o verdadeiro dono da Delta era mesmo o bicheiro Cachoeira, como acredita o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, aí, sim, o governador do Rio teria que prestar contas à CPI.

Pelo que se sabe das investigações, e com as muitas mil horas de conversas telefônicas gravadas com autorização judicial, fica patente que o crime organizado estava infiltrado no Poder Legislativo e em alguns Executivos estaduais, e tinha planos ambiciosos de fazer do senador Demóstenes Torres um membro do Supremo Tribunal Federal.

Em termos regionais, o mais próximo que andamos de um cenário de domínio pelo crime organizado de um estado foi no Espírito Santo, onde nos anos 90 do século passado os três poderes estaduais foram todos cooptados, tendo sido preciso a intervenção forte de força-tarefa policial e política para restabelecer a ordem.

A declaração do delegado da PF de que o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, engavetou a investigação deu nova força aos que querem usar a CPI como instrumento de vingança contra a Procuradoria e a imprensa, pelas mesmas razões: as denúncias sobre o mensalão.

Com relação à imprensa, o delegado Raul Souza foi categórico ao afirmar que a PF não encontrou qualquer indício de ilegalidade nos contatos do diretor da revista "Veja" em Brasília, Policarpo Junior, com o bicheiro Carlinhos Cachoeira.

"Apensas conversas entre jornalista e fonte" foi a definição do delegado. Ora, se é verdade que existem mais de 200 ligações telefônicas entre o jornalista e o bicheiro, como gostam de alardear os blogs chapas-brancas, muitos financiados pelo governo exatamente para fazer esse trabalho de solapar a grande imprensa, como não se consegue nenhum diálogo direto entre os dois ou mesmo entre o jornalista e membros do grupo do bicheiro, que revele a suposta troca de favores que evidenciaria o crime?

Até o momento o que há são conversas entre os criminosos sobre o jornalista, que servem para alimentar ilações grotescas sobre conluio da direção da revista com o crime organizado.

Do mesmo modo, não há qualquer indicação nos dados da PF de que Gurgel ou sua mulher, a subprocuradora Cláudia Sampaio, tivessem alguma relação com o esquema criminoso, e é leviana a suspeita de que tenham agido com espírito de corpo. E a explicação oficial dos dois de que a Operação Vegas não tinha indícios suficientes para abrir um processo no STF contra o senador Demóstenes Torres ou outros parlamentares, mas que resolveram sobrestar o caso até que novas investigações em curso pudessem complementar as informações, pode ser confirmada pelo próprio comentário do delegado na CPI: o caso não foi arquivado nem devolvido à Justiça Federal de Goiás para novas investigações, permanecendo três anos aberto até que, com a Operação Monte Carlo, pôde ter sequência com a abertura de inquérito contra o senador de Goiás no início deste ano.

Caberá, portanto, ao procurador-geral da República agir rápido para desfazer a intriga de que não há explicação razoável para sua demora em abrir o inquérito contra Demóstenes Torres, e sua reação foi mais do que adequada. Roberto Gurgel explicitou o que já se sabia, a ação contra ele é mais uma manobra dos que querem confundir o julgamento do mensalão para neutralizar sua atuação, colocando-o sob suspeita.

Isso levaria a suspeita de envolvimento com o crime organizado às portas do STF, o que seria desastroso para a democracia brasileira. Justamente por isso é preciso que a CPI seja prudente ao tratar do assunto, para não servir de pretexto para os que querem tumultuar o julgamento do mensalão.

FONTE: O GLOBO

Gente diferenciada:: Dora Kramer

Seria uma impropriedade dizer que há dois pesos e duas medidas na CPMI em cartaz. O que se vê ali são vários pesos na manifestação de posições e nenhuma medida aplicada aos critérios para a tomada de decisões.

Vejamos o caso do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, um alvo antecipado, assumida e calculadamente escolhido pelo PT. No primeiro momento prevaleceu o entendimento sustentado no impedimento legal que, no caso de comparecimento do procurador como testemunha à comissão, poria em risco sua função de titular de eventual ação junto ao Supremo Tribunal Federal.

Depois do depoimento do delegado da Polícia Federal Raul Alexandre de Souza – feito sob a ridícula, por vã, égide do sigilo – houve alteração de opiniões e sobressaiu-se a compreensão de que o procurador teria se "complicado".

E por quê? Porque o policial disse que Roberto Gurgel não tomou providências quanto à Operação Vegas que deu origem à Monte Carlo, causa da prisão de Carlos Augusto Ramos, vulgo Cachoeira, e geradora do escândalo em tela. Tal informação, apesar de sobejamente conhecida, foi interpretada como razão suficiente para se chamar o procurador à CPMI, pois haveria aí indícios de prevaricação.

É de se perguntar quais seriam eles, visto que Gurgel não arquivou o inquérito. Onde está o fato?

Mas, tomemos como aceitável que os deputados e senadores considerem como suspeita a decisão da procuradoria, apenas para facilitar o raciocínio sobre a abundância de pesos e carência de medidas na CPMI. Indícios por indícios, há também indicativos de que a convocação do procurador atenda a interesses escusos: vingança, desmoralização e questionamento legal da atuação de Gurgel no processo. Seria o caso de se investigar tais indícios?

Provavelmente não, pois foge ao foco da CPMI. Já os três governadores suspeitos de envolvimento direto ou indireto com o esquema de corrupção coordenado pelo prisioneiro acima referido e do qual seria um dos braços a construtora Delta, estão sem dúvida enquadrados no objeto da investigação.

No entanto, há resistência tanto em chamar os governadores quanto em abrir à exibição pública os negócios da Delta com governos federal, estaduais e municipais. Qual o argumento? O de que existiriam apenas indícios. Insuficientes para justificar a pisada firme da CPMI nessa seara.

Segundo o vice-presidente da República, Michel Temer, no papel de defensor do PMDB, o governador do Rio de Janeiro não fez nada além de "jantar" com Fernando Cavendish, dono providencialmente afastado da empreiteira.

Por esse raciocínio, então o governador de Goiás, Marconi Perillo, apenas "telefonou" para Cachoeira e o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, nada fez além de se "encontrar" uma vez com o personagem para "conversar amenidades".

No mundo virtual dos muitos pesos e nenhuma medida pode ser que seja assim. Mas a realidade não se conduz com semelhante ligeireza.

Cabral precisa deixar claro que sua amizade com Cavendish não guarda relação alguma com os contratos da Delta, vários sem licitação, com o governo do Rio, sem falar na prestação de contas sobre despesas de viagens e festividades nacionais e internacionais.

Perillo deve explicações sobre doações do dito Cachoeira para campanhas eleitorais, sobre tráfico de informações entre a chefia das operações ilegais e funcionários de seu gabinete, sem falar na esquisitice de pagamentos feitos dentro do Palácio do governo goiano conforme indicam diálogos nos grampos telefônicos da PF.

Agnelo necessita dissertar a respeito de várias questões levantadas no inquérito da PF: favorecimentos da Delta em contratos para coleta de lixo no DF, pagamento de propina para a liberação de pagamentos devidos à empresa, relações do seu ex-chefe da gabinete com as organizações Cachoeira e espionagem de adversários feita por gente do Gabinete Militar do governo de Brasília.

Meros vestígios, tão somente indícios? Bem mais robustos que a difusa desconfiança sobre a conduta do procurador-geral.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Fatos e fitas:: Eliane Cantanhêde

Se alguém está entendendo a aliança entre Fernando Collor e o PT para transformar a CPI do Cachoeira em CPI da imprensa, por favor, explique. "Se a mídia quer guerra, vai ter guerra", ameaça um senador petista, segundo o Painel. Afinal, quem quer guerra?

O impeachment de Collor foi por causa da imprensa, do PT ou dos dois? Será que ele não tinha culpa no cartório nem ficou isolado no Congresso e na sociedade?

O mensalão foi fruto da imaginação coletiva da imprensa? Ninguém estava comprando e vendendo votos no Congresso e nos partidos? E nunca houve "aloprados"?

Waldomiro Diniz, então braço direito do braço direito de Lula, José Dirceu, foi ou não foi filmado pedindo propina justamente para o agora famoso Carlinhos Cachoeira?

Antonio Palocci dividia ou não uma casa esquisitona com uma gente mais esquisitona ainda no bairro mais nobre de Brasília? Usou ou não o seu poder de governo para violentar o sigilo bancário de um caseiro?

Palocci multiplicou ou não o seu patrimônio muitas vezes no ano em que era coordenador da candidatura de Dilma? E comprou ou não um apartamento de quase R$ 7 milhões em São Paulo?

E a Erenice? E os ministros todos que ruíram como num castelo de cartas? Foi culpa da imprensa? Eles não fizeram nada de errado? Então por que Dilma acatou a demissão e ainda capitalizou a imagem da "faxina"?

Afinal, Collor e o PT estão guerreando contra que mídia, e por quê? A não ser que tentem descontar nos outros as próprias culpas. Vá saber.

Se jornalistas ganharam dinheiro, vantagens e favores de Cachoeira, que sejam investigados e punidos. Mas, se usaram fitas verdadeiras do esquema, por exemplo, mostrando Waldomiro com a boca na botija, apenas fizeram jornalismo.

Contra fatos -e fitas- não há argumentos. O resto é chiadeira, retaliação e guerra, com mensalão e morte de Celso Daniel em julgamento...

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

A hora de cassar estrelas da República:: Cristian Klein

Toda Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) tem como missão, além de investigar um "fato determinado", deixar lições para que os erros não se repitam e se criem condições para aperfeiçoar as instituições políticas ou administrativas.

Como quase toda CPI, a que mobiliza atualmente o Congresso esbarra na velha questão sobre as relações promíscuas entre a ordem pública, da política, e o mundo privado, das empresas fornecedoras de serviços às diversas esferas de governo.

A enorme rede de influência do empresário/bicheiro Carlos Augusto Ramos, vulgo Carlinhos Cachoeira, e da construtora Delta teria se espraiado pelo país, com destaque para a intimidade mantida com os governadores do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), e do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT) - ou seja, caciques das três maiores siglas -, além de contar com o senador Demóstenes Torres (sem partido-GO), praticamente um sócio do empreendimento.

Contratos da Delta cresceram na medida das doações

A CPI do Cachoeira não surpreende pela forma nem pelo conteúdo. Mas a quantidade de gravações que vão sendo divulgadas só encontram paralelo em outros dois escândalos recentes: o mensalão do DEM - que produziu uma videoteca de cenas explícitas do suposto esquema de corrupção que derrubou o ex-governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda - e a reportagem do "Fantástico" (TV Globo) que mostrou didaticamente, em março, uma espécie de "A corrupção como ela é" rodrigueana no hospital da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

A diferença é que, neste último caso, para o refestelo da classe política, a armação não envolvia detentores de cargo eletivo. Todos os protagonistas eram operadores de quatro empresas que ofereciam propina para garantir a venda de seus produtos ao hospital universitário. É uma prova de que o submundo da corrupção independe do mundo da representação. O empresário com ambições de maximizar seus lucros a despeito da ética é tão vilão quanto o político desonesto.

Mas, geralmente, episódios assim são pontos fora da curva. Sem políticos como protagonistas, as histórias ficam sem graça. Represar Cachoeiras não é tão díficil e fascinante quanto cassar estrelas da República como deputados, senadores, governadores e pô-los atrás das grades.

Políticos devem seus mandatos ao voto dos eleitores e ao dinheiro de seus financiadores. Não há eleição grátis. Na última década, a escalada de contratos conquistados pela Delta com o setor público cresceu à proporção de seu investimento em campanhas políticas Brasil afora. As doações, que eram pouco mais de R$ 60 mil, em 2002, passaram a R$ 2,3 milhões, em 2010.

É fácil prever que entre as lições que serão tiradas da CPI estará a condenação do modelo atual e a sugestão do financiamento público de campanha. É a proposta defendida há anos pelo PT, sob o argumento de que o sistema em vigor favorece quem tem acesso privilegiado a grandes doadores e porque cria uma relação de dependência dos candidatos individuais em relação aos financiadores.

Tudo isso faz sentido. Mas nada garante que grandes esquemas de corrupção sejam barrados pela interrupção de apenas um entre tantos canais possíveis de negociações escusas. O lobby de Carlinhos Cachoeira e da Delta para aprovar contratos e projetos - como a liberação dos bingos - ocorreria de um jeito ou de outro. Há inúmeras maneiras de se fazer os chamados "pagamentos laterais". O registro das doações, ao menos, permite identificar relações possivelmente suspeitas.

O financiamento exclusivamente público está associado à mudança para a lista fechada, modelo pelo qual os cidadãos votam apenas em partidos. É o sistema no qual o PT acredita que levaria maior vantagem, por liderar, de longe, a preferência do eleitorado em relação às demais legendas. Na lista fechada, porém, os políticos têm o mais baixo incentivo de cultivar laços com os eleitores.

O mais provável é que imagens de homens públicos estreitando laços com grandes empreiteiros em festas de gosto duvidoso pela Europa se tornassem ainda mais comuns. Os interesses das construtoras sempre existirão - enquanto o poder do eleitor de interferir e punir candidatos seria podado.

A crítica à lista fechada, por outro lado, não significa que o problema do financiamento privado esteja solucionado. Em entrevista ao Valor por ocasião da aprovação do Código Florestal, o ex-secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, apresentou um bom ponto ao ser questionado se a força dos ruralistas no Congresso significaria que eles são mais bem organizados politicamente do que os ambientalistas. Ele reconheceu.

"Eu diria que o modelo eleitoral brasileiro leva a isso. As campanhas são cada vez mais caras. O modelo viabiliza aquele que é capaz de mobilizar mais recursos. E essa capacidade tem a ver com o setor privado e, portanto, há um círculo vicioso. Aquele que defende o interesse privado tem mais chance efetivamente de obter recursos para a sua campanha e, logo, muito mais chance de estar representado", respondeu Capobianco.

O argumento é interessante e pode ser resumido pela seguinte lógica: o financiamento privado leva à primazia dos interesses privados - em detrimento dos interesses públicos.

Inúmeros filósofos e cientistas políticos já se dedicaram ao tema, cujo dilema maior deságua na questão crucial: existe um interesse público - ou uma "vontade geral", a la Rousseau - ou a sociedade é feita de uma pluralidade de interesses que precisam se contrapor e competir (Robert Dahl)?

É provável que a melhor saída esteja entre um e outro extremo. A própria bandeira verde não está imune à manipulação de setores privados.

Quanto à CPI, a única lição, que já deveria ter sido aprendida, depois de tantas passadas, é como punir, de fato, os culpados.

FONTE: VALOR ECONÔMICO

Os Roosevelts e as cotas :: Marcello Cerqueira

Pensava que após o voto do ministro Lewandowski, relator da tentativa de impugnação das cotas, o assunto estaria esgotado. Mas subestimei a sabedoria do Coletivo. A ministra Cármen Lúcia contribuiu para o rito de passagem da lei: "As ações afirmativas não são a melhor opção, mas são uma etapa." E, na sequência, o ministro Gilmar Mendes apoiou com a ressalva de que defendia "a adoção de um critério objetivo de índole socioeconômica". Coube ao ministro Cezar Peluso o descortino de ligar a aprovação das cotas ao futuro: "A meu ver, a política pública afirmativa volta-se para o futuro, independe de intuitos compensatórios, reparatórios, de cunho indenizatório, simplesmente pela impossibilidade, não apenas jurídica, de responsabilizar os atuais por atos dos antepassados." (grifei.) Será esse voto que ligará este artigo aos Roosevelts.

Com efeito, o precedente que se tem é absolutamente revelador de que a universalização do ensino pode trazer benefícios para toda a coletividade e não apenas para os eventuais e diretamente beneficiados.

A experiência - e o exemplo - nos vem dos Estados Unidos da América, naturalmente após o término da Segunda Guerra Mundial e por inspiração da notável Eleanor Roosevelt durante o governo de seu marido, o presidente Franklin Roosevelt.

Preocupava-se o progressista governo Roosevelt em oferecer compensações aos heróis de guerra (não se chamou de política afirmativa). O Congresso americano aprovou unanimemente a lei, que ficou conhecida como a Lei dos Direitos dos Pracinhas. Empréstimos subsidiados para a compra da casa própria, seguro-desemprego para os necessitados e bolsa para ingresso nas universidades e escolas preparatórias, além de mensal ajuda de custo para os estudantes. Não havia vestibular ou qualquer outra forma de aferir prévio conhecimento: bastava ser veterano e ter completado os preparatórios para o curso que pretendia. A Lei dos Pracinhas não se preocupou com a "ideologia do mérito", ou o que isso queira dizer. O fato é que a lei levou dois milhões de pracinhas para as universidades e escolas de graduação.

No final dos anos 40, os veteranos de guerra constituíam quase 50% do total de estudantes do sexo masculino em todas as instituições de ensino superior. O desempenho dos pracinhas foi marcante, superando as melhores expectativas e promovendo o funeral do excludente argumento prévio do mérito.

Pesquisas de 1949 identificaram os veteranos como os melhores estudantes: os mais maduros, os melhores, os mais responsáveis e o mais disciplinado grupo de estudantes universitários da história americana, independentemente de raça, classe social ou recursos, e a quem se deveu, então, o extraordinário avanço do ensino naquele país. É o que nos relata Doris Kearns Goodwin, em seu instigante "Tempos muito estranhos" (Nova Fronteira, 2001), uma biografia do casal famoso e do seu tempo.

Marcello Cerqueira é advogado

FONTE: O GLOBO

Zona do euro, hora da inteligência :: José Serra

A eleição de François Hollande, na França, trouxe à luz a fragilidade da chamada zona do euro e, em larga medida, o erro histórico que significou a moeda única europeia. Ora, ou se tem uma "união", de fato, com instrumentos de política pública que permitam a efetiva intervenção do "governo europeu", ou se tem o que hoje se vê: as regras que, em tese, servem a todos, mas só impedem a aplicação dessas políticas. Vale dizer: a zona do euro existe para dizer "não", jamais para dizer "sim". Em período de prosperidade, tudo bem. Na crise, o desastre!

Ao contrário do que se difunde, ela não resultou de gastanças governamentais desenfreadas nem decorreu, por outro lado, da até há pouco celebrada globalização financeira. A frouxidão fiscal ocorreu, sim, mas em países menores, como a Grécia, com menos de 3% do PIB europeu. Só para lembrar, a Espanha e a Itália tinham, respectivamente, uma relação dívida/PIB baixa e um déficit fiscal moderado. A liberalização financeira foi, e tem sido, é claro, uma condição para a crise, mas só fez acusar o caldo de cultura criado pela lógica da moeda única europeia, cuja implantação, há dez anos, representou um equívoco de porte wagneriano.

A união da Europa foi o sonho de sempre, na esperança de que traria a paz à humanidade. O primeiro passo da integração foi induzido pelo Plano Marshall, feito pelos EUA para ajudar a reconstruir o continente devastado pela 2.ª Guerra e, naturalmente, conter o avanço soviético, na segunda metade dos anos 1940. O efeito foi fulgurante, propiciando "milagres" econômicos precisamente nos países que perderam a guerra: Alemanha e Itália. A Alemanha, em vez de sofrer a pastoralização planejada por vencedores (volta a uma economia rural), reergueu sua indústria e passou a liderar a economia da região.

Numa primeira fase, o euro trouxe bonança. Afinal, permitiu juros menores para a maioria dos países da União Europeia (UE), crédito mais abundante. Beneficiou a todos e, principalmente, à Alemanha, que expandiu aceleradamente suas exportações para a região, em face da sua capacidade de oferta e de conter custos. Mas a crise que veio dos EUA em 2008 - subprime e Lehman Brothers - testou a solidez do modelo, que se saiu mal. Os diferentes países foram afetados e não tiveram instrumentos de política econômica diversificados e fortes para lidar com a situação. Mãos amarradas pela moeda única.

Para arremate, veio a tragédia da pequena economia grega, cujo tamanho deveria limitar o estrago. Engano. Esse gatilho disparou uma crise de confiança, traduzida no aumento alucinante dos prêmios de risco em países economicamente nobres da zona do euro. Em miúdos: encurtamento de prazos e aumento dos juros para refinanciar as dívidas governamentais, além da absorção de dívidas do sistema financeiro público e mesmo privado. Isso tudo ampliou a desconfiança.

De fato, a moeda única chocou-se com a razão econômica e as possibilidades institucionais. Ela exige união fiscal, plena mobilidade de força de trabalho e de capitais, sistema de seguridade unificado. Numa federação de verdade, os Estados desenvolvem-se de maneira desigual, mas isso não afeta o equilíbrio do sistema porque o poder central faz políticas compensatórias. Não há barreiras invisíveis às migrações, por exemplo. O Banco Central funciona, goste-se ou não, como instituição garantidora e os detentores de papéis públicos sabem que, mesmo com um pouco a mais de inflação, terão seus pagamentos honrados, o que lhes diminui a ansiedade e a desconfiança.

Pouco ou nada disso existia e existe na Europa do euro, ampliando notavelmente sua vulnerabilidade a choques adversos. Na UE não há Banco Central emprestador de última instância, não há taxa de câmbio para mexer, não existe poder fiscal compensatório. O orçamento é de 1% do PIB regional. No Brasil ou nos EUA, a União maneja pelo menos 20% do PIB.

Assim, a exclusiva terapia para o enfrentamento da crise nos países mais afetados é a da suposta recuperação da confiança dos investidores mediante o corte de gastos públicos, aumento de impostos e deflação de salários. Crescem, assim, a instabilidade social e política, cresce a desconfiança econômica, pois o crescimento para baixo compromete a capacidade prevista de os governos honrarem seus compromissos.

O Goldman Sachs fez uma simulação do custo do ajuste na Espanha, por exemplo: para zerar seu déficit em conta corrente, hoje de 3,7% do PIB, a desvalorização real teria de atingir 20%, o que demoraria uns dez anos. Nesse período o PIB deveria cair a 0,2% ao ano e o nível de emprego, já baixíssimo, declinar mais de 0,5%/ano. Em troca a Alemanha e outros países superavitários da UE deveriam promover a apreciação real correspondente, com mais demanda e mais inflação dentro de suas economias...

Com variações, esse é o fantasma que agora assombra a Europa. A quebra de uma das pernas da dupla Merkozy, com a eleição de François Hollande na França, mostra a falta de sustentação da estratégia em curso. É simplista a ideia de que o novo presidente francês, depois das eleições parlamentares de junho, vai compor, com outro nome - Merkande? Merkholan? -, uma dupla parecida. O mais provável é que a terapia corrente se desestabilize ainda mais.

A esperança é que as recentes eleições reacendam a vida europeia inteligente, capaz de ganhar o tempo necessário para o aprofundamento da federação. Isso exige puxar duas pontas de barbante: primeiro, o Banco Central Europeu concentrar-se mais na aquisição direta de títulos de dívida, visando a conter e reverter a espiral deflacionista dos ativos; segundo, a da expansão a curto prazo, com mais folga fiscal, sim, dos países superavitários, Alemanha à frente, o que ampliaria o fôlego dos deficitários, por meio das exportações.

Vai acontecer? Vamos ver! A esperança está numa revisão de conceitos do que hoje se consideram fundamentos do núcleo que comanda a UE. Às vezes, é mais difícil mudar uma convicção do que mover uma montanha.

Ex-governador, ex-prefeito de São Paulo

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

O vento mudou, mas para o quê?:: Clóvis Rossi

Crescimento agora é parte da agenda europeia, mas ainda falta acordo sobre como atingir esse objetivo

PARIS - A Europa tenta começar a sair de seu doloroso labirinto em três movimentos nos próximos 40 dias: a reunião entre o presidente francês, François Hollande, e a chanceler alemã, Angela Merkel, no dia 16; uma cúpula informal dos líderes europeus no dia 23; e, já em junho, a cúpula semestral.

Todos os movimentos girarão em torno do crescimento e, por extensão, do emprego, além da austeridade, cravada na cúpula de março. Que os ventos mudaram na direção do crescimento dá prova contundente o porta-voz da grande banca internacional, Charles Dallara, que, em entrevista à TV Bloomberg, sugeriu relaxar o ritmo dos cortes orçamentários na Grécia.

"Eles contraíram seu Orçamento em 10% nos últimos dois anos, e no ambiente atual pode-se construir um forte argumento em favor da moderação do ajuste fiscal", diz.

Por "ambiente atual", entenda-se a eleição de domingo em que 66% dos votos foram para partidos anti-ajuste.

Dallara é um tremendo falcão, capaz de me dizer, há três anos em Davos, que o presidente Barack Obama era "um moleque" por ter afirmado que, se a banca queria guerra, teria guerra.

Se Dallara agora não quer guerra, trata-se de uma rendição aos fatos, assim expostos na coluna de ontem para o "Financial Times" de Martin Wolf, que não é exatamente populista: "O aperto fiscal não melhora o desempenho de economias que encolhem. (...)De acordo com o Fundo Monetário Internacional, a relação dívida pública bruta/PIB subirá, não cairá, ano após ano, de 2008 a 2013, na Irlanda, na Itália, na Espanha e em Portugal. Cairá brevemente na Grécia, mas só por causa da reestruturação da dívida".

Se a dívida sobe, em vez de cair, e se não há crescimento, aumenta a chance de calote, como percebem os mercados.

Escreve, por exemplo, Dominique Seux, de "Les Echos", o "Financial Times" francês, sobre a pregação de Hollande pelo crescimento: "O novo presidente teve uma boa intuição: o ambiente é favorável a um discurso sobre o crescimento, pois os mercados, tendo votado pela austeridade, mudam de opinião por causa da Espanha".

A Espanha, mesmo sendo fundamentalista no ajuste, virou bola da vez no mercado da dívida ao resvalar de novo para a recessão.

O problema, portanto, é menos convencer os mercados e mais a Alemanha. O governo alemão até topa incluir crescimento no jogo europeu, desde que não seja à custa de mais dívida e mais deficit para financiar pacotes de estímulo.

Merkel prefere as chamadas reformas estruturais, codinome para reduzir a proteção aos trabalhadores, na pressuposição de que, em sendo mais barato demitir e em sendo os salários mais contidos, as empresas contratarão mais. "Nonsense", fulmina o liberal Martin Wolf: "No médio prazo, [reformas estruturais] aumentarão o desemprego, acelerarão a deflação e aumentarão o peso real da dívida".

É escandalosamente óbvio que a Europa não pode esperar o longo prazo. Mas é também óbvio que os novos ventos, pró-crescimento, ainda não encontraram um barco de ideias sólidas sobre o qual soprar.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Sair ou não sair do euro:: Celso Ming

Nesta quarta-feira, o ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäuble, se encarregou de passar o recado para a Grécia.

Disse ele que, se os gregos quiserem sair do euro, não haverá quem irá impedi-los. Disse ainda que, caso queiram permanecer no bloco, a melhor maneira para isso será observar o que foi definido nos contratos.

Dia após dia, vai sendo mostrado que os países centrais da área do euro têm se conformado com ter de enfrentar as consequências de eventual saída da Grécia. A situação é parecida com a existente às vésperas da quebra do Lehman Brothers, em 2008. Deixar quebrar seria uma calamidade; mas, se não deixar, como sabê-lo? Ou seja, com a possível saída da Grécia e com tudo o que viria junto ficaria mais fácil convencer os demais a não tratar com leviandade essa hipótese.

Nada menos que 77% dos gregos querem permanecer na zona do euro – apontam as pesquisas. Mas desejam do jeito deles, com sombra e água fresca proporcionadas pela vizinhança.

A saída da Grécia do bloco do euro seria um desastre, embora localizado. Além disso, a simples adoção de nova dracma, fortemente desvalorizada em relação ao euro, mais o calote geral inevitável não resolveriam problemas de fundo. O rombo orçamentário, de 7% do PIB em 2011, ficaria alguma coisa menor, porque o calote diminuiria certas despesas financeiras. No entanto, não seria o suficiente para que a Grécia pudesse dispensar os financiamentos, que ficariam inviáveis em decorrência do calote. O novo banco central da Grécia seria chamado a emitir moeda para pagar contas internas e a inflação iria para onde tivesse de ir. Mas seria incapaz de fornecer moeda forte para pagar importações.

A reinstituição da moeda nacional provocaria perdas inexoráveis de patrimônio da população. Aplicações financeiras nos bancos não poderiam mais ser recuperadas em euros; teriam de ser convertidas em dracmas. Assim como dívidas e compromissos internos, hoje em euros. Nessa paisagem, ficaria difícil evitar a recessão e a perda de salários em proporções até maiores do que as atuais, que o povo grego se recusa a suportar.

Comparações com a Argentina, que saiu do sistema de conversibilidade com o dólar (currency board) em 2002, valem pouco. A Argentina é um país com enorme capacidade de gerar receitas em moeda forte, graças a seu importante setor exportador.

É claro, o risco de contágio para o resto do bloco aumentaria exponencialmente com eventual quebra da Grécia. Mas, realisticamente falando, mesmo saindo caro, seria mais barato blindar o resto da economia europeia mais os bancos europeus do impacto provocado pela quebra da Grécia (2,2% do PIB do euro) do que se a economia em questão fosse a Espanha ou a Itália.

Por isso mesmo, um desastre que se restringisse à Grécia poderia cumprir a função de mostrar aos eurocéticos e a tantos que vêm apostando contra o euro a tragédia que seria para o país que decidisse desistir do bloco.

Por falta de opção, a saída da Grécia da zona do euro parece ter ficado inevitável. O ministro Schäuble pode estar apenas tentando preparar os espíritos.

CONFIRA

O gráfico mostra a evolução do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 12 meses, a inflação que define a política de juros.

Serviços ainda caros. A inflação no mês de abril, de 0,64%, veio no teto das expectativas. Foi bem mais alta do que a de março (0,21%). É cedo para concluir que a alta do dólar está puxando os preços. Se, de um lado, os importados estão mais caros, de outro, a cotação das commodities está em relativa queda. Continua preocupante a alta dos serviços, que foi de 0,76% em abril, acumula 3,71% no primeiro quadrimestre do ano e atingiu 9,10% em 12 meses.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

O trator pega a estrada:: Vinicius Torres Freire

Mudanças improvisadas, como a dos juros, podem ter efeitos "estruturais", mas não bastam

O ambiente está tenso aqui no Brasil. Entre elites, claro: governo, banqueiros, mídia, políticos e outros do gênero. O governo federal não deixa passar um "ai" que venha de bancos, de seus representantes ou de críticos da campanha dilmiana contra os juros altos.

O ambiente está tenso porque Dilma Rousseff teria descoberto ou escolhido um caminho para encontrar o seu Graal político, sua medalha de ouro, a marca com a qual quer sair da vida política para entrar na história: baixar os juros. Mais modestamente, seria esse o "Plano Real" da presidente. Leva chumbo quem atravessar o caminho luminoso do programa presidencial.

Tucanos de corpo ou de alma e críticos em geral do programa dilmiano desdenham a comparação, dizendo que o Plano Real teve "impactos estruturais e duradouros" no país. "Baixar os juros na marra" não teria o mesmo efeito.

Bem, o Plano Real, em si mesmo, foi um improviso e um artifício brilhante para conter a inércia hiperinflacionária. Não teria ido longe sem medidas complementares (hipervalorização cambial, abertura do comércio, privatização, controle da dívida dos Estados, saneamento bancário).

Não foi pouca coisa, mas muita coisa deixou de ser feita e continuou meio improvisada, no mau sentido. Mas o fim da hiperinflação por si só mudou muito o país, mesmo que ainda faltassem muitas medidas "estruturais" de estabilização.

O programa dilmiano é muito mais improvisado e talvez politizado demais (no sentido de depender mais de força do que de jeito e mudanças institucionais). Mesmo que aos trancos e barrancos, no entanto, vai provocar mudanças em outras áreas se for capaz de manter os juros baixos por algum tempo.

Algumas mudancinhas já são visíveis: investidores procuram alternativas para aplicar seu dinheiro, que talvez agora procure financiar empresas. Talvez Dilma prove a tese de que os juros no Brasil são altos em parte porque são altos faz muito tempo. Mas tratar apenas de juros e câmbio é pouco.

Dilma disse que vai tratar também de reduzir impostos, a carga tributária. Pode ser. Para tanto, talvez tenha de se reeleger.

Mas seus ministros econômicos têm dito que as contas do governo estariam equilibradas ou quase isso em 2014. Sem deficit, com arrecadação crescendo um pouquinho além do PIB, dá para cortar impostos.

Para vir o equilíbrio fiscal, o governo precisa ter alguma sorte (que a crise mundial não fique ainda pior), que o Brasil cresça pelo menos 3,5% ao ano e evitar, daqui até 2014, o aumento de gasto com benefícios sociais e com funcionários (como proporção do PIB). E manter o investimento público nesse nível miudinho, a não ser que reduza o tamanho do Estado em outras áreas.

Convenhamos que equilíbrio nas contas públicas seria um feito. Não seria lá um feito muito duradouro, pois muito dependente do ciclo econômico (anos bons de crescimento do PIB e da receita de impostos). No programa dilmiano faltam alguma visão de médio prazo e mudanças institucionais.

Sim, a gente faz a história do jeito que dá, com os instrumentos à mão. Não há perfeição na política. Mas apenas vontade pura, ou voluntarismo, também não dá certo.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Nas asas oficiais:: Míriam Leitão

O JBS vai fazer agora um grande favor ao governo e um grande negócio, ao mesmo tempo. Até então, o grupo tinha feito grandes negócios com favores do governo. Sua holding J&F vai assumir a Delta, a empreiteira que vive uma cachoeira de acusações e que é a maior nas obras do PAC. Se ela quebrasse, seria um desastre para o governo. Nos últimos anos, o grupo JBS recebeu um suporte financeiro do BNDES de cerca de R$ 13,3 bilhões.

Todas as grandes compras da família Batista nos últimos tempos tiveram ajuda do BNDES e BNDESPar. De vários tipos: financiamento para compra de outras empresas, empréstimos, aquisição de debêntures que depois viram capital no grupo.

Foi assim que o BNDES virou sócio do frigorífico. Tanto emprestou através de compra de debêntures conversíveis que acabou ficando assim a divisão de capital do JBS: FB (de Família Batista) 44,6%; BNDES, 31,4%. O resto, ações em mercado.

A empresa teve crescimento exponencial nos últimos anos, entrou em várias áreas, está se diversificando de forma espantosa, e tem como companheiro inseparável nos seus voos econômicos o banco estatal de investimento.

São várias operações. Em 2007, o BNDESPar subscreveu R$ 1,1 bilhão em ações da empresa para a compra da Swift & Co, nos Estados Unidos. Em 2008, nova subscrição de R$ 1 bilhão em ações para apoiar a compra da National Beef Packing e Smithfield Beef Group, também nos Estados Unidos. Em 2008, subscreveu R$ 2,5 bi em ações da Bertin para, segundo o BNDES, "suportar o plano de negócios da empresa". Parece que o plano não suportou a realidade. Logo depois, o JBS ficou com a parte de frigoríficos da Bertin, levando a empresa já engordada com o dinheiro do banco.

Em 2009 e 2010, o JBS emitiu debêntures em R$ 3,5 bilhões e o banco comprou 99,9%. O "resto" ficou com a família Batista. Foi o dinheiro que o grupo usou para comprar a Pilgrim"s nos Estados Unidos. O banco depois transformou todas as debêntures em ações do grupo.

Além disso, os frigoríficos do grupo receberam mais R$ 2,5 bilhões em empréstimos diretos do BNDES, entre 2005 e 2012. A última grande operação entre JBS e BNDES foi um novo financiamento, desta vez de R$ 2,7 bilhões, em junho de 2011, para o investimento na construção da Eldorado Celulose e Papel, em Minas Gerais. O dinheiro está sendo desembolsado. Outros sócios da Eldorado são os fundos de pensão de estatais Petros e Funcef. Segundo o grupo JBS, a Eldorado, a ser inaugurada este ano, será uma das maiores empresas de celulose de eucalipto no mundo. Em produção de proteína animal, o JBS já é o maior do mundo.

Hoje, o grupo está na produção, processamento e comercialização de carnes bovina e de aves, compra e engorda de bois, agricultura, celulose e eucalipto, cosméticos e limpeza, lácteos e na área bancária. O Banco JBS engordou ao comprar o Matone com dinheiro do Fundo Garantidor de Crédito. Agora entra no rentável negócio de empreitadas para o governo.

Recentemente, informou-se que a empresa está comprando os negócios do Independência. E nisso aí é outro favor que faz ao BNDES. O projeto do banco de criar campeões nacionais na área de carne, induzindo uns a comprarem outros, teve alguns fracassos. Bertin, por exemplo, um dos escolhidos, teve que ser vendido logo depois que o BNDES entrou de sociedade na empresa. Aliás, foi para o setor elétrico com a ajuda do governo e também não teve bom desempenho. Mas no complexo carne o maior desastre foi o Independência.

O BNDES entrou de sócio pagando R$ 250 milhões ao Independência e logo depois o frigorífico quebrou. Atualmente, um processo corre sob segredo de Justiça na Câmara de Arbitragem da Bolsa de Valores de São Paulo, no qual o banco tenta reaver o dinheiro que usou com imperícia ao comprar ações de um frigorífico quebrado. O JBS agora vai comprar o que resta da empresa e assim o caso tem uma chance de final feliz.

A mesma oportunidade de limpeza pode-se vislumbrar agora. Se o J&F, onde o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles é presidente do conselho, assumir a Delta, as obras do PAC, da Copa e das Olimpíadas não sofrerão atrasos, interrupções ou suspensões.

O governo dirá que não é o BNDES que vira sócio da Delta, porque o banco é sócio do JBS. Só que ele é o começo do grupo e seu principal ativo. Portanto, sim, o banco é sócio de uma empresa controlada por uma holding que vai assumir a Delta.

JBS são as iniciais de José Batista Sobrinho, empresa fundada por um mineiro que foi para Goiás e que até a construção de Brasília era apenas um pequeno estabelecimento. Com as obras, o patriarca foi para as imediações da capital e passou a fornecer carne para os que chegavam de todas as partes do país. Assim deu os primeiros passos para virar empresa. Era um caso de moderado sucesso mas deu saltos ornamentais nos últimos anos com empréstimos e venda de ações para o BNDES.

A filosofia do grupo é comprar uma empresa em dificuldades ou quebrada, mudar a gestão, e assim ganhar com isso. Dentro desse aspecto, a Delta seria apenas mais uma. Deveria ter encantado o mercado, já que está crescendo. Mas as ações do grupo têm sofrido muito há muito tempo: sobe um pouco e cai, sobe um pouco e cai. Teve forte queda de 5,7% nos últimos dois dias - mais que o Ibovespa - quando começou a ventilar o rumor de que, além de todas as outras áreas, viraria também uma empreiteira.

FONTE: O GLOBO

CPI desnorteada:: Janio de Freitas

A restrição imposta contraria a liberdade dos congressistas da comissão, postos sob censura e suspeição

A CPI começou mal e conseguiu piorar já no segundo passo.

As providências extremadas de seu presidente, Vital do Rego, pretensamente protetoras do sigilo das sessões, foram desmoralizadas logo no depoimento de estreia da atividade inquisidora.

A CPI está reduzida a um conjunto desnorteado de congressistas. Seja quanto às limitações para sua atividade, quanto às suas tumultuadas instruções políticas e quanto à real dimensão da tarefa em que estão cercados de tantos indícios e, ainda mais, boatos sobre figurões em ilegalidades.

Nas condições a que foi submetida, a CPI não pode funcionar. Ou a sua direção reconsidera, com urgência e totalmente, as regras que definiu para os trabalhos e para a conduta dos congressistas, ou, por certo, recursos ao Supremo Tribunal Federal vão se suceder, em busca das condições negadas.

O acréscimo de uns poucos computadores, aos três que pusera à disposição dos 30 integrantes da CPI para consulta à documentação, não soluciona a escassez e, muito menos, a essência do problema.

A determinação do número de computadores foi um ato arbitrário, sem amparo algum.

É tão impossível justificar sua escassez, como não permitir, desse modo, o acesso de toda a comissão ao conhecimento necessário de acusações e documentos do caso. E a consultas a qualquer altura e qualquer parte.

A restrição imposta contraria a liberdade dos congressistas da CPI. Ao proibir, àquele que alcance um dos computadores, o auxílio de técnicos e o porte até de celulares, as regras da comissão retiram recursos proporcionados pelo próprio Congresso para o desempenho de seus componentes.

Nisso, além da liberdade parlamentar que desapareceu, os membros da CPI são postos sob censura e suspeição. E, até onde se saiba, a censura é vedada pela Constituição e uma CPI não pode se compor de suspeitos, dados como tais por sua própria direção.

Esteja ou não sob ordem de sigilo, a matéria da CPI não tem como resistir aos hábitos parlamentares brasileiros.

Assim como previsto, inclusive aqui, o primeiro depoimento nem terminará e já eram passadas a repórteres, por exemplo, as acusações do primeiro depoente ao procurador-geral da República.

O mais significativo do depoimento estava em jornais ontem pela manhã. Com foto.

A CPI precisa de alguma ordem, sem dúvida. Mas realista -conhecidas as limitações a toda intenção de ordem no Brasil- e sobretudo sem arbitrariedades que agridam direitos.

Se não houve mesmo o propósito, com as regras autoritárias, de reduzir o conhecimento da documentação reunida pela Polícia Federal, ainda assim as restrições ganharam um sentido político.

A dificuldade de acesso impede o conhecimento de conclusões policiais e documentação presumivelmente exploráveis, e talvez desastrosas mesmo, contra partes do PT, do PMDB, do PSDB, dos ruralistas, de governos e instâncias do Judiciário. Ao que consta da muito farta e inconfiável circulação de possíveis indícios e óbvios boatos.

Mais um motivo para a reconsideração das regras que facilitam esse aspecto político da difícil CPI.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Inflação dá salto e BC pode frear juro baixo

A inflação da meta, o IPCA, triplicou em abril, passando a 0,64%. Com isso, os analistas já temem que o Banco Central não tenha condições de continuar baixando os juros como o governo pretende. O BC enfrenta ainda o desafio de divulgar ou não o voto de seus diretores.

No caminho dos juros, a inflação

IPCA triplica para 0,64%, levantando dúvidas sobre continuidade de cortes na Selic

Fabiana Ribeiro

O DILEMA DOS JUROS

A inflação brasileira triplicou em abril. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) saiu de 0,21% em março para 0,64% - a maior taxa em um ano. Apenas três itens (cigarro, empregado doméstico e remédios) concentraram quase 40% da taxa de abril. Mas os preços maiores, frisam analistas, aparecem disseminados na economia. Assim, o índice acumula variação de 1,87% no ano e 5,10% nos últimos 12 meses. Números que já levantam dúvidas no mercado: uma inflação mais salgada pode dar um basta aos cortes dos juros? A princípio, não. Mas a resposta, para especialistas, depende do nível da atividade da economia e dos desdobramentos da crise internacional - indicadores que mexem com câmbio, demanda e, naturalmente, com a inflação. Na semana passada, o governo mexeu no rendimento da caderneta de poupança, com a intenção de permitir um corte maior dos juros.

- O IPCA de março triplicou, com uma alta abrupta. Apesar de três itens concentrarem 38% da alta, há aumentos generalizados - disse Eulina Nunes, gerente do IBGE, em referência a aumentos dos preços de cigarros e remédios e nos salários de empregados domésticos, de 15,04%, 1,58% e 1,86%, respectivamente.

Os gastos nos supermercados subiram no mês passado. Só o grupo de Alimentos e Bebidas saiu de 0,25% para 0,51% em abril. O feijão carioca - o mais consumido no país - enfrentou problemas com a seca no Nordeste, e o consumidor pagou 12,66% a mais pelo alimento. Também encareceram itens como o feijão mulatinho (13,09%), a farinha de mandioca (6,58%) e o alho (6,33%). Além disso, o efeito da alta do dólar começa a aparecer na conta do supermercado. Segundo Eulina, os artigos de limpeza, com alta de 1,38%, ficaram mais caros por causa, em parte, do dólar mais valorizado. Insumos dessa indústria são importados.

- E há indícios de que o óleo de soja tenha sofrido influência do câmbio: o dólar mais alto estimulou a exportação do produto, reduzindo a oferta interna - explicou Eulina.

Contrato futuro sobe com a inflação

A inflação veio acima das projeções de 0,58%, segundo o último boletim Focus. Para maio, a expectativa de um IPCA mais suave, em 0,47%.

- O que se viu em abril não é uma tendência: é um comportamento pontual. Essa alta não deve alterar os planos do Banco Central (BC), que na próxima reunião deve reduzir 0,50 ponto percentual a taxa básica de juros, a Selic. Os cortes devem continuar até uma Selic de 8%, quando o governo vai parar e olhar a atividade - disse Carlos Thadeu de Freitas, ex-diretor do BC.

Freitas explica que é possível fazer mais cortes na Selic porque o nível de atividade ainda está fraco, com perspectivas de crescimento abaixo dos 3% em 2012. Além disso, a crise empurrou a demanda mundial para baixo, levando o Brasil a importar deflação do mundo. Uma opinião compartilhada com Eduardo Velho, economista da Prosper Corretora, que espera uma inflação de 0,42% em maio.

- Acredito em mais dois cortes nos juros, de 0,50 ponto percentual. A Selic pode até entrar 2013 em 7,5%. A inflação de agora não se trata de uma ameaça: esse problema o governo empurrou para 2013, quando a economia pode estar mais aquecida.

Apesar da crença dos analistas, o IPCA de 0,64% influenciou o mercado de juros futuros. A taxa do contrato com vencimento em janeiro de 2013 passou de 7,97% para 8,03%, num movimento de alta verificado na maioria dos contratos. O IPCA de ontem foi o segundo indicador seguido a apontar aceleração da inflação - na terça-feira, foi a vez do IGP-DI.

As taxas dos contratos futuros de juros vinha em movimento contínuo de queda. Na semana passada, o movimento acelerou-se, com a decisão do governo de mudar a regra da poupança.

- O mercado parecia estar acreditando muito que, sem a restrição da poupança, a Selic poderia ir abaixo de 8%, mas começou a reavaliar os preços, incluindo outras variáveis, como a inflação - explica Rogério Freitas, sócio da Teórica Investimentos.

André Perfeito, economista da Gradual Investimentos, não está tão certo de que o BC siga cortando a Selic. Para ele, o BC deve cortar 0,50 ponto percentual em fins de maio, mas deve indicar na ata que o período de afrouxamento monetário chega ao fim por causa de incentivos já dados à economia.

Colaboraram Marcio Beck e Vinicius Neder

FONTE: O GLOBO

No meio do caminho:: Carlos Drummond de Andrade

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Carlos Drummond de Andrade
In Alguma Poesia
Ed. Pindorama, 1930
© Graña Drummond